A revolução e o negro

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Ilustração: Juan Chirioca

Por CLR James[1]

A história revolucionária dos negros é rica, inspiradora e desconhecida. Negros se rebelaram contra os caçadores de escravos na África; rebelaram-se contra os comerciantes de escravos no Atlântico. Se rebelaram nas plantations[1].

O negro dócil é um mito. Escravos em navios escravistas se atiraram ao mar, fizeram longas greves de fome, atacaram as tripulações. Há registros de escravos que subjugaram a tripulação e tomaram controle do navio levando-o até o cais, um feito de extraordinária audácia revolucionária. Na Guiana Britânica, durante o século XVIII os negros se revoltaram, tomaram controle da colônia holandesa e a controlaram por anos. Eles se retiraram para o interior, forçaram os brancos a assinar um tratado de paz e permanecem livres até o dia de hoje. Todas as colônias do caribe, principalmente a Jamaica, São Domingos e Cuba, as maiores ilhas, tiveram seus  quilombos, formados por negros audazes que haviam fugido para o interior e se organizado para defender seus direitos. Na Jamaica, o governo britânico, após tentar em vão extingui-los, aceitou sua existência através de tratados de paz, respeitados escrupulosamente por ambos os lados durante muitos anos, e então rompidos pela traição britânica. Na América, os negros organizaram cerca de 150 revoltas de destaque contra a escravidão. O único lugar onde os negros não se rebelaram é nos livros de historiadores capitalistas. Toda essa história revolucionária pode parecer uma surpresa para aqueles que, independentemente a qual Internacional estejam afiliados, seja a Segunda, Terceira ou Quarta, ainda não se emanciparam das mentiras perniciosas do capitalismo anglo-saxão. Não é estranho que os negros tenham se rebelado. Teria sido estranho se não o fizessem.

Mas a Quarta Internacional, cujo interesse é a revolução, não precisa provar que os negros eram ou são tão revolucionários quanto qualquer outro grupo social oprimido. Isso tem seu lugar na agitação. O que nós como marxistas devemos enxergar é o tremendo papel desempenhado pelos negros na transformação da sociedade ocidental, do feudalismo ao capitalismo. Somente desse ponto de vista correto seremos capazes de valorizar (e nos preparar para) o papel ainda maior que necessariamente desempenharão na transformação do capitalismo em socialismo.

Quais são as datas decisivas na história moderna da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos? 1789, o começo da Revolução Francesa; 1832, a aprovação da Reform Bill[2] na Inglaterra; e 1865, a destruição do poder escravagista nos Estados Unidos pelos estados do norte[3]. Cada uma dessas datas marca um momento definitivo na transição da sociedade feudal à capitalista. A exploração de milhões de negros havia sido um fator essencial no desenvolvimento econômico de cada uma dessas três nações. Era razoável, portanto, esperar que a questão negra desempenhasse um papel não menos importante na resolução dos problemas enfrentados por cada uma dessas sociedades. Nos dias pré-revolucionários, porém, ninguém sequer remotamente previu a magnitude das contribuições que os negros dariam. Hoje os marxistas têm muito menos desculpas para cometer o mesmo erro.

 

O negro e Revolução Francesa

A Revolução Francesa foi uma revolução burguesa, e a base da riqueza da burguesia era o comércio de escravos e as plantations de escravos nas colônias. Não deve haver dúvida alguma sobre isso. “Triste ironia da história humana”, diz Jaurès, “que as fortunas criadas em Bordeaux, em Nantes pelo comércio de escravos, tenham dado à burguesia o orgulho que reclamou liberdade e contribuiu para a emancipação humana”. E o historiador do comércio de escravos, Gaston-Martin, resume assim: embora a burguesia comerciasse outros produtos além de escravos, o sucesso ou fracasso de tudo o mais dependia deste comércio. Portanto, quando a burguesia proclama os Direitos do Homem em geral, uma das necessárias reservas estava em que esses direitos não deveriam se estender às colônias francesas. Em 1789, o comércio colonial francês era de onze milhões de libras, dois terços do comércio internacional da França. Naquela época, o comércio colonial britânico era de somente cinco milhões de libras. A que custo se faria a abolição francesa? Havia uma sociedade abolicionista à qual Brissot, Robespierre, Mirabeau, Lafayette, Condorcet e muitos homens famosos pertenciam antes mesmo de 1789. Mas liberais são liberais. Frente a frente com a revolução, estavam prontos para capitular. Eles deixaram meio milhão de escravos na escravidão, mas pelo menos aos mulatos, homens com propriedade (incluindo escravos) e educação, deveriam ser concedidos os mesmos direitos que os colonos brancos[4]. Os colonos magnatas brancos se recusaram a conceder e eram pessoas que não se podia ignorar, aristocratas por nascença ou casamento, burgueses em consequência de suas conexões comerciais com a burguesia marítima. Eles se opuseram a qualquer mudança nas colônias que pudesse diminuir seu domínio social e político. A burguesia marítima, preocupada com seus milhões em investimentos, apoiou as colônias e, contra onze milhões de libras por ano em trocas comerciais, os políticos radicais foram impotentes. Foi a revolução que lhes empurrou por trás e os forçou adiante.

Antes de mais nada, a revolução na França. A ala direita girondina do clube Jacobino derrubou os Feuillants pró-monarquia e subiu ao poder em março de 1792.

Em seguida, a revolução nas colônias. Os mulatos em São Domingos se rebelaram em 1790, seguidos após alguns meses pela revolta escrava de agosto de 1791. No dia 4 de abril de 1792, os Girondinos garantiram direitos políticos e sociais para os mulatos. A grande burguesia concordou, pois os aristocratas coloniais, depois de em vão tentarem ganhar apoio dos mulatos para a independência, decidiram entregar a colônia para a Inglaterra ao invés de tolerar interferência em seu sistema. Todos esses donos de escravos, nobreza e burguesia francesa, aristocratas coloniais e mulatos, concordavam que a rebelião escrava deveria ser reprimida e os escravos permanecerem em estado de escravidão.

Os escravos, porém, se recusaram a escutar as ameaças e nenhuma promessa foi feita a eles. Liderados do começo ao fim por homens que tinham sido escravos e não sabiam ler ou escrever, lutaram uma das maiores batalhas revolucionárias da história. Antes da revolução eles haviam parecido subumanos. Muitos escravos eram chicoteados sob qualquer pretexto, até mesmo para se levantarem e se moverem de um lugar a outro. A revolução os transformou em heróis.

A ilha de São Domingos foi dividida em duas colônias, uma francesa, a outra espanhola. O governo colonial da Espanha Bourbônica apoiou os escravos em sua rebelião contra a república francesa, e muitos bandos rebeldes se alistaram junto aos espanhóis. Os colonos franceses convidaram Pitt para assumir a colônia, e, quando foi declarada guerra entre França e Inglaterra, em 1793, os ingleses invadiram a ilha.

A expedição inglesa, bem-quista por todos os colonos brancos capturou cidade após cidade ao sul e a oeste da São Domingos francesa. Os espanhóis, atuando com o famoso Toussaint L’Ouverture, um ex-escravo, líder de quatro mil tropas negras, invadiram a colônia pelo leste.[5] Ingleses e espanhóis rapinaram tanto quanto conseguiram antes de chegada a hora da divisão. “Nestes assuntos”, escreveu o ministro inglês, Dundas, ao governador da Jamaica, “quanto mais tivermos, melhor estarão nossas pretensões.” No dia 4 de junho, Porto Príncipe, capital de São Domingos, caiu. Enquanto isso, outra expedição britânica capturava Martinica, Guadalupe e outras ilhas francesas. Quase por um milagre, o comércio colonial da França, o mais rico do mundo, estava nas mãos de seus inimigos e seria usado contra a revolução. Mas aqui as massas francesas estenderam suas mãos.

O dia 10 de agosto de 1792 foi o começo da revolução triunfante na França. As massas parisienses e seus apoiadores por toda França, indiferentes em 1789 à questão colonial, agora combatiam com frenesi revolucionário todo abuso do antigo regime, e nenhum de seus antigos tiranos era tão odiado quanto os “aristocratas de pele”. Generosidade revolucionária, ressentimento com a traição das colônias que passaram para o lado dos inimigos da revolução, impotência frente à marinha britânica – tudo isso deixou a Convenção deslumbrada[6]. No dia 4 de fevereiro de 1794, sem debate, esta decretou a abolição da escravidão negra e finalmente deu seu apoio à revolta negra.

A notícia, de alguma maneira, reverberou pelo caribe francês. Victor Hugues[7], mulato, uma das maiores personalidades surgidas com a revolução, conseguiu furar o bloqueio britânico e levou consigo o documento oficial da libertação dos mulatos e negros das ilhas das índias ocidentais. E aí o milagre aconteceu. Os negros e os mulatos se vestiram com as cores revolucionárias e, cantando canções revolucionárias, se viraram contra os britânicos e espanhóis, seus aliados até então. Com pouco mais do que apoio moral da França, eles arrancaram dos britânicos e espanhóis suas conquistas e levaram a guerra ao território inimigo. Os britânicos, depois de cinco anos tentando reconquistar as colônias francesas, foram finalmente expulsos em 1798. Poucos conhecem a magnitude e a importância daquela derrota garantida pelas mãos de Victor Hugues nas ilhas menores e a de Toussaint L’Ouverture e Rigaud em São Domingos[8]. Fortescue, o historiador Tory[9] do exército britânico, estima uma perda total da Inglaterra de 100.000 homens. Porém, em toda a guerra peninsular Wellington perdeu, levando em conta todas as causas – mortos em batalha, doença, deserções – somente 40.000 homens. Ouro e sangue britânico foram derramados profusamente em sua campanha no caribe. Esse foi o motivo da fraqueza britânica na Europa durante os anos críticos de 1793-1798. Deixemos Fortescue falar por ele mesmo: “Pode-se afirmar que o segredo da impotência da Inglaterra nos seis primeiros anos da guerra repousa em duas palavras fatais: São Domingos”. Historiadores ingleses culpam principalmente a febre, como se São Domingos tivesse sido o único local no mundo onde o imperialismo europeu se deparou com a febre.

Quaisquer que sejam a negligência ou distorção de historiadores, os revolucionários franceses sabiam o que a questão negra significava para a revolução. Os debates acerca da questão colonial tumultuaram a Constituinte, o Legislativo e a Convenção. Isso causou graves consequências na luta interna, assim como na defesa revolucionária da república. Segundo Jaurès, “Sem dúvida, se não fossem os acordos de Barnave e todo seu partido em relação à questão colonial, a atitude geral da Assembleia depois da ida a Varennes teria sido outra.” Exceto pelas massas parisienses, nenhuma ala do Império Francês desenvolveu, proporcionalmente ao seu tamanho, papel tão grandioso na Revolução Francesa quanto o meio milhão de negros e mulatos nas remotas ilhas do Caribe.

A Revolução Negra e a História Mundial

A revolução negra em São Domingos sufocou em sua origem um dos fluxos econômicos mais poderosos do século XVIII. Com a derrota da Inglaterra, os proletários negros derrotaram o Terceiro Estado Mulato em uma guerra civil sangrenta. Imediatamente depois, Bonaparte, representante dos elementos mais reacionários da nova burguesia francesa, tentou restaurar a escravidão em São Domingos. Os negros derrotaram uma expedição de cerca de 50.000 homens, e com a ajuda dos mulatos, levaram a revolução à sua conclusão lógica. Eles mudaram o nome de São Domingos para Haiti e declararam a independência da ilha. Esta revolução negra teve um impacto profundo na luta pelo fim do tráfico de escravos.

Podemos acompanhar melhor esta íntima conexão ao seguir o desenvolvimento da abolição no império britânico. O primeiro grande golpe sobre a dominação conservadora Tory na Inglaterra (e sobre o feudalismo na França) foi dado pela Declaração de Independência de 1776[10]. Quando Jefferson escreveu que todos os homens nascem iguais, estava rascunhando a sentença de morte do feudalismo, onde homens eram divididos por leis em classes desiguais. Crispus Attucks, o negro, foi o primeiro homem morto pelo império na guerra que se seguiu[11]. Não se tratava de acaso ou fenômeno isolado. Os negros acreditavam que nesta luta por liberdade poderiam conquistar a sua. Há estimativas que de cerca de 30.000 homens no exército de Washington, 4.000 eram negros. A burguesia americana não os queria. Eles forçaram sua participação. Mas os negros de São Domingos também lutaram na Guerra. A monarquia francesa deu assistência à Revolução Americana. E negros das colônias francesas forçaram seu ingresso na força expedicionária francesa. De 1.900 tropas francesas que recapturaram Savannah, 900 eram voluntários da colônia francesa de São Domingos. Dez anos mais tarde alguns desses homens – Rigaud, André, Lambert, Beauvais e outros (alguns afirmam que Christophe também) – com sua experiência política e militar serão os principais entre os líderes da na Revolução de São Domingos. Muito antes de Karl Marx escrever “Trabalhadores de todo o mundo: uni-vos”, a revolução era internacional.

A perda das colônias escravistas retirou da burguesia britânica a sua fonte de algodão barato. Adam Smith e Arthur Young, propagandistas arautos da revolução industrial e do trabalho assalariado, já estavam pregando contra o desperdício da escravidão. Surda até 1783, a burguesia britânica agora ouvia e olhava novamente para o caribe. Suas próprias colônias estavam falidas. Estavam perdendo o tráfico de escravos para as rivais França e Inglaterra. E metade dos escravos franceses que compravam iriam para São Domingos, a Índia do século XVIII. Por quê deveriam continuar a fazer isso? Em três anos, a primeira sociedade abolicionista foi formada e Pitt começou a clamar pela abolição da escravidão – “para o bem da humanidade, sem dúvida”, afirma Gaston-Martin, “mas também, que fique bem-entendido, para arruinar o comércio francês. Com a guerra de 1793, Pitt, nutrindo a perspectiva de conquistar São Domingos, diminuiu o tom em relação à abolição. Mas a revolução negra destruiu as aspirações tanto da França quanto do Reino Unido.

O tratado de Viena de 1814 deu a França o direito de recapturar São Domingos: os haitianos juraram que prefeririam destruir a ilha. Com o abandono da esperança de recuperar São Domingos, os britânicos aboliram o comércio de escravos em 1807. Os Estados Unidos os seguiram em 1808.

Se o interesse da Inglaterra no caribe era um dos grandes arsenais financeiros da nova burguesia (daí as diatribes de Burke, porta-voz Whig contra Hastings e Clive), o interesse em relação ao Caribe, embora nunca tão poderoso como na França, era o pilar da oligarquia feudal. A perda dos Estados Unidos foi o início de seu declínio. Mas se não fosse pela revolução negra, São Domingos os teria fortalecido enormemente. A burguesia reformista britânica os fustigou, o elo mais frágil na cadeia oligárquica. Uma grande revolta escrava na Jamaica em 1831 ajudou a convencer os que ainda tinham dúvidas. No Reino Unido, [a expressão] “melhor emancipar de cima do que de baixo” antecipou em trinta anos o Czar. Um dos primeiros atos dos reformistas vitoriosos foi abolir a escravidão nas colônias britânicas. Mas não fosse a revolução negra em São Domingos, a abolição e a emancipação poderiam ter sido adiadas por outros trinta anos.

A abolição não chegou na França até a revolução de 1848. A produção do açúcar de beterraba, introduzida na França por Bonaparte, cresceu aos saltos, e colocou os interesses da cana de açúcar, baseados na escravidão em Martinica e Guadalupe, cada vez mais na defensiva. Um dos primeiros atos do governo revolucionário de 1848 foi abolir a escravidão. Mas, assim como em 1794, o decreto foi meramente o registro de um fato consumado. A atitude dos escravos era tão ameaçadora que em mais de uma colônia o governo local, para decapitar a revolução escrava, proclamou a abolição sem esperar autorização da França.

O negro e a Guerra Civil

1848, o ano seguinte à crise de 1847, foi o início de um novo ciclo de revoluções em todo o mundo ocidental. As revoluções europeias e o cartismo na Inglaterra foram derrotados. Nos Estados Unidos o conflito irreprimível entre o capitalismo no norte e o sistema escravista no sul foi adiado pela última vez com o Missouri Compromise of 1850[12]. Os desenvolvimentos políticos que se seguiram à crise econômica de 1857 impossibilitaram negociação futura.

Foi uma década de luta revolucionária em países coloniais e semicoloniais ao redor do mundo.1857 foi o ano da primeira guerra de independência da Índia, geralmente chamada de maneira errônea de Indian Mutiny. Em 1858 iniciou-se a guerra civil no México, que se encerrou com a vitória de Juarez três anos depois. Foi o período da Revolução Taipin na China, a primeira grande tentativa de derrubar do poder a dinastia Manchu. O norte e o sul dos Estados Unidos se direcionaram sem vontade a seu confronto predestinado, mas os revolucionários negros ajudaram a desencadear a questão. Nas duas décadas antes do início da Guerra civil, eles [os negros] abandonavam o sul aos milhares. A organização revolucionária conhecida como Underground Railway com ousadia, eficiência e agilidade, escoou a propriedade humana dos senhores de escravos[13]. Escravos fugitivos estavam na ordem do dia. A Fugitive Slave Law de 1850 foi uma última tentativa desesperada, por parte do governo federal, de acabar com esta abolição ilegal[14]. Dez estados do norte responderam com leis de liberdade pessoal que anulavam as penalidades severas da lei de 1850. Talvez o mais famoso entre todos os brancos e negros que percorreram a Underground Railway seja Harriet Tubman, uma negra que havia ela própria escapado da escravidão[15]. Ela realizou dezenove jornadas ao sul e ajudou seus irmãos e suas esposas e outros trezentos escravos a escapar. Suas depredações em território inimigo fizeram com que sua cabeça valesse $40.000. Josiah Henson, o “pai Tomás” original, ajudou cerca de duzentos escravos a fugir[16]. Nada enfurecia mais os donos de escravos do que esta longa drenagem de vinte anos em seu já falido sistema econômico.

É desnecessário detalhar aqui as razões da maior guerra civil na história[17]. Qualquer negro em idade escolar sabe que a última coisa que Lincoln tinha em mente era a emancipação dos negros[18]. O que é importante é que, por razões tanto internas quanto externas, Lincoln teve que atraí-los à luta revolucionária. Ele disse que sem a emancipação o norte provavelmente não teria vencido, e muito provavelmente estava certo. Milhares de negros lutaram do lado sul da guerra, com a esperança de assim conquistar sua liberdade. O decreto da abolição destruiu a coesão social do sul. Não se trata somente do norte ter ganho mas, como Lincoln ressaltou, do sul ter  perdido. Do lado norte 220.000 negros lutaram com tanta valentia que era impossível realizar com tropas brancas o que fora alcançado por eles. Lutaram não somente com valentia revolucionária mas com frieza e disciplina exemplares. Os melhores dentre eles se enchiam de orgulho revolucionário. Lutavam por igualdade. Uma companhia empilhou suas armas em frente de seu comandante em protesto contra a discriminação.

Lincoln também se aproximou da [ideia de] abolição por pressão da classe trabalhadora britânica. Palmerston queria intervir pelo lado sul mas enfrentou oposição no gabinete por parte de Gladstone. Liderada por Marx, a classe trabalhadora britânica opôs-se tão vigorosamente à guerra que era impossível organizar um ato pró-guerra em qualquer lugar da Inglaterra. Os Tories ingleses menosprezaram a alegação de que a guerra fosse pela abolição da escravidão: acaso Lincoln não havia dito isso várias vezes? Os trabalhadores britânicos, entretanto, insistiram em encarar a guerra como uma guerra pela abolição e Lincoln, para quem a não-intervenção britânica era uma questão de vida e morte, decretou a abolição com uma presteza que demonstrou sua profunda falta de vontade em dar tal passo revolucionário.

A abolição foi declarada em 1863. Dois anos antes, o movimento dos camponeses russos, tão vivamente exaltado por Marx, amedrontou o Czar levando-o à uma semi-emancipação dos servos. O norte conquistou a vitória em 1865. Dois anos depois os trabalhadores ingleses conquistaram a Second Reform Bill[19], que garantiu o voto a trabalhadores urbanos. O ciclo revolucionário foi concluído com a derrota da Comuna de Paris em 1871[20]. Uma vitória em Paris e a história da Reconstrução teria sido bem diferente.

O negro e a revolução mundial

Entre 1871 e 1905 a revolução proletária estava adormecida. Na África os negros lutaram em vão para manter sua independência contra as invasões imperialistas. Mas a Revolução Russa de 1905 antecipou uma nova era que começou em 1917[21]. Enquanto meio milhão de negros lutou pela Revolução Francesa em 1789, hoje a revolução socialista na Europa tem como potenciais aliados mais de 120 milhões de negros na África. Enquanto Lincoln teve que buscar uma aliança com uma população escrava isolada, hoje milhões de negros nos Estados Unidos tem ingressado na indústria, lutado lado a lado com trabalhadores brancos em piquetes, ajudado a piquetar as fábricas para greves com ocupação, têm desempenhado seu papel em lutas e confrontos de sindicatos e partidos políticos. Somente através das lentes da perspectiva histórica podemos entender as enormes potencialidades revolucionárias das massas negras hoje.

Meio milhão de escravos, ao ouvir as palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade bradadas por milhões de franceses a milhares de milhas de distância despertou de sua apatia. Eles ocuparam a atenção da Inglaterra por seis anos e, citando Fortescue mais uma vez: “praticamente destruíram o exército britânico”. E os negros na África hoje? Este é um simples esboço dos registros:

 

África ocidental francesa: 1926-1929, 10.000 homens fugiram para as florestas para escapar da escravidão francesa.

África Equatorial Francesa: 1924, levante. 1924-1925, levante, 1000 negros assassinados. 1928, de junho a novembro, levantes em Shanga do Norte e Lai[22]. 1929, um levante que durou quatro meses; os negros organizaram um exército de 10.000.

África ocidental britânica: 1929, uma revolta de mulheres na Nigéria, de 30.000; 83 assassinados, 87 feridos. 1937, greve geral da Costa do Ouro. Fazendeiros [produtores africanos de cacau] em conjunto com estivadores e motoristas de caminhão.

Congo Belga: 1929, revolta em Urundi na Ruanda; milhares. 1930-1931, revolta de Bapendi, 800 massacrados em um lugar, Kwango.

 

Desde 1935 vem acontecendo greves gerais, com assassinatos de negros, na Rodésia, em Madagascar, em Zanzibar[23]. No caribe houve greves gerais e ações de massas que aquelas ilhas não protagonizavam desde a abolição da escravidão cem anos atrás. Muitos foram mortos e feridos.

O que foi dito acima é somente uma seleção ao acaso. Os negros na África estão presos e golpeiam as grades continuamente. É o proletariado europeu que possui a chave. Permitam que os trabalhadores da Inglaterra, França e Alemanha digam: “Levantam-se, ó filhos da fome” tão alto quanto os revolucionários franceses gritaram Liberdade, Igualdade e Fraternidade e qual força no mundo poderá deter aqueles negros? Qualquer um que conheça algo sobre África entende isto.

O Sr. Normal Leys, um oficial médico do governo no Quênia por vinte anos, membro do Partido Trabalhista Britânico e tão revolucionário quanto o falecido Ramsay MacDonald, escreveu um estudo sobre o Quênia em 1924. Sete anos mais tarde ele escreveu novamente. Dessa vez ele nomeou seu livro como Uma última chance no Quênia. A alternativa, ele disse, era a revolução.

Em Caliban na África, Leonard Barnes, outro socialista água-com-açúcar, escreveu o seguinte: “Então ele [o branco sul africano] e o nativo que ele mantém cativo seguem fatalmente rio abaixo com a correnteza, girando loucamente ao longo das cachoeiras sobre a grande catarata, ambos unidos ao momento onipotente.” Essa é a revolução, embrulhada em papel prateado.

A revolução assombra esse inglês conservador. Ele escreve novamente sobre os Bantu, “Eles se agacham no canto, acalentando um ódio sombrio e desesperadamente tateando em busca de um plano. Eles não passarão muitos anos se decidindo. O tempo e o destino, ainda mais prevalecentes que a ponte levadiça do Afrikaner, estão tirando eles da defensiva. Algo deve ceder; não será o tempo ou o destino. Uma reconstrução econômica e social abrangente deve ocorrer. Mas como? Pela razão ou pela violência? …”

Ele coloca como alternativas o que na verdade é uma só coisa. A mudança irá ocorrer, pela violência e razão combinadas.

“Nós temos uma concepção errada do negro”

Voltemos à revolução de São Domingos, com seu insignificante meio milhão de escravos. Escrevendo em 1789, no próprio ano da revolução, um colono disse que eles eram “injustos, cruéis, bárbaros, semi-humanos, traiçoeiros, enganadores, ladrões, bêbados, orgulhosos, preguiçosos, sujos, sem vergonha, furiosamente invejosos e covardes.”

Três anos depois, Roume, o comissário francês, notou que, mesmo lutando com os espanhóis monarquistas, os revolucionários negros, organizando-se em seções armadas e pelotões populares, seguiam rigidamente todas as formas da organização republicana. Eles adotaram consignas e gritos de guerra. Nomeavam chefes de seção e divisões que, por meio dessas consignas, podiam convocá-los e mandá-los de volta para casa novamente de um extremo a outro da província. Tiraram de suas profundezas um soldado e um estadista de primeira ordem, Toussaint L’Ouverture, e líderes de segundo escalão prontos, completamente capazes de se equipararem aos franceses na guerra, diplomacia e administração. Em dez anos organizaram um exército que enfrentou o de Bonaparte de igual para igual. “Mas que homens são esses negros! Como lutam e como morrem!” escreveu um oficial francês se recordando da última campanha após quarenta anos. De seu leito de morte, Leclerc, cunhado de Bonaparte e comandante da expedição francesa, escreveu em uma carta para casa “Nós temos…uma concepção errada do negro.” E, novamente, “Nós temos na Europa uma concepção errada do país no qual lutamos e dos homens a quem enfrentamos…” Nós precisamos conhecer e refletir sobre essas coisas hoje em dia.

Ameaçados durante toda sua existência pelo imperialismo, europeu e americano, os haitianos nunca puderam superar a amarga herança de seu passado. E ainda assim, aquela revolução de meio milhão não apenas ajudou a proteger a revolução francesa, mas deu início a grandes revoluções por si mesmas. Quando os revolucionários latino-americanos viram que meio milhão de escravos podiam lutar e vencer, eles reconheceram a realidade de seu próprio desejo por independência. Bolívar, doente e desmoralizado, foi para o Haiti. Os haitianos cuidaram dele até que ficasse saudável, deram-lhe dinheiro e armas com os quais retornou para sua terra. Ele foi derrotado, retornou ao Haiti e foi mais uma vez bem vindo e ajudado. E foi a partir do Haiti que ele navegou para iniciar sua campanha final, que se concluiu com a independência dos cinco estados.

Hoje 150 milhões de negros, infinitamente mais entranhados na economia mundial do que seus ancestrais de cem anos atrás, irão superar de longe a obra daquele meio milhão de São Domingos no trabalho de transformação social. Os levantes contínuos na África; a recusa dos guerreiros etíopes em se submeter a Mussolini; os negros americanos que se voluntariaram para lutar na Espanha na Brigada Abraham Lincoln, enquanto Rigaud e Beauvais haviam se voluntariado para lutar nos Estados Unidos, temperando suas espadas no exterior para usar contra seu inimigo em casa – esses raios anunciam o trovão. O racismo que agora está no caminho se curvará diante do tremendo impacto da revolução proletária.

Em Flint, durante as greves com ocupação de dois anos atrás, setecentos brancos do sul, embebidos desde a infância no racismo, se encontraram cercados no prédio da General Motors com um negro entre eles. Quando chegou a hora da primeira refeição, o negro, sabendo quem e o que seus companheiros eram, se postou ao fundo. Imediatamente foi proposto que não deveria haver discriminação racial entre os grevistas. Setecentas mãos se levantaram juntas. Diante de seu inimigo de classe os homens reconheceram que o racismo era algo subordinado e que não se poderia permitir que atrapalhasse sua luta. O negro foi convidado a sentar-se primeiro, e depois que a vitória foi alcançada, na triunfante marcha para fora da fábrica, foi concedido a ele o lugar de destaque. Esse é o prognóstico do futuro. Na África, na América, no Caribe, em uma escala nacional e internacional, os milhões de negros erguerão suas cabeças, deixarão de estar ajoelhados, e escreverão alguns dos mais massivos e brilhantes capítulos da história do socialismo revolucionário.

 

[1] Publicado em New Internacional, Volume V, Dezembro de 1939.Originalmente assinado por JR Johnson. Disponível em https://www.marxists.org/history/etol/newspape/ni/vol05/no12/v05n12-dec-1939-new-int.pdf. Publicado pela primeira vez em português, originalmente no livro A Revolução e o Negro – textos do trotskismo sobre a questão negra, pelas edições Iskra, em 2015

[1]Refere-se à exploração de grandes unidades de terra baseada em mão de obra escrava, que produziam geralmente um produto agrícola para exportação. Entre outros exemplos, em países do caribe havia plantations de açúcar, assim como no Brasil e Estados Unidos – neste havia também plantations de arroz.

[2] Foi a primeira de uma série de reformas aprovadas no parlamento britânico em relação ao sistema eleitoral. Ela diminuía o controle eleitoral de alguns patrões que dominavam diversos distritos eleitorais muito pequenos conhecidos como “rotten boroughs” (bairros podres), e garantia a grandes centros urbanos surgidos na revolução industrial o direito a eleger representantes para o parlamento.

[3] Refere-se à guerra civil norte-americana (1881-1885).

[4] James não usa o termo mulato de maneira pejorativa.

[5] Toussaint LÓuverture (1743-1803), foi um dos mais importantes líderes negros. Sua vida se confunde com a Revolução Haitiana. Após a França revolucionária decretar o fim da escravidão, L´Ouverture rompe sua aliança com espanhóis e se alia aos franceses. Organizando um exército de negros, maioria de ex-escravos, toma controle de São Domingos e promulga uma Constitução autônoma em relação a França em 1801 Napoleão Bonaparte não desiste do projeto de voltar a subordinar São Domingos e suas tropas forçam L´Ouverture a abandonar o posto de governador, e é deportado para França. Dessalines, ex-escravo, sobre ao posto de liderança e Haiti é declarado país independente em 1804, um ano após a morte de L’Ouverture em território francês.

 

[6] A Convenção foi o órgão criado pela revolução francesa para, efetivamente, dirigir o país, criando, por exemplo, órgãos como o Comitê de Salvação Pública e o Comitê de Segurança Pública. A Convenção era dirigida majoritariamente pelos jacobinos, ala de esquerda da revolução, e durou de setembro de 1792 a outubro de 1795. Foi sucedido pelo Diretório, dominado pela alta burguesia e os setores mais conservadores da revolução.

[7] Vitor Hugues (1762-1826), foi um político e emissário colonial durante a Revolução Francesa. Levou consigo a Guadalupe, que governou entre 1794 e 1798, o documento aprovado na Convenção que garantia a emancipação dos escravos.

[8] Andre Rigaud (1761-1811), filho de um rico fazendeiro francês e uma escrava, teve destaque na organização do exército de São Domingos nos primeiros anos após a Revolução Francesa. Tinha muita influência sob os fazendeiros do sul. Manteve-se fiel a França ao longo da luta pela Independência, o que o forçou a retirar-se para aquele país em 1802 após a derrota da expedição francesa liderada por Leclerc. Vitor Hugues (1762-1826), foi um político e emissário colonial durante a Revolução Francesa. Levou consigo a Guadalupe, que governou entre 1794 a 1798,  o documento aprovado na Convenção que garantia a emancipação dos escravos.

 

7 Tory é o apelido dado aos membros do partido conservador britânico. Originalmente pejorativo, faz referência à palavra irlandesa thairide ou tóraighe, que significa bandido errante, bandoleiro. Em oposição a este partido há o partido liberal, cujo apelido de whig também tem uma origem pejorativa na palavra escocesa whigg, que significa leite amargo ou soro de leite, que no século XVII era utilizado como alimento pela população pobre.

[10] A Declaração de Independência dos Estados Unidos foi proclamada pelo Congresso Continental, em 4 de julho de 1776, na cidade de Philadélfia. Afirmava que as trezes colônias britânicas na América do Norte, em guerra com a Inglaterra, seriam a partir então consideradas independentes do Reino Unido. Essa posição das colônias intensificou o conflito com a Inglaterra. A guerra pela independência se estendeu até 1783

[11] Crispis Attucks (1723-1770). Muito pouco se sabe sobre Attucks, inclusive se era escravo ou não. Porém, é tido como a primeira baixa da guerra pela Independência dos Estados Unidos, e se tornou um símbolo do movimento abolicionista no século XIX

 

[12] Missouri Compromise of 1850 (Acordo de Missouri de 1850). Trata-se de um conjunto de medidas aprovados pelo Congresso dos Estados Unidos em setembro de 1850. Tinha como objetivo aplacar a forte tensão política entre estados onde havia ou não escravidão, em relação aos território conquistado como resultado da guerra com o México (1846-1848

[13] Underground Railway era uma rede de rotas secretas e clandestinas desenvolvida no começo do século XIX usada por escravos para fugir aos estados nos quais não havia escravidão nos Estados Unidos, e também para o Canadá. Abolicionistas dos estados do norte também ajudavam os escravos e compunham parte importante da Underground Railway. Estima-se que até 1850 algo em torno de 50 a 100 mil escravos conseguir se libertar por essa via.

[14] Fugitive Slave Law (Lei dos escravos fugitivos, em tradução literal). Trata-se da lei mais controversa do conjunto do pacote de medidas aprovadas no acordo de Missouri. Estabelecia que todos os escravos deveriam ser levados de volta aos senhores, e que oficiais militares e cidadãos dos estados nos quais não havia escravidão deveriam cooperar ativamente.

[15] Harriet Tubman (1822-1913): A história desta mulher negra norte-americana é impressionante. Nascida em situação de escravidão no estado de Maryland, em 1844 foge para o estado da Filadélfia, onde não havia escravidão. A partir de então se torna uma das mais importantes organizadoras da Undeground Railway. Durante a guerra civil norte-americana, com seu vasto conhecimento da região e experiência, torna-se valiosa espiã à serviço dos exércitos da União. Após a guerra civil, defende os direitos das mulheres ao voto. Morre de pneumonia, aos 91 anos.

[16] Josiah Henson (1789-1883), foi um importante abolicionista. Sua vida serviu de inspiração para a personagem George Harris – escravo negro que foge da plantation –  do livro A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe.

[17] Refere-se à guerra civil norte-americana (1881-1885).

[18] Abraham Lincoln (1809-1865), foi o 16 presidente dos Estados Unidos. Dirigiu o país durante a guerra civil (1881-1865), sendo assassinado logo após o fim do conflito. Sua posição em relação aos negros e a escravidão variou ao longo dos anos e foi marcada por pragmatismo e capacidade de adaptação. Até a deflagração da guerra civil, não se opunha à escravidão, mas percebeu que essa a essência do conflito entre norte e sul. Emitiu a declaração de emancipação, em janeiro de 1863 – após enfrentar bastante resistência entre membros tanto do partido democrata quanto do republicano – e assim consolidou o apoio dos negros aos exércitos do norte, elemento essencial para a vitória da União.

[19] Aprovada em 1867 no parlamento britânico, essa lei garantiu aos trabalhadores o direito ao voto. A aprovação da lei dobrou o número de eleitores de um para dois milhões.

[20] Em Paris, os trabalhadores organizados tomaram o controle da cidade instituindo o primeiro governo operário da história. O controle de Paris pelo proletariado durou cerca de dois meses e meio até ser esmagado pela repressão do governo de Thiers, que executo mais de vinte mil dos trabalhadores parisienses rebelados.

[21] Em 1905 ocorreu a primeira revolução russa, em que os trabalhadores de Petrogrado criaram pela primeira vez os sovietes (conselhos) que eram os órgãos de poder do proletariado. A revolução de 1905 foi derrotada pelo Tzar, mas ficou conhecida como o “ensaio revolucionário” que desembocou, em 1917, na vitoriosa revolução operária dirigida pelo partido bolchevique de Lenin e levou à instauração da primeira república operária da história.

[22] Sangha do Norte e Lai, cidades pertencentes à região controlada pela França à época. Os conflitos aos quais James se refere fazem parte de uma rebelião dos africanos nativos que se estendeu até 1931, contra as imposições imperialistas.

[23] Madagascar e Zanzibar são ex-colônias britânicas que mantiveram seus nomes após a Independência. A Rodésia do Sul foi uma colônia britânica a partir de 1888, situada na atual região ocupada pelo Zimbabwe. A Rodésia do Norte era outro território colonizado pelos britânicos, a partir de 1911, ocupando o atual território da Zâmbia. Em 22 de maio de 1935 estoura a primeira greve de massas na Rodésia do Norte, nas minas de Copper Belt (cinturão do cobre). As demandas eram por aumento salarial, redução de impostos, melhores condições de trabalho e fim das medidas de discriminação racial. Ela foi reprimida pelo exército com o saldo de 28 mortos e feridos, além de muitas prisões.

 

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