Qual caminho, para qual resistência?

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imagem: Juan Chirioca

 

Por Edison Urbano

 

Com um comparecimento histórico de estudantes e do público em geral, que lotaram absolutamente todo o vão livre do prédio da História e Geografia da USP, depois de ter de mudar de local por duas vezes, foi realizado um ato político, organizado pela Faculdade de Filosofia (FFLCH) com as falações dos professores André Singer, Vladimir Safatle, e Marilena Chauí.

O ato-debate foi chamado com o mote: “Construindo a resistência”. 

E de fato, o enorme público presente se moveu para lá com real avidez política e ideológica de refletir conjuntamente e encontrar os caminhos para resistir, após a ascensão da extrema direita na figura de Bolsonaro.

Consoante ao momento que combina de maneira peculiar a gravidade histórica de uma dramática inflexão, e a efervescência que toma as mentes, e os corações, queremos aqui fazer algumas considerações fundamentais sobre as ideias expostas no debate.

Três debatedores, duas estratégias

A estrutura de ato “político-acadêmico”, e não de debate nem de ato político aberto, não favoreceu que ficassem explícitas as diferenças de análise e de projeto entre os debatedores. Pelo contrário. Mas é preciso reconhecê-las.

Dito da maneira mais breve possível, Singer e Chauí, cada qual à sua maneira, defenderam o fundamental da política petista para o momento, enquanto coube a Safatle tentar ser um matiz à esquerda, sem polêmica aberta e sem uma proposta clara alternativa.

Aliás, a presença de Vladimir Safatle entre Singer e Chauí foi ao mesmo tempo o reconhecimento do peso relativo que este jovem intelectual vem assumindo no contexto da atual crise brasileira, e ao mesmo tempo uma aposta, no caso confirmada, de que a conjuntura atual devolveu ao petismo a capacidade de hegemonizar política e intelectualmente a maioria dos seus adversários e competidores do momento anterior, assumindo o que pareceria ser a “liderança natural” de todo movimento contra Bolsonaro e a inflexão à direita que ele representa.

André Singer foi o porta-voz sóbrio que colocou na essência, sem muitos volteios emotivos nem retóricos, a linha fundamental do PT atualmente: 1) reconhecer o resultado eleitoral, separando-o da narrativa anterior sobre o golpe institucional; buscar diálogo com a base eleitoral de Bolsonaro, separando-a dos elementos “fascistas”. 2) esforçar-se para encontrar na realidade pontos de apoio para a estratégia institucional de resistência, com o exemplo concreto da celebração do parecer do STF contra as intervenções nas universidades, como sendo a “primeira reação institucional ao que aconteceu domingo” (a eleição de Bolsonaro). 3) finalmente, e mais importante, definir como a tarefa do momento a construção de uma “frente democrática” como a única saída diante da situação, e especialmente transferir à “sociedade civil” a tarefa de pressionar os partidos, a ponto de obrigá-los a estabelecer tal frente democrática, mesmo contra a vontade atual desses mesmos partidos.

Singer está ali respondendo diretamente ao atual impasse em que tal política se encontra mergulhada, já que o PT e o PDT de Ciro Gomes não parecem nada próximos de um entendimento para uma frente comum, pelo contrário, cada qual possui seus próprios aliados e encabeça sua própria “frente”.

Vladimir Safatle foi o segundo orador. Lembrou que situações assim já foram enfrentadas em outros lugares e momentos; em suas palavras, nessas ocasiões anteriores “já vencemos… e vamos vencer novamente”, se entendermos o momento.

Em pelo menos dois momentos, Safatle tentou apresentar ideias que são parte da necessária superação do PT pela esquerda. Por um lado, quando afirmou que a direita ofereceu uma (falsa) saída para o desejo anti-institucional, e que a esquerda foi incapaz de contrapor uma real saída. Que esse desejo anti-institucional, de uma “ruptura radical com o que nos foi oferecido até hoje”, precisa ser respondido pela esquerda.

Em outro lance, Safatle também apontou para o balanço necessário contra a conciliação com o atraso e com a reação, em suas palavras “o país acreditou que seria possível não se enfrentar (…) que seria possível evitar isso com um pacto, com uma conciliação (…) ele errou, ele fracassou”.

É certo que pensar as alianças e os antagonismos em termos de progresso vs atraso, e não em termos de classes, é uma fraca bússola para guiar os passos de uma verdadeira superação da conciliação petista.

Mas talvez o problema central da fala de Safatle esteja em outro lugar (ambos se ligam, na realidade).

Diz Safatle: “Essa luta atual, contra o autoritarismo, não irá terminar amanhã, ela durará, mas quando ela terminar nós poderemos lutar por outra sociedade mais livre, mais justa e mais igualitária”.

Pois bem, mesmo sem espaço para desenvolver aqui esse tema fundamental, precisamos indicá-lo: essa divisão entre o momento da luta contra o autoritarismo, e o momento (futuro) da luta por outra sociedade, é uma reposição de uma das armadilhas mais perigosas que se impuseram à classe trabalhadora ao longo de todo o século que passou. Esse tipo de “etapismo” vai contra a própria dialética do movimento histórico, que diz que é preciso combinar ambas as lutas, e que na própria luta contra o autoritarismo as forças decisivas para superar a ordem capitalista podem se aglutinar e vencer.

É claro que os momentos de defensiva e ofensiva não são simultâneos, que é necessário articular no tempo a defesa contra os ataques, e o contra-ataque para superar a sociedade atual. Mas não é disso que se trata ali, ou ao menos a ambiguidade nessas questões não é amiga da nossa causa.

Porque o próprio regime de pactos e conciliação que se forjou em 1988, tão bem denunciado por Safatle em numerosas oportunidades, foi justamente a consequência, para ficar apenas nesse exemplo, de como a separação da luta contra a ditadura da luta pela ruptura com o capitalismo, serviu a assentar um novo regime burguês, e lançar os trabalhadores, que estavam na condição de encabeçar o movimento democrático nos anos 1980, a uma posição subalterna e passiva no novo regime que terminou de se assentar sob o neoliberalismo de FHC.

O discurso principal coube a Chauí

Mas sem dúvida a noite seria de Marilena Chauí. Não só por sua notável capacidade de condensar discursos ideológico-políticos, e pela sua força comunicativa, mas porque a própria organização da noite estava a serviço disso. É notável como Chauí possui personalidade suficiente para dizer ao público tudo aquilo que ele aparentemente não quer ouvir, mas depois que ouve, aplaude e até sorri. De fato, a psicologia da classe média e do estudantado não oferecem nenhum mistério para a veterana estudiosa de Spinoza.

Qual o caminho proposto por Chauí? De um lado, mostrar sua experiência, de quem já viveu momentos mais tenebrosos, e por isso pode até “tranquilizar” as novas gerações diante de um perigo imediato ainda qualitativamente menor. E ao mesmo tempo, usar a sombra dessa ameaça mais terrível para, em contraste, apresentar qual seria o único caminho lúcido e sensato a seguir. 

Sobre este arcabouço, Marilena Chuí lança seu ataque fulminante contra a espontaneidade dos estudantes e da juventude em geral. Não hesita mesmo em dizer, com ar triunfante, que ela e apenas ela avisou “que 2013 terminaria nisso”! Triunfante, apoia-se na circunstancial vitória da direita para responsabilizar, como uma veterana disciplinadora, e puxar as orelhas dos jovens que ousaram desobedecer o mandato petista, que ousaram desafiar a miséria do possível e pensar um futuro diferente para si próprios – com todo o enorme grau de confusão, que seria mesmo de se esperar depois de longos anos de passividade, construída pelo próprio PT à frente das organizações de massas por mais de uma geração.

O brado de Chauí, que em nenhuma boca de intelectual poderia soar como um real chamado à luta, a “genialidade” de Marilena é ser capaz de conduzir seu discurso diretamente da lembrança do medo, ao chamado a uma “resistência institucional” com “i” maiúsculo, por assim dizer.

Chauí chama abertamente contra a mobilização espontânea… sob o argumento de não dispersar forças, de não “dar de presente” ao inimigo a oportunidade de “gerir as pequenas manifestações espontâneas” e com isso mascarar a gestão da crise profunda, econômica.

“Vocês vivem num mundo que acabou”, diz a filósofa, que já foi temida entre os conservadores (e lá se vão trinta anos), por seu elogio do “assembleísmo” e da autonomia das massas nas ruas… mas que agora se coloca como adversária de todo movimento real que não esteja sob a batuta do “seu” partido.

Na tradição revolucionária, evitar os combates menores e supérfluos para preparar os maiores e decisivos, foi sempre uma sabedoria distintiva das melhores lideranças. Mas não há nada disso na estratégia petista, que despreza as manifestações espontâneas, em nome de nenhuma manifestação, em nome da pura institucionalidade. Pior, vindo de uma cardeal petista, é a cobertura “filosófica” para a infame passividade das direções majoritárias do movimento de massas, a começar dos maiores sindicatos do país, reunidos na CUT, inclusive frente ao ataque mais imediato como os anunciados contra a previdência social e a educação pública.

Para dar o élan do seu discurso, Chauí invoca Marx para falar da “velha toupeira”, que faz seu trabalho silenciosamente, por baixo da terra… mas a toupeira que Marx saúda é a da luta de classes, é a toupeira da Revolução social, não a da estratégia petista, cujo segredo fundamental consiste no rechaço da revolução e no bloqueio da luta de classes!

A filósofa do petismo cria habilmente, com seu discurso, um verdadeiro beco sem saída entre o mero espontaneísmo e a via puramente institucional. Mas entre um e outro a história já mostrou que existe a organização revolucionária, e que essa por sua vez deve ser capaz de combinar a luta institucional e a extra-institucional, subordinando aliás sempre a primeira à última. 

Chauí enche a boca para tripudiar sobre a desorientação e boa fé da juventude atordoada por esse coroamento infernal do golpismo chamado Bolsonaro… Enche a boca para dizer que “acabou o mundo” onde vocês podiam manifestar seu descontentamento livremente.

Mas esse alerta, que poderia ser um chamado a uma ação mais consciente, mais profunda, mais radical e revolucionária, cumpre ali o papel de uma ameaça e quase uma chantagem: não ousem mais sair de sob a asa do reformismo, não ousem mais questionar a política institucional, ou seus piores pesadelos se tornarão o próprio tecido da sua vida social.

O contraponto é necessário

A chave de tudo é que André Singer, com seu estilo mais diplomático e circunspecto, e Chauí com sua grande presença de ideóloga e oradora, basicamente sufocaram a possibilidade de um contraponto real mínimo por Safatle. (Ou este se deixou sucumbir pelo prestígio acadêmico de estar ali, e não quis estragar a festa?)

Claro está que o contraponto que nós, enquanto marxistas revolucionários, fazemos à estratégia petista, não coincide no fundamental com aquele que Safatle expressa; pelo contrário, são perspectivas que também se separam em muitos pontos cruciais. 

Mas uma contraposição mais clara entre os elementos que Safatle vem apontando em diversas intervenções públicas suas, e aquilo que foi dito por Chauí e Singer, teria sem dúvida fomentado um nível superior de reflexão e a possibilidade de conclusões mais consistentes, e nessa medida mais à esquerda, por setores mais amplos do público.

De todo modo, não subestimamos em nada, pelo contrário, a capacidade das novas gerações de tirarem por si mesmas suas conclusões, e não haveria razão para que muitos não comecem desde já a tirar conclusões no sentido de rejeitar a conciliação de classes, o horizonte reformista incapaz de ver além da miséria capitalista, a institucionalidade como ritual burguês de gestão do mesmo – e mais ainda num momento em que a própria crise impõe à classe dominante o risco da aventura e do terror.

E nesse sentido, estávamos lá para ver que nem todos aplaudiram quando Chauí levou à apoteose a já conhecida operação ideológica petista, de desqualificar o movimento das “jornadas de junho” e responsabilizar as massas descontentes com o PT pelo fortalecimento da extrema direita. Muitos até aplaudiram, mas nem todos. A expressão de tantos outros apontava em sentido contrário.

Esse estranhamento pode e deve conduzir a conclusões maiores. Porque está distante de nós qualquer culto ao espontaneísmo de Junho, ou a qualquer outro. Mas longe de nos identificarmos com os “poderes constituídos” da burocracia sindical (e das burocracias estudantis e dos movimentos sociais), que veem com desconfiança todo movimento que se coloque por fora do seu domínio; muito longe disso, sabemos da insuficiência do movimento de junho, e não fechamos os olhos para a capitalização pela direita que de fato foi bem sucedida. Mas é que a espontaneidade da juventude, e ainda mais se for capaz de contagiar os trabalhadores, é uma das chaves para justamente devolver à vida as enormes organizações de massas que existem no país, mas estão paralisadas por suas direções burocráticas. A elevação do espontâneo ao consciente, capaz de criar o novo, e não o sufocamento da espontaneidade pelas estruturas existentes e carcomidas. Essa dialética está ausente do pensamento de Chauí, e é por isso seu discurso envelheceu junto com o PT, a despeito da impressionante vitalidade de sua figura intelectual.

Em outro sentido, oposto até certo grau à perspectiva de Chauí, Vladimir Safatle em algum momento, respondendo a perguntas do público, afirma citando Rousseau a necessidade de que a esquerda construa uma linguagem nova, uma linguagem que “exploda os lugares”: que os operários falem dos odireitos LGBT, que os intelectuais brancos transmitam as dores dos negros escravizados.

Em tempos de identitarismo e de exaltação despolitizada do “lugar de fala”, a provocação de Safatle é bem vinda e correta.

Mas essa “linguagem” nova, para sairmos do beco sem saída pós-moderno que encapsulou as aspirações democráticas dos oprimidos, só pode se expressar de forma realmente emancipatória caso se eleve ao plano da estratégia, e sobretudo se for capaz de se articular como programa. Um programa de transição, para além do capitalismo, que aponte em última instância para a emancipação comunista da humanidade.

Nesse sentido, não foi algum tipo misterioso de “ausência criativa” que tolheu a esquerda tradicional de sua capacidade de comunicar, não é a “falta de comunicação” apontada por Mano Brown, não é uma exaltação demagógica da “periferia” no velho sentido mais antigo do termo populista, no velho sentido narodniki russo do “ir ao povo”…

O povo pobre nas periferias não precisa de intelectuais que lhe estendam a mão demagógica e paternalista, e sim de encontrar um aliado sólido nas grandes organizações de massas da classe trabalhadora, que estas atuem como “tribunos do povo”, que usem sua capacidade de mobilização para tomar em suas mãos as demandas de todos os oprimidos.

Para ficar num único exemplo: os que fazem discursos sentimentais de apologia à periferia, são os mesmos que se opuseram durante todos esses anos a que o movimento estudantil mais organizado, o das universidades públicas, fizesse uma grande campanha pelo fim do filtro social do vestibular, e pela estatização dos monopólios privados de ensino, para garantir realmente educação superior gratuita para todos. Ao mesmo tempo, os governos “populares” do PT se orgulham de ter enchido os bolsos desses mesmos monopólios, e de ter expandido o acesso ao ensino superior à custa do enorme endividamento de jovens que tiveram ensino de qualidade duvidosa, e viram frustrados suas ilusões de um trabalho digno e bem remunerado depois do diploma.

Como resistir então?

A tarefa primeira, para sair da confusão, é aprendermos a pensar em dois níveis, todos e cada um de nós: 1) identificar que existem tarefas imediatas tão evidentes, tão vitais, a ponto de que sejam obrigatórias a todos, absolutamente obrigatórias, das quais não seja possível se furtar sob quaisquer argumentos, sem com isso assumir diretamente o posto de impostor e de agente encoberto do inimigo. De tal tipo é a tarefa de combater os ataques imediatos de Bolsonaro e do regime golpista, à previdência, à educação pública, aos direitos democráticos e às riquezas nacionais.

2) verificar que debates têm que seguir, quais debates têm a ver com a estratégia, têm a ver com o para além da luta imediata, e que só podem apontar alternativamente, ou bem para a reprodução das condições atuais, ou então para a sua superação revolucionária. Aqui estão as polêmicas necessárias na esquerda, os debates programáticos, a luta de tendências e de partidos, sem a qual nenhum movimento social adquiriu vitalidade e significado histórico.

Vistos por esse crivo, é importante não entrar num clima de “catarse intelectual”, no qual as ideias aparecem indiferenciadas e somos todos apenas parte de uma mesma “resistência” sem objetivos definidos. 

Digno de nota, o rapper Mano Brown, que é um artista popular de raro talento, teve a personalidade para ir contra o clima “festivo eleitoral” que o petismo impôs na reta final da campanha que desembocou na eleição da extrema direita.

Com o mesmo senso crítico, e na verdade muito mais, temos que ir encarar e debater contra a tentativa petista de hegemonizar a luta contra Bolsonaro e seus ataques; se foi a sua política e estratégia que nos trouxe até aqui, não será ela a nos indicar o caminho a seguir agora. 

É preciso então “ligar os pontos”. A proposta de “frente democrática” com partidos burgueses, a apologia da institucionalidade e condenação do movimento espontâneo, a apologia demagógica da “periferia” (entendida como bolsão de votos, e não como o povo pobre aliado natural do proletariado num governo de ruptura com o capitalismo), tudo isso serve a um projeto que é “resistir” para tentar restaurar uma ordem burguesa em decadência. Precisamos superar esse pensamento, e elaborar de forma viva um programa e uma estratégia que sirvam para ligar organicamente as lutas unitárias contra os ataques imediatos, em que precisamos comprometer todas as direções do movimento de massas (“frente única operária”), com a necessária ruptura com essa ordem e sua substituição por uma nova ordem social superior, sem exploração, opressão e violência. 

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