Fortalezas e contradições da economia chinesa

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imagem: Luigi Morris

 

Entrevista com Au Loong Yu

As aspirações globais podem ser constatadas na expansão de seus investimentos internacionais. A guerra comercial com os Estados Unidos poderia ter consequências devastadoras. 

A China se converteu em um ator proeminente da economia global. O extraordinário crescimento de seu PIB nos últimos 20 anos, combinado com sua impressionante acumulação de poder de manufatura, alterou dramaticamente a equação do mercado mundial. Entretanto, o modelo chinês, fortemente orientado para as exportações, não está isento de contradições: os baixos salários – embora estejam aumentando de forma considerável – implicam em uma demanda doméstica agregada baixa e em consequência na dependência do mercado externo. O governo chinês elaborou um novo plano para romper este ciclo buscando aumentar a demanda doméstica e exportar o excedente de capital, embora o resultado deste projeto ainda esteja por vir. 

O maior desafio surgido recentemente para os planos da burocracia restauracionista em relação a consolidação da posição global ocupada pela China é aquele apresentado pelo presidente estadunidense Donald Trump. Este declarou no início desse ano o começo de uma “guerra comercial”, baseada na aplicação de tarifas de importação a diversos países. Embora houvessem sido vários os parceiros comerciais afetados pelas sucessivas medidas tarifárias aplicadas desde março (muitas das quais o governo Trump voltou atrás), o principal alvo é claramente o gigante asiático. Embora o terreno de enfrentamento seja o do comércio internacional, o pano de fundo na verdade é a disputa pela primazia das principais esferas de desenvolvimento tecnológico. O último capítulo nessa escalada de conflito se deu em setembro: os EUA impuseram tarifas a bens chineses de mais de US$ 200, o que levou Pequim a realizar represálias contra produtos dos Estados Unidos de US$ 60 bilhões. Toda a complexidade da transição em que se encontra a China é agravada por essa disputa, cujo alcance e perspectivas ainda são incertas. 

Juan Ferre do Left Voice discutiu esses temas com Au Loong Yu, acadêmico e ativista político que vive em Hong Kong. Autor de China’s Rise: Strenght and Fragility (A ascensão da China: Forças e fragilidades) além de vários artigos sobre economia e política chinesa. 

Juan Ferre: O governo estadunidense ameaçou repetidamente a China com uma guerra comercial e implementou tarifas sobre produtos chineses. Que impacto isso teve?

Au Loong Yu: Como a guerra comercial acabou de começar é difícil avaliar todo seu impacto, mas os setores afetados já sentem os danos. Há informações de navios que transportavam grãos de soja estadunidenses vagando em mar aberto porque não podem vender seus produtos aos importadores chineses por conta das crescentes tarifas. O prefeito de Los Angeles advertiu que esta guerra comercial pode significar uma queda de 20% no volume de vendas. De um modo ou de outro, estamos disfrutando de cerejas baratas, provenientes dos Estados Unidos em Hong Kong, já que esse produto foi desviado para aqui assim que Trump declarou a guerra comercial. 

Enquanto Trump mira principalmente os produtos industriais e tecnológicos chineses, a China foca nos produtos agrícolas estadunidenses. Como ambos os lados estão intensificando a guerra, produtos que até agora não haviam sido afetados são acrescidos à lista das represálias. Anteriormente a Apple, por exemplo, não estava na lista de objetivos de Trump, mas a última versão da lista inclui semicondutores chineses, logo a Apple será afetada mesmo que seu produto iPhone não seja atingido.  

Considerando as dimensões da guerra comercial, pode ser realmente assustador se Trump se mantiver alinhado a este plano. Pois nos recorda a escalada de tarifas de 1930 nos Estados Unidos, em que se desencadeou uma guerra tarifária que levou a uma recessão de 60% do mercado mundial. O resto dessa história é de amplo conhecimento. Embora sejamos céticos em relação ao chamado “livre mercado”, substituí-lo por uma guerra comercial é ainda mais problemático. 

Mas um populista de extrema direita como Trump é imprevisível e poderia mudar os rumos mais adiante. Obviamente há grandes probabilidades de que não o faça. Além disso é sabido que possui múltiplas intenções e metas sem deixar claro qual delas é a sua maior prioridade. 

A administração Trump pode ter duas metas: diminuir drasticamente o déficit comercial; e bloquear a estratégia “Made in China 2025” (que consiste em um aumento substancial da produção de commodities de alta tecnologia). A primeira delas é difícil de se alcançar se os EUA se mantiverem como um país com poucas reservas. Inclusive, se Trump conseguir diminuir o déficit com a China, isso só significaria que outros países passariam a ocupar o lugar do gigante asiático e assim o déficit comercial permaneceria inalterado. Conservar empregos é uma meta ainda mais difícil de se alcançar. O primeiro resultado de uma recessão é a perda de empregos. Talvez, no fim, os empregos não sejam uma prioridade em absoluto para Trump. O presidente estadunidense deixa muito claro a sua intenção de derrubar o plano chinês para modernizar sua tecnologia, mas utilizando uma ação ofensiva tão arriscada como a guerra comercial generalizada para alcançar um objetivo tão específico como esse seria desperdiçar meios ofensivos. Há pouco tempo, a ação direta de Trump sobre a corporação chinesa ZTE se mostrou ser mais efetiva. 

Talvez Trump prefira um ataque de alto perfil (high-profile). Embora este tipo de guerra comercial vá prejudicar ambas as partes. Um tempo atrás Handel Jones escreveu um livro chamado Chinamerica para saudar as íntimas relações econômicas entre ambos os países. Se China e Estados Unidos lançam uma guerra comercial um contra o outro, é como uma serpente de duas cabeças lutando consigo mesma: nenhuma cabeça pode se proteger dos ataques da outra. Os automóveis da General Motors venderam mais na China que nos EUA, por exemplo. De acordo com um relatório de 2015 da J.P. Morgan, as companhias tecnológicas na S&P 500 (Standard & Poor’s 500 index, um dos mais importantes índices de ações dos EUA), particularmente as produtoras de componentes, dependem fortemente da China para garantir suas receitas. 

O mais perigoso é o nacionalismo e a xenofobia impulsionados por Trump, que faz um escândalo em relação ao déficit comercial com a China. Hoje é ridículo falar de “economia nacional” sem estar altamente qualificado para fazê-lo. Atualmente, metade das exportações chinesas são provenientes de empresas estrangeiras que investem na China. Uma guerra comercial nesta escala irá prejudicar muitas empresas ocidentais. O capitalismo do século XXI possui não apenas um mercado global, mas também uma cadeia produtiva global, ao menos para a maioria dos bens produzidos. Anteriormente um telefone era totalmente fabricado em um único país, agora um iPhone não é fabricado na China, é apenas montado lá. De acordo com um informe, um iPhone montado na China que custa US$ 179 é composto de US$ 172 em componentes importados de fora do país.

O que pode acontecer depende principalmente do que Trump desejar. Há informações de desacordos dentro da Casa Branca. Enquanto o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, busca reduzir o déficit comercial com a China, o intransigente representante do Comércio. Robert Lighthizer, defende uma mudança estrutural nas políticas por parte da China. Essa confusão com certeza agrava a incerteza que ambas as nações – e o resto do mundo – enfrentam.

Se finalmente a prioridade é deter a ascensão chinesa, então se trata de uma ruptura histórica com as políticas estadunidenses anteriores, no que diz respeito ao país oriental e, seguramente mais preocupante (embora nessa perspectiva a guerra comercial faça sentido) é o fato de que isso provocaria uma profunda crise na economia chinesa. 

Nas ultimas décadas a China se esforçou por fomentar um mercado interno e, portanto, reduzir sua dependência das exportações. Houve algum progresso nesse sentido? Como se relaciona esse esforço de reequilíbrio com o aumento da dívida?

A queda acentuada do mercado de ações chinesas em 2015 poderia ter provocado uma crise econômica se não fosse pelo novo resgate oferecido pelo governo (o último grande resgate ocorreu durante a crise de 2008/09). De todo modo, os problemas fundamentais dessas crises não foram solucionados totalmente. Referimo-nos aos desequilíbrios econômicos de longo prazo produzidos pela estratégia específica de crescimento de dedicar uma enorme parcela da renda nacional em investimentos de capital, enquanto o consumo é suprimido. Se observarmos a parcela correspondente ao consumo final no PIB chinês veremos que agora é ligeiramente maior do que em anos anteriores, em função da tentativa, por parte do governo, de estimular a demanda doméstica, mas ela se manteve em 39% em 2016.

Isso não apenas é muito inferior à média mundial (inclusive muito atrás de países de baixa renda) como é significativamente menor ao seu próprio recorde de 48% em 1960. Assim, a China sofre um típico caso de desequilíbrio econômico de superacumulação e superprodução. Há mais de 10 anos, funcionários do governo tinham admitido que esta situação os impelia a buscar investimentos estrangeiros afim de solucionar esse desequilíbrio. 

No que se refere às exportações, de acordo com um relatório do Banco Mundial deste ano, a contribuição das exportações líquidas para o crescimento do PIB foi negativa tanto em 2015, como em 2016. Em 2017 voltou a ser positiva, mas ainda assim apenas foi de 0,6%, enquanto o crescimento real do PIB foi de 6,7%. A projeção para o próximo ano é de 0,1% e de 0% para 2020. Com a guerra comercial em curso, é provável que essa projeção necessite ser revista. Com a diminuição das exportações liquidas vem a baixa do superávit comercial. Entretanto, não há um sistema eficiente de geração de renda que substitua a decrescente contribuição da exportação líquida. 

O crescimento do PIB é atualmente a metade do que foi 12 anos atrás. Esse indicador pode ser, inclusive, enganoso, já que registra todo o investimento, embora nem todo investimento termine gerando renda em meio a superacumulação generalizada. As cidades fantasmas são um exemplo típico de investimento ineficaz, as quais definitivamente apenas atraem mais dívida que não podem ser saldadas sem resgates governamentais. Isso resulta em uma crescente dívida total (situação que se torna cada vez mais perigosa). 

O FMI publicou um relatório em dezembro de 2017 no qual identifica três “tensões” principais no sistema financeiro chinês que poderiam tirar a economia dos trilhos, sendo a dívida uma delas. A este relatório se seguiu um do Banco de Compensações Internacionais (BIS) em março, advertindo que a dívida chinesa está acima de um montante de tal modo que poderia conduzir a um desmanche do sistema. 

A dívida total chinesa está estimada em 256% do PIB. O que é comparável com países desenvolvidos, porém excepcionalmente alta para países em desenvolvimento como a China. Ademais, a estrutura da dívida é diferente porque no caso chinês ela te relação principalmente com empresas estatais e o governo. Um aspecto positivo é que a dívida externa segue baixa, embora seja necessário salientar que sempre há dividas externas ocultas no montante da dívida que vem à tona no momento em que a crise deslancha. 

Outras fontes estimam a dívida num total de 342% do PIB. O que parece incluir dívidas entre bancos, enquanto a cifra anterior parece excluí-las. Por outro lado, se tomarmos em consideração o déficit do fundo de segurança social, o montante total das dívidas aumenta. O rígido controle estatal permite ao partido conter crises acentuadas lançando dinheiro de helicópteros, mas isto apenas pavimenta o caminho para mais dívidas que, em última instância, devem ser pagas. Quando chegar o juízo final o Partido-Estado deverá espoliar novamente ainda mais pessoas para conseguir dinheiro para a dívida. O fato é que esta situação aprofunda o descontentamento de um povo que até o momento se mantém em sua maioria apolítico. 

Em seu livro China’s Rise: Strength and Fragility, você trata do impressionante crescimento das empresas transnacionais chinesas até 2007. Nos 10 anos que se seguiram desde então, o ritmo dos investimentos chineses na América Latina, África e outros lugares do mundo aumentaram ainda mais. Podemos falar da China como um novo imperialismo? Em caso afirmativo, possui características específicas? Como se encaixa a iniciativa One Belt One Road nesse projeto imperialista?

Quando a China se tornou a segunda maior fonte de investimento externo direto (IED) no mundo em 2016, isso também significou que a China possuía importantes interesses para defender fora do país, principalmente porque seus principais investimentos estavam em infraestrutura, que demoram bastante tempo para gerar lucros. 

Para alcançar esse objetivo, o governo necessariamente ignora sua política oficial de não interferir em assuntos internos de outros países, para promover eficientemente sua participação no mercado mundial e, ao mesmo tempo, elevar sua posição na cadeia de geração de valor. É importante ter em conta a crescente tensão entre os Estados Unidos e a China, a medida que esta emerge como uma grande potência mundial. Essa tensão obriga a China a fortalecer seus vínculos com outros países, especialmente com seus vizinhos, daí o chamado Cinturão e Rota da Seda (BRI a partir do nome inglês Belt and Road Initiative). Com certeza, o encolhimento do mercado interno e o excesso de capitais ociosos obrigam a burocracia a exportar capital através dos projetos associados a BRI.

O capitalismo burocrático chinês envolve necessariamente uma lógica expansionista global, primeiramente em termos econômicos e, cada vez mais também em termos políticos e militares. Se medirmos o grau de monopólio e fusão entre o capital financeiro e industrial – possível através do capitalismo burocrático, e também o grau de investimento no exterior –, podemos seguramente afirmar que a China já possui elementos fortes de imperialismo moderno, ou seja, uma espécie de imperialismo, que respaldado pelo poder militar e capital excedente, busca dominar os países mais débeis, mas que não busca necessariamente a dominação política direta sobre eles como anteriormente. 

Isso também explica a mudança da política exterior do tao guang yang hui de Deng Xiaoping (que significa “não mostrar a própria capacidade, e sim manter um perfil discreto”) para uma postura mais assertiva de Xi Jinping em relação aos Estados Unidos e Japão, conhecida como fen fa you wei (que significa “esforçar-se para alcançar conquistas”).

Mas é importante analisar a real etapa pela qual a China está passando. Se simplesmente nos conformamos em rotular um país complicado e localmente cambiante com uma história tão antiga e logo colocá-lo ao lado dos demais países imperialistas, podemos cometer um grande erro. Há fatores a serem considerados, começando pelo legado colonial que ainda pesa muito sobre o Partido-Estado. 

Se dissermos que a China é imperialista, então é o primeiro país imperialista que era anteriormente semicolonial, e que foi invadido repetidamente por várias grandes potências ao longo de um século. Isso necessariamente faz com que o povo chinês seja particularmente sensível a autodefesa nacional. Deve-se diferenciar essa preocupação legítima do expansionismo agressivo do partido. 

Outra faceta deste legado colonial diz respeito a questão de Taiwan e Hong Kong. Os EUA veem Taiwan como seu protetorado. Eu não apoio a postura do Partido Comunista Chinês (PCCh) sobre Taiwan, já que acreditamos no direito deste à autodeterminação, o qual o PCCh nega. Entretanto, inclusive os EUA reconhecem que o Taiwan faz parte da “China”, enquanto reconhece a República Popular da China (RPC) como o único governo legítimo da China. Os Estado Unidos reconhecem assim, mais ou menos, a legitimidade da agenda chinesa de unificação nacional. 

Embora o status de Taiwan como protetorado estadunidense o proteja de agressões por parte do PCCh, também constitui uma ameaça estrangeira, ainda mais porque muitos chineses o veem como um obstáculo para a reunificação da China com Taiwan, o que em si mesmo não é uma aspiração ilegítima. Só se torna ilegítima quando é imposta ao povo taiwanês. Muitos chineses e uma minoria de taiwaneses se opõem a posição do PCCh de ver a unificação através de uma guerra como uma opção, apoiando a unificação através de conversações bilaterais. Precisamos diferenciar todas essas preocupações legitimas dos interesses de governo do PCCh. Embora muitos se oponham a uma agressão do PCCh contra Taiwan, é importante que não os considerem amistosos diante de uma intervenção dos Estados Unidos. 

Um segundo legado colonial é Hong Kong. Embora tenha regressado ao domínio da RPC há 20 anos, uma parte significativa de sua população – especialmente sua classe média – está mais a favor do ocidente do que da RPC. Não apenas isso, mas também em relação a influência mais problemática do capital internacional e das potências hegemônicas ocidentais sobre a cidade. Se compararmos, outros países imperialistas estão livres de um legado colonial, mas se beneficiam de seu passado imperialista (o que contribui para o seu poder agudo e brando). A ascensão chinesa segue marcada por seu legado colonial que vai de encontro a seus interesses. Essa assimetria é definidora das nossas escolhas táticas no que diz respeito a rivalidade entre Estados Unidos e China. 

A expansão chinesa é crescentemente imperialista, mas precisamos levar em consideração o fato da China ser profundamente contraditória, possuindo uma lógica de expansão própria que não está controlada por sua acumulação dependente – tanto dos mercados ocidentais como de sua tecnologia – que significa que ela tem que aceitar um status de “baixo valor agregado” na cadeia de valor global. É claro que a China é cúmplice dos países imperialistas na gestão da cadeia de valor, mas segue sendo um player menor comparado a eles. Essa assimetria tem que ser considerada se desejamos desenvolver uma tática suficientemente boa para lidar como o problema de Taiwan.

Quanto cresceu o capital privado na economia chinesa?

Em termos de porcentagem sobre o PIB, investimento em ativos fixos e pagamento de impostos, o setor privado está ao redor, hoje, de 50% ou 60% do total nacional. Mas é difícil saber os detalhes, pois estes são confusos. A categoria das “Sociedades por Ações”, por exemplo, tem sido testemunha de um grande crescimento tanto em termos de ativos, como de participação no PIB. Isto se deve ao fato de que muitas empresas estatais tenham sido privatizadas silenciosamente por funcionários do partido desde a década de 1990 e se converteram em Sociedade por Ações. 

A propriedade destas empresas é realmente complicada, envolvem o setor privado e o público, e o segredo está muito bem guardado. Para deixar mais confuso, a categoria de proprietário único inclui muitos pequenos capitalistas, já que a lei permite a contratação de não mais do que 7 empregados. Há alguns anos os “liberais” advertiram para a nova tendência de guojinminturi, ou como o setor estatal estava espremendo o setor privado. 

Há um debate acalorado, e como existem diferentes níveis de medição, não há uma resposta simples. Mas deve-se considerar que por trás das cifras existe a pergunta de qual setor possui mais peso real na economia. O setor estatal controla todos os resorts da economia, além da terra urbana, o que lhe confere maior poder do que seu peso nominal no PIB. Por exemplo, é mais provável que o setor estatal imponha preços do que os aceite. 

Você caracterizou o sistema político e de classe da China como “capitalismo burocrático”, dizendo que o PCCh usa suas posições no governo para lucrar através de meios capitalistas, você vê este padrão se aprofundando no governo de Xi Jinping? As contradições a curto e médio prazo agregam mais incerteza a esta definição?

Com “capitalismo burocrático” não me refiro apenas a que “a burocracia usa suas posições no governo para lucrar através de meios capitalistas”. Para ser mais preciso, preferiria dizer que a China é um tipo de capitalismo de estado no qual a burocracia funde o poder de coerção do Estado com o poder do capital. Em muitos países do mundo, muitos funcionários são corruptos e, em países como Paquistão e Egito, companhias são dirigidas por militares, como no caso chinês. De todo modo, defendo que apenas na China se possa alcançar semelhante grau de fusão, de baixo para acima e desde a saúde até a educação, passando por outros setores. 

Esta situação única é o resultado de uma trajetória também única desde a revolução de 1949. O capitalismo burocrático de fato se fortaleceu sob o mandato de Xi e o risco de crise econômica e política parece estar crescendo. Por essa razão os liberais estão soando o alarme sobre o guojinminturi (estrangulamento do setor privado pelo Estado). Provavelmente as razões não sejam tão corretas, mas refletem sim um importante marco econômico: anteriormente quando o mercado era suficientemente grande e o partido estava privatizando rapidamente o setor estatal, a burguesia privada disfrutou de seu melhor momento. Agora, porém, com a saturação do mercado e a finalização das privatizações, tem um espaço muito menor para fazer dinheiro e inclusive pode ser estrangulada pelo setor estatal. Daí seu descontento. Hoje a pequena e média empresa está em má situação, principalmente porque os bancos estatais continuam negando empréstimos enquanto lançam dinheiro ao setor estatal. 

Falemos da situação da China continental. Depois da crise de 2008 houve um crescimento dos conflitos trabalhistas com algumas lutas históricas como contra a privatização de Tongua em 2009 e a greve da Honda em Guangdong em 2010. O governo respondeu com um incremento na repressão. É possível acalmar o mal-estar dos trabalhadores? Há limites para o que a repressão estatal pode conseguir?

Durante muitos anos não houve um movimento operário como tal, apenas ações operárias isoladas. Muitas foram ações espontâneas. Não creio que as autoridades possam impedir essas ações espontâneas. As autoridades sabem que é quase impossível quando se consideram duas questões: Primeiro, embora as condições laborais tenham melhorado com o tempo, elas continuam muito duras e necessariamente criam revoltas. Segundo, as segundas ou terceiras gerações de trabalhadores migrantes são mais conscientes de seus direitos e têm maiores expectativas, o que necessariamente os impulsiona a ação de vez em quando. Da mesma forma, muitas dessas ações não conduzem a nenhuma forma de organização, não apenas por conta da repressão, mas porque os trabalhadores migrantes ainda não estão prontos. 

Hoje as autoridades podem ser duras com as greves espontâneas, mas seu objetivo principal é assegurar que os trabalhadores continuem desorganizados, ao invés de erradicar conflitos, e consequentemente os ataques às ONGs relacionadas com o movimento operário. Isso é algo que se pode conseguir facilmente. Mas as imparáveis greves espontâneas, embora não levem à organização, são boas por si só, já que podem elevar a consciência de classe e a autoconfiança.

 

Tradução: Sérgio Araújo

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