Debate com Atilio Boron: dois tipos de voto contra a extrema direita

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imagem: Juan Chirioca

Por Gilson Dantas

 O intelectual argentino kirchnerista de esquerda, Atilio Boron – muito conhecido em certos meios acadêmicos -, soltou uma nota pelo blog da Boitempo defendendo voto no Haddad, na qual, entretanto, dedica bastante energia a atacar a esquerda anticapitalista. 

Para o MRT, que defende um voto crítico em Haddad para acompanhar os trabalhadores e jovens que sentem ódio de Bolsonaro e entendem a necessidade de se lutar diante da ameaça da extrema direita, indo para as ruas e locais de trabalho, levando adiante uma experiência de luta real, orgânica ao lado de amplos setores, confluindo com a vontade de levantar uma força material independente, com base no ativismo político-prático, esta  é a tarefa fundamental da conjuntura, sem com isso depositar qualquer confiança em Haddad/PT. 

Mas para Boron não se trata de nada disso. 

Para o nosso autor, Haddad é um passo adiante que abriria uma perspectiva socialista “moderada” e é preciso estabelecer uma aliança orgânica  com ele e seu projeto.

Essa nota procura tratar dessa contradição que, através de Boron, certamente aparece em outros setores que jamais entenderam até o fim o papel nefasto da política do PT.

Em primeiro lugar, é como se Boron precisasse, para votar contra Bolsonaro, construir um outro PT e um outro Haddad; por outro lado, é como se estivesse muito mais preocupado em desancar toda esquerda revolucionária que não seja petista/haddadista, em especial aquela que –  caso especifico do MRT -,    vota em Haddad para poder compartilhar com a vontade de todo o ativismo social, operário, que aspira ser força material para barrar o risco de um governo de ultradireita, só que agindo através das ruas, do fortalecimento pela esquerda das organizações populares e operárias, mas sem confiar para nada no PT ou em Haddad/Lula como opções que levem a algum lugar que não seja derrotas.

Para Boron, pensando exatamente o contrário, essa esquerda revolucionária é um problema, não uma solução. 

Para ele, esquerda que não é petista ou que vota criticamente em Haddad, é infantil, é impotente.  As urnas estão no centro do palco, a “potência” imaginária de Boron virá do voto.

Vejamos alguns de seus argumentos.

“Qual deve ser a postura da esquerda diante de um segundo turno entre uma força reacionária, xenófoba, fascista e outra que representa uma alternativa que, sem ser radical, significa um movimento em uma direção moderada de socialismo? Já no passado esta opção perturbou as forças de esquerda no Brasil, quando, tendo que escolher entre a candidatura direitista de Aécio Neves e a de Dilma Rousseff, optaram pela neutralidade. Pouco depois o mesmo aconteceria na Argentina, quando as alternativas eram Macri e Scioli. E, novamente, a ultraesquerda escolheu o caminho autocomplacente da pureza dogmática e o descompromisso com as demandas e as necessidades da classe trabalhadora e decretou, como antes no Brasil, que ´ambos eram a mesma coisa” [grifo nosso].

Boron continua argumentando, denunciando o que ele chama de “ultraesquerda”, que sempre erra no voto [deveria ter votado Dilma contra Aécio por exemplo] e é sempre “infantil”  porque, em última instância, não adere ao petismo, ao sciolismo e afins.

Observe-se que Boron extrapola completamente a conjuntura brasileira atual, onde uma gravíssima disjuntiva política está em jogo no segundo turno, e aproveita para dar uma lição à ultraesquerda por não ser, todas as vezes, adepta do “mal menor” [no caso brasileiro, o “mal menor” petista; no caso argentino, kirchnerista]. O contrário seria ultraesquerdismo, no menu de Boron. Afinal, sua política privilegiada é a do “mal menor”. 

Nas suas palavras:

“As usuais críticas ao ´malmenorismo´, que pretendem tapar o sol com a peneira, tratam, infrutiferamente, de ocultar essa debilidade de longa data e os limites da desprestigiada consigna do ´quanto pior melhor” […]. Para Boron – dedução lógica -, não votar em Dilma é defender o pior cenário. 

Em seguida, para defender o voto em Haddad, ele argumenta que temos que apoiar “o reformismo coerente representado por Haddad e d´Ávila”.

Para completar seu argumento, Boron agarra o título do livro de Lênin – nada mais que o título, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de forma puramente arbitrária, contra toda esquerda que não vote no petismo, tida por ele como esquerda dogmática, de um “dogmatismo livresco e que atrasa o processo revolucionário”. E que, se vitorioso o PT/Haddad, o papel da esquerda tem que ser “impulsionar a necessária radicalização de um eventual governo do PT e seus aliados”.

Na tentativa de um  gran finale, Boron desce a bordoada doutrinária na esquerda – colocando no mesmo balaio o que ele chama de “setores do trotskismo, o anarquismo pós-moderno e o autonomismo da antipolítica” – por não entenderem que “só a verdade é revolucionária”.

Portanto, tivemos aqui toda uma grande viagem de Boron, para, ao final, desqualificar toda esquerda que  não vote no petismo [“mal menor”] em qualquer circunstância. E também para defender uma posição, reconheçamos, extremamente imaginativa, quase literária, de que apostar no PT é defender “um reformismo coerente”, um movimento “moderado” que aponta para a “direção do socialismo”. E vai além no discurso, ao denunciar que a causa da revolução na América Latina vem sendo prejudicada por essa esquerda radical e infantil [que não quer ser fiel à linha de Boron:  que, traduzida em miúdos, se reduz a praticar o “voto útil” e conformar-se como ala esquerda da democracia burguesa degradada e seu regime decadente], jamais se conectando com a construção de uma alternativa de classe.

Tendo visto sua linha argumentativa, no entanto, é importante observar, e não por acaso,  um grande buraco negro no discurso de Boron. Um recorte brutal porém necessário para que seu discurso ganhe alguma coerência.

Boron ignora solenemente, o papel – nada abstrato – do PT e de Lula em todos os seus mandatos:  conter a luta de classes, cooptar e estatizar a CUT e a UNE, impedir a massificação das greves [contra a reforma da previdência, por exemplo] e, caso as massas se rebelem por fora do PT, reprimi-las como o PT fez no junho de 2013 [o que incluiu o prefeito de SP, Haddad, lado a lado com Alckmin operando a logística da repressão nas ruas]; e que incluiu a sanção a leis que criminalizam – como nunca – os movimentos sociais [caso da “lei antiterrorismo” da Dilma].

Na perspectiva em que se coloca Borón, o problema, portanto, não é o PT/CUT que não levantaram um único sindicato de peso contra o golpe institucional de 2016, como tampouco contra a prisão do Lula. E que restringiram sua ação – contra a prisão do seu líder -, ao marco ordeiro da letra da lei.  

No entanto aí há um problema grave. 

Por que Boron e, como ele, intelectuais como Emir Sader, para citar mais um, não podem perceber algo, digamos, tão evidente? 

Provavelmente pela simples razão de que não lhes passa pela cabeça, nunca, a possibilidade de uma esquerda anticapitalista com independência de classe, independente do PT, no caso, e de Haddad.  

No seu imaginário só tem lugar, só pode ser de esquerda, aquela corrente que fizer seguidismo com o PT, com os Kirchner e assim por diante; isto é, uma esquerda “adulta”,  que se alinha com alguma força burguesa, “progressista”. 

Em outras palavras, esquerda que se preze tem que respeitar os limites dados pela burguesia à política. Tem que ser possibilista. 

Nessa hora se pode perguntar por onde anda a dialética quando se fica refém da miséria do possível, abdicando da independência de classe. 

Lênin nos ensina a estratégia oposta: só se pode construir uma força material fundida à classe operária levando adiante a política de não se confundir com a burguesia.  Não o Lênin de Boron, mas o Lênin real, daquele livro. O mesmo Lênin que não se confundia em táticas eleitorais e que criticava como “esquerdistas” as posições pretensamente radicais que se recusavam a participar eleitoralmente, ou a dialogar com as direções reformistas para assim poder se dirigir às suas bases, ou seja, a partir de sua independência de classe.

Em 1920, o partido trabalhista se aproxima de uma eleição decisiva na Inglaterra. Observemos o argumento de Lênin, sua imensa flexibilidade tática em determinada situação onde aparece uma janela de oportunidade tática no trato eleitoral com um partido dirigido pelos agentes da burguesia no movimento operário (os trabalhistas). 

Lênin afirma: “Para os comunistas ingleses é frequentemente muito difícil hoje até mesmo se aproximar das massas, fazer com que estas os escutem. Porém se eu me apresento como comunista, e ao mesmo tempo chamo a que se vote por Henderson [trabalhista] contra Lloyd George [liberal], seguramente serei escutado. 

E poderei explicar de modo acessível a todos, não só por que os sovietes são melhores que o parlamento e a ditadura do proletariado melhor que a ditadura de Churchill (coberta pelo disfarce da “democracia” burguesa), mas também que eu gostaria de apoiar Henderson com meu voto do mesmo modo como a corda sustenta o enforcado; que a aproximação dos Henderson aos postos de seu próprio governo justificará minhas ideias, atrairá as massas para o meu lado, acelerará a morte política dos Henderson…”

Qual o programa comum entre os trabalhistas [reformismo] e os comunistas? Nenhum. Qual o apoio político de Lênin aos reformistas? Zero.

Então, qual o sentido daquela posição tática de Lênin de, a partir do espaço comunista, chamar ao voto no trabalhista Henderson contra a direita, ao mesmo tempo em que ataca a estratégia e a política do trabalhismo, de Henderson? Seu argumento está lá:  neste caso, naquelas circunstâncias, votar sem apoiar sua política é uma tática que significa poder comunicar-se e não se separar da classe trabalhadora [que estava sob direção de Henderson].

Qual a conclusão? Que o que mais conta é a independência de classe. Esta não se negocia em nenhuma circunstância. O voto e outras questões táticas são coisas a serem definidas de acordo com as condições concretas. Como fez o mesmo Lênin, em outras circunstâncias, agora não mais eleitorais, apoiando Kerenski [o inimigo de classe] quando este mantinha preso aos bolcheviques, no momento em que a recente conquista da democracia russa estava ameaçada pelo ultradireitista e golpista Kornilov.

Naturalmente esse Lênin não é conhecido de Boron e a definição de voto do nosso intelectual kirchnerista tampouco depende das circunstâncias de classe ou de relação de forças. Tanto assim que ele vota PT em todas as circunstâncias. 

Boron se aproveita da superficialidade acadêmica reinante, da falta de leitura e conhecimento das pessoas sobre Lênin e a Revolução Russa, e vai fundo na tentativa de associar “esquerdismo” com tudo que for revolucionário e se alinhar com a “moderação” e a ordem [burguesa].

É uma escolha, entendamos assim, só que baseada na mais pura mistificação.

E no Brasil desta conjuntura ameaçadora, qual a tarefa dos revolucionários? 

Para Boron é votar em Haddad, confiar no seu projeto político e assim “deter” Bolsonaro.

Acontece que o voto em si não pode ser o objetivo desse movimento tático. Para nós, revolucionários, é um meio. Como seria na perspectiva de Lênin, de Trotski. 

Na circunstância concreta do Brasil deste momento, a direita mais truculenta ameaça fisicamente a própria existência da esquerda, das suas organizações.

Então, claramente, a tarefa de uma esquerda de classe, em vez de alimentar as ilusões das massas no petismo senil, no projeto Haddad que atrela seu programa de governo ao campo do empresariado – em época em que dez em cada dez empresários, com a economia em bancarrota, necessitam descarregar sua crise nas massas – e à estratégia de governar para a dívida pública, a tarefa mais urgente e cotidiana de uma esquerda responsável [ao contrário do que propõe Boron, bem passivamente] é a de organizar a força material para os desafios que se aproximam. 

Boron reduz sua estratégia a derrotar Bolsonaro e tecer loas ao PT.  Nós, do Esquerda Diário, propomos romper com esse esquema capitulador. E nos lançarmos à tarefa, de lado a lado com o ativismo social, compartilharmos da vontade de luta de centenas de milhares que desejam levantar a força organizada, que derrote Bolsonaro, sim, e por tabela ao golpismo, barrando os ajustes, lutando, recorrendo aos métodos de luta da classe trabalhadora.  

Começando por organizar comitês anti-Bolsonaro em todos os ambientes de trabalho e de estudos, como já estamos fazendo neste exato momento, nos fundindo a inúmeras iniciativas nesse sentido.

Isso significa transformar o voto [um movimento tático] em uma ferramenta para criarmos forças materiais estratégicas contra as forças reacionárias que estarão presentes e ativas qualquer que seja o vencedor desta eleição.

Esta política o Esquerda Diário já explicou em vários artigos. 

Dito de outra forma, a conjuntura política polarizada de hoje não tem semelhança com uma eleição onde estivessem frente a frente Alckmin e Haddad ou Ciro versus Haddad. Ou mesmo Aécio versus Dilma ou, na Argentina, Macri versus Scioli.

Nessas hipóteses, não caberia votar em nenhum deles, mas certamente Borón escolheria um dos dois como o “mal menor” e   defenderia seu “voto útil”. Na verdade ele já fez isso no Aécio versus Dilma. Naturalmente alimentando ilusões na Dilma, como alimentou no Scioli, no Lula, contra qualquer critério de classe. 

Só que agora Boron vem argumentar igualando coisas qualitativamente distintas:  iguala Bolsonaro com Aécio, o que é de uma enorme superficialidade. É como se Boron vivesse em outro mundo, vocalizando certa esquerda afeita aos círculos de poder, à burocracia universitária, e que fica parecendo não saber diferenciar entre a superestrutura política e a vida real, entre o que significa a direita tipo Aécio e a ultradireita disposta a sair matando para fazer valer sua ideologia reacionária. 

Borón termina resvalando para esse terreno onde pode haver confusão entre a direita verbal e a direita do porrete, do assassinato e da tortura. E a origem disso, em última instância, vem a ser a própria localização política de Boron e de seus pares: age como uma espécie de profissional ou politólogo da superestrutura, do voto sem independência de classe. Eterno  habitué do voto em forças burguesas ou frentepopulistas que ele abraça qualificando de “mal menor”. 

Claro que Boron, como integrante de uma esquerda ilustrada, precisa cercar-se de citações de Lênin, Marx, Gramsci para defender posições que – ao contrário da perspectiva daqueles autores – nunca saem do marco da superestrutura política burguesa. É o voto que capitula ao regime, curva-se diante da conciliação de classe tipo voto não-crítico ao Haddad hoje ou o   voto na Dilma ontem. 

Passa ao largo da   compreensão de Boron a questão mais atual e candente para a esquerda anticapitalista que vote contra Bolsonaro nessa eleição e que vem sendo pacientemente defendida pelo Esquerda Diário: gerar forças organizadas de combate na perspectiva da retomada revolucionária dos sindicatos e comitês de fábrica, que impulsione a formação de um partido com independência de classe e à esquerda do PT; que seja um voto para organizar o combate e as forças materiais que o voto, por si mesmo, naturalmente, não trará. Tampouco um eventual governo Haddad.

Enfim, Boron teria que deixar de ser Boron para entender que votar em Haddad não pode significar rendição ou adaptação ao Haddad e nem à política petista de conciliação de classe que abriu passagem para a preocupante situação atual. E também teria que se dar conta de que não existe apenas o risco do “infantilismo de esquerda”, representado por exemplo por um voto nulo nas atuais circunstâncias contra Bolsonaro, mas também existe uma “esquerda senil”, que segue procurando um projeto “socialista” ali onde ele não existe, na direção do PT e seus aliados tipo PC do B, para não mencionarmos Ciro Gomes, a burocracia sindical e congêneres.  

A “verdade revolucionária” não está em apostar no PT, como pretende Boron, e sim na capacidade de luta independente dos trabalhadores, da juventude e dos e de todos os oprimidos. 

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Referências:

https://www.laizquierdadiario.com/Pactar-con-los-golpistas-la-politica-de-Haddad-y-el-PT-que-Atilio-Boron-defiende-en-Brasil

https://blogdaboitempo.com.br/2018/09/27/atilio-a-boron-sobre-a-eleicao-presidencial-brasileira/ 

http://www.esquerdadiario.com.br/Declaracao-do-MRT-Bolsonaro-e-o-avanco-do-autoritarismo-herdeiro-da-ditadura-militar

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