Bolsonaro: fascismo ou bonapartismo?

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Por Daniel Matos

 

Não é por acaso que o primeiro assassinato político do bolsonarismo foi de um Mestre de Capoeira reconhecido por sua luta contra o racismo, o Mestre Moa do Katendê. Bolsonaro, que é o grande favorito com 58% das intenções de votos válidos contra 42% para Haddad do PT, não quer que a política que se instalou no país se converta em violência político-social, ao menos não até que terminem as eleições. Porém quando a raiva e o ódio alentados por Bolsonaro se chocaram não com a dócil burocracia sindical e política do PT, mas com um símbolo da resistência contra a escravidão, o resultado foram 12 facadas como forma de resolução do “conflito”. É nesse marco que, apesar dos esforços de Bolsonaro para conter o júbilo em suas bases, já são mais de 70 atentados políticos de todo tipo, resultantes de crimes de ódio perpetrados por fanáticos bolsonaristas nas últimas semanas, ainda que apenas um tenha tido um desfecho fatal.

As forças mais radicais desatadas pelo bolsonarismo fizeram com que muitos definam esse fenômeno como “fascismo”. Esse conceito foi utilizado para caracterizar – no contexto da catástrofe econômica dos anos 1920 e 1930 e das consequências da Primeira Guerra Mundial e preparação para a Segunda – um meio específico para mobilizar e organizar predominantemente a pequena-burguesia (classes médias de pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos, agricultores familiares, etc.) porém também em menor medida setores da classe trabalhadora que, arruinados pela crise econômica, eram mobilizados por partidos reacionários contra os partidos operários e os sindicatos, a serviço dos interesses do capital financeiro.

O fenômeno bolsonarista está muito longe tanto desse contexto como do grau de organização e radicalização que adquiram as forças fascistas de Hitler. No entanto, tal categoria pode contribuir para explicar algumas das tendências incipientes identificadas, assim como parcelas de sua base social. Desde que partamos da aclaração que o próprio Trotski faz, diferenciando esses tipos de fenômeno nos países imperialistas e nos países atrasados:

“Do mesmo modo, tampouco podemos falar do fascismo “em geral”. Na Alemanha, Itália e Japão, o fascismo e o militarismo são as armas de um imperialismo ambicioso, faminto e portanto agressivo. Nos países latino-americanos o fascismo é a expressão da dependência mais servil ao imperialismo estrangeiro. Temos que ser capazes de descobrir, sob a forma política, o conteúdo econômico e social” (L. Trotski)

Origem e desenvolvimento do bolsonarismo

É impossível entender o surgimento do bolsonarismo como fenômeno social e político sem recorrer às enormes jornadas de protesto de junho de 2013. Elas foram uma expressão do choque entre, por um lado, as aspirações de ascensão social provocadas pelos anos de crescimento econômico que marcaram o segundo mandato de Lula, e, por outro, os limites estruturais para a realização dessas aspirações em uma país subordinado à espoliação do capital financeiro internacional. Uma explosão de indignação que demandava melhores condições de serviços públicos, em uma São Paulo onde para ir e voltar do trabalho no transporte público se gasta em muitos casos 3 ou 4 horas no trânsito, de pé em ônibus e trens lotados, e com uma tarifa entre as mais altas do mundo. Porém que também deu lugar a múltiplas reivindicações por educação e saúde, que apesar de todo o crescimento econômico que marcou o lulismo seguiram estando entre as mais caras e precárias da América do Sul.

Os protestos de rua protagonizados pela juventude vieram acompanhados de uma onda crescente de lutas econômicos como não se via desde a redemocratização. Em seu seio, estouraram greves “selvagens” envolvendo os setores mais pobres da classe operária, justamente os que haviam entrado massivamente no mercado de trabalho através dos empregos precários criados no lulismo. Greves simultâneas (ainda que não coordenadas) de operários da construção civil dispersos nas gigantescas obras hidroelétricas do chamado “Plano de Aceleração do Crescimento” (PAC) de Dilma no Norte e Nordeste, e na construção dos estádios para a Copa do Mundo no Sudeste e Sul. Mas também nas obras do conglomerado petroquímico da Petrobras, então em expansão.

O PT, e muito especialmente a CUT (a maior central sindical do país), buscaram dividir, isolar, conter e desviar esses enormes processos de luta, chegando ao absurdo de caracterizar as mobilizações como reacionárias porque iam contra seu próprio governo. Na medida em que não surgiu nenhuma força político-social para canalizar esse processo de mobilização pela esquerda, ele foi capitalizado por correntes político-sociais de direita, que separavam as demandas sociais progressistas do rechaço ao sistema político de conjunto, e conduziram esse descontentamento especialmente contra o PT, contrapondo o “estatismo” do mesmo aos valores liberais. Surgiu no país um novo ator político-social composto por movimentos de juventude financiados e influídos por institutos como o Atlas Networks. Um think tank ultraliberal – conhecido por suas relações com o Departamento de Estado norte-americano e com os irmãos Koch, assim como multinacionais do petróleo e gás – o qual conta com 465 instituições parceiras em 95 países (11 delas no Brasil) e declara haver “doado” 5 milhões de dólares apenas em 2016. Instituto esse que tem como um dos seus membros a argentina Fundación Pensar, composta pelo PRO de Mauricio Macri.

Esses movimentos de juventude de direita liberais, que passaram a contar com milhões de seguidores nas redes sociais da internet, ganharam capacidade de mobilização própria nas ruas contra o governo de Dilma e do PT, impulsionados pela campanha “contra a corrupção” desatada a partir da Rede Globo usando declarações de delatores vazadas pelo poder judiciário na chamada “Lava Jato”. Uma operação inspirada na Mani Pulite italiana, que foi orquestrada através de múltiplas relações da casta de procuradores do Ministério Público, juízes de Curitiba e da Polícia Federal como “braço militar”, com apoio do Departamento de Estado norte-americano e das grandes petroleiras multinacionais.

Porém, por que a Lava Jato, e por que o PT?

A estrutura particularmente corrupta do sistema político brasileiro – o chamado “presidencialismo de coalizão” – se baseia num mecanismo de extorsão/suborno permanente e “legalizado” entre o Poder Executivo e o Congresso, para a constituição de maiorias parlamentares servis aos interesses do capital financeiro e aos grandes monopólios. Em um dos países mais desiguais do mundo, onde mais de 40% do orçamento federal é anualmente destinado ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública, e os estados estão constitucionalmente subordinados ao poder central em sua capacidade de endividamento, a “elegibilidade” dos parlamentares está vinculada à distribuição de verbas orçamentárias que o Executivo nacional tem o poder de conceder em troca do apoio a suas medidas. Um balcão de negócios permanente, lubrificado pelo financiamento das campanhas eleitorais aos políticos e partidos que respondem aos interesses do grande capital. É o chamado “fisiologismo”, a forma particular que adquire o “lobby” entre os interesses públicos e privados no Brasil.

Nos anos 1990, esse esquema, que foi usado para beneficiar grandes capitais nativos e estrangeiros (entre os quais se encontram os grandes meios televisivos como a Rede Globo), deu lugar a um enorme escândalo de corrupção chamado “caso Banestado”, em referência ao banco estadual do Paraná por onde se evadiram de forma ilegal no mínimo 520 bilhões de dólares usando as “facilidades” para a lavagem de dinheiro da tríplice fronteira. O processo foi conduzido pelo juiz Sérgio Moro, que encerrou o caso sem investigar nenhum dos indícios, que envolviam alguns dos principais dirigentes nacionais do PSDB de Fernando Henrique Cardoso. O mesmo juiz que, anos depois, com a ajuda da Rede Globo, se transformou em “herói popular” do “combate contra a corrupção”.

Quando Lula chega ao poder em 2003, estava aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o “caso Banestado”. No entanto, o PT usou a influência do Executivo para encerrar a investigação em troca do apoio de partidos políticos envolvidos às reformas que aplicou, culminando com a integração de alguns dos grandes beneficiados em sua coalizão de governo, selando sua assimilação ao mesmo sistema do qual anos depois foi vítima. Diante do primeiro escândalo de corrupção do PT em 2005, o chamado “mensalão”, o próprio PSDB e a FIESP buscaram botar panos frios e chamar os distintos atores do regime à responsabilidade, para não criar um clima “destituinte”. Como esse, foram inumeráveis os escândalos de corrupção que terminaram em nada (ou em “pizza”, como se costumava dizer na época). Apenas com o início da crise econômica mundial e suas primeiras repercussões no Brasil, um processo semelhante, no caso a Lava Jato, foi usada para concentrar as investigações sobre o PT. Por que o PT, que em seus governos garantiu margens de lucros inéditas ao grande capital, assim como a passividade política dos sindicatos? 

Enquanto o Brasil estava em pleno crescimento econômico, com os capitais financeiros internacionais tendo lucros tão altos quanto os capitais nativos favorecidos pelos bancos estatais como o BNDES e o conglomerado da Petrobras, todos estavam felizes com o “esquema” então dirigido pelo PT, ao ponto de que o país era comemorado por toda a imprensa imperialista como a “estrela” ascendente dos BRICS. Com exceção de alguns nichos de cartéis ligados ao petróleo. No entanto, com a Grande Recessão mundial após 2008, o poder judiciário e a “luta contra a corrupção” passam a ser utilizados pelo capital imperialista para mudar essa relação de forças em seu benefício. Nesse marco, o PT foi eleito como o alvo privilegiado para “baixar” as ambições das grandes construtoras, petroquímicas e frigoríficos brasileiros que – com a ajuda dos bancos públicos como o BNDES – se alçaram como competidores internacionais, e para abrir espaço aos capitais imperialistas na gigantesca fonte de riqueza concentrada nas bacias do Pré-Sal e todo o enorme conglomerado de extração e refino de petróleo dirigido pela Petrobras. Ao que se soma a necessidade de obrigar as bases do PT a aceitar uma piora de suas condições de vida, e o retrocesso nos direitos sociais e trabalhistas para preservar os lucros capitalistas e garantir o ajuste fiscal necessário ao pagamento religioso da dívida pública.

Dessa forma, o rechaço à “casta política” que emergiu dos protestos de 2013, combinado com o “combate à corrupção”  impulsionado pela Lava Jato e a Globo, foi criando o clima destituinte contra o governo do PT. Essas duas tendências (o sentimento “anti-casta” que emergiu em junho de 2013, e os fãs da Lava Jato) ganharam base social surfando sobre a piora das condições de vida provocadas pela queda de 7% do PIB entre 2015 e 2016, abrindo o caminho para as massivas mobilizações que assentaram a relação de forças para o impeachment de Dilma Roussef.

Nas marchas contra Dilma, o bolsonarismo era ainda uma pequena minoria. O objetivo do golpe institucional era pôr no poder a direita tradicional encarnada no PSDB e no DEM, apoiados pelos “caciques” do MDB. A constituição do bolsonarismo como grande tendência de massas se deu na medida em que os partidos da direita tradicional, em especial o PSDB, associados ao fracasso em toda linha do governo Temer e na corrupção do sistema político – perderam sua capacidade de canalizar o sentimento antipetista alentado pela Lava Jato, deixando esse espaço vazio para ser ocupado por uma figura populista que conseguiu vender a imagem de um “outsider”. Diante da falta de uma saída radical pela esquerda perante a podridão de um sistema político tão desgastado e rechaçado, Bolsonaro emerge com suas propostas radicais pela direita, apelando à mão dura para responder à profunda crise de violência social na qual o país se afundou pela crise econômica, especialmente em estados como o Rio de Janeiro.

Com a decolagem de Bolsonaro, se encoraja e passa à ofensiva o núcleo mais fascistizante, provindo do fígado de sua base social originária? As polícias militares e civis, assim como as forças armadas. Segundo os últimos dados, há 425 mil policiais militares estaduais, 118 mil policiais civis, 13 mil policiais federais, 327 mil integrantes das tropas do exército, marinha e aeronáutica. Contando aposentados e familiares, trata-se de um “núcleo” social reacionário com não menos de 3 milhões de pessoas. O encorajamento desse núcleo social, idealizado por Bolsonaro como “vítima” dos direitos humanos para inspirar a mão dura, é inseparável dos atentados políticos de ultra direita que escalaram em todo o país nas últimas semanas, acumulando dezenas de vítimas, entre elas, o Mestre Moa do Katendê. 

O último componente fascistizante da base bolsonarista entrou em campo nas últimas duas semanas da campanha eleitoral: as igrejas evangélicas, cuja influência é calculada em cerca de um terço da população. Estas se constituíram como um fator decisivo para moldar a polarização com tinturas ideológicas. Com suas redes sociais (em especial o WhatsApp), difundem “fake news” onde os petistas aparecem como pervertidos que pisoteiam os valores religiosos e “comunistas” que vão impor um suposto “terror vermelho”. Nada mais injusto com um PT que durante seus 13 anos de governo garantiu a negativa ao direito ao aborto e aceitou as relações do Estado com as igrejas; ao mesmo tempo em que garantiu recordes históricos de lucros para o não muito comunista capital financeiro internacional.

A partir dessas definições da origem e desenvolvimento do fenômeno Bolsonaro, podemos responder mais precisamente a pergunta inicial sobre o componente proto-fascista existente em seu interior. Um fenômeno que até muito pouco tempo era uma pequena parcela minoritária e radical dentro do bloco político-social que deu o golpe institucional, com o desgaste dos partidos da direita tradicional associados ao governo Temer alcançou cerca de 20% dos votos, que manteve firmes até o início das eleições. Uma vez consolidado como candidato preferido do eleitorado antipetista, com a ajuda do Poder Judiciário, da Rede Globo e dos militares, que manipulam abertamente as eleições contra Lula e o PT, o bolsonarismo conseguiu avaliar até os 35% dos votos. Somando muita demagogia e uma facada que permitiu a ele se colocar como vítima e evitar os debates públicos, pôde, na reta final do primeiro turno, arrastar parte dos eleitores lulistas mais conservadores e cuja despolitização ignora o programa ultra-neoliberal de Paulo Guedes, alcançando os 46% ao final do primeiro turno. Capitando os votos antipetistas dos candidatos de centro e centro-direita que não passaram, hoje se coloca como o grande favorito, com 58% das intenções de voto no segundo turno. Evidentemente, essa maioria eleitoral contém não somente setores burgueses e pequeno-burgueses de classe média que caracterizavam sua base social originária, mas também setores da classe trabalhadora.

Se por um lado as tendências proto-fascistas presentes na base social de Bolsonaro são uma parcela minoritária e pouco organizada que dificilmente ultrapassa os 20% de seus votos “originários”, hoje elas se constituem como o polo mais ativo e dinâmico da relação de forças sociais, empurrando o regime que surgirá das eleições a um grau de autoritarismo e ataques qualitativamente superior ao que foi na primeira etapa do golpe institucional sob Temer.

 

As tendências ao bonapartismo e o eventual governo de Bolsonaro

Para analisar o que poderia vir a ser um eventual governo de Bolsonaro, é útil a categoria que Trotski utilizava para analisar os primeiros governos posteriores ao crack de 1929, que apesar de estarem cruzados pelo desenvolvimento de tendências fascistas, ainda se cobriam com máscaras mais ou menos “democráticas”. Trotski definia que mais em geral o “bonapartismo” como forma de governo busca se elevar por sobre os campos em luta, apoiando-se mais diretamente nas forças armadas em detrimento do parlamento, para preservar a propriedade capitalista e para impor a ordem. Pois bem, no caso de um governo Bolsonaro no Brasil, não parece necessitar ainda prescindir do parlamento, contando com a possibilidade de  recorrer a um aumento do autoritarismo via poder judiciário com o apoio dos militares. Para um governo assim, que corresponde mais a um período de incubação do bonapartismo, resulta útil a categoria de Trotski de “pré-bonapartismo”.

As tendências proto-fascistas da base bolsonarista são muito incipientes porque a crise econômica no Brasil (e também no mundo) ainda é muito inferior à depressão que marcou os anos 1930 e não estão emolduradas pelas tendências à guerra que cruzavam a Europa naquele período. Porém também devido à política do PT de desmoralizar sua própria base social. Primeiro aplicando duros ajustes no segundo mandato de Dilma, e uma vez na oposição canalizando todo o descontentamento das massas com o governo golpista de Temer para o terreno eleitoral, chegando ao ponto de desviar a enorme energia demonstrada pela classe trabalhadora nas duas paralisações nacionais que frearam a reforma da Previdência no primeiro semestre de 2017, impedindo que essa energia se opusesse contra a reforma trabalhista aprovada pouco depois. Essa política do PT é a principal responsável para que a classe operária não faça pesar sua forma na relação de forças nacional.

Trotski dizia que o bonapartismo se servia do fascismo para chegar ao poder, porém somente na justa medida necessária para derrotar o movimento operário.

É nesse marco que devemos entender os recentes movimentos de “fatores de poder” nativos e estrangeiros para “disciplinar” as tendências mais fascistizantes desatadas pelo bolsonarismo. A Rede Globo, “criando” a nuvem de um “país das maravilhas”, coloca suas novelas e telejornais em campanha permanente por um suposto Brasil de “combates” feministas, antirracistas e anti-homofóbicos, com “instituições da sociedade civil” supostamente tão enraizadas que um governo Bolsonaro não poderia fazer retroceder. Mensagem subliminar: “Não se assuste, pode votar em Bolsonaro que está tudo bem”. O presidente do Supremo Tribunal Federal (que nomeou recentemente como assessor a um indicado pelas Forças Armadas, como não se via desde a redemocratização), junto com o Alto Comando militar, intelectuais, juristas e jornalistas das principais universidades e meios de comunicação, buscam pressionar Bolsonaro para que jure pela Constituição e repreenda as “derrapadas” demasiado golpistas do seu candidato a vice-presidente, o general Hamilton Mourão. Nas palavras do comandante do Exército, general Villas Boas, dois dias depois do primeiro turno das eleições: “em uma democracia consolidada como a nossa, não ocorrem tomadas do poder, inclusive porque o povo brasileiro não vai permitir que se desrespeite a Constituição e se afronte as instituições. O Brasil hoje tem instituições sólidas que não permitem que a evolução saia dos limites dos preceitos democráticos”.

A isso se soma o discurso difundido por alguns dos principais órgão da imprensa imperialista – quiçá como parte da campanha eleitoral do Partido Democrata norte-americano para as eleições parlamentares de novembro -, em que Bolsonaro é criticado por seus traços mais autoritários. As comparações que esses meios fazem de Trump com Bolsonaro, definindo-o como uma espécie de “Trump dos trópicos”, escondem que enquanto os traços bons-artistas do presidente dos EUA estão a serviço de uma política protecionista do imperialismo, os mesmo traços no bolsonarismo servem a uma política liberal de abertura econômica para servir aos interesses do amo do norte.

Esse trabalho de “controle” do bolsonarismo corresponde a uma relação de forças sociais na qual a classe operária está predominantemente passiva e deixando passar sem resistência os ataques, ajustes e privatizações que o golpe institucional tinha por objetivo aplicar. Um regime – agora legitimado pelas eleições – que ataca os direitos mais elementares de defesa e pisoteia o sufrágio universal impedindo a população de votar em quem quiser. Com o objetivo de impor uma relação de forças mais à direita, deteriorando qualitativamente o nível de vida das massas, privatizando numa escala superior os recursos estratégicos, retrocedendo nos direitos sociais, e aumentando a subordinação do país ao imperialismo. Se essa mudança na relação de forças pode continuar sendo implementado por vias predominantemente “democráticas”, sem o recurso à força física, melhor para os interesses do capital, que prefere dominar com máscaras mais ou menos democráticas, sempre mais efetivas para o engano das massas.

 

Justamente porque o polo dinâmico da relação de forças sociais hoje é o golpismo e em especial seu núcleo de extrema direita, que atua contra um proletariado imobilizado que tem à sua cabeça direções que entregam suas posições sem luta – é evidente que a estratégia eleitoral-parlamentar e de ilusão no judiciário do PT perdeu em toda a linha sem implicar nenhum combate sério – não existe um “empate” de forças sociais sobre o qual possa se erguer um árbitro (Bonaparte) que se apoie sobre o aparato militar para resolver a disputa em favor do capital. Ou seja, ao menos por ora não estaria colocada no Brasil nem a necessidade nem as condições para um regime bonapartista strictu sensu. No entanto, as forças de extrema direita desatadas por Bolsonaro, no caso muito provável de que ganhe as eleições, parecem antecipar uma espécie de governo pré-bonapartista judicial-militar, qualitativamente mais autoritário e reacionário do que o vivenciado sob o governo Temer.

As contradições que um governo de Bolsonaro enfrentaria

Um eventual governo de Bolsonaro teria grandes problemas a enfrentar, que são os mesmos que ele enfrenta no segundo turno, e que ainda poderiam beneficiar a Haddad.

Em se tratando de sua própria base social, tem duas contradições centrais: 1) Terá que lidar com a queda por terra de toda a sua demagogia “antissistema” e “anticorrupção” na medida em que tenha que compôr uma base parlamentar com o bando de mafiosos que sustentou o governo Temer, e estabelecer com o Congresso o balcão de negócios que tanto criticou ao PT. 2) Parte importante de sua maioria eleitoral não é consciente de que seu governo será muito pior do que o de Temer em termos de ataques, destruição de direitos, e piora das condições de vida. Contradição essa que tende a se agudizar ainda mais com a escalada de demagogia que está fazendo no segundo turno, para conter os eleitores lulistas que ganhou no primeiro, dizendo que vai dar décimo terceiro ao Bolsa Família, e que não vai aumentar os impostos aos mais pobres. 3) As idas e vindas de Bolsonaro, indo de dizer que irá privatizar todas as empresas públicas, a reconhecer que manteria seus “núcleos estratégicos”, são uma antecipação dos conflitos que existirão no programa ultraliberal de Paulo Guedes e os interesses estratégicos de setores militares e da burguesia brasileira.

Com relação aos eleitores de Haddad, as paralisações nacionais que frearam a reforma da Previdência de Temer são uma demonstração de que a classe operária não está estrategicamente derrotada. A própria votação no PT, apesar da proscrição de Lula e de todas as brutalidades antidemocráticas do regime para isolá-lo, é uma expressão, ainda que muito distorcida, da relação de forças que se opõe ao golpismo. Lula, que chegou a acumular cerca de 40% das intenções de votos, e despontava como o provável ganhador no primeiro turno caso pudesse concorrer, conseguiu transferir boa parte de seus votos a Haddad, chegando perto do índice que os institutos de pesquisa colocam como sendo o dos apoiadores diretos do PT como partido. Somando os votos antigolpistas que Haddad arrastou para cumular seus 42% de intenção de votos no segundo turno, isso indicaria que Bolsonaro teria atraído cerca de 8% dos votos tradicionalmente lulista, que sempre foram mais amplos que os votos do PT.`

Apesar de todo o apoio do capital financeiro e da grande burguesia, é improvável que a economia tenha rapidamente um crescimento tamanho que possa ser sentido como melhoria das condições de vida das massas.

Nesse marco, um eventual governo de Bolsonaro já nasce fraco, e é provável que esteja cruzado por múltiplas formas da luta de classes. Como resultante desses embates, as tendências ao bonapartismo que hoje se expressam predominantemente através do poder judiciário, poderiam se transformar – recorrendo ou não à figura de Bolsonaro – a um regime mais diretamente apoiado sobre o aparato militar. É o que reflete a entrevista publicada no dia 11 de outubro pela tradicional revista britânica The Economist: “A maioria dos oficiais superiores é moderada e não quer tomar medidas inconstitucionais e não se curvará a um Bolsonaro, segundo o especialista em defesa Alfredo Valladão. Se ele chegar a vencer, sua resistência a um controle civil competo poderá ser uma restrição para ele. O exército se veria forçado a intervir, de acordo a Valladão, apenas se os conflitos no Brasil se transformassem em violência política em grande escala [grifo nosso]”. 

Programa e estratégia para enfrentar a extrema direita e o golpismo

Junto ao Movimento Revolucionário de Trabalhadores, do Brasil, organização irmã do PTS no país vizinho, acompanhamos os trabalhadores e jovens que votam criticamente em Haddad para derrotar Bolsonaro nas urnas. NO entanto, precisamos transformar o justo ódio contra o autoritarismo e o programa ultra-neoliberal de Bolsonaro em um grande movimento de milhões nas ruas para combater tudo o que Bolsonaro representa.

Na contramão dessa perspectiva, o PT começou sua campanha eleitoral do segundo turno com uma propaganda eleitoral que contrapões o ódio autoritário de Bolsonaro a uma política destinada a atrair supostos “aliados” dos partidos neoliberais e golpistas tradicionais que foram derrotados nas eleições. Essa política vai na contramão de responder às verdadeiras necessidades de 25 milhões de trabalhadores desempregados e subempregados e a outras dezenas de milhões que tiveram a piora nas suas condições de vida e perderam direitos desde que o golpismo começou a avançar no país. 

Para combater seriamente o avanço do golpismo e da extrema direita, precisamos lutar para derrubar todas as reformas reacionárias do governo Temer; criar um grande movimento pelo não pagamento da dívida pública, para que haja recursos para as obras públicas, a saúde e a educação; e necessitamos exigir dos sindicatos, das centrais sindicais, entidades estudantes e populares que impulsionem comitês de base para organizar a resistência e preparar uma grande paralisação nacional combinada com mobilizações de rua em todo o país.

Não será possível combater o golpismo e a extrema direita com um discurso genérico de “paz e amor”, e propostas gerais fazias, sem sustentação. Só poderemos combater seriamente Bolsonaro com um programa que responda de forma radical às verdadeiras angústias da maioria explorada e oprimida do país. A única resposta radical e realista, é a que defenda a mobilização dos sindicatos e movimentos sociais para fazer retroceder o avanço autoritário e impor que os capitalistas paguem pela crise.

      

 

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