Pepsico: lições sobre uma grande luta operária na Argentina

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FLÁVIO RAMOS

Número 2, agosto de 2017

Intro: Neste artigo pretendemos trazer um panorama dessa batalha impressionante que os trabalhadores da PEPSICO vêm dando, deixando exemplos de combatividade e estratégia, não só para a classe operária argentina, mas também internacional.

O número de pessoas que vivem nas ruas em Buenos Aires cresceu 20%. A cara mais brutal da crise na cidade mais rica do país. A metade das crianças de Buenos Aires é composta de pobres. O desemprego no entorno chega a 12%, sem contar os desabrigados. O desemprego se converteu no principal problema para os jovens segundo mostram diversas pesquisas. Esse clima na capital resume o enorme descontentamento popular diante dos ajustes neoliberais de Mauricio Macri às vésperas das eleições.

O fim de ciclo pós-neoliberal na Argentina mostrou como o ciclo kirchnerista, ao manter de pé os principais pilares da política neoliberal dos anos 90, preparou o caminho para a direita macrista articular seus ataques. Os gerentes empresariais pressionam por uma reforma trabalhista que diminua os “custos trabalhistas” em troca de rifar direitos e conquistas dos trabalhadores. É o que acaba de acontecer no Brasil onde o golpista Temer conseguiu aprovar uma nefasta lei antioperária que quer retroceder a legislação trabalhista até o século 19.

Mas o governo Macri encontra problemas para avançar no mesmo sentido; o projeto de ataques estruturais às condições de vida da classe trabalhadora retirou o “encanto gestor” de sua retórica eleitoral de 2015. Os trabalhadores realizaram distintas manifestações em diversos setores da economia, contra os ajustes federais, que recebem apoio permanente do peronismo/kirchnerismo no Congresso Nacional. O desemprego e o problema das demissões em massa se converteram num dos principais temas nacionais. Nesse marco que o conflito da PEPSICO se converteu num dos grandes emblemas nacionais dessa resistência.


Um breve histórico do conflito

PEPSICO, uma das maiores produtoras alimentícias no ramo de bebidas e aperitivos, uma gigantesca multinacional estadunidense que em 2016 obteve lucros de U$S10,3 bilhões a nível mundial, dos quais 8% saíram de sua filial na Argentina. Essa é a patronal que, alegando crise financeira, decretou o fechamento da planta localizada na zona norte de Buenos Aires, Argentina, em 20 de junho. Cinicamente com um papel sulfite colado no portão de entrada informou a seus funcionários que por “sua complexa estrutura de custos e extensos requisitos logísticos” iria mandar para rua 600 trabalhadores.

Imediatamente os trabalhadores se articularam através de seus delegados eleitos na comissão interna* para responder às demissões com um plano de luta combativo que, se ligando ao repúdio popular com tema do desemprego, atingiu profundamente o governo Macri às vésperas das eleições. Ao contrário do que queria o governo, a luta de classes contra o desemprego conquistou a atenção nacional, e ganhou o centro da cena política.

Mas vamos começar essa história por algumas batalhas anteriores que mostram que para resistir com tamanha força foi necessário preparação previa, forjando a partir do espírito de luta dos trabalhadores nos combates parciais lições que marcaram a formação de uma vanguarda de peso, representada principalmente pelas mulheres, as “leoas da PEPSICO”.

 

“O maltrato, a raiva e a dor nos ensinaram a lutar, a nos organizarmos”**

Esta é uma das frases na carta que as Leoas da PEPSICO publicaram em meio ao conflito do fechamento da planta. Nela as trabalhadoras relatam que quando começaram a operar na planta, trabalhavam 16 horas com ritmos esgotantes, fazendo meia hora de almoço e cinco minutos para usar o banheiro para poderem se tornar efetivas. Mesmo durante a gestação, deveriam trabalhar como qualquer outra trabalhadora. Quando doentes, ao irem no departamento médico: “éramos tratadas como mentirosas e acusadas de ‘vagabundas’, de não querer trabalhar e então nos medicavam com qualquer coisa e outra vez nos mandavam à linha de empacotamento”. Enfrentavam turnos alternados semanalmente entre manhã, tarde e madrugada, passavam anos no mesmo posto de trabalho sendo a extensão humana das máquinas, empacotando milhões de caixas de produtos todos os dias deteriorando cada dia mais sua saúde, “acabando com nossos corpos” dizem elas na carta***.

Mas durante os primeiros anos de luta as trabalhadoras foram questionando as diferenças entre o trabalho delas e o dos companheiros homens. Lutaram para poderem fazer as tarefas que somente eram designadas aos homens, conquistaram a licença maternidade, algo que está acima do convênio coletivo da categoria. Enxergando a força que tinham nessas batalhas por questões internas na organização do trabalho na fábrica, viram que poderiam ir além e conquistaram a equiparação salarial com os trabalhadores homens, assim como a impressionante luta em que conquistaram a efetivação de todas as companheiras e os companheiros terceirizados, terminando assim com a terceirização na fábrica.

“Temos avançado na unidade entre as trabalhadoras e os trabalhadores porque entendemos que nosso inimigo é a patronal que já demonstrou com um papel sulfite na porta que na hora de nos tratar com desrespeito não há nenhuma diferença. Nós dizíamos, nos organizamos, fazemos assembleias, votamos e lutamos com nossos companheiros: nem atrás nem à frente, mas sim lado a lado com passo firme por nossos direitos.”****

O caso Catalina Balaguer – ninguém fica pra trás

Em meados de 2001, só trabalhavam homens na PEPSICO. A patronal implementou uma primeira leva de contratação de mulheres terceirizadas na fábrica, mas em pouco mais de um ano demitiu todas as trabalhadoras, muitas delas já estavam apresentando casos de doenças ocupacionais, como lesões por esforço repetitivo, tendinites e hérnias pois logo que fizeram a contratação elevaram à exaustão os ritmos de produção.

Catalina Balaguer, que nesse momento não era parte da comissão interna muito menos representante sindical, se colocou à frente na organização das companheiras e companheiros no seu local de trabalho para lutar contra a demissão, formando uma grande campanha pela reincorporação das companheiras demitidas. As trabalhadoras montaram um acampamento em frente à fábrica e quando estavam perto de ganhar o conflito conquistando a reincorporação, demitiram também Catalina, se aproveitando que ela não possuía representação sindical legal. Mas tanto através da pressão pela mobilização dos trabalhadores, quanto pela atuação jurídica levada a frente pelo Centro de Profissionais pelos Direitos Humanos (CEPRODH), impulsionado pelo PTS a patronal teve de recuar e reincorporar Catalina. Como primeira decisão importantíssima para possibilitar a reincorporação, Catalina não aceitou a indenização que a empresa apresentou como acordo, dizendo contundentemente que queria a reincorporação para seguir lutando pelas companheiras.

Outra importante medida foi a argumentação usada pelos advogados do CEPRODH, de que apesar de não ser legalmente reconhecida, Catalina era “delegada de fato” pois exercia a função de defender os direitos dos trabalhadores em seu local de trabalho, mas não recebia proteção sindical da entidade, que dizia que ela apenas cobrasse a indenização. O processo de reincorporação de Catalina durou 5 anos, mas entrou para a história do direito do trabalho na Argentina e é estudado nas faculdades de direito até hoje, por ser o primeiro caso de reincorporação de uma operária de base em uma empresa privada.

Outra importante conclusão desses trabalhadores, que foi fundamental para que pudessem dar todas essas batalhas iniciais, foi ver que, para que as lutas pudessem ir para frente, não poderiam contar apenas com a direção burocrática de seu sindicato. Tiveram que se organizar a partir do chão de fabrica, por via de assembleias democráticas, elegendo seus representantes e assim formando uma comissão de fábrica, que na Argentina são chamadas de comissões internas. Como dizia Marx no Manifesto Comunista, o verdadeiro resultado das lutas dos operários não é o seu êxito imediato, mas sim a crescente união entre os trabalhadores. Há quase 20 anos, Leonardo Norniella, junto a Catalina Balaguer e outros companheiros, se transformaram nos principais organizadores de uma Comissão Interna democrática e combativa para defender os direitos os trabalhadores, tradição de luta que hoje continuam outros delegados, militantes e ativistas da agrupação Bordô, que é a oposição ao sindicato.

Como podemos ver brevemente nessas linhas, todos estes conflitos anteriores foram fundamentais para que em cada passo, cada vitória ou derrota, se pudesse solidificar na consciência desses trabalhadores lições fundamentais que foram forjando uma vanguarda preparada para o combate. Saber ver e apreender quais experiências tiram de cada processo possibilita aos trabalhadores chegarem mais bem preparados às lutas decisivas, encarando assim cada batalha, nem que sejam parciais, como “escolas de guerra”.

Foi preciso passar por cima da burocracia sindical

 

Operários da PEPSICO já vinham há anos denunciando que a patronal estava fechando linhas de produção e implementando planos de demissões voluntárias. Inclusive descobriram e denunciaram antecipadamente que a patronal tinha o objetivo de mudar a produção para outra planta da mesma empresa em Mar del Plata, onde as condições de trabalho são mais precárias.

Assim, quando no dia 20 de junho de 2017 a multinacional norte-americana comunicou o fechamento da sua sede na Florida, com um papel na porta da fábrica, os operários responderam mostrando que não havia nenhuma crise que justificasse tal decisão, como é possível constatar pelas cifras bilionárias faturadas nos anos anteriores. Portanto, trata-se claramente de uma quebra fraudulenta, visando implementar um ataque antissindical para começar a produzir em Mar del Plata, assim como acabar com a histórica organização interna dos trabalhadores.

O primeiro passo do plano de luta dos operários foi exigir que o sindicato da alimentação, dirigido por Rodolfo Daer, se colocasse à frente da luta. Em uma plenária do sindicato no dia 23 de junho, três dias depois do fechamento, os trabalhadores foram defender a necessidade de um plano de luta de todo o sindicato, organizando uma paralização geral da categoria em defesa dos demitidos. O Secretário Geral do sindicato negou de imediato essa possibilidade, dizendo que não era possível ir além de exigir melhores indenizações para as demissões. No dia seguinte, para que não restassem dúvidas, o Daer participou com outros burocratas sindicais e empresários de um jantar com Mauricio Macri.

A burocracia sindical na Argentina tentou impedir o desenvolvimento do conflito se negando a mobilizar a categoria. Uma mostra que os sindicatos e as centrais burocratizadas servem apenas para seus próprios interesses e a manutenção de seus cargos, sendo contrários a organização dos trabalhadores. O combate contra essas burocracias é a única forma de garantir a vitória. Os trabalhadores da PEPSICO seguiram na luta passando por cima da burocracia sindical, se organizando em assembleias e pensando um plano de luta audaz, que extrapolou o âmbito corporativo, isso foi parte de transformar a luta desses trabalhadores em uma pauta nacional.

Os trabalhadores mostraram, é possível enfrentar as reformas

No dia 26 de junho, os trabalhadores votaram a ocupação da fábrica em defesa de seus postos de trabalho para evitar que as máquinas e equipamentos, que se encontravam em condições perfeitas para produzir, fossem retiradas pela patronal. A fábrica se transformou em um centro de organização da luta. Inúmeras delegações de trabalhadores, estudantes, artistas, figuras de direitos humanos e intelectuais passaram pela fábrica para levar sua solidariedade. Os pronunciamentos de apoio cresceram dia após dia até transformar a luta da PEPSICO em uma causa popular.

Em defesa de seus empregos, os operários levaram adiante as mais variadas formas de luta: “bloqueios surpresa” da rodovia Panamericana (principal artéria econômica da Argentina, que liga a capital à maior zona industrial do país), piquete junto a caminhoneiros em um centro de distribuição da empresa, jornadas nacionais de luta com manifestações no centro de Buenos Aires e no interior do país, e piquetes na outra planta da PEPSICO em Mar del Plata, festivais de música em solidariedade ao conflito e arrecadação de dinheiro para um fundo de luta. Também impulsionaram uma grande campanha contra a marca, chamando a não comprar produtos da empresa.

O conflito foi ganhando amplo apoio popular pois o alto nível de desemprego na Argentina tem afetado milhões de famílias que viam no conflito um exemplo de resistência. Já nas primeiras semanas o conflito estava nos debates na televisão, sendo visto por milhares de pessoas. Depois disso tudo, chegaram as notificações de reintegração de posse da fábrica. No dia da desocupação centenas de apoiadores, principalmente militantes do PTS permaneceram em frente a fábrica desde a madrugada, isso evitou que a desocupação fosse feita nas primeiras horas do dia, atrasando até por volta das 8 da manhã, quando todos os meios de comunicação estavam presentes e puderam cobrir a repressão policial ao vivo. Os trabalhadores, militantes e figuras políticas e parlamentares do PTS na FIT, como Nicolas del Caño, Patricio del Corro e Myriam Bregman, denunciaram a violência da repressão policial. A desocupação foi um escândalo político que foi visto ao vivo por cerca de 20 milhões de pessoas (praticamente metade da população argentina) e impactou profundamente o governo Macri. Assim, o conflito passou a ser um fator dentro da disputa burguesa na conjuntura eleitoral, com o governo Macri tendo que responder diretamente sobre o conflito e os principais jornais argentinos estampando em suas manchetes que a repressão poderia enfraquecer Macri nas eleições. Logo após a desocupação, os trabalhadores organizaram uma manifestação no Obelisco central de Buenos Aires, onde se juntaram cerca de 30 mil pessoas em solidariedade aos trabalhadores da PEPSICO, assim como todas as organizações da esquerda argentina, movimentos sociais e de direitos humanos.

A ação decidida dos trabalhadores transformou esse conflito em um grande tema nacional obrigando o governo a retroceder em uma pauta que atingiria a todos os trabalhadores. O jornal Clarín (https://www.clarin.com/politica/pepsico-gobierno-sumo-tormenta-impensada_0_BJbZ43cB-.html) noticiou que o conflito obrigou o governo Macri a frear o anúncio de uma reforma trabalhista, semelhante a que Temer aprovou no Brasil, por receio que a soma entre o calor do conflito e o ódio popular contra o anúncio das reformas inflamasse o país.

Contra os céticos, essa importante luta deu um exemplo da força que podem ter os trabalhadores quando entram como sujeitos na política nacional. Influenciando seus rumos, ganhando apoio da população e obrigando o governo a retroceder em um importante ataque. Esse fato só foi possível porque os trabalhadores se mostraram irredutíveis na luta, superaram suas direções burocráticas, conquistando apoio popular e com a presença decidida da esquerda revolucionária do PTS, que colocou todas suas forças para o triunfo do conflito.

Essa luta prova que a resistência nas ruas e nas fábricas, nos serviços, nas escolas e universidades, pode sim frear a reforma trabalhista de Temer e do Congresso corrupto no Brasil.

*

** http://www.esquerdadiario.com.br/Carta-aberta-das-trabalhadoras-de-PepsiCo-em-luta

*** Idem

**** Idem

 

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