Breve opinião sobre o livro Brasil: ponto de mutação

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por Gilson Dantas 

Antes das eleições de outubro passado, cada vitória nas presidenciais pareceu evidenciar facilmente sua lógica própria, isto é, seu balanço político dava a impressão imediata de estar acessível a qualquer exame político inicial em primeira mão.

A chegada de Bolsonaro impressionou exatamente no sentido contrário. 

À primeira vista parecia não se encaixar em qualquer exame lógico ligeiro. 

No entanto, o que mais impressiona é que a enorme quantidade de documentos escritos e falados, ontem como hoje, procurando explicar o fenômeno que Bolsonaro encarna, apresentam um problema:   raramente dão conta de  explicitar a lógica interna, as determinações e mediações políticas e históricas que permitam entender até o final e, por fim,  armar uma estratégia revolucionária  correta diante de um governo fundado nas reacionárias “forças das trevas”, como disse alguém.

O livro que temos em mãos foge a essa regra. Põe a nu a lógica mais profunda desse fenômeno político.  E com o mérito de ter sido escrito enquanto aqueles fatos históricos aconteciam sob nosso  nossos olhos e sob o espanto do conjunto da esquerda.

Temos em mãos, portanto, uma coletânea de textos analíticos elaborados ao calor dos acontecimentos, nos meses que cercam a eleição de Bolsonaro e debruçados sobre questões do tipo:

Como entender a eleição de uma figura do mais baixo clero parlamentar, apologista da tortura, da ditadura militar, uma figura misógina, homofóbica, defensor do fundamentalismo evangélico mais reacionário, e que, ao final, consegue mais da metade dos votos do eleitorado nacional, partindo quase do zero na corrida presidencial? 

Qual a natureza desse fenômeno? Quais os novos processos políticos e culturais que estão por trás disso? Que tipo de crise política local e internacional conduz a tamanho retrocesso, coroando o golpe institucional de 2016 com tanta terra arrasada e, ainda por cima, contando com apoio de um esquema militar e um general pró-tortura como vice-presidente?

Por que o discurso anti-PT e de mão dura contra a violência urbana ganhou tanta força eleitoral? Que impacto tiveram nisso as igrejas evangélicas e a manipulação das “fake news”? Por outro lado, que papel teve – e tem – no processo, a passividade das centrais sindicais burocratizadas, começando pela CUT?

Certamente, uma análise que fosse rotineira, binária (PT versus não-PT) ou politicista, refém do marco da “democracia burguesa” e suas regras, passaria longe de entender a tomada do aparato de Estado por tais forças, que terminam representando um verdadeiro ponto de mutação no regime político brasileiro. Forças que estão se empenhando, no contexto de suas próprias crises nas alturas, em transformar sua vitória em uma mudança na relação de forças orgânicas no nosso país.

Nas páginas desse livro, seus autores desenvolvem, no marco da conjuntura e seus enigmas, um esforço teórico para sair do marco das costumeiras análises impressionistas e que, por um lado, terminam enxergando fascismo, e, por outro, eleições “normais”, livre escolha do eleitorado, culpa do “povo brasileiro”.

Nesse sentido, os autores recorrem a categorias teóricas do marxismo que são muito pouco utilizadas pela esquerda, tais como crise orgânica, bonapartismo judiciário e militar, golpe institucional e outras, procurando adotar um olhar suficientemente estratégico e internacional. 

O objetivo que perseguem, é o de contribuir para forjar as ferramentas teóricas que permitam entender a atual crise do governo Bolsonaro, seus prováveis desdobramentos e as saídas políticas na perspectiva da classe trabalhadora.

Ao final de contas, essa se tornou a grande virtude, por assim dizer, analítica, deste livro: repassar o ontem, o processo eleitoral distorcido, golpista, patrocinado pelo “partido do judiciário”, para entender o hoje, o marco atual de um governo instável, condicionado pelo desdobramento da luta de classes local e internacional.

Recorrendo a referências clássicas da tradição socialista, de Gramsci a Trotski, essa coletânea de textos pode surpreender o leitor com um olhar mais fecundo, teórica e estrategicamente, do que aquilo que tem sido escrito sobre o fenômeno Bolsonaro.

E também seguramente, ao final da leitura, se poderá encarar com todo vigor político, o quadro que estamos vivendo e preparar respostas alternativas para o ponto de mutação  no sistema político, na economia e na sociedade brasileira.

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