Os mortos vivos e os vivos mortos: uma análise da relação entre luta de classes e ideologia

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“(…) Todo um povo, que por meio da revolução acreditava ter obtido a força motriz necessária para avançar com maior celeridade, de repente se vê arremessado de volta a uma época extinta e, para que não paire nenhuma dúvida quanto ao retrocesso sofrido, ressurgem velhos elementos, a velha contagem do tempo, os velhos nomes, os velhos editais que já haviam sido transferidos ao campo de erudição antiquaria e os velhos verdugos que pareciam ter-se decomposto há muito tempo”  Karl Marx.

 

Por Mateus Castor

 

O Leviatã monarquista é requisitado e retirado de seu sarcófago real

 

Não é de hoje que a burguesia recorre aos mortos para enfrentar os vivos. Logo depois da Revolução Francesa, a classe dominante moderna vive com uma tarefa constante: o domínio das massas. Há tempos que os capitalistas soam frio diante do perigo de serem derrubados e derrotados pelos oprimidos e contra isso recorrem ao cemitério absolutista. Como assim cemitério absolutista? Não tiro essas analogias do bolso, mas sim da grande obra de Marx, “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, no qual ele retrata a conjuntura francesa no contexto da Primavera dos Povos de 1848 a 1851. Lá, ele mostra uma dinâmica que se aprofundará ainda mais no século XX e se tornará uma lei da mecânica da luta de classes a nível mundial, logo da forma como as classes se movimentam em sua constante luta.

 

Tal processo se dá no furacão das revoluções na Europa durante a Primavera dos Povos, consiste fundamentalmente na seguinte movimentação política: a burguesia abdica de sua luta contra a monarquia e o feudalismo para alia-se aos monarcas, contra os trabalhadores. Consequentemente combina seu conteúdo de dominação de classe, a propriedade privada e a mais-valia, com as formas de domínio do antigo regime, o autoritarismo de caráter monárquico. O objetivo central dessa combinação é a repressão das massas, em especial do crescente movimento operário. Para isso concilia em diversos níveis, de acordo com a necessidade, com a nobreza e monarquia. No livro citado acima, Marx coloca que:

 

Assim surge a figura de Bonaparte, seja o pai ou o sobrinho, na França e com ele as características enterradas dos regimes monárquicos. Como um rei com poder absoluto, o “genérico bonapartista” coloca-se acima da luta de classes e também acima das instituições burguesas. Como um árbitro todo poderoso e soberano, joga no lixo as formas burguesas modernas de domínio como o parlamento, a separação republicana de poderes e a constituição. É isso que Marx analisa em seu livro.

 

O contexto internacional no qual é escrito, A Primavera dos Povos de 1848 a 1851, é fechado à direita e o proletariado é derrotado. Na França primeiramente se desenvolve o Bonaparte, já que a monarquia francesa havia perdido a cabeça, literalmente. Porém, no fim está volta ao seu modo puro, não com um pequeno-burguês agigantado a Imperador, mas através de uma linhagem real de fato. A conciliação da burguesia nos outros países europeus com elementos do Antigo Regime contra a ameaça socialista também se dá. Os capitalistas que em 1789 cortaram cabeças, em 1851 firmavam uma forte aliança com as monarquias européias pelo medo de ver suas cabeças rolarem no chão.

 

Tal momento histórico acaba por estabelecer as bases da dinâmica da luta de classes nos momentos de crise aguda do capitalismo. Trotsky sintetiza essa tendência do desenvolvimento da estratégia burguesa de dominação com a conceitualização do “bonarpartismo”, que é justamente quando um indivíduo ou grupo se alça acima das classes sociais e suas frações como um juiz todo poderoso que atropela as formas modernas de dominação burguesas baseadas na constitucionalidade, na república e no parlamentarismo.

 

De 1848 aos dias atuais.

 

Hoje o domínio republicano-democrático consensuado pelas grandes potências imperialistas passa por abalos de diferentes intensidades e formas em diversos países, com fortes expressões nos EUA e Brasil. Fato reconhecido a sua maneira pelos intérpretes burgueses. Muitos analistas políticos de formação liberal,  afirmam que a democracia passa por problemas a nível mundial.

 

Essa crise salta aos olhos nos mais diversos ramos da sociedade burguesa. A burguesia, em sua luta contra os explorados e oprimidos, envolta de um crescente desespero, nos diversos momentos de crise capitalista, estende a mão em direção às catacumbas e aos cemitérios do Antigo Regime, do feudalismo. Para Damares e Edir Macedo. Não precisamos ir tão longe, estende a mão à ditadura militar, para Mourão e Cia. Junto aos mortos-vivos que ela desenterra, dos porões da ditadura ou da santa inquisição medieval, dos representantes do autoritarismo que ameaça até as bases da sua própria democracia burguesa, ressurge dos cérebros apodrecidos ideias obscurantistas.

 

Há uma determinada tendência reacionária que vêm ganhando força no contexto internacional de crise capitalista, essa encontra suas expressões em vários países do mundo: refiro-me a um certo movimento de teor anti-positivista, reacionário, não enquanto uma simples palavra pejorativa na política, mas enquanto uma reação literal contra as bases ideológicas da hegemonia burguesa moderna. Uma expressão nas “formas de pensar e agir” à direita na crise orgânica. Ocorre, nos confins da sociedade capitalista, uma fermentação de pensamentos arcaicos pré-capitalistas.

 

Não se trata daquele indivíduo pequeno burguês que é somente contra o aborto e considera que “bandido bom é bandido morto”. Não se trata também de um conservadorismo do tipo religioso, o qual já sabe muito bem o seu padrão típico, de “Deus, Família e Propriedade”, consignas que remetem a concepção programática dos setores conservadores das classes dominantes. Se trata de algo mais preocupante e que volta algumas centenas de anos na história humana. No Brasil, ganha terreno o questionamento contra a evolução de Darwin, posições medievais do fanatismo cristão Há uma tendência internacional expressa sobretudo nos movimentos terraplanistas e anti-vacina que atingem, não por acaso, aquelas países com elementos bonapartistas e com peso da extrema-direita, como EUA e Brasil e também na Itália.

 

A reação, sua batalha ideológica e suas formas aberrantes.

 

Uma santa aliança entre Igreja, Militares e latifundiários está longe de ser uma novidade histórica. Não é por acaso que esses são um dos principais pilares do novo governo Bolsonaro, também não é coincidência que essa tríade reacionária traga consigo fatores pré-capitalistas. O cristianismo é uma instituição milenar, existe há mais de dois mil anos e sobreviveu, não sem intensas transformações, ao Império Romano, ao feudalismo e hoje é uma das religiões mais fundamentais da sociedade burguesa. Os militares surgiram paralelamente a formação do Estado também há milênios, afinal, como pontua Engels, para além de ser um órgão de domínio de classe, para exercer esse domínio é preciso deter o monopólio da violência, um destacamento de homens armados. Já os latifundiários são a versão moderna e capitalista dos grandes detentores de terra feudais, os gigantescos pedaços de terra na mão de um punhado de oligarcas resistiram até hoje em muitos locais do mundo diante da ameaça da reforma agrária, uma medida capitalista de democratização da terra. Diante de fatores antigos, anteriores ao mundo capitalista, mas que hoje são fundamentais à sociedade burguesa, é impossível não haver expressões ideológicas também pré-capitalistas que esses setores carregam consigo.

 

Dessa nova dinâmica nas relações internas da classe dominante e da formação de uma nova hegemonia, vemos reflexos diretos na ideologia e na cultura. O Escola Sem Partido têm a dádiva de ser um ótimo exemplo da reação à direita da crise orgânica, atinge o econômico, o social e o ideológico-cultural.

 

O aumento do obscurantismo vem se tornando um problema com consequências em grandes mídias como o YouTube, que foi acusado de ser um grande semeador não só de fake-news, mas de teorias obscurantistas e anti-científicas, como o terra planismo, que teve um documentário na NetFlix tamanho o peso que ganhou, ou conspirações contra a vacinação e outras.

 

Consta em matéria publicada no El País: “Apenas 66% dos jovens de 18 a 24 anos nos Estados Unidos têm plena certeza de que vivemos em um planeta esférico (76% na faixa de 25 a 34 anos). Trata-se de um fenômeno global, também presente no Brasil, que costuma ser motivo de piada. No entanto, quando observamos os mecanismos psicológicos, sociais e culturais que levam as pessoas a se convencerem dessa gigantesca conspiração, descobrimos uma metáfora perfeita que resume os problemas mais representativos de nossa época. Embora pareça medieval, é muito atual.”

 

A pós-modernidade, a soberania das narrativas subjetivas e a negação de uma realidade concreta, colhe seus frutos em expressões aberrantes da crise orgânica. Não se trata de uma piada, ou de ficção científica, o capitalismo num movimento centrífugo choca contradições que o constituem enquanto sistema moderno. Nos períodos de crise, sua estrutura formada durante séculos de luta de classes se escancara, e sua combinação com elementos pré-capitalistas em nome de proteger-se da ameaça socialista, ganham mais peso. No contexto político em que a crise orgânica se desenvolve em vários países do mundo, em intensidades e formas diferentes, há novos elementos aberrantes no quesito das “novas formas de pensar e agir” em processo de formação na consciência de milhões de pessoas. Essas saídas obscurantistas colocadas aqui, mostram também uma crise de representatividade das massas não só no âmbito político como também no ideológico, subjetivo e cultural, um momento de crise epistemológica da consciência coletiva, como acabam mostrando pesquisadores do tema.

 

“Mas essas crenças não surgem do nada; existem fatores sociais que influem de maneira determinante. Por exemplo, sabe-se que as pessoas que se sentem impotentes ou desfavorecidas têm mais probabilidade de apoiá-las (como as minorias étnicas marginalizadas), e que tais noções se correlacionam com o pessimismo ante o futuro, a baixa satisfação com a vida e a pouca confiança interpessoal. “Devemos entender esses movimentos dentro do nosso contexto socioeconômico. Crescem as disparidades sociais entre os que têm mais privilégios e mais carências. E isso aumenta a desconfiança em relação aos governos e especialistas”, diz Martínez-Conde.”

 

Deixem os mortos enterrarem seus mortos

 

Não é de hoje que sofremos com os reflexos do obscurantismo. Já em 1996, Carl Sagan, renomado físico norte-americano, escreveu um livro, chamado O mundo assombrado pelos demônios no qual trava uma dura batalha contra os fantasmas do passado. Os movimentos obscurantistas não surgem a partir de formação espontânea, já estavam por aí antes do estalar da crise mundial de 2008. Sagan consta que, mesmo nos EUA, no final do século passado “levantamentos sugerem que 95% dos norte-americanos são “cientificamente analfabetos”, ou seja que não tem noção do método científico de compreensão da realidade.

 

Dos EUA à Índia e Europa, assim como nos Estados da extinta URSS. Sagan mostra o fortalecimento na década de 90 da pseudociência. E embora fosse a década da vitória capitalista dos EUA e a derrocada da burocracia soviética, formando o domínio global deste país sobre o Globo, o mundo vivia um momento de transição de etapa e crise, o que abriu espaço para a evolução e fortalecimento do obscurantismo.

 

Sagan retoma a um dos maiores revolucionários do século XX para exemplificar a situação do ponto de vista político. Cita uma descrição de Trotsky sobre a situação alemã às vésperas de Hitler tomar o poder:

 

“Não é apenas nas casas dos camponeses, mas também nos arranha-céus das cidades, que o século XII vive ao lado do XX. Cem milhões de pessoas usam a eletricidade e ainda acreditam nos poderes mágicos de sinais e exorcismos (…). As estrelas de cinema procuram médiuns. Os aviadores que pilotam mecanismos milagrosos criados pelo gênio do homem usam amuletos em seus suéteres. Como são inesgotáveis as suas reservas de trevas, ignorância e selvageria!”

 

E embora os anos 30 sejam diferentes da década de 90, assim como hoje passamos por outro momento de características distintas, é interessante notar a lógica interna dessa relação. Não é de hoje que o aquecimento global e as vacinas são questionadas, já ocorre tal questionamento há décadas.

 

A história moderna se desenvolve através do constante choque e combinação de elementos pré-capitalistas e capitalistas, tanto materiais na formação estrutural da sociedade burguesa, como a família, religião e o exército, como na reprodução imaterial na ideologia e cultura. Combinação resultante da dinâmica da luta de classes no século XIX, principalmente com a Primavera dos Povos e seus resultados práticos: a conciliação burguesa com a monarquia feudal na política contra a classe trabalhadora que protagoniza revoluções e levantes por toda a Europa. Essa aliança que unificou o programa capitalista e feudal, teve por fim o objetivo estratégico de proteger a dominação de classe burguesa, essa reconfiguração das posições políticas na luta de classes teve reflexos profundos tanto na estrutura como na superestrutura. A reprodução desta aliança em todos os aspectos da vida social e cultural da civilização capitalista foi uma consequência lógica se levarmos em conta que o pensamento e a ideologia predominante em um período histórico e o da classe dominante deste momento. Não é por acaso que Karl Marx coloca que a locomotivas da história são as revoluções. Seus trilhos que direcionam seus caminhos só poderiam ser a luta de classes.

 

Não é por acaso a citação de Trotsky no livro de Sagan. Seu pensamento revolucionário e o contexto social no qual estava imerso, de crise guerras e revoluções, deram origem a uma lei sócio-histórica: o desenvolvimento desigual e combinado. Quando se trata da análise da combinação de elementos pré-capitalistas com elementos capitalistas e seu desenvolvimento histórico por um processo desigual das relações econômicas e sociais, não há melhor inspiração do que Trotsky.

 

Tudo que é humano, não nos é estranho. Neste sentido, todos os fenômenos políticos à direita e suas repercussões ideológicos e culturais – incluindo os mais aberrantes como os movimentos terra planista, anti-vacina e a escalada do criacionismo – que ganham espaço na sociedade burguesa hoje, são incompreensíveis até o final se arrancados das múltiplas determinações que formam sua base de origem e o contexto de crise orgânica que atinge vários locais do planeta, tiradas essas bases, vemos o fortalecimento da extrema-direita como simples insanidade, falta de educação ou uma caminhada irracional da humanidade contra o abismo da barbárie. A questão olhada do ponto de vista histórico, se apresenta de outra forma. O espectro medieval, anti-científico que ataca as bases ideológicas do pensamento burguês-liberal não surgiu do nada, elementos pré-capitalistas fazem parte do sistema capitalista, a questão é quando as classes dominantes resolvem tirá-los do bolso e colocá-los da marginalidade à posições mais importantes de poder político.

 

Não é um caso de simples educação, embora a falta dessa tenha um grande peso na conquista de espaço das ideologias obscurantistas, como Sagan coloca “As divulgações escassas e mal feitas da ciência abandonam nichos ecológicos que a pseudociência preenche com rapidez”. Não é coincidência o interesse de setores arqui-reacionários da sociedade capitalista com o Escola Sem Partido e todo seu obscurantismo.

 

Não é por procedência divina que este projeto tenha seus defensores nas Igrejas, afinal é preciso exterminar a educação sexual com bases científicas para dar mais espaço à dominação religiosa da vida familiar e sexual, fortalecer a posição de submissão feminina e sua subordinação em casa e no local de trabalho. Além de tornar a evolução só mais uma teoria, reerguer das cinzas medievais o criacionismo para subordinar ainda mais a espécie humana aos caprichoso destino desenhado por Deus de miséria e exploração com a promessa da salvação na ilusão do paraíso. O Escola Sem Partido é essencial para a falsificação histórica da ditadura, sua glorificação e mistificação, assim como institucionalizar as justificativas de uma possível repressão sangrenta e autoritária dos militares contra os explorados e oprimidos. As classes dominantes no Brasil procuram re-configurar uma nova ideologia e propaganda para dar bases ao novo projeto capitalista que têm como objetivo central fazer com que os explorados e oprimidos paguem pela crise gerada pela burguesia, para isso.

 

As classes dominantes capitalistas foram incapazes de enterrar os seus próprios mortos porque o obscurantismo além de ser reflexo das bases materiais do sistema capitalista, é importante para operar na consciência das massas. É importante para justificar o irracionalismo de querer resolver crises econômicas tirando o emprego de dezenas de milhões de trabalhadores ao passo que aumenta a carga e o tempo de trabalho dos empregados, atacar o pensamento crítico faz sentido se ele atrapalha as subjetividades e reações emocionais naturalizadas do mercado, que pode ser vítima de “estresse” e deteriorar as condições econômicas e de vida de bilhões de pessoas.

 

Não há nada melhor para fortalecer o caráter repressivo da dominação burguesa  do que soltar os cães apodrecidos dos caixões medievais, trazer ao centro os setores arcaicos que eram dominantes na época dos Reis e Rainhas, em que a expectativa de vida era de 20 à 30 anos, aos tempos gloriosos das Cruzadas, da colonização, da Santa Inquisição e da servidão. A igreja, grandes proprietários de terra e os detentores do monopólio da violência estatal, em sua forma moderna, não estão mais em defesa de Deus e da lei divina como milênios atrás, mas em defesa de uma dupla entidade metafísica mais moderna e poderosa do que qualquer deus já existente: o capital e a propriedade privada.

 

Com toda essa conversa, chegamos ao ponto central: da mesma forma que, com seu caráter contra-revolucionário, a burguesia para defender seu domínio de classe, sustentado na exploração e na opressão, recorre aos defuntos do feudalismo e sua ideologia obscurantista, o proletariado, com seu caráter revolucionário, para conquistar até mesmo direitos democráticos elementares – como foi a questão da reforma agrária na Rússia e seu papel na Insurreição de Outubro – recorre à medidas socialistas. Por isso, Trotsky desde a Revolução de 1905, defendia que a Revolução Russa, mesmo está ainda afundada na monarquia, seria uma revolução socialista que derrubaria o Estado monarquista e ergueria um Estado Operário.

 

Como colocado, na Teoria da Revolução Permanente: “Ela demonstrava que, em nossa época, o cumprimento das tarefas democráticas, proposto pelos países burgueses atrasados, conduzia diretamente à ditadura do proletariado, que coloca as tarefas socialistas na ordem do dia. Nisto consistia a idéia fundamental da teoria. Enquanto a opinião tradicional considerava que o caminho para a ditadura do proletariado passa por um longo período de democracia, a teoria da revolução permanente proclamava que para os países atrasados, o caminho para a democracia passa a ditadura do proletariado. Por conseguinte, a democracia era considerada não como um fim em si, que deveria durar dezenas de anos, mas como o prólogo imediato da revolução socialista, à qual se ligava por vínculo indissolúvel. Desta maneira, tornava-se permanente o desenvolvimento revolucionário que ia da revolução democrática à transformação socialista da sociedade.”

 

O desenvolvimento histórico da luta de classes moderna até os nossos dias advoga a favor da concepção de Trotsky: em 1848, para a derrubada até o final da velha sociedade, a burguesia liberal, democrática e republicana, teria de levar até às últimas consequências aquilo que defendeu em 1789. A questão é que não há “liberdade, fraternidade e igualdade” numa sociedade cujas bases se dão na metafísica do Capital e na escravidão da mais-valia que para sustentar-se precisam de classe. Em 1917, coube ao proletariado tomar para si as tarefas democráticas abandonadas pela própria burguesia. Coisa que aconteceu na prática, mas que até a Revolução era uma concepção teórica e estratégica bem minoritária. As posições mais fortes dentro da social-democracia europeia de conjunto defendiam a necessidade da Rússia passar por uma revolução burguesa e um desenvolvimento capitalista por décadas, aos moldes das potências Europeias, só assim poderia se falar de socialismo. Contudo, a prática é o critério da verdade. A primeira revolução proletária vitoriosa do mundo mostrou a fortaleza da concepção trotskista, ela foi provada pela História.

 

A burguesia mostra-se numa derrocada completa, para manter o seu domínio, sempre está predisposta a jogar no lixo quaisquer que sejam os direitos democráticos. É a classe trabalhadora, as mulheres, os negros, LGBTs e todos os explorados e oprimidos pela irracionalidade capitalista que podem travar consequentemente sua luta contra o avanço dos setores mais reacionários que agora ocupam um importante papel, ainda em formação, no governo Bolsonaro. Não há como confiar nos setores burgueses ditos democráticos que defendem as “liberdades individuais” e a “democracia” em abstrato que no final de contas estão ansiosos pelos ataques prometidos pelo governo contra as massas, junto às frações burguesas da bancada da bala, bíblia e boi.

 

Contudo, Trotsky não pensa nisso a partir da aparição do espírito santo, ele sintetiza a dinâmica das revoluções da era moderna que Marx anteriormente já tratará à respeito em 1851. É tarefa da revolução se desgarrar da metafísica da pré-história humana, reinada pela necessidade, e ser o big bang para o reino da história e liberdade.

 

“Não é do passado, mas unicamente do futuro, que a revolução social do século XIX pode colher a sua poesia. Ela não pode começar a dedicar-se a si mesma antes de ter despido toda a superstição que a prende ao passado. As revoluções anteriores tiveram de recorrer a memórias históricas para se insensibilizar em relação ao seu próprio conteúdo. A revolução do século XIX precisa deixar que os mortos enterrem os seus mortos para chegar ao seu próprio conteúdo. Naquelas, a fraseologia superou o conteúdo, nesta, o conteúdo supera a fraseologia.”

 

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