Zanon: Fábrica militante sem patrões [Parte I]

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No Suplemento semanal Ideias de Esquerda trazemos em exclusiva em português o primeiro capítulo do livro “ZANON, Fábrica militante sem patrões. O papel dos trotskistas” escrito pelo dirigente trotskista argentino e trabalhador de Zanon, Raul Godoy e lançado recentemente na Argentina pelo Instituto de Pensamento Marxista Karl Marx (IPS). O texto será publicado em partes no presente e nos próximos números do suplemento. Um depoimento de dentro da fábrica mostrando a gestação do movimento que finalmente levará a fábrica de cerâmicas Zanon a ser gerida e controlada pelos seus próprios trabalhadores. Uma fábrica com um regime muito duro de trabalho, inaugurada na ditadura argentina. Um relato em primeira pessoa de um dos processos e experiências mais profundos da história recente do movimento operário argentino e uma fonte de importantes lições sobre as “escolas de guerra” e o papel das direções do movimento operário, a importância da recuperação dos sindicatos das mãos da burocracia, desenvolvendo a democracia operária: “mudar tudo”.
Na edição de hoje, acompanhamos a primeira parte do texto com o primeiro capítulo legendado da série-documentário “Zanon: Fio Vermelho”:

O porquê deste livro

Comecei trabalhar em Zanon em meados dos anos 1990, anos de “neoliberalismo”, tempos difíceis para o movimento operário e a esquerda, tanto no nível político como ideológico, porque o neoliberalismo não era só um plano econômico, mas também uma reação ideológica que tinha nível internacional. A decadência econômica do país e a miséria crescente andavam de mãos dadas com a entrega nacional às multinacionais e a maior sujeição aos países imperialistas, quando todas as empresas do Estado e os recursos nacionais foram vendidas por moedas aos monopólios internacionais.

Nosso partido, o PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas NdT), era um núcleo que resistiu à crise do velho MAS, do qual viemos. Éramos um grupo pequeno de militantes, creio que chegávamos a duzentos por todo o país na época. Eu fui parte de sua fundação, vivia na época em La Plata, onde havia ido estudar, e terminei abraçando a militância revolucionária. Trabalhava de oficial de pedreiro na Direção Nacional de Escolas, uma entidade estatal dedicado a construção e manutenção de edifícios escolares. Como parte da reforma do Estado, deixaram meu contrato sem efeito . Por causa da situação da região com a privatização da YPF (empresa estatal petrolífera da Argentina, NdT) e outras empresas milhares de pessoas foram parar na rua.

Por esse motivo, nós voltamos a Neuquén, lugar onde nasci e me criei, com minha companheira na época, Graciela Franol, e nossos dois filhos pequenos, Lucía e Natalia. Tinha o desafio de ir construir o partido na província – éramos um pequeno grupo inicial de seis companheiros – e a possibilidade de começar a trabalhar em Zanon, buscando uma estruturação no movimento operário.

Nos meus primeiros anos na fábrica, comecei a me relacionar com meus companheiros mais ativos e sensíveis, na tentativa de confluir com base em uma experiência em comum sobre as lições tiradas dessas experiências, contribuindo em debates ideológicos e dando um horizonte político a nossas ações cotidianas. Nesses anos de reação ideológica, isso era muito difícil, as conversas giravam em torno do último modelo de carro ou de televisão e quando se falava dos piquetes era para fazê-lo de uma forma depreciativa. Mas isso começou a mudar com os ares do Cultracaço (1) e com nossos primeiros passos na organização. Esse livro é uma forma de valorizar e demonstrar esse gesto dos operários ceramistas para toda a vanguarda operária e juvenil.

Muitos livros (2), folhetos e artigos já foram escritos sobre a nova e importante experiência dos operários ceramistas de Zanon, que se fez conhecida como parte do processo de ocupação de fábricas após 2001 na Argentina. Inclusive se produziram filmes e documentários, e seu exemplo percorreu vários países do nosso continente e da Europa. Mas pouco se conhece sobre como foi se gestando e preparando a organização operária dentro da fábrica, escrita pelos próprios militantes e protagonistas centrais dessa gestão. Este capítulo está dedicado a resgatar essas tarefas militantes preparatórias.

Nossos primeiros passos

Quando comecei a trabalhar na fábrica, ela estava funcionando a pleno vapor e haviam expandido as instalações para produzir porcelanato. Era o início dos anos de 1990, na plenitude da época Menem-Cavallo (3), com muita venda de cerâmica e altíssima produção.

Durante o menemismo, por baixo, ia se aglutinando o descontentamento popular, inclusive antes de a crise se manifestar abertamente. Exemplo disso foi o fenômeno em Santiago del Estero, quando, em 1993, começou a se desenvolver um processo de lutas dos servidores públicos, até porque não se centrava nas grandes cidades, mas nas “bordas”. O “Santiagueñazo”, pela radicalização de seus métodos de luta, combinando a paralização com mobilizações populares e da juventude, e ainda que tenha tido um alto grau de espontaneidade, foi um marco na luta da classe trabalhadora. Também em 1996, em Neuquén, irromperam os trabalhadores desempregados de Cutral Có (cidade na província de Neuquén), cortando rodovias e se enfrentando contra a repressão (4).

A Patagônia foi cenário de numerosas mobilizações. Entre as ações mais importantes do movimento operário, quero destacar duas. Em primeiro lugar, a luta dos mineiros da Hierro Patagônico de Sierra Grande (HIPASAM), em maio de 1991, como resposta ao decreto de Menem de intervenção e o cessar de sua produção. A ausência de atividade da mina teve forte impacto nessa localidade da província do Rio Negro. Começou um êxodo de sua população e as autoridades municipais declararam a emergência social, econômica e sanitária. Os mineiros e suas famílias se colocaram em pé de luta realizando um prologado corte de rodovia com a demanda de soluções para a situação crítica de todo o povo. Os mineiros se manifestaram em frente ao Congresso Nacional e a Casa Rosada (Palácio Presidencial argentino) enquanto os estudantes secundaristas ocupavam as escolas. Os protestos alcançaram uma grande difusão nos meios de comunicação que mostravam a luta de todo um povo e encabeçada pelos mineiros, com as mulheres acampando na estrada, onde se realizavam, ainda, assembleias, e também no pátio das escolas ocupadas. O governo prometeu uma falsa reabertura das minas. Os mineiros avançavam na coordenação da luta e, em outubro desse mesmo ano, os trabalhadores de HIPASAM, de Somisa (5) e de Altos Hornos de Zapla (6) se uniram numa grande manifestação contra o plano de privatização da siderúrgica estatal. Por sua vez, o governo seguia com seu plano e, em janeiro de 1992, veio o decreto presidencial que ordenava a liquidação da empresa. Esse foi o fechamento definitivo: a produção cessou, grande parte de seu maquinário foi retirado com destino incerto e as famílias que habitavam seus bairros foram desalojados. A greve terminou numa derrota que, no entanto, deixou vários ensinamentos.

Outra luta, também muito importante na Patagônia, foi a dos metalúrgicos de Ushuiaia, quando em abril de 1995 ocuparam a planta “Continental” contra os ataques da patronal. A repressão do governo provincial começou com a ordem de despejo, foram doze horas de enfrentamento nas ruas. A polícia perseguiu os companheiros por toda a cidade, com cassetetes, a pontapés, coronhadas, balas de borracha e de chumbo. Os operários se defendiam heroicamente. No meio desses duros enfrentamentos, caiu Victor Choque, que se converteu em nosso primeiro mártir operário na “democracia”. A “UOM” (7), que vinha boicotando a luta, se viu obrigada a chamar uma paralização, que finalmente teve que ser apoiada pela CTA (8) e a MTA (9). O movimento operário do sul do país sofreu duras derrotas, enquanto no país as revoltas de servidores públicos continuavam se desenvolvendo com métodos violentos, fazendo arder, a seu tempo as odiadas, instituições do regime.

No entanto, esse processo acabou isolado pela cumplicidade da burocracia sindical que impediu seu desenvolvimento nacional, e contribuiu assim para sua derrota, para manter a estabilidade do regime político.

Enquanto o desemprego crescia, os trabalhadores de Neuquén avançavam em sua organização. Em 1995, colocavam de pé a Coordenação de Desempregados, exigiam que o governo aceitasse os projetos laborais que apresentavam e um subsídio de duzentos pesos para os maiores de dezesseis anos, incluindo os trabalhadores imigrantes. Essa reivindicação era muito progressiva e se contrapunha à política reacionária da burocracia da UOCRA (10), que discriminava os trabalhadores estrangeiros e os responsabilizava pelo crescimento do desemprego, quando a construção civil entrava em decadência.

Com uma ação ofensiva, ocuparam a Municipalidad (Câmara Municipal) e, posteriormente, a Casa de Governo (Prefeitura), mas por falta de preparação foram violentamente desalojados. Os companheiros, que depois integrariam o MTD (11), vinham da construção civil e muitos deles haviam participado dos agrupamentos antiburocráticos da UOCRA (12), que haviam conseguido recuperar o sindicato nos anos de 1980, além de vários dirigentes terem militado em partidos de esquerda.

Em Zanon, um punhado de operários e eu seguíamos com muita atenção o desenrolar do processo; esperávamos que o exemplo dessa luta entrasse na fábrica, mas a derrota sofrida pelos desempregados que estavam dando seus primeiros passos nesse momento o impediu.

Sabia que em Zanon havia um regime de ditadura. Entrávamos contratados (quatro contratos a cada seis meses) e se alguém se negasse a fazer hora-extra era demitido; se acidentava-se, era demitido; se faltava por doença, era demitido. Essa fábrica tem sua história, foi fundada durante a última ditadura militar argentina e tinha um regime duro, estava banida qualquer agrupação que cheirasse a política. Havia uma burocracia sindical pelega, policial.

Eu estive praticamente seis meses sem nenhuma folga, trabalhando 16 horas de segunda a segunda. O ritmo de produção era infernal e levava a gerar uma alta porcentagem de “acidentes”. Nas 8 horas que restavam depois das 16 horas de trabalho, levava-se uma hora de viagem para ir e uma para voltar, então o tempo de descanso se reduzia a 6 horas, para comer, tomar banho, compartilhar com a família e, no meu caso, poder falar de política alguma vez a cada tanto com algum companheiro. Só nos deixavam ter um dia para descansar se doássemos sangue. Fui um doador voluntário e a cada três meses o fazia. Para mim, foram anos de cão de qualquer ponto de vista.

No começo, na fábrica, acho que o mais revolucionário foi calar a boca e desenvolver um trabalho clandestino, para nos preservar dos “amigos” da burocracia, porque os primeiros companheiros que conquistamos fracassavam ao se expor e falar sem cuidado com eles. Então, o primeiro que tivemos que fazer era distinguir os ativistas e os melhores companheiros. Porque quando detectavam que se juntavam três operários na fábrica, em seguida, o supervisor ou a burocracia vigiavam. Eu tive a má sorte de estar em um setor onde acima estava toda a gerência que observava de janelões, e abaixo, muito perto, o “covil” da burocracia. Havia uma agrupação sindical, a “Verde y Blanca” (“Verde e Branca”), um racha sindical de Montes com alguns companheiros honestos, mas não era algo muito firme e, no entanto, varreram a todos os seus dirigentes. Isso foi entre 1996 e 1997.

Começamos a nos organizar nos reunindo para jogar futebol, tomar uma cerveja para obter confiança. Em alguns setores, se acumulava ódio porque as condições de trabalho se faziam insuportáveis.

Em 1996, começa uma certa resistência, e a burocracia teve que se colocar à frente desse processo, porque havia eleição no sindicato e uma chapa opositora havia se apresentado, a Verde y Blanca. Após as demissões, a burocracia mudou o discurso e convocou uma paralização dentro da fábrica para descomprimir a pressão da base. Mas a paralização foi tomada pelo conjunto dos trabalhadores e surgiu um ativismo que garantiu que acontecesse. Durou três dias e foi uma paralização absoluta, superando totalmente o controle dos dirigentes. Para todo mundo foi uma paralização histórica e isso custou a cabeça do gerente da fábrica Abrutín. Comecei a me colocar mais em contato com os ativistas que haviam surgido, foi a primeira vez que intervi em uma assembleia de fábrica. Depois dessa assembleia, vários companheiros vieram falar comigo. O clima havia mudado.

Nesses anos, o que primava para nós como corrente política era a firme convicção na potencialidade da classe operária, em um momento em que eram milhares que desertavam dessa estratégia na esquerda mundial. Era a defesa do marxismo contra a ofensiva reacionária, tanto em nível ideológico como político, em que havia uma descrença na classe operária – inclusive os intelectuais escreviam sobre o fim do trabalho e dos trabalhadores – e mais ainda na revolução e na necessidade de construir um partido para tal fim. Éramos, como disse, um pequeno grupo fundador, de resistência, que viemos para desenvolver as etapas preparatórias que tivemos que fazer contra a corrente.

A primeira etapa de Zanon consistiu fundamentalmente na organização a partir da fábrica – que combinou o trabalho “legal” e “clandestino” – para começar a enfrentar a patronal e fortalecer a confiança operária. Necessitávamos tirar o colete de força da burocracia sindical, recuperando a confiança em nossas próprias forças. A conquista da Comissão Interna, com a assembleia como uma instituição soberana na qual se resolvia tudo, foi o primeiro passo. Enquanto nos organizávamos e nos preparávamos para estas lutas por nossos direitos, sabíamos que cada batalha, por pequena que fosse, devíamos pensar como o que Lênin denominava “escola de guerra”:

“A greve ensina aos operários a compreender qual é a força dos patrões e a dos operários: ensina a pensar, não só no seu patrão, nem em seus camaradas mais próximos, mas em todos os patrões, em toda a classe capitalista e em toda a classe operária […] abre os olhos, não só no que se refere aos capitalistas, mas também no que diz respeito ao governo e às leis […] [operário]. Começa a compreender que as leis se ditam em benefício exclusivo dos ricos, que também seus funcionários defendem os interesses dos ricos” (13).

Neste sentido, a “escola de guerra”, que não é “a guerra mesma”, é a chave nas etapas prévias para formar dirigentes operários que se preparem para futuros ascensos. Zanon é uma experiência viva do que dizemos, uma fortaleza operária que se mantém depois de dezessete anos apesar do constante assédio capitalista.

  1. Levante dos trabalhadores desempregados na localidade petroleira de Cutral Có na província de Neuquen. É onde na Argentina os trabalhadores desempregados desenvolveram a maior criatividade com seu novo método de de luta e organização, que os localiza como potencial aliado do movimento operário empregado, se este levanta audazmente suas demandas
  2. Ver por exemplo Fernando Aiziczon, Zanon, uma experiência de lucha obrera, Buenos Aires, Herramienta- El Fracasso, 2009
  3. Domingo Cavallo, Ministro da Fazenda do Governo Menem.
  4. Este levante foi precedido por um pequeno povoado em Senillosa
  5. SOMISA (Sociedad Mixta Siderúrgica Argentina), ex-estatal argentina.
  6. Alto-forno reator químico, na siderurgia, utilizado para reduzir o minério de ferro para transformá-lo em ferro-gusa. (NDT) Complexo siderúrgico que se localiza em Palpalá, provincia de Jujuy.
  7. Union Obrera Metalúrgica (ou União Operária Metalúrgica, em tradução livre).
  8. Central de Trabajadores de Argentina (ou Central de Trabalhadores da Argentina, em tradução livre). Foi fundada em 1991 como uma alternativa a CGT peronista, como peso majoritário de servidores públicos e de serviços.
  9. Movimento de Trabajadores Argentinos (ou Movimento de Trabalhadores Argentinos, em tradução livre) liderado por Hugo Moyano que em 1994 se constituiu como uma facção interna da CGT.
  10. Union Obrera de la Construcción de la República Argentina (ou União Operária da Construção da República Argentina, em tradução livre).
  11. Movimento de Trabajadores Desocupados (ou Movimento de Trabalhadores Desempregados, emtradução livre).
  12. Foi um processo que envolveu milhares de operários em torno da nova direção Naranja (laranja), hegemonizada pelo MAS, que implicou na conquista da primeira secção da UOCRA retirada das mãos da burocracia sindical pela esquerda (em 1984 foram os Naranjazos na UOCRA com Selesky em Neuquén, Campana, Lomas de Zamora e Celeste de La Plata). Os trabalhadores demitidos do MTD que, como assinalamos, foram parte importante do processo de recuperação do sindicato pelos operários da construção civil de Neuquén, tiraram duas importantes conclusões: lutar por trabalho genuíno e se unir com o movimento operário empregado.
  13. Vladimir Lenin, Obras Selectas, T.I, Buenos Aires, Edições IPS, 2013, p. 65-66.

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