Gênero e sexualidade

8M - ESTADOS UNIDOS

Women’s Strike convoca a construção de um feminismo anticapitalista e a paralisar neste 8M

Neste domingo, em Nova York, a International Women’s Strike (Paralisação Internacional de Mulheres) fez um chamado para colocar de pé um feminismo anticapitalista, antiracista e antiimperialista e paralisar neste 8 de março.

quarta-feira 7 de fevereiro| Edição do dia

No dia 20 de janeiro, o aniversário do primeiro ano da presidência de Donald Trump e pelo segundo ano consecutivo, milhares de Mulheres tomaram as ruas dos Estados Unidos para exigir seus direitos e contra o presidente. Como era de se esperar de um presidente que defende o assédio sexual, foi um ano de ataques contra as mulheres assim como também contra outros setores oprimidos. Também foi o ano do movimento #MeToo, que por vários meios denúncia a violência sexual contra mulheres pobres e negras e a epidemia de assédios em Hollywood e dentro da elite política do país.

Como no ano passado, o Partido Democrata fez o maior esforço possível para cooptar a marcha de mulheres, "Women’s March". Uma das principais consignas foi "todo poder às urnas" sustentando que nós mulheres deveríamos confiar no Partido Democrata para defender nossos direitos. Neste ano, a Women’s March de Los Angeles convidou Scarlet Johansson, reconhecida sionista, para falar no palco e incluiu um grupo chamado “Zionesses”, que dizem ser sionistas “progressistas”.

De qualquer forma, o fato de que milhares de mulheres tenham saído às ruas por dois anos seguidos contra a misoginia de Trump mostra que, longe de aceitar seus ataques passivamente existe vontade de se manifestar contra. No entanto, não é suficiente que o movimento de mulheres se oponha à Trump; o que precisamos é um movimento de mulheres com uma estratégia claramente independente dos partidos que representam os ricos.

O fato de que #MeToo tenha revelado a violência sexual exercida pela elite de Hollywood contra as estrelas demonstra que nem a riqueza vai proteger as mulheres de nenhuma forma do assédio. Ainda assim, milionárias como a Oprah estão desejosas de dar soluções ao descontentamento de milhares de mulheres contra a violência sexual sem questionar mais profundamente o sistema capitalista que reproduz e se sustenta nessa violência. É por isso que precisamos de um feminismo diferente.

No ano passado e pela primeira vez nos Estados Unidos, se fez o primeiro chamado a construir o International Women’s Strike (IWS, Paralisacao Internacional de Mulheres) com uma clara consigna por um feminismo dos 99% - uma clara ruptura com o feminismo neoliberal que ostentam as mulheres do Partido Democrata. o chamado, assinado por figuras como Angela Davis, Cinzia Arruzza, Keeanga-Yamahtta Taylor, Linda Martín Alcoff, Nancy Fraser e outras dizia:

“As condições de vida das mulheres, especialmente as mulheres de cor e trabalhadoras, desempregadas e imigrantes, tem se deteriorado continuamente nos últimos 30 anos devido a ofensiva neoliberal. O feminismo neoliberal e outras variantes do feminismo corporativo falharam para a esmagadora maioria de nós que não tem acesso a melhorar sua condição econômica e social. Este feminismo, falhou também em lutar pelos direitos reprodutivos e os direitos trabalhistas de milhões.

Como nós o vemos, a nova onda de mobilizações de mulheres deve atacar as condições às quais somos submetidas pelo capitalismo de maneira direta. Deve ser um feminismo dos 90%. O antiimperialista, anticapitalismo, antiracismo e a inclusão de mulheres trans caracterizou a International Women´s Strike desde as suas origens".

Este chamado provocou manifestações em todo território dos EUA, com varios milhares de pessoas reunidas em Nova York e inclusive varios distritos escadas fechados como resultado da greve.

Neste ano, a IWS chama novamente a uma paralisação de uma hora das 4 as 5 da tarde do 8 de março e, em Nova York, uma manifestação. O chamado nacional declara:

“No 8 de março paralisaremos contra a prisão massiva, a violência policial e os controles de fronteiras, contra o supremacismo branco e os tambores das guerras imperialistas dos EUA, contra a pobreza e a violencia estrutural camuflada que fecha nossas escolas e hospitais, envenena a nossa água e nossa comida e nos nega os direitos reprodutivos. E paralisamos pelos nossos direitos trabalhistas, por todos os direitos para as imigrantes, igual remuneração e igual salário por igual trabalho, porque a violência sexual nos locais de trabalho piora quando não temos meios coletivos de defesa".

Estas posturas diferenciam o feminismo de 99% do feminismo do "poder das urnas" que vimos há duas semanas tentando se apropriar do descontentamento das ruas.

Chamado a se mobilizar e paralisar em Nova York

Em Nova York, ao redor de cem pessoas se aproximaram neste domingo para o evento de lançamento da IWS. O painel incluiu um diverso grupo de mulheres que discutiu sobre imperialismo, as lutas operárias, a violencia sexual e policial e a necessidade de construir um feminismo que lute contra todas as formas de violência contra a classe trabalhadora e os oprimidos. Um movimento de mulheres internacionalista que lute contra a opressão imperialista em todo o mundo.

A primeira oradora, Jeanette Vizguerra, foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes pela revista Time depois de ter procurado refúgio em uma igreja em Denver frente ao perigo iminente de ser deportada e ganhar o direito de permanecer nos EUA. Contando sobre sua luta disse: "Falo sem pelos na lingua, como dizemos no México. Mando esta mensagem ao presidente Trump: Não tenho medo. Este sistema quer nos oprimir e silenciar, mas isso não vai acontecer."

Depois falou María Inés Orjuela, uma trabalhadora hoteleira que recentemente conquistou, junto aos seus companheiros de trabalho, o direito de se sindicalizar-se no Hotel Hilton, Connecticut. Inés falou sobre as intermináveis horas e o árduo trabalho que lhes destrói as costas às trabalhadoras da limpeza, que são em sua esmagadora maioria mulheres. Descreveu a luta para se sindicalizar em seu hotel, que contratou o escritório Cruz e Associados, conhecidos advogados anti sindicais para convencer e amedrontrar os trabalhadores para que votassem contra sua sindicalização. Apesar das tentativas do Hilton, só existiram 5 votos contra a sindicalização.

Agora o Hilton contratou Jakson Lewis, outro bem conhecido escritório antisindical. Segundo Inés “agora somos um hotel que está unido. As mulheres unificadas com os homens, somos como uma cadeia. Para fazer paralisação, para ter um sindicato, temos que ser como uma cadeia; muito forte e unida."

Continuou Chaumatoli Huq, advogada de direitos humanos e fundadora da organização Law at the Margins (Lei nas margens). Se referiu a experiência das mulheres de Bangladesh e denunciou a violência imperialista e genocida dos EUA. Declarou que "o racismo, a violência, o imperialismo, o machismo e a violência estatal são formas de opressão que estão entrelaçadas. Manifestam-se sobre os corpos de todas as pessoas, mulheres, mulheres de cor, nas formas mais violentas.Vivemos está opressão diária através da pobreza, a violência do Estado, através de todas essas formas de opressão."

Suzanne Adeley, também advogada de direitos humanos e organizadora da comunidade Árabe - Estadounidense deu foco à experiência das mulheres no Oriente Médio e deu ênfase à denúncia contra o imperialismo. Remarcou a importância do internacionalismo, reivindicando as mulheres que tem estado na primeira linha de combate em países como a India, Egito e Bangladesh e se organizam em condições terrivelmente repressivas. Disse que "a forma na qual vemos a violência de gênero é a mais ampla que a forma que é apresentada em lugares como a Women’s March. Para nós, inclui a violência estatal nas mãos da polícia contra as mulheres que cria o colonialismo e a que é criada pelo imperialismo e as guerras estadunidense”.

Continuou identificando a necessidade de um movimento de mulheres em solidariedade com a Palestina e a luta para libertar Ahed Tamimi e os 400 meninos palestinos encarcerados em prisões israelitas.

Sarah Jaffe, jornalista e autora do livro Necessary Trouble (Problema Necessário) falou sobre o movimento #MeToo que ganhou força com a denúncia de Harvey Weinstein realizada por atrizes renomadas de Hollywood, criando un momento político único para o Women’s Strike. Mas remarcou que muitas coisas dividem as mulheres rodeadas pelo mundo das celebridades americanas e as mulheres operárias e de cor que iniciaram o movimento.

Disse que as ações do 8 de março "são demonstrações de solidariedade e poder politico. Na Irlanda paralisam pelo direito ao aborto. penso em mulheres ao redor do mundo que paralisam para acabar com formas de opressao peculiares, mas com uma que nos une todas.”

Fechou o evento Ximena Bustamante, orgulhosamente mexicana e membra da IWS de Nova York e do seu comitê nacional, refletindo as demandas do movimento. Em sua intervenção destacou que "Nova York é um lugar chave. sua importância é estratégica é crucial para a classe capitalista porque é a "capital do mundo", mas, precisamente por isso é de importância estratégica para a classe operária organizada- e com isso nos referimos aos milhões de trabalhadores imigrantes, e milhoes de mulheres trabalhadoras imigrantes. Não é somente que sejamos solidárias com as lutas de povos oprimidos, porque os oprimidos de outros países já estão dentro do país. Estamos aqui.”

Continuou colocando algumas das demandas da IWS de Nova York que foram criadas com os aportes de organizações da esquerda, sindicatos, centros de trabalhadores e partidos políticos de esquerda da cidade. Incluem os direitos reprodutivos, o direito a uma vida sem violencia, direitos trabalhistas, reconhecimento do trabalho nao remunerado das mulheres, educação publica, acesso a moradia, subsídios para o transporte, plenos direitos para os imigrantes sem documentos e declarações contra ICE, contra os supremacistas brancos, o feminicidio de mulheres negras, a violência policial e os aprisionamentos massivos de negros e latinos.

Para finalizar declarou que “vamos parar em Nova York, o coração do capitalismo global, para pedir o fim das guerras imperialistas da Síria ao Yemen, a "guerra contra o narcotrafico" do México às Filipinas e o fim de todo o projeto neocolonial, do Porto Rico à Palestina...". .

Por estas e muitas outras razoes, as mulheres dos EUA e ao redor de todo o mundo tomarão as duas no 8 de março.




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