Teoria

WILHELM REICH / SEXUALIDADE

Wilhelm Reich, sexualidade e juventude: um pensamento atual? [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

domingo 4 de fevereiro| Edição do dia

Como foi assinalado na nota anterior, o pensamento de W. Reich sofre uma evolução, girando para posições mais conservadoras após a degeneração nazista da Alemanha e o fenômeno do stalinismo na URSS.

O resgate crítico de Reich é crucial justamente por isso: em seguida da ascensão de Hitler e da mais aberta decadência da URSS, será o próprio Reich quem irá perder a noção – por ele tantas vezes enfatizada – da precedência da família e das relações sociais capitalistas (da família compulsória e da moral sexual repressiva) na gênese das perturbações sexuais e da miséria reinante nessa esfera.

Mais do que esquecer, ele irá renegar o que escrevera antes em chave revolucionária.

Passa a perder de vista um elemento teórico que já era débil na sua formação marxista: o de que, como ensina Marx, a própria economia mercantil e de forma mais completa a capitalista é o elemento formativo primário, seminal, da “psicologia”; e que, mecanicismos à parte, a socialização através da família, da escola e da Igreja não se dá no ar, como processo ideológico primário, fundante; e que a teoria psicanalítica da socialização – de Freud ou qualquer autor da área – deve, em primeiro lugar, sem perder sua especificidade, partir daquela consideração, ou seja, dos processos da esfera da economia política.

Nesta medida a psicanálise não é uma ciência natural, não está dotada de autonomia absoluta, e esta incompreensão seminal se agravou no Reich tardio.
No O combate sexual da juventude, de 1932, no entanto, todo seu foco revolucionário, sua perspectiva iconoclasta, ainda aponta na direção revolucionária, da desmistificação da instituição familiar no capitalismo e da reacionária moral sexual dominante.

Por conta disso, pode-se afirmar que o Reich que merece ser política e sexualmente resgatado é aquele que, recém-formado em medicina, irá abraçar a psicanálise ao mesmo tempo em que se debruça sobre livros de Marx e que, finalmente, e contra a opinião política do próprio mestre, Freud, se engaja na militância política revolucionária. E que irá organizar a juventude trabalhadora pelo seu direito a revolucionar o mundo, a política, e o exercício do prazer sexual e da camaradagem ativa e engajada.

Aqui encontramos Reich no seu auge revolucionário.

Em síntese, aquela foi a evolução do jovem Reich: depois de trabalhar no início de carreira, na década de 20, ao lado de Freud durante anos, até que, crítico ao elitismo e crescente conservadorismo dos psicanalistas (e ao mesmo tempo, convicto da importância do método descoberto por Freud) se deu conta de que a miséria sexual e emocional das massas não teria solução por fora da revolução socialista.
Seu próximo passo foi o de impulsionar centros de educação sexual e desenvolver todo um movimento no seio da juventude revolucionária, proletária, que chegou a abarcar 40 mil jovens e um grande número de brochuras, panfletos e livros (como vem a ser o caso de O combate sexual).

Tudo isso na perspectiva de levantar, por métodos revolucionários, um governo dos trabalhadores que implantasse o que ele chamava de sexpol (política sexual). Isto é, libertar as novas gerações da educação deformadora e castradora da escola e da família tradicional, burguesa.

Naquela obra, W. Reich chega a um exame minucioso e sob diversos ângulos sistemático, a respeito das dificuldades dos jovens diante da velha moral.
Vivia-se uma época de intensa efervescência social naquelas primeiras décadas do século passado e Reich não será o único a interessar-se por essa modalidade de problemas (moral burguesa e sexualidade). Era uma questão que preocupava ao poder bolchevique e a esse respeito é relativamente bem conhecido o ensaio – dentre outros - de Alexandra Kolontai intitulado A nova mulher e a moral sexual (da Expressão Popular), assim como A família e o comunismo [da Centelha Cultural/ISKRA].

Por outro lado, também recomendamos escritos de Trotski do início dos anos 1920 que, embora não tratem especificamente da questão da sexualidade, elaboram sobre a família, a crise familiar e dos costumes em um processo revolucionário [ver Trotski e a luta das mulheres, da Centelha Cultural/ISKRA].

No seu texto Questões do modo de vida, por exemplo, publicado em 1923, Trotski argumentava que o governo operário deve “organizar de modo sério e adequado a educação coletiva das crianças, para que seja possível libertar a família da cozinha e da limpeza doméstica” e defende enfaticamente “boas lavanderias públicas coletivas” e “bons restaurantes públicos e coletivos”, a confecção de roupas a cargos de “ateliês de costura fora de casa” e continua argumentando que “as crianças devem ser educadas por excelentes professores, pagos pelo Estado, e que possuam uma real vocação para o seu trabalho (...), de forma que os laços do marido e da mulher deixem de ser entravados pelo que lhes é exterior, supérfluo, imposto e secundário; um e outro deixarão de envenenar mutuamente a existência; aparecerá por fim uma verdadeira igualdade de direitos; os laços afetivos serão unicamente definidos pela atração mútua. E precisamente por isto serão interiormente mais estáveis, não da mesma forma para todos os casais, mas jamais serão laços compulsórios para ninguém” [p.133 de El nuevo curso-problemas de la vida cotidiana, Trotski, 1978].

O livro A mulher, o Estado e a revolução, de Wendy Goldman, recentemente publicado pelas Ediciones IPS de Buenos Aires, e, no Brasil, pela Boitempo, mostra minuciosamente – e em suas contradições – os avanços na política familiar e social soviéticas nos primeiros tempos da revolução de 1917 e também como esse processo vai retrocedendo através da stalinização da URSS. Recomendamos, enfaticamente, o Prefácio desse livro, escrito por Diana Assunção, que traça um excelente painel sobre a questão.

Reich encarna, portanto, e à sua maneira, um debate de época, completamente influenciado pelo alvorecer da era das revoluções proletárias e que se dirige à esfera da revolução sexual e da crítica à moral familiar repressora e castradora.

Não é um problema menor para o nosso tempo.

E, por isso mesmo, não se pode perder de vista o Reich do tempo em que jovens se inscreviam em massa, às dezenas de milhares, no seu movimento sexpol, inclusive parte da juventude cristã e liberal. A burocracia dos PCs não podia permitir esse projeto que terminou abortado, primeiro por esta burocracia já em 1932 e, em seguida, em 1933, pelas hordas nazistas agora no poder de Estado.

Aquele Reich continuará atual, enquanto exista capitalismo e também diante de qualquer movimento autoproclamado comunista ou socialista de palavra mas contrário, na prática, à democracia operária e à plena intervenção da juventude como sujeito revolucionário também na esfera sexual.

Na nossa ótica não é possível imaginar uma esquerda e uma juventude operária e estudantil seriamente engajada na luta revolucionária, mas que, ao mesmo tempo, não procure retomar, atualizar e aprofundar criticamente pensadores como o Reich de O combate sexual da juventude. Ou o W. Reich da fase em que o marxismo revolucionário era sua fonte de inspiração.

Gilson Dantas

Brasília 2/9/17
Referências:
ASSUNÇÃO, Diana, 2014. Prefácio ao livro Mulher, Estado e revolução, de Wendy Goldman, SP, Boitempo.
CHEMOUNY, Jacquy, 2004. Trotsky et la psychanalyse. Paris: In Press
REICH, Ilse O., 1972. Wilhelm Reich, uma biografia pessoal. Buenos Ai¬res: Granica Editor.
REICH, Wilhelm, 2017. O combate sexual da juventude – COMENTADO/Gilson Dantas. São Paulo: Centelha Cultural/ISKRA.
SCHNEIDER Michael, 1977. Neurose e classes sociais: uma síntese freudiano-marxista. Rio de Janeiro: Zahar Editores.




Tópicos relacionados

Marxismo   /    Teoria

Comentários

Comentar