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POLÊMICA | Weintraub vai tarde! “Vitória da UNE” ou troca de peças? Que caminho seguir?

Giovana PozziCoordenadora Geral do Centro Acadêmico do Teatro da UFRGS (CADi)

sábado 20 de junho de 2020 | Edição do dia

O Ministério da Educação se livrou do racista e reacionário Weintraub. Sem dúvida compartilhamos da felicidade que é ver Weintraub bem longe do MEC, contudo devemos celebrar como uma vitória para os estudantes como fervorosamente agitou a UNE?

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A resposta imediata é não, porque a simples saída de um ministro não significa uma mudança na política do governo para a educação. Bolsonaro e Mourão seguem no poder; o Congresso segue sendo o mesmo que aprovou a EC do Teto de Gastos, que congelou investimentos na educação e na saúde, que aprovou a reforma da previdência, passou cortes na educação e a MP da morte de Bolsonaro. Tudo com aval do STF. O substituto no MEC poderá ser da ala ideológica do bolsonarismo, bem como poderá ser do centrão, o fato é que os ataques seguirão, senão iguais, piores. E a depender de quem for, poderá passar os ataques sem tantos escândalos como fez Weintraub, mais a gosto dos grandes tubarões do ensino privado. Qualquer um que surgir desse ninho de ratos não estará ao lado dos estudantes, muito menos dos estudantes pobres e negros, que fazem parte do setor mais afetado pela pandemia e pela crise econômica. Portanto, será mesmo que “deu tudo certo”, UNE?

Essa comemoração desmedida e a constante frase “derrubamos Weintraub” expressa a forma como a direção atual da UNE, dirigida pelo PT e PCdoB, encara as lutas pela educação no Brasil: completamente à parte de toda política nacional. O que vimos com o vídeo de saída do Weintraub foi um Bolsonaro completamente comedido - provavelmente obedecendo os mandos dos militares - em uma jogada política para acalmar os conflitos com o STF que a cada dia se aprofundam, chegando a prisão de Fabrício Queiroz no mesmo dia, encontrado na casa do advogado da família Bolsonaro. Lembremos ainda que o ex-Ministro Weintraub, dentre as suas declarações racistas e seus descontroles dignos de um bolsonarista, defendia a prisão de ministros do STF no vídeo ministerial, o que aumentou ainda mais a tensão entre o governo executivo e o judiciário.

Vejamos então: Weintraub permaneceu por mais de um ano no Ministério da Educação, cortou milhões da educação pública, impulsionou o projeto privatista Future-se, cortou milhares de bolsas de pesquisa, atacou a política de cotas na pós, interveio na autonomia universitária, nomeou reitores, proferiu inúmeros discursos racistas e milhões saíram às ruas contra seus ataques no 15M e 30M do ano passado, mas o verme seguiu sendo ministro. Agora, no estreitar da crise política, proferiu discurso contra os ministros do STF e está sendo investigado no inquérito das Fake News e algum tempo depois cai do seu posto. Estaria o STF preocupado com o futuro da educação no país ou com seus próprios interesses políticos em disputa com o bolsonarismo? Inúmeros setores da grande mídia voltaram sua artilharia contra Weintraub após reunião ministerial, enquanto os ataques à educação aplaudiam. Ou seja, contra os ataques de Weintraub à educação, o STF, a grande mídia e Congresso se silenciam, mas quando ele parte pra cima de outros poderes, giraram esforços para derrubá-lo.

A partir disso, poderíamos nos questionar: os estudantes então não tiveram nenhum papel nisso? As manifestações do ano passado, que tinham como alvo direto Weintraub e Bolsonaro, não foram importantes? Sem dúvidas que as manifestações do 15M e 30M tiveram um papel importantíssimo. Elas demonstraram a disposição de luta que há entre a juventude, cansada de tanto ataque ao seu futuro. Batalhamos muito e fomos milhares nas ruas contra os cortes na educação, o Future-se e a reforma da previdência. Naquele momento, essas mobilizações nos mostravam o caminho para vencer o projeto deles de precarização da educação e do trabalho: a luta de classes. Mas então, por onde se perderam essas manifestações que mantiveram Weintraub intacto no governo, com os cortes à educação e a reforma da previdência aprovados no Congresso?

Dentre as muitas lições que podemos tirar do 15M e 30M, que desenvolvemos mais profundamente aqui, a principal lição é que não podemos separar as demandas estudantis das demandas dos trabalhadores, como foi feito pela UNE e pelas Centrais Sindicais no ano passado, dividindo a luta contra o future-se e os cortes da luta contra a reforma da previdência. Desde o tsunami da educação, nós da juventude faísca já alertávamos que não podemos cair em chantagem, a nossa luta é uma só: da juventude aliada à classe trabalhadora. A precarização da educação está diretamente ligada à precarização do trabalho e se lutamos separados ficamos mais fracos. Infelizmente, as direções das maiores entidades estudantis não aprenderam com o erro. E se a derrota ensina e a vitória ofusca, hoje o papel que a UNE segue cumprindo é ofuscar a estratégia que precisamos para derrubar esse governo nefasto de Bolsonaro e Mourão enquanto comemora uma disputa política entre as alas desse regime burguês que em nada favorece os estudantes.

Por isso tirar lições e não se iludir com esse processo é fundamental para avançar em defesa da educação. É preciso que haja uma mobilização séria, organizada desde as bases dos estudantes secundaristas e universitários, impulsionada pelas entidades estudantis aliadas aos trabalhadores para lutar unificadamente contra todos os ataques à educação e pelo Fora Bolsonaro e Mourão. Não tenhamos nenhuma confiança no congresso e no STF golpista, confiemos apenas em nossas próprias forças. Também lutaremos contra o próximo ministro que vier, mas não basta trocar as peças do jogo, é preciso mudar as regras dele. E mudar as regras significa questionar profundamente esse sistema capitalista que permite a morte de milhares de pessoas por coronavírus sem nem mesmo serem testados e que sucateia a educação pública para baratear a mão de obra enquanto avança na precarização do trabalho, escancarada hoje na situação dos trabalhadores de aplicativo. Aqui no Brasil já chegamos a 1 milhão de contaminados, fora a subnotificação, e nenhum plano sério de combate a pandemia está sendo levado a frente. Por isso, precisamos lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, para que o povo possa decidir de fato as regras do jogo.

Nos inspiremos na força da fúria negra que irrompe nos EUA, nos atos antirracistas e antifascistas que estão ocorrendo pelo Brasil e na paralisação nacional que está sendo organizada pelos trabalhadores de aplicativo no dia 01/07 para impor através da luta nosso projeto de educação, que passa por construir uma sociedade livre de toda exploração e opressão.




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