Teoria

CIÊNCIA E POLÍTICA

“Você sabe com quem está falando?” A autocracia científica e o que ela esconde

O conhecimento do cientista e da ciência médica podem ser transformados em poder político? E quando o dono do conhecimento se torna o "dono da verdade" e das decisões sobre vc e o seu corpo? Qual a relação entre ciência e política?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 27 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Marx em um dos seus mais notáveis textos sobre a Comuna de Paris, a certa altura, fazendo um inventário das propostas de emancipação social daquele movimento, fala da ciência. E diz expressamente que a Comuna de Paris dentre outras medidas tentou “libertar a própria ciência das algemas que os preconceitos de classe e a força governamental lhe tinham imposto”.

O sentido do seu argumento parece seguir mais atual que nunca: isto é, a ciência, nos marcos do capitalismo – mais ainda do capitalismo em sua fase imperialista, decadente, dos oligopólios – continua algemada pelos interesses de classe, pelos preconceitos que daí derivam e, naturalmente, do Estado burguês.

Um dos problemas atuais nessa esfera vem a ser justamente o seguinte: se é certo que cresceu o condicionamento do mercado e as determinações da mercantilização sobre o campo da ciência, ao mesmo tempo cresceu muito o prestígio da ciência.

Por outro lado, também assistimos a desastres todos os dias por conta de determinadas tecnologias que depois se descobre que eram tóxicas ou mesmo que trazem, junto com seus avanços, retrocessos, a exemplo dos exames médicos tóxicos e invasivos, do amianto, do flúor, dos inseticidas [tóxicos para os humanos], dos medicamentos. Outro dia, depois de muito ruído, o medicamento Vioxx teve que ser retirado do mercado, por pressão intensa e continuada da opinião pública, não sem antes ter vazado a evidência de que ele teria causado ao menos 60 mil mortes, só nos Estados Unidos.

A brutal poluição ambiental, o debate dos alimentos transgênicos, das vacinas, de tecnologias que resultam tóxicas para os seres humanos, tudo isso vai a favor da necessidade de um debate sério sobre como controlar os malefícios da ciência aplicada, como combater as contradições e os abusos de determinadas tecnologias, e também seu impacto ambiental e sobre a nossa fisiologia.

Dito isto, como garantir o controle da ciência? Poderia ele ser levado adiante pelos próprios cientistas, por suas corporações, seus órgãos e “comitês de ética”? E em caso contrário, como levar adiante algum mecanismo de controle sobre uma esfera, a ciência, onde impera o conhecimento especializado, complexo, accessível apenas aos iniciados naquela área ou naquela tecnologia?

Para S Johsua [autor de Le marxisme, le progrès, les sciences: nouveaus regards sur la democratize] não existe a menor possibilidade de controle da ciência e seus efeitos a partir dos cientistas.

“Não haverá controle científico da ciência”, diz ele. Seu raciocínio é completado por D. Bensaid: “E esta é uma das razões de ser da democracia política: semelhante controle só é concebível a partir de referências e critérios que são alheios à ciência” [Ver La sonrisa del fantasma, 2012]

Bensaid continua argumentando – nos marcos de uma revolução social - que deveria ser promovida pela sociedade uma cultura científica de alto nível, deveria haver “um sistema educativo que contribuísse para criá-la No entanto, a multiplicação e especialização dos conhecimentos impedem hoje em dia que se possa alcançar o ideal ilustrado do honrado homem polivalente”.

A medicina, por exemplo, cada dia mais dividida em especialidades, a massa diária de informações, a enxurrada de publicações, de pontos de vista conflitantes etc. representam uma maré de informações que inclusive se renovam todo o tempo. Tudo isso por um lado termina nos colocando diante de uma ciência mais complexa e mais multifacetada, certamente, mas por outro lado de certa forma parece legitimar mais ainda o poder dos “representantes da ciência”. Somente eles parecem saber do que estão falando e inclusive com dialeto próprio

No entanto, todos os dias somos colocados diante de disjuntivas, da necessidade de tomar decisões, as quais, por aquelas razões citadas, a maioria esmagadora das pessoas compreende pouco e termina delegando ao médico ou ao cientista.

Tomemos alguns exemplos na esfera da ciência médica.

O ginecologista e o oncologista exigem que a mulher faça uma mamografia regularmente, em nome de prevenir o câncer de mama. Ora, o debate lá fora e em parte por aqui [a exemplo da dra Lucy Kerr] é muito forte denunciando a mamografia como um exame muito tóxico, de risco e capaz de causar o câncer que que ele diz pretender prevenir. A autoridade médica em seu redor diz que você tem que fazer aquele exame, e fala em nome da ciência. Autores de grande capacitação científica, como o dr Peter Gotzsche, argumentam, e também em nome da ciência, que fazer tais exames é uma má e perigosa decisão.

Em nome da ciência as autoridades propõem que você use repelentes químicos contra o mosquito. Também em nome da ciência, existe a denúncia de que o repelente e o larvicida não podem ser químicos/tóxicos e que devem ser, sempre, naturais, a partir de produtos vegetais, caso contrário podem promover doenças, por exemplo, na gestante e no feto.

Em nome da ciência autoridades médicas apregoam como “tratamento” para a obesidade a cirurgia bariátrica; em nome da ciência - e contra as dietas da moda – a medicina nutricional tece pesadas críticas à cirurgia do estômago como método para combater a obesidade.

Em nome da ciência médica as autoridades obstétricas defendem – ao menos no Brasil – a cesárea como o melhor parto; em nome da ciência médica a cesárea é criticada como escolha preferencial para fazer nascer a criança, ao passo em que o parto humanizado é defendido em seu lugar, em nome da ciência e também do bebê.

Em nome da ciência médica são prescritos todos os dias, pelos cardiologistas, drogas, essencialmente tóxicas, contra o colesterol alto; em nome da ciência médica o colesterol está cada vez menos sendo considerado vilão, ao mesmo tempo em que o foco, em vez do colesterol, é a inflamação arterial e outros problemas e não o colesterol.

Em nome da ciência médica é recomendada a cirurgia para retirada da vesícula biliar na presença, por exemplo, de cálculos. Em nome da ciência médica e da medicina nutricional, é defendido o caminho oposto, não-cirúrgico, de modificar a qualidade da bile através de nutrientes e dieta, tornando-a incapaz de gerar pedras [isto é, reequilibrando gorduras e minerais que agem sobre a composição da bile].

A lista de exemplos desse tipo seria interminável; daria um livro.

No entanto, tudo isso só nos deixa assustados: no sentido de que a medicina é tudo menos unanimidade, no sentido de que a ciência, também ela, está dividida em partidos e escolas, como a ocorre na política e mais ainda, pelo visto, tudo está a indicar que antes de medicalizar uma determinada condição, antes de medicá-la, se faz necessário abrir um debate sobre as opções que estão colocadas, e também sobre as que foram eventualmente reprimidas [isto é, deixadas de lado por conta de interesses puramente econômicos]. Em outras palavras, teremos entrado no campo de uma escolha e de uma tomada de decisão, na saúde pública, na clínica, que claramente sai do mundo da ciência médica.

Ou, em outras palavras, aparentemente aquele terreno, da ciência médica, embora tendo identidade própria, suas regras como ciência, mas ao mesmo tempo estaria claramente controlado de fora. E antes da decisão na esfera da saúde coletiva existiria uma decisão que, por conta de estar atravessada por contradições médico-políticas, vem a ser uma decisão menos médica do que parecia.

Por exemplo, existiu um avanço técnico-científico em termos de imagem para detecção do câncer de mama no campo da chamada termografia [exame e diagnóstico através da captação de ondas de calor do próprio tumor, do corpo]. Este avanço foi sendo deixado em banho-maria, não se impôs como opção e a mamografia ganhou status de única opção. Ganhou estatuto de verdade única, monocrática. Pergunta inevitável: será que isso ocorreu por razões médicas? Será que uma opção supostamente tóxica e perigosa [e até suspeita de gerar câncer] seria a escolha mais acertada para diagnóstico de câncer de mama? Será que a termografia não terá sido marginalizada por conta de que gera menos lucros? Ela é, por definição, não-tóxica, não cancerígena; então por que o foco não foi voltado para ela e sim para diagnóstico por raios X [mamografia], por radiação ionizante, que é, por definição, cancerígena?

Desde quando decisões dessa natureza pertencem apenas à esfera médica?

E na medida em que o caminho seguido terminou sendo o mais tóxico, e que a medicina dominante nada tem a declarar, sobre isso [prevalece o silêncio da ordem médica] também será inevitável outra pergunta: em que ponto da curva a consideração social, a consideração do primum non nocere [em primeiro lugar a medicina deve não machucar o enfermo] foi deixada de lado? E se a medicina historicamente comete erros, alguns terríveis e que levam longo tempo para serem descartados [como foi a rotina de solicitação de raios X em gestantes no primeiro trimestre da gravidez, hoje vetada pelos efeitos de má formação/câncer nos fetos], tem a medicina capacidade, ela mesma, de se auto-controlar? Ou deve ser controlada por fora? E, neste caso, por quem, a partir de qual esfera?

Colocando as coisas de outra forma: quando você começa a duvidar de alguma proposta da ciência médica e o doutor olha para você de cima para baixo e na base do “você sabe com quem está falando” e se arroga como autoridade [autocracia] científica, será que em nome da sapiência dele e da nossa ignorância deveremos nos render? Uma vez que ele “sabe” e eu “não sei”, será que chegamos ao fim de linha?

Afinal de contas cabe debate “democrático” na ciência? Ciência não é uma esfera e a discussão democrática outra esfera, ambas não-comunicáveis?

Novamente Bensaid sinaliza com uma perspectiva bem interessante.

Depois de deixar claro que a validade de uma teoria não pode ser decidida mediante votação, e que nesse sentido ciência e política, por exemplo, são esferas cada uma com suas próprias leis e regras, ele desmonta imediatamente qualquer tentativa da ciência de se postular como poder, como autocracia diante do mundo dos leigos.

Ele começa reconhecendo que política não é uma especialidade como a do médico ou do açougueiro. Política tem a ver com luta de classes, com economia e, portanto, diretamente, com a questão social.

Ora, nesse caso, e “posto que a política não é uma profissão como a do arquiteto, do açougueiro ou do geômetra, é preciso supor que, quando uma questão científica se converte em uma questão social, a soma das incompetências individuais gera uma competência coletiva, mesmo que susceptível de se equivocar. Se não se parte deste pressuposto, voltaremos a cair na perigosa confusão entre conhecimento e poder e nos pesadelos inquietantes de um despotismo cientificamente ilustrado. Até porque, diz ele citando S. Joshua - `não existe uma instância metassocial a partir da qual se possa pensar e controlar com certeza a multiplicidade de espaços sociais”.

E mais: a ciência não nasceu sozinha, nasceu gêmea do capitalismo, moldada e conduzida por ele; e hoje, quem dá as cartas na ciência são oligopólios imperialistas. A ciência não se desenvolve no vazio.

Ou seja, se a decisão por exames-diagnóstico perigosos ficar nas mãos monocráticas da corporação e da chamada ciência médica, corremos o risco de que vida e morte sejam medicalizados totalmente. Mas também corremos o risco concreto de sermos vítimas de tragédias ao renunciarmos, politicamente, a tomar decisões que resultam ser sociais e políticas – mesmo com sua aparência clinica, neutra - em nome abstratamente da ciência; e, por essa via, delegaremos as nossas decisões a um tipo de “despotismo cientificamente ilustrado”. A decisão sobre que tipo de ciência está sendo feita, diz o cientista Steven Rose, tem que ser democratizada; não pode ficar nas mãos de comitês éticos profissionais ou coisa no estilo.

Quando o velho Marx argumenta que é “preciso libertar a própria ciência das algemas” políticas, não está estará colocando esse debate nos devidos termos? É possível acreditar que a ciência pode controlar a si própria, que possa existir controle científico da ciência?

Ou, parafraseando alguém, caberia ainda perguntar: não será medicina – e vida e morte, portanto - um assunto suficientemente sério para ficar apenas nas mãos reducionistas da medicina oficial e dos médicos?

Não serão coletivos de trabalhadores da saúde – que incluem médicos –, coletivos de estudantes, de trabalhadores e usuários, organizados a partir das empresas e unidades de saúde os órgãos mais capacitados para tomar decisões que impactam a saúde coletiva e individual? E, sendo assim, não estamos inevitavelmente no terreno da política revolucionária?

Voltaremos ao tema em outros artigos dessa série [Cartas contra a medicina do capital]




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