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Vitória do PP: os povos têm os governos que merecem?

quinta-feira 30 de junho de 2016| Edição do dia

Nos últimos dias, frente ao triunfo eleitoral do PP, nas redes e entre o ativismo dos movimentos sociais foram veiculadas massivamente opiniões que apontam que “a culpa” de os populares ganharem é dos “espanhóis”, “ignorantes”, “analfabetos que não aprendem”, que “agora ninguém pode reclamar” e toda uma lógica de que são os cidadãos os que “se deixam explorar” ou que “permitem a corrupção”.

Toda uma grande repercussão porque o Partido Popular não apenas se mostrou como primeira força, como era de se esperar, mas também melhorou seus resultados em relação às eleições anteriores, ao mesmo tempo em que o Unidos Podemos não superou o Partido Socialista.

A lógica de que “Os povos têm os governos que merecem” não é nova. E com diversas expressões podemos lê-la hoje nas redes sociais ou ouvi-la em conversas de bar. A frase, atribuída com matizes a múltiplos autores que vão desde o italiano José de Maistre, Jacinto Benavente, Gandhi ao próprio Winston Churchill, não pode ser mais alheia à realidade. Reflete uma concepção evolucionista e liberal da história e apenas serve para justificar a impossibilidade de oferecer uma alternativa desde certos setores.

Entretanto, a história nos mostra: um só e mesmo povo pode ter durante um período relativamente breve governos muito diferentes e inclusive de significados opostos.

A primeira questão que dá por consolidada e inequívoca essa afirmação é que em uma democracia burguesa “o povo escolhe livremente o governo que quer” e, portanto, este é o que merece. Como se não houvesse poderes que buscarão mediar essa decisão.

A primeira questão que temos que apontar é que todo sistema dominante busca propagar e garantir que a ideologia na qual se sustenta esse sistema seja a dominante. Isso se dá desde a terna infância mediante a educação e se reforça ao longo da vida com os meios massivos de comunicação. Porém também se garante com leis, como a legislação eleitoral no Estado Espanhol.

Além disso, se houvesse ameaça de que “o povo” pudesse votar algo que fosse desgostoso para as classes dominantes, aí existem também a polícia e o exército, para os quais vem antes “a pátria” do que a democracia. Seja exercendo sua influência de terror para evitá-lo ou, posteriormente às votações, instaurando ditaduras militares e períodos de “exceção”.

A liberdade de escolher um governo no sistema capitalista é limitada pela liberdade do povo de eleger seus carrascos nos próximos anos.

Por último, mas não menos importante, é necessário compreendermos que um povo é composto de classes sociais hostis e, por sua vez, que essas mesmas classes são formadas por camadas diferentes, parcialmente opostas umas às outras e com diferentes orientações políticas. E, além disso, todos os povos sofrem a influência de outros povos, compostos por sua vez de classes e com um status adquirido na arena internacional.

Portanto, os governos não são o resultado da “maturidade” política de um “povo”, e sim resultado da luta de classes.

Inclusive, pode ocorrer o caso de um governo durar muito mais tempo do que a correlação de forças da qual foi produto.

Os direitos não são conquistados nas urnas, mas nas ruas: a desilusão nas eleições

Muitas dessas opiniões vêm de ativistas ou votantes do Podemos ou de setores dos movimentos sociais e de esquerda muito desiludidos pelo triunfo do PP.

A burguesia pode se dar por satisfeita por haver encaminhado os protestos do 15M ao campo eleitoral. Para as boas vontades, a forma de poder realizar essas demandas, mas, para os poderosos, um recurso para normalizar as ruas.

“Nos disseram para nos apresentarmos nas eleições”, reconhecem os próprios dirigentes do Podemos, publicamente. E é a isso que se dedicam exclusivamente os novos reformistas, diferentemente dos velhos que, em suas origens, combinavam o parlamentarismo com a luta nas ruas, nem que fosse como forma de exercer “pressão” para tornar efetivas as mais mínimas reformas.

Vistos os últimos anos pós-15M, seria importante perguntar: as ruas entraram no Congresso, como sustentava o Podemos com sua vitória, ou a ordem do Congresso se impôs nas ruas?

A realidade é que existe em termos políticos uma tendência de massas à esquerda, mas com uma consciência muito reformista, e que a estratégia que se sobressaiu nesse movimento fracassou ficando atrás das ilusões que despertou.

A hipótese de Pablo Iglesias de “tomar o céu por assalto” mediante a via eleitoral e o abandono de todo rastro de radicalidade demonstrou-se equivocada.

A ausência do Podemos nas ruas responde à sua estratégia de construir-se como um partido midiático, respeitoso do regime político e dos poderes reais, e “aberto a escutar” os grandes empresários, banqueiros e militares.

O 26J Unidos Podemos conseguiu um milhão e cem mil votos a menos do que representava a soma do Podemos, as confluências e Izquierda Unida no 26D. Teria de buscar onde estão os votos que o Podemos perdeu e por que os perdeu. Mais que o recurso fácil de qualificar os do PP. Em essência, esses votos não foram a outras organizações, mas se revelaram na abstenção massiva.

O devenir à direita da organização roxa, que nos últimos anos se aproximou da casta do PSOE que dizia combater e pretendia ser continuidade ao 15M, é sim razão do crescimento da abstenção e de que tenha evitado a derrota do PSOE.

Tradução: Vitória Camargo




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