Teoria

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Violência e revolução em 1917

Vivemos em um mundo de violência e não podemos evitar tratá-la politicamente.

quarta-feira 25 de outubro| Edição do dia

Em 1917, a violência da guerra se expandia por todas as partes. Para o final de História da Revolução Russa, Trotsky escreveu:

Não é surpreendente que os que se indignam mais frequentemente pelas vítimas das revoluções sociais, sejam esses mesmos que, se não tem sido diretamente os causadores da guerra mundial, tem preparado e glorificado suas vítimas, ou inclusive tem se resignado ao vê-las morrer?(1)

Os informes calculam entre 15 e 18 milhões de soldados e civis mortos durante a Primeira Guerra Mundial. No final de 1917, um médico socialista calculou que a “carreira selvagem dos carros da morte” havia produzido “6.364 mortes por dia, 12.726 feridos e 6364 mutilados”. Sua precisão provavelmente seja falsa, porém, sua sensação da escala não. As pessoas morriam nas batalhas, pela fome e doenças que vinham com ela.

A Revolução de fevereiro estourou na 135ª semana da guerra. Outubro chegou na 170ª semana. Nesse período de quase 250 dias – que alguns historiadores colocam como um período de derramamento de sangue revolucionário, com prováveis 2.500 mortes – o número de pessoas mortas na Europa chegava à arrepiante cifra de 1,5 milhões.

Nas frentes do leste europeu morreram menos pessoas entre fevereiro e outubro, mas assim mesmo a cifra total chegou a 100 mil. Essa paz relativa se explicava, em grande parte, porque as tropas russas haviam começado a dispersar-se, e disparavam as vezes em quem tentava dete-los. Se cometiam assassinatos como fuga da morte, para evitar que outros morressem: a violência é algo complexo.

E ocorria em diferentes direções. Em maio de 1917, as lavanderias de Petrogrado iniciaram uma greve. Tentaram obrigar a todos a abandonar os locais de trabalho jogando água nas máquinas. Alguns proprietários das lavanderias jogaram água fervente nos grevistas, ameaçando-os com ferro quente e até revolveres.

Há mais violência porque nenhuma revolução verdadeira se desenvolve sem sangue. Porém, muito dessa violência chega depois, quando a velha ordem, desorientada a princípio, começa a responder.

Em 1917, o padrão da violência era modesto em comparação com a primeira guerra mundial ou a guerra civil que seguiria. Inclusive, podemos encontrar exemplos de revolucionários que atuam de forma generosa com o inimigo – atos equivocados, já que aqueles que eram liberados se reuniam rapidamente a contra revolução armada.

É demasiado simples dizer “ a violência gera violência”. Será melhor aprofundar em algum dos mitos sobre a revolução e sua violência.

A revolução sangrenta sem sangue

A Revolução de fevereiro parecia reunir o mais amplo apoio, porém, foi extremamente violenta em comparação com outros acontecimentos desse ano. As tropas e a polícia dispararam contra a multidão, e alguns na multidão responderam os disparos. Soldados dispararam em outros soldados.

A maioria dos informes calcula um numero de mortes em Petrogrado próximo de 1.500, mas provavelmente seja uma subestimação. Os que caíam a serviço da revolução eram recompensados com cerimônias massivas jamais vistas, assistidas por quase a metade da cidade – um milhão de pessoas.

A velha ordem havia desaparecido. As multidões guardavam luto e celebravam com novos ares de fraternidade. Inclusive hoje em dia, tendemos a ver o fevereiro através de lentes cor de rosa, talvez porque o humor muda muito rápido nos meses seguintes.

O novo governo provisório – muito mais à esquerda de que o resto dos governos do mundo – queria estabelecer a forma mais avançada da democracia liberal imaginável, porém, devia fazê-lo sobre as ruínas da velha ordem czarista.

Alexander Kerensky escreveu mais tarde, “ ao longo de todo o território russo não só não existia o poder do governo mas literalmente não havia polícias”. As prisões tinham sido abertas em fevereiro, foram liberados não só os prisioneiros políticos mas também milhares de criminosos. As pessoas assaltavam lojas de armas.

O governo tentou desenvolver novas políticas, novas instituições e novas organizações, incluídas as milícias populares para manter a paz. Ofereceu anistias, aboliu a pena de morte e garantiu os direitos de reunião. Também queria transformar-se em uma ponte entre os que tinham e os que não. Nele estava a raiz do problema: as elites queriam um tipo de ordem e o povo outro. Dias depois da renuncia do Czar, um oficial escreveu, “ Creem (os soldados rasos) que as coisas deveriam melhorar para eles e piorar para n´s”. Ambos os lados se chocaram sobre o que era justiça e ordem, e que tipo de forças se necessitava para alcançá-los.

Em abril, o príncipe L’vov, então primeiro-ministro, publicava circulares que implorava à população que deixasse de cometer delitos. É necessário, se podia ler, “ por fim a toda a manifestação de violência e roubos com todo o peso da lei”. Isso incluía roubos nas ruas mas também significava que os campesinos deixassem de “roubar” a terra dos latifundiários.

Estabelecer a ordem era quase impossível. As prisões locais obrigavam as novas autoridades a atuar – ou não fazê-lo – de maneiras que escavavam as ordens de Petrogrado. Em outubro, só 37 das 50 províncias da Rússia europeia possuíam novas forças policiais. Enquanto isso, grandes sessões d exército estavam cada vez mais inquietas.

Um mundo de cabeça para baixo

Nos dias de fevereiro um ladrão ágil roubou uma casa declarando que vinha de parte de um comitê revolucionário. Rapidamente, outros seguiram seu exemplo. A taxa de delitos crescia em todas as partes.

Em outubro, John Reed escreveu: “ as colunas dos jornais (de Petrogrado) estavam repletas de informes sobre os roubos e assassinatos mais audazes, e os criminosos não eram perseguidos”. As pessoas deixaram de levar objetos de valor e colocaram ferrolhos em suas portas. Os criminosos caçoavam sobre que agora necessitavam de proteção policial porque eram os únicos que agora tinham algo que valia a pena roubar.

O colapso do exército apresentou um problema ainda mais grave. Onde se mantinha unido, seguia sendo em grande parte uma força da ordem, porém o controle escapava às mãos ao governo provisional e aos revolucionários. Enquanto isso, a deserção em massa produzia uma violência grave quando os grupos de soldados saqueadores regressavam a suas casas ou sobreviviam marginalmente nas cidades.

O maior problema, porém, era que a revolução havia colocado o mundo de cabeça pra baixo. A velha Rússia do respeito e da submissão havia se desintegrado. A população costumava sair com seus uniformes militares e civis, com seus distintivos e insígnias, distintivos e crachás em todas as partes. Agora não podiam sair de suas casas e arriscar-se em situações de violência.

A princípio, a elite menosprezava os acontecimentos que se desenvolviam com uma risada irônica. “A revolução era compreendida por níveis mais baixos como algo similar ao carnaval de páscoa”, escrevia um contemporâneo, “por exemplo, os serventes desapareciam por dias inteiros, passeavam com seus braceletes vermelhos, viajavam em automóveis, iam para suas casas durante a manhã com o tempo justo para banhar-se e voltar a sair para se divertir”.

Porém o humor mudou quando perceberam que a revolução não ia parar. As massas não pareciam resignadas e patrióticas, agradecidas inclusive pelas migalhas. Agora, se reuniam vestidos com roupas molhadas e sujas e começavam a fazer demandas. Se queixavam, cuspiam, insultavam. Em lugar de um “mito patriótico”, dizia Trotsky, o povo havia se transformado em “uma horrível realidade”.

Foi possível sentir a mudança de humor na forma que os observadores descrevem à gente comum. Os heróis de fevereiro agora são descritos como uma massa ignorante. Quando Vladmir Nabokov, um elegante democrata constitucional, descreveu os dias de julho em Petrogrado, escreveu que o povo tinha “as mesmas caras toscas e tontas, como animais, como as que havíamos visto nos dias de fevereiro”. Representava um “transborde Elemental” ao qual haviam que temer.

Os antigos diziam, sem ironias, “não nos façam o que fizemos a vocês”, Quando as comunidades camponesas tomavam terras e redistribuíam sobre bases igualitárias. Em alguns casos, se entregava ao antigo latifundiário uma parcela de camponês. Ter visto a casa grande ser queimada provavelmente era, para o senhor, um ato final de humilhação. Porém, para os camponeses, representava um gesto de justiça natural.

Quando os oficiais detidos se queixavam sobre as condições dos fortes de Krondstadt, seus novos carcereiros respondiam: “ É fato que os edifícios da prisão de Krondstadt são horríveis, porém, são as mesmas prisões que construiu o czarismo para nós.

Trotsky, a quem o governo provisional havia encarcerado, se divertia quando, em outubro, os partidários do governo imploravam para não encarcerar aos ministros detidos nos mesmos lugares em que eles haviam sido presos. Trotsky lhes permitiu gozar de prisão domiciliar durante um tempo.

A revolução de 1917 não se livrava por questões abstratas da lei e da ordem: o povo dava batalhas reais para obstruir a lei e a ordem de quem governava o país.

Terra de quem?

A lei emerge de estruturas sociais e políticas. Um jornal insistia que “ os princípios mais elementares da sociedade (são) a segurança pessoal e o respeito pela propriedade privada”, porém, um cartaz em uma manifestação dizia “ o direito à vida é mais importante que os direitos de propriedade privada”.

A maioria dos camponeses acreditava que a aristocracia havia usado o poder do Estado para arrancar-lhes a terra. “Possuir a terra, como propriedade, é um dos crimes mais antinaturais”, porém, “ esse crime é considerado um direito de acordo com as leis humanas”, escreveu um camponês autodidata(2). “A injustiça da propriedade privada da terra está relacionada inevitavelmente com as tantas injustiças e atos malvados que requerem sua proteção”. Recuperar a terra se transformou em um ato de restituição.

Alguns membros das oficinas locais do governo provisional compartilhavam dessa visão, porém os latifundiários, como era de se esperar, não. Em Petrogrado, o governo se equivocou e prometeu uma reforma legal sobre a terra no futuro. Os radicais o viam de forma diferente.
“Existe uma contradição básica entre nós e nossos adversários na compreensão do que é a lei o o que é ordem”, dizia Lenin:

Até agora, acreditavam que a lei e a ordem era o que convinha aos latifundiários e burocratas , porem, nós sustentamos que a lei e a ordem convém à maioria dos camponeses... O importante para nós é a iniciativa revolucionária; as leis deveriam ser resultados dela. Se esperam a lei que está escrita, e não desenvolvem vocês mesmos a energia revolucionária, não obterão a lei nem a terra. Essa convicção clamava por um novo sistema legal, de baixo para cima.

Em O Estado e a Revolução, Lenin desenvolvia essa afirmação extraordinária, para lidar com excessos e crimes, escrevia:

Não faz falta uma máquina especial, um aparato especial de repressão, isso o fará o mesmo povo armado, com a mesma simplicidade e facilidade com a qual um grupo qualquer de pessoas civilizadas, inclusive a sociedade atual, separa aos que estão lutando ou impede que se maltrate a uma mulher. Máximo Gorki estava de acordo, quando mencionava que havia visto gente nas aldeias camponesas unir-se alegremente a violência, não só contra as mulheres. Em grande medida, os historiadores se colocaram ao lado de Gorki, ao prestar chamativamente pouca atenção ao que produzia verdadeiramente esse choque entre velha e nova ordem(3).

Depois de fevereiro, novas forças da ordem começaram a emergir. Os soviets e os comitês de fábrica cresciam e começavam a organizar forças, ainda que de forma inadequada. Em Kornstadt, que alguns viram como uma encarnação da brutalidade revolucionária, o soviet e os comitês fecharam casas de prostituição, proibiram a embriagues públicae inclusive jogos de cartas.

As milicias operárias se formaram, também, separadas daquelas que obedeciam ao governo provisório. Essas milícias apareceram espontaneamente em Petrogrado e alguns outros lugares. Talvez com algum exagero, o Pravda dizia que por esses grupos “o vandalismo desapareceu das ruas como o pó durante os ventos de tormenta”.

Em fins de março, enquanto o governo tentava criar sua própria força policial, os trabalhadores estabeleceram mais unidades da Guarda Vermelha, sobretudo em Petrogrado. Seus números tiveram variações, mas aumentaram em outubro. Na véspera da revolução, é possível que tenham se espalhado por toda a Rússia.
Jovens e inexperientes, ainda que possivelmente mais efetivos que a milícia civil desmoralizada, estes oficiais serviam como exemplo de ordem alternativa. “a imprensa acusava a milícia de atos de violência, confiscos e prisões ilegais”, escrevia Trotsky:

É indubitável que a milícia empregou a violência: foi criada exatamente para isso.
Seu único crime consistiu, no entanto, em restaurar a violência para lidar com os representantes dessa classe que não estava acostumada a ser objeto de violência e que não queria acostumar-se a isso.

Os revolucionários chamavam a erguer um exército pró-bolchevique também, e em Petrogrado cumpriram um papel chave em outubro.

O choque de visões surgia na forma como descreviam a esses soldados. O governo provisório os chamava de “não confiáveis”, mas para aqueles que impulsionavam a revolução, as únicas “unidades não confiáveis” eram aquelas que ainda aprovavam o governo.

Ordem desde baixo

Em sua busca da ordem, o governo provisório recorreu à violência. Fizeram com que a agitação anti-guerra e a frente fossem castigados com trabalhos forçados. Kerensky lançou a ofensiva de junho com a esperança de ajudar aos aliados no esforço de guerra e promover a ordem interna, mas muitos soldados se negaram a lutar. Depois, em julho, em mobilizações de rua confusas, morreram 56 pessoas em Petrogrado.

O governo sinalizou as jornadas de julho como uma tentativa de golpe. Prendeu a Trotsky e lançou a Lenin na clandestinidade. O exército reintroduziu a pena de morte na frente, mas levou adiante poucas execuções porque a tropa se opunha.

As classes altas começaram a ver o comandante chefe, o general Kornilov, como um líder forte. Quando sua aposta pelo poder fracassou, a situação se voltou ainda mais tensa. Os confiscos de terra cresciam no campo, o governo designava suas poucas tropas confiáveis para frear a situação.

Os acontecimentos de outubro contrastaram de uma forma aguda com a violência caótica de fevereiro. Talvez morreram 15 pessoas em Petrogrado, e uma 50 aproximadamente resultaram feridas. O governo provisório se transformou em uma embalagem vazia. “ amargamos a decadência” disse um ministro. A violência era contida por um novo poder ascendente: o soviet.

Num domingo, o 22 de outubro, o regime de fevereiro viu como centenas de milhares de pessoas inundavam as ruas para apoiar o dia do soviet em Petrogrado. Para haver uma batalha verdadeira, o governo debilitado poderia ter chamado, em suma, a 25 mil partidários armados. Ao menos 100 mil soldados estavam preparados para lutar pelos soviets.

De fato, os revolucionários levaram adiante a toma com uma orden destacável. O soviet de Petrogrado publicou cartazes que diziam:

O soviet de Deputados de Operários e Soldados assume a guarda da ordem revolucionária na cidade... A guarnição de Petrogrado não permitirá nenhuma violência ou desordem. A população está convidada a prender os vândalos e agitadores das Centúrias Negras e levá-los ao comissariado do soviet mais próximo.

Quando caiu o palácio de inverno, os comandantes bolcheviques salvaram aos ministros de ser assassinados e, em lugar dele, foram presos. As tropas registravam aos atacantes, aos defensores e aos ladrões para prevenir os saques. O ministério de guerra, que quase não funcionava, enviou aos revolucionários um elogio ambíguo em uma de suas últimas mensagens:

Os insurretos preservam a ordem e a disciplina. Não havia destruição ou linchamento. Ao contrário, as patrulhas da insurreição detiveram a soldados que moderavam... (o) plano da insurreição sem sombra de dúvida estava preparado com antecipação e foi levado adiante com inflexibilidade e harmonia.

Em 26 de outubro o soviet chamou ao resto da Rússia a adotar a nova ordem: “Os olhos de toda a Rússia revolucionária e o mundo inteiro estão sobre vocês”. Em Petrogrado, destruíram 9 lojas de vinho para evitar a embriagues após a vitória.

Tiveram batalhas duras em Moscou e varias centenas morreram. Porém, a maioria do país, disse Lenin mais tarde, “entravamos em qualquer povoado que nos aceitava, proclamamos o governo do Soviet e, em poucos dias, 9 de cada 10 trabalhadores se colocavam ao nosso lado”. As coisas se voltaram mais violentas na periferia, onde os defensores do governo provisório podiam utilizar segmentos do velho exército para resistir à revolução. Foi ali onde ocorreram os maiores derramamentos de sangue.

Aprender a ser cruel

As revoluções são atos violentos, porém, a violência tem muitas caras. Para começos de 1918, a Revolução Russa parecia haver triunfado. Chamava a paz e pedia ao povo para levantar-se, a fim de consegui-la.

Porém, as potências européias não queriam nem paz nem uma revolução exitosa no seu entorno – por isso as potências centrais romperam a amizade e aplicaram sua própria violência contra a frente do leste. Também apoiaram a violência contrarrevolucionária na Rússia. De fato, sem ajuda externa, é difícil entender como pode se sustentar a guerra civil posterior.

No final de 1917, o ex-comandante chefe, o general Alekseev, chamou as forças antibolcheviques a reunir-se nas regiões de Don e Kuban. Em fevereiro de 1918, somente 4 mil soldados haviam se apresentado. No ano anterior, os oficiais russos chegavam a 250 mil. Aparentemente, muito poucos estavam dispostos a seguir lutando.

Sem maior apoio externo, esses contrarrevolucionários nunca teriam tido a confiança nem os meios para continuar sua guerra. Nesse contexto, como disse Trotsky mais tarde, a revolução também teve que aprender a ser cruel.

Notas:

1. León Trotsky, Historia da Revolução Russa, disponível em www.marxists.org.

2. Citado originalmente . Mark D. Steinberg, Voices of Revolution, 1917, New Haven, Yale University Press, 2001.

3. V. Lenin, Estado e revolução, disponible en www.marxists.org.

*Mike Haynes Mike Haynes é um historiador que trabalha no Reino Unido. É co-editor da History and Revolution Refuting Revisionism (Verso 2017).

Fonte: https://jacobinmag.com/2017/07/lenin-trotsky-russia-1917-war-wwi, 17 de julho de 2017.

Tradução para o português: Zuca Falcão




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