Sociedade

COMISSÃO DA VERDADE

"Reajam politicamente para que esse relatório tão vivo não vá parar em algum escaninho morto"

Publicamos a carta aberta de Gilson Dantas, ex preso político durante a ditadura militar, um dos depoentes na Comissão da Verdade da UNB (Anísio Teixeira).

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 4 de junho de 2015| Edição do dia

Carta aberta à Comissão da Verdade da UnB (Anísio Teixeira)

Prezados,

Em primeiro luar uma saudação ao trabalho realizado por esta Comissão. Não é pouca coisa o exaustivo trabalho de apuração dos crimes contra o povo brasileiro e contra a juventude que foi vitimada por aquele terror de Estado no espaço da UnB. Neste sentido o trabalho dessa Comissão já marcou época.

No entanto, finalizados os trabalhos, parece haver uma contradição ou pelo menos uma desproporção entre o grande esforço desprendido, e a pequena perspectiva que a Comissão passa a se dar. Comparando o trabalho de apuração da Comissão nestes últimos anos com as propostas de encerramento, é possível constatar uma distância do que foi feito em relação ao produto final, do ponto de vista político.

Todos sabemos que esta Comissão e qualquer outra comissão da verdade do estilo dessa, se move em um terreno muito restrito, pré-determinado. No qual cada governo pós-ditadura foi assumindo a naturalização e normalização da exceção, do terror de Estado; e aqui não me refiro apenas ao terror policial de hoje, mas ao fato de que desde o fim da ditadura torturadores e seus mandantes jamais foram denunciados, não foram parar em nenhum tribunal pelos crimes lesa-humanidade que cometeram.

Esta contradição, naturalmente deriva do pressuposto da Comissão da Verdade nacional e de todas as demais levantadas sob os auspícios do governo, do Estado: ao acolher a Lei da Anistia, iguala torturado a torturador.

E é por isso mesmo que ao final de contras toda comissão oficial se limita a entregar o relatório a Dilma, ao mesmo tempo em que – me desculpem a expressão – viram as costas para a única força que poderia validar, de verdade, todo esse trabalho. E que poderá impedir ou abortar qualquer nova tentativa de golpe militar: os movimentos sociais. Somente eles, com a classe trabalhadora à cabeça podem barrar a direita; e podem dar consequência à apuração feita. Ou alguém pensa que a direita não sabe que um documento que não tenha detrás de si movimentos sociais concretos não tem como ter qualquer consequência importante?

Sei que é do conhecimento de vocês que já chamei a atenção para este aspecto, no meu depoimento à Comissão.

Portanto venho aqui, na verdade, reafirmar aquele apelo: venho propor que alguns de vocês reajam politicamente para que esse relatório tão vivo não vá parar em algum escaninho morto, empoeirado, da burocracia de governo.

Nenhum torturado - exceto, é claro, aqueles que pensam como Dilma - pode aceitar isso. Que teria o significado, para nós que sobrevivemos ao rolo compressor da ditadura, de uma segunda violência, desta vez não contra a nossa memória, já que esta vocês trataram de recuperar, mas contra a justiça que reclamamos.

Parece espantoso que depois de vocês terem visitado o inferno, terem visto um pouco do que nossa geração sofreu nas mãos do terror de Estado, não levem a verdade até o fim, permaneçam congelados na etapa da memória e não colaborem para desdobrar memória e verdade em justiça; sem o quê será uma verdade impotente ao não dispor de força de massa. E jamais será justiça. A anistia aos criminosos, a anistia ao terror sádico dos generais e seus mandantes civis, vai funcionar como um prêmio.

A melhor das intenções de cada membro da Comissão não tem como desmentir isso. É uma questão de ter a sensibilidade política de se colocar no lugar do outro, da mesma forma que o melhor da juventude do meu tempo se colocou ao lado e no lugar dos oprimidos que não tinham voz para lutar contra a barbárie do golpe de 64. O mais elaborado sofisma do mundo não tem como apagar essa verdade. Vocês mesmos sabem que não estou falando de literatura, mas de dor humana.
Resumo então as três razões pelas quais insisto em que formemos uma comissão independente do Estado e apoiada no ativismo social para levar adiante o trabalho realizado pela Comissão.

Primeiro, lembrem que esta apuração já foi muito tardia: ela só veio a ocorrer três décadas após a chamada transição democrática; e meio século depois daquele golpe de Estado que rasgou a Constituição e instituiu a criminalização de todo e qualquer protesto social e político.

Segundo: não é justo e jamais será justo anistiar quem nos torturou, brutalizou e assassinou, por mero “delito” de opinião (é disso que nos acusaram: éramos subversivos em luta por liberdades democráticas). Não concordo que cada companheiro e companheira assassinada pela ditadura tenha que morrer duas vezes, primeiro fisicamente e segundo quando seus algozes passam a ter seus crimes legalizados, anistiados, perdoados. A mão que tortura não tem nada a ver com toda uma juventude que se levantou sonhando alto.

Terceiro: se não propomos tribunais populares para aquele aparato de repressão e seus mandantes civis, queiramos ou não estamos legitimando a repressão de hoje, o atual aparato de tortura e assassinato da juventude negra e pobre que mata e tortura todos os dias na periferia das grandes cidades; e portanto deixamos todo o aparato militar tranquilo, já que a mensagem histórica que estamos dando é clara: “o crime compensa”.
*
Portanto proponho que não se alinhem com o jogo político do “grande perdão”; cerrando fileiras, dessa forma, com a política do lulo-petismo-dilmismo-tucanato que empurraram a própria apuração por comissões como esta para o mais longe possível no tempo. Isso não é fazer justiça. E, convenhamos, memorialismo é bom para memorialistas, mas não rima com justiça e não contribui para barrar a nova direita que vai se animar a golpear quando os movimentos sociais ganharem maioridade política e de peso de massa no nosso país.

Por tudo isso, concluo propondo que ao menos uma parte de vocês se lance a formar uma comissão independente do governo e da reitoria. Contarão com minha colaboração e de muita gente que não reza na cartilha da impunidade eterna para terrorismo de Estado. Mas também entendam que tal comissão, que vai denunciar, cobrar punição, propor a revogação da lei da anistia na parte em que anistia torturador e seus mandantes, só poderá ter força se se voltar para os movimentos sociais. E portanto se se lançar nos braços da juventude atual, sensibilizá-la, mobilizá-la para unir a opressão de hoje, homofóbica, racista, policial, antioperária, à denúncia da ditadura militar de ontem. Isso significa buscar força política em comitês democráticos a partir da base, da sala de aula, do ambiente de trabalho de todo setor combativo da juventude disposto a apurar e denunciar os crimes da ditadura de ontem e da repressão que hoje criminaliza os movimentos sociais, como ficou mais do que claro na repressão maciça e brutal do governo tucano no Paraná, contra professores. E também está clara a ofensiva do governo contra os direitos trabalhistas mais elementares.

Não podemos conciliar com a precarização da democracia, do trabalho e nem dos direitos democráticos!

Faço um apelo aos partidos antigovernistas tipo PSOL, PSTU, a emprestarem apoio político, parlamentar, midiático a uma nova comissão que denuncie em alto e bom tom que não aceitamos nenhum crime contra o povo brasileiro e portanto contra a juventude estudantil e trabalhadora e nem conciliação alguma contra a repressão ao povo pobre e aos estudantes.

G Dantas, Brasília ---

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil




Tópicos relacionados

Ditadura militar   /    Sociedade   /    Direitos Humanos   /    Brasília

Comentários

Comentar