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RACISMO

"O Estado é racista, entendeu?" diz Valéria, advogada negra algemada durante audiência

Valéria foi algemada por policiais durante uma audiência judicial na Rio de Janeiro em mais uma demonstração inaceitável de racismo.

sexta-feira 14 de setembro| Edição do dia

Em mais uma absurda intervenção policial, a advogada Valéria lúcia dos Santos foi abordada e algemada durante uma audiência em Duque de Caxias, no RJ. O fato se deu porque a advogada exigia ter acesso à peça da defesa e em discussão com a juíza, teve seu pedido negado. A juíza decidiu chamar os policiais.

Presentes na audiência gravaram a discussão, no entanto, não é possível ver o início da discussão. A OAB declarou que Valéria estava “absolutamente correta” e definiu o ato como uma violação grave. Em contrapartida, O Tribunal de Justiça do RJ afirmou que juíza chamou a polícia para conter uma advogada que não acatou orientações da magistrada.

Preconceito no ambiente de trabalho são frequentes, segundo afirma Valéria, que afirma não se sentir representada pelo judiciário. Ainda assim, evita associar seu caso ao racismo.

Será aberta pela OAB do RJ uma representação contra os policiais envolvidos no caso e também contra a própria juíza. A audiência foi anulada e remarcada para o próximo dia 18.

Em declaração à Folha de São Paulo, Valéria disse:

“A ficha do racismo só caiu quando eu estava no chão, algemada.Os policiais me pegaram cada um por braço na sala de audiência e me arrastaram em pé até o corredor, Não fui violenta com ninguém, só não me movi. Quando chegou do lado de fora da sala, me deram uma rasteira e eu caí sentada. Depois colocaram as algemas. Nesse momento chegou o delegado da OAB, que foi muito firme: Tirem as algemas dela agora ! Os policiais obedeceram na hora, já eram quatro a essa altura.

Aí você pensa: Como é a formação da nossa sociedade? Vamos dar os nomes: tem o senhor de engenho, a senhorinha, o capitão do mato. E quem estava no chão algemada? Eu.

O Estado é racista, entendeu? Mas se eu falo isso, é mimimi, é vitimismo, por isso que eu não queria atrelar esse caso a racismo, porque eu não quero ouvir essa resposta. A minha luta ali era garantir meu direito de trabalhar. O racismo vai voltar a acontecer. Eu tento abstrair, ignoro. Mas não dá pra tirar o meu ganha pão."

Naquele dia a juíza leiga já tinha começado a audiência com uma pergunta não muito amigável. A minha cliente também é negra, e a juíza falou: Vocês são irmãs? A cliente respondeu, eu fingi que não tinha ouvido e continuei o meu trabalho.

Episódios assim acontecem quase todo dia, mas muitos colegas não falam porque acham que não vale a pena ou não querem criar problema. Vou dar um exemplo simples: O diretio tem várias formalidades. Tem uma cadeira pro advogado e outra para o cliente. Eu sento na cadeira do advogado e os juízes me perguntam: A senhora é o que? Ou eles falam para os outros advogados da sala que já os conhecem e eu preciso mostrar minha carteira da OAB. Não adianta eu dar o número, preciso mostrar o documento.

Não vou te enganar, eu entro nas audiências e não me sinto representada.. A gente está em minoria na estrutura institucional do Judiciário. A última vez que um desses episódios aconteceu eu me acovardei, não quis arrumar tumulto. Naquele dia em Caxias decidi que isso não ia se repetir. Eu tinha direito de ver a peça da defesa.

A juíza leiga negou. Eu saí da audiência para buscar o delegado da OAB, mas ele não estava na sala dele. Avisei à atendente. Quando voltei, a juíza tinha encerrado a audiência e me mandou esperar do lado de fora. Me recusei. Disse que eles, como representantes do Estado, não estavam respeitando a lei. Ela decidiu chamar a força policial.

Tanto foi uma violação que a audiência foi remarcada, com um juiz togado. Aquele ato ali, tanto meu, se eu extrapolei, quanto dela, foi anulado. Na hora eu não chorei, mas por dentro eu chorava. Fiquei muito mal. Quando cheguei em casa, sozinha, desabei. “

Essa é a cara do judiciário golpista, que com o máximo de sua arbitrariedade, aprofunda o golpe e os ataques à população negra, às mulheres, jovens, LGBTS e trabalhadores. No Rio de Janeiro, a população negra das favelas sente na pele todos os dias o racismo e a opressão da polícia, que tem nas mãos sangue negro e continua seu extermínio para assegurar que o golpe se aprofunde ainda mais. Basta! Que em todo o local de trabalho e estudo ecoemos nossas vozes contra as arbitrariedades desse judiciário golpista e racista.




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