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Editorial MRT | Unificar as lutas em curso para derrotar os ataques de Bolsonaro sem ilusão nas eleições

Uma pergunta está no centro dos debates do último período: como derrotar Bolsonaro em 2022? Muitos setores buscam responder essa pergunta apostando em diferentes estratégias, desde setores que apoiaram Bolsonaro e agora querem mudar de rumo para manter os ataques, até aqueles que querem derrotar também os ataques contra a classe trabalhadora e a população. Em nossa visão a resposta a essa pergunta é inseparável da discussão sobre o papel das lutas em curso e a política das burocracias sindicais que buscam canalizar todas as energias da nossa classe para as vias institucionais e as eleições.

Odete AssisMestranda em Literatura Brasileira na UFMG

quinta-feira 24 de março | Edição do dia

Enquanto os jornais e partidos burgueses centram o debate nas articulações pelo alto e nos interesses da burguesia diante da crise econômica agravada pela guerra na Ucrânia, a realidade para milhares de famílias está sendo a fome, a inflação, a alta nos preços do gás de cozinha e dos combustíveis, a destruição de suas casas devido às consequências das chuvas e enchentes que desde o início do ano tem devastado diferentes regiões do país, como impacto direto das alterações provocadas pela crise climática mundial. Conforme analisou Danilo Paris, o Brasil diante de tendências internacionais explosivas é marcado por uma situação onde as contradições estruturais do país combinadas com as tendências internacionais colocam a possibilidade de novos fenômenos políticos e sociais. Ainda que por ora, um cenário de maiores convulsões sociais não está colocado na conjuntura, a possibilidade de giros bruscos na situação é uma preocupação constante da burguesia brasileira e internacional. Em meio a essas questões, as eleições de outubro se tornam uma peça chave para a política da classe dominante. Mas é a luta da classe trabalhadora que deve ser a aposta estratégica para construir uma força social que seja parte da articulação de um polo de independência de classes no país.

De um lado, os setores mais conservadores e reacionários da burguesia que mantém o apoio a Bolsonaro e sabem que independente do resultado das eleições, a existência de uma força social de extrema direita com peso de massas no país é estratégico para manter intacto grande parte dos ataques que foram aprofundados com o golpe institucional de 2016, e que teve no Congresso e no judiciário grandes aliados na defesa das reformas e privatizações. Por outro, vemos setores desse mesmo regime que atentos às convulsões internacionais e as dificuldades de construir uma outra alternativa diferente de Bolsonaro ou Lula, começam a ver na política de conciliação petista, que agora deve ter o ajustador e reacionário Geraldo Alckmin como vice, uma alternativa que pode manter o país subordinado aos seus interesses, justamente pela política de Lula para governar junto com o agronegócio, às forças armadas, à bancada evangélica e ao poder judiciário.

É nesse contexto que as greves em Minas Gerais são um exemplo dos grandes desafios colocados para a classe trabalhadora em nosso país. Diante da piora nas condições de vida, do aumento no preço dos alimentos, do gás e dos combustíveis, diversas categorias saíram em luta pela mais que justa recomposição dos seus salários. Atualmente os professores e trabalhadores da rede estadual de educação estão em greve contra Romeu Zema, assim como os professores da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Em Belo Horizonte, os educadores da rede municipal também estão em greve contra Kalil, que diga-se de passagem está praticamente certo como o candidato de Lula ao governo do estado, e os metroviários da CBTU entraram em greve contra a tentativa de privatização do governo Bolsonaro-Mourão, que também é apoiada por Zema. São mobilizações com um caráter muito diferente da reacionária mobilização de policiais, que há quase um mês estão se organizando no estado por melhores condições para reprimir os trabalhadores e a população.

Essas greves de trabalhadores, ainda que tenham no centro a luta para que a crise capitalista não seja descontada em suas costas com a defasagem dos seus salários, também expressam um elemento político: esses trabalhadores veem sua greve como parte do enfrentamento aos governos que tanto atacam seus direitos. É aí que entra o papel das direções sindicais e um problema estratégico fundamental, em especial na rede estadual de educação, a direção do Sindute (PT) busca controlar ao máximo essa disposição de luta dos trabalhadores para que ela não rompa os marcos de uma estratégia eleitoral e institucional de pressão parlamentar, fazendo da greve, inclusive das assembleias da categoria, um palanque para os parlamentares petistas e para a campanha de Lula, ao mesmo tempo que buscam por essa via desgastar políticos como Zema e os parlamentares dos partidos que não estão aliados com o PT.

Tudo isso se dá em detrimento da aposta na unidade das greves em curso, convocando uma paralisação no estado, chamando uma grande campanha nacional de solidariedade como a que estamos impulsionando desde o Esquerda Diário, mas que teria outro nível de alcance se fosse tomada pelas centrais sindicais e estudantis de todo país. Muito menos de unificar com as lutas em curso em outros estados, como no Piauí na rede estadual e em Teresina na rede municipal, que foram reprimidos pela polícia militar da governadora Regina Sousa (PT). Em São Paulo há uma forte mobilização da educação na cidade de São José dos Campos, além das mobilizações e preparação de greves em servidores municipais em várias partes do país, que poderiam ser um grande ponto de apoio para um chamado a uma paralisação nacional, colocando no centro o combate aos ataques e as reformas de Bolsonaro e Mourão, assim como o combate aos planos de ataques regionais dos governos, buscando se ligar com o conjunto da população contra o aumentos de preços e a corrosão dos salários dos trabalhadores, contra o desemprego e a fome.

Ao contrário dessa aposta na mobilização dos trabalhadores para dar uma resposta à crise, o que vemos é as centrais alimentarem as ilusões de que pelas eleições tudo será resolvido, enquanto Bolsonaro, o Congresso, o judiciário, os governadores e prefeitos continuam atacando nossos direitos em nome de manter os lucros dos patrões. Isso fica claro no chamado a uma Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) como uma via de subordinar integralmente as necessidades da nossa classe às promessas eleitorais de Lula, conforme debatemos na declaração Chega de subordinar nossa luta às eleições! Por uma paralisação nacional para enfrentar a inflação, a reforma trabalhista e unificar as lutas! Um exemplo dessa lógica foi a não construção de um forte dia de paralisações no dia nacional de mobilização chamado pela CNTE, no último dia 16. Outro exemplo é que a campanha nacional Fora Bolsonaro convocou o dia 9 de abril como Dia Nacional de Mobilização BOLSONARO NUNCA MAIS! Contra o aumento dos combustíveis e do gás! Não à fome e ao desemprego! um dia que poderia ser parte de um plano de lutas nacional dos trabalhadores e da população, indicando as lutas pelo país, no entanto, mesmo com todas essas greves em curso a nota sequer cita esses processos, buscando construir um dia ainda mais voltado para estratégia eleitoral e totalmente por fora das lutas reais que os trabalhadores estão travando.

Diante dessa atuação das centrais sindicais o que vemos é que a maioria da direção do PSOL já declarou apoio irrestrito à Lula nas eleições desde o 1º turno, mesmo sendo praticamente certo que o vice será Geraldo Alckmin. Em Minas Gerais, a deputada federal desse partido, Áurea Carolina, sequer fez uma postagem em sua página de instagram sobre as greves no estado. Enquanto no DCE da UFMG, o Afronte-Resistência, se recusou a construir uma campanha de solidariedade ativa e uma atividade na recepção dos calouros em apoio às greves da educação, com o argumento de que tinham outras prioridades na gestão. Esses elementos vêm acompanhados de uma lógica do “mal-menor” que já virou estratégia para a direção do PSOL e irá se concretizar também numa mudança no caráter do partido que passará a funcionar como um partido único com a Rede, já que está praticamente certo a federação com esse partido burguês financiado pelo Itaú que votou pelo golpe institucional, defendeu a prisão arbitrária de Lula, foi favorável a reforma da previdência em São Paulo e é contra o direito ao aborto.

Foi por esses motivos que nos dirigimos especialmente aos militantes que assinam a carta “PSOL na encruzilhada” com um claro chamado a que rompam com o PSOL e sejam parte da batalha por construir um polo de independência de classes na luta de classes e nas eleições, que seja uma alternativa à diluição do PSOL no projeto Lula-Alckmin. Um desafio que passa em primeiro lugar pela unidade na luta de classes, construindo uma grande campanha em apoio às lutas em curso, batalhando juntos nos espaços comuns em exigências aos sindicatos e centrais sindicais para que também organizem esse apoio nas mais diversas categorias, e às entidades estudantis, como a UNE, batalhando contra a estratégia eleitoral que separa as lutas em curso dos trabalhadores buscando canalizar qualquer disposição de luta da nossa classe aos estreitos limites da estratégia de conciliação de classes de Lula e do PT.

Uma atuação como essa poderia ser um ponto de apoio para a construção de um programa comum para que sejam os capitalistas que paguem pela crise, tomando inclusive o exemplo da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade na Argentina (FIT-U), pensando no Brasil campanhas como a defesa da reversão de todas as privatizações, o que inclui uma Petrobrás 100% estatal, sob gestão dos trabalhadores e controle da população, para que o interesse de um punhado de acionistas não se imponha sobre a vida de milhões de pessoas, junto ao não pagamento da dívida pública. De maneira combinada com a luta pelo reajuste salarial automático de acordo com a inflação para todos os trabalhadores e aposentados, junto ao auxílio de um salário mínimo para todos os desempregados e subempregados. Estas são algumas das batalhas de conteúdo que fazemos como parte do Polo Socialista e Revolucionário, utilizando inclusive a legenda democrática que o PSTU concedeu aos ativistas e organizações sem legalidade neste regime antidemocrático, para batalhar por esta agitação política também nas eleições.

A urgente derrota de Bolsonaro, Mourão e dos ataques contra nossos direitos, que significa também se enfrentar com o Congresso e o Judiciário, se fortalece se as lutas em curso forem vitoriosas. Esse é um desafio de primeira ordem. Por isso, é urgente essa batalha para que em cada canto do país os trabalhadores e a juventude se vejam como sujeitos na construção de uma forte campanha de solidariedade às greves e mobilizações em curso, exigindo também dos seus sindicatos essa construção, um papel que vai muito além da espera por votar em outubro, mas coloca para agora o desafio de unificar as fileiras da nossa classe para fazer com que sejam os capitalistas os que paguem pela crise.




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