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Uma introdução ao debate de Kautsky

Nathaniel Flakin

Uma introdução ao debate de Kautsky

Nathaniel Flakin

Os socialistas nos EUA, de repente, começaram a falar sobre Karl Kautsky. Por quê? Apresentamos aqui uma visão geral do debate para aqueles que não estão acompanhando.

Tradução Jéssica Antunes

Imagem: Obituário de Kautsky no New York Times.

Em duas conferências socialistas diferentes, em Nova York e Chicago, ouvi camaradas perguntando o que estava acontecendo no debate sobre Kautsky. Por que todo mundo estava falando de Karl Kautsky (1854-1938), de repente? Sou historiador do movimento socialista na Alemanha há mais de uma década, e nunca imaginei que Kautsky iria ressurgir. Os escritos de Kautsky são geralmente desconhecidos - na Alemanha, na Áustria onde nasceu, e particularmente no mundo de língua inglesa. Seu trabalho é mais conhecido por ser citado nas polêmicas do Lenin e Trotsky.

O debate que vem ocorrendo nos últimos seis meses reflete mudanças dramáticas no movimento socialista dos EUA. Para aqueles camaradas que estão se perguntando por que tanta tinta tem sido derramada acerca disso, oferecemos essa visão geral:

Karl Kautsky

Primeiro: Quem foi Karl Kautsky? Kautsky foi o líder teórico do Partido Social Democrata Alemão (SPD), o maior partido da Segunda Internacional. Depois da morte de Karl Marx e Friedrich Engels, o jornal teórico de Kautsky “Die Neue Zeit” [Os Novos Tempos] se tornou tão influente que ele ganhou o apelido de “Papa do Marxismo”.

Havia três alas no SPD. A ala reformista ou “revisionista”, que começou a se formar em 1890 e era representada por Eduard Bernstein, defendia a transformação do capitalismo via reformas parlamentares. A ala esquerda, representada por Rosa Luxemburgo e outros, se firmavam nas raízes marxistas do partido: eles queriam um partido que impulsionasse as greves operárias no sentido da revolução.

A terceira ala, o “Centro Marxista” de Kautsky, tentou reconciliar essas duas posições irreconciliáveis em nome da unidade do partido. A visão de Kautsky da revolução, como exposta em seu livro “O caminho do poder”, postulava que o partido socialista primeiro precisaria conquistar uma maioria no parlamento, como um mandato por mudanças radicais. Em oposição a Luxemburgo, Kautsky via a revolução como um fenômeno objetivo pelo qual os socialistas deveriam pacientemente esperar, ao invés de preparar-se ativamente.

Guerra e Revolução

Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, o SPD efetivamente rachou. A ala direita, agora na direção do partido, apoiou a guerra imperialista. A ala esquerda, forçada à clandestinidade, tentou organizar a resistência anti-guerra. Kautsky representando o centro, essencialmente lavou as mãos e disse que ele era contra a guerra mas que os socialistas não podiam fazer nada para impedi-la.

Essa posição se provou falsa apenas quatro anos mais tarde, quando a revolução derrubou o Kaiser Alemão. Na turbulência revolucionária que se seguiu, a ala direita social democrata tentou salvar o capitalismo, enquanto a esquerda batalhava para levar até o final a revolução socialista. Na revolução de 1918-19, Kautsky tentou novamente encontrar um meio termo - e terminou sendo nada mais que o idiota útil da direita.

Kautsky passou o resto da sua vida atacando a vitoriosa revolução socialista na Rússia, com um crescente ressentimento. Com o fascismo em ascensão, a esperança de Kautsky de que o SPD poderia acumular poder de forma contínua (assim como fez nos dias pré-guerra) provou-se infundada. Ele morreu no exílio em 1938 e foi, em geral, esquecido.

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Eric Blanc

O atual debate sobre Kautsky nos EUA começou quando o jovem historiador Eric Blanc publicou um artigo na Jacobin. Blanc vem de um passado Trotskista, primeiro como um membro do Socialist Organizer e depois da International Socialist Organization, mas recentemente debandou para o Democratic Socialists of America [Socialistas Democráticos da América] e a campanha eleitoral de Bernie Sanders.

Blanc argumenta que a política revolucionária nunca ganhou maioria num país de capitalismo desenvolvido, com um sistema parlamentar. Por isso, os socialistas precisam ganhar uma maioria parlamentar antes que as transformações socialistas possam ser colocadas na agenda. Blanc tem feito um chamado aos socialistas a que se juntem aos Democratas - confortando a si mesmos com a promessa de que um dia romperão.

Mas, o que tudo isso tem a ver com o Kautsky? Kautsky, apesar de todas as suas debilidades, era intransigente quanto a necessidade de um partido independente da classe trabalhadora - ele especificamente defendia que os trabalhadores nos EUA deveriam formar seu próprio partido, em vez de se juntar aos Democratas ou aos Republicanos.

O verdadeiro acordo entre Kautsky e Blanc se encontra em seu comprometimento com a política reformista para o presente, que ambos prometem que irá se tornar uma política de transformação radical num futuro distante. Os marxistas chamam esse tipo de política de “centrismo” (expressão que surgiu do “Centro Marxista” de Kautsky), que significa “revolucionário em palavras, mas reformista em atos.”

Finlândia e Chile

Blanc cita a Revolução Finlandesa como um modelo para sua teoria da revolução. Em 1917, o Partido Social Democrata da Finlândia (SDP) ganhou a maioria no parlamento, e esse foi o prelúdio de uma revolução socialista. Entretanto, a política reformista do SDP (pacientemente esperar pela revolução, sem prepará-la) levou a revolução à derrota. Você não precisa acreditar em nossa palavra: muitos líderes do SDP determinaram eles mesmo que a política reformista fracassou, e se tornaram comunistas. Inexplicavelmente, seu fracasso deveria ser, para Blanc, um modelo para os socialistas de hoje.

A Revista Jacobin também elogia outra derrota sangrenta: a do governo reformista de Salvador Allende no Chile. Mas, novamente, a derrota de Allende demonstra que a estratégia reformista eleitoral não prepara os socialistas para a luta revolucionária contra o estado burguês. Nathan Moore tem demonstrado como a experiência do Chile torna o Leninismo mais relevante que nunca.

Lars Lih

Lars Lih tem argumentado por mais de uma década que a política centrista de Kautsky e a política revolucionária de Lenin eram mais ou menos idênticas. Esse tem sido seu tema de trabalho desde que publicou seu livro: “Lenin Redescoberto: O que fazer? em Contexto.” Lih reiterou recentemente este argumento em um artigo para a Jacobin, "Karl Kautsky como arquiteto da Revolução de Outubro". Ele também tem escrito muitos artigos similares para o jornal britânico “Weekly Worker” [Semanário do Trabalhador].

Como Christopher Baum aponta no Left Voice [jornal irmão do Esquerda Diário nos EUA], no artigo "Lenin, Kautsky e o Estado", entretanto, seu argumento deliberadamente ignora as rupturas no pensamento de Lenin. Particularmente na questão do estado, Lenin muda sua opinião ao longo da Primeira Guerra Mundial, rejeitando as ideias reformistas de Kautsky. Jim Creegan tem defendido esforçadamente este argumento em artigos para o “Weekly Worker” [Constante trajetória à direita]

É interessante notar que Blanc e Lih defendem pontos quase diametralmente opostos: Blanc sobre a premissa de que ele estava contra Lenin; Lih defende Kautsky sobre a premissa de este estava junto a Lenin. O oportunismo político vem sempre acompanhado por teorizações confusionistas. Lih se apresenta como um acadêmico apolítico, mas na realidade, assim como Blanc, Li teve uma carreira política como um “socialista” no Partido Democrata. Aí está onde ele e Blanc concordam; como Louis Proyect convinccentemente argumenta, ambos subordinam a teoria e a história a seus fins políticos oportunistas [Lars Lih x Eric Blanc].

Imperialismo

Na única contribuição do Sul Global, Matías Maiello - escritor do site irmão do Left Voice na Argentina, La Izquierda Diario [e do Esquerda Diário brasileiro] - aborda a questão da relação entre o imperialismo e o reformismo social democrata. Em última instância, foi a capitulação do SPD ao imperialismo alemão que o levou (e a Kautsky) a sua histórica traição. Logo, é essencial para os socialistas - especialmente nos EUA, a potência imperialista mais destrutiva da história - colocar o anti-imperialismo no centro de seu trabalho teórico e político.

- O retorno de Kautsky depois de um século de imperialismo por Matías Maiello

Isso levou a um debate com Charlie Post no Left Voice sobre o conceito de “aristocracia operária”. Lenin usou esse termo em referência a camada superior do proletariado nos países imperialistas, que pode frequentemente ser “subornada” à complacência a partir da divisão dos espólios do saque imperialista. Lenin argumenta que tais subornos constituem a base material do reformismo. Charlie Post contra-argumenta que não há evidência empírica da existência de uma “aristocracia operária”, e que o reformismo é um produto natural da luta da classe trabalhadora sob o capitalismo. Maiello responde que os “subornos” providos a aristocracia operária abrangem muito mais que os altos salários.

- Reformism and Imperialism — A Reply to Matías Maiello por Charlie Post

- Anti-Imperialism and Socialism — A Reply to Charlie Post por Matías Maiello

Leitura adicional

Esperamos ter fornecido alguma alguma ajuda aos leitores que buscam entender o debate sobre Kautsky. Há, quase certamente, contribuições importantes que estamos deixando passar. Por favor, nos avise em nossas mídias sociais ou entrando em contato conosco.

O importante a lembrar é que o debate sobre Kautsky não é realmente sobre Kautsky. É apenas um substituto teórico para o grande debate que está ocorrendo dentro da esquerda americana: os socialistas devem se juntar ao Partido Democrata do imperialismo norte-americano?

Seria muito mais fácil, é claro, se os reformistas de hoje - concentrados em torno da Revista Jacobin - se declarassem reformistas. Mas o reformismo sempre foi teoricamente obscuro. O bom é que é exatamente estudando a história do movimento socialista que vamos entender que tipo de estratégia precisamos para vencer o capitalismo.

As melhores contribuições para o debate sobre Kautsky vieram dos marxistas clássicos. Recomendamos o "Estado e a Revolução" de Lenin e "A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky", bem como "Terrorismo e Comunismo" de Trotsky, e "A Greve de Massas" de Luxemburgo.

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