Economia

LULA MINISTRO

Uma entrada de Lula no governo significaria ‘guinada à esquerda’ na economia?

Nesta terça-feira, 15, cresceram os rumores de que Lula irá assumir algum ministério no governo Dilma, possivelmente assumiria a Secretária do Governo, que está, atualmente, com Ricardo Berzoini, “homem forte do PT” e do núcleo duro da equipe de Dilma.

Flávia Ferreira

Campinas @FFerreiraFlavia

quarta-feira 16 de março de 2016| Edição do dia

Estes rumores geraram “apreensão” na Bolsa de valores que continuou em queda, já, o dólar, se valorizou fechando o dia custando R$3,76, ou seja, saíram dólares do país o que tornou a moeda mais cara em relação ao real. Também, ações de bancos como o Banco do Brasil, produtores de matérias-primas e estatais (Petrobrás) se desvalorizaram. Esta situação nas bolsas e no câmbio (custo do dólar) é resultado de um movimento especulativo de capitais financeiros internacionais, imperialistas, que pressionam o governo Dilma a seguir e aprofundar a cartilha neoliberal de ajustes inclusive os chamados ajustes estruturais (reforma da previdência, flexibilização das leis trabalhistas, cortes no funcionalismo, entre outros).

Especulações

A “apreensão” dos capitalistas com relação à Lula no governo se deve a especulações de que Lula representaria uma possível “guinada à esquerda “, ou melhor “keynesiana” (em geral, medidas que ampliam o consumo via investimento público e crédito), na política econômica, o que retardaria os ajustes fiscais. O motivo é que Lula, visando uma “recuperação do apoio popular” ou da base do PT em relação ao governo Dilma de olho nas eleições de 2018, seria favorável à ampliação do crédito público (via BNDES e Banco do Brasil) e investimentos para os programas Minha Casa Minha Vida e PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Ajuste e Lula

Para atingir estes objetivos, Lula defenderia, o uso de reservas públicas em dólares para “abater” parte do juros e custos da dívida pública e reduzir a necessidade de “esforço fiscal” do governo (como já apontamos aqui no Esquerda Diário, a dívida pública do Brasil está em sua maior parte sobre controle de grandes bancos estrangeiros e ainda, tem origem fraudulenta).

Porém, esta saída de Lula é outra resposta burguesa para a crise, o que não significa que salários, direitos e investimentos sociais em saúde, educação, entre outros, serão preservados e ampliados, neste mecanismo, a desvalorização do real se aprofunda (pois sairão mais dólares do país) tornando todos os produtos importados mais caros, inclusive e sobretudo, itens básicos como alimentos e matérias-primas. Ou seja, mais inflação e salários desvalorizados, num cenário de alto desemprego e saída de dólares. Por fim, a agenda do ajuste seguirá firme com ou sem Lula e as especulações nas bolsas são um mecanismo de chantagem do imperialismo para garantir que este compromisso não será rompido.

Guinada à esquerda com Lula: utopia

Como é possível esperar uma “guinada à esquerda” num eventual governo com Lula ministro? Esta é uma pergunta necessária neste momento em que muitos setores petistas apostam numa recuperação, no folego do governo Dilma com o maior protagonismo de Lula. Uma aposta baseada numa falácia e que faz questão de apagar o passado de Lula na presidência: em seu governo, Lula não mediu esforços para aprovar a reforma da previdência (2003), ajustes e cortes no funcionalismo, a manutenção de juros exorbitantes, investimentos públicos em setores privados da educação, entre outras políticas de agenda neoliberal que inclusive resultaram em lucros recordes para bancos como Bradesco e Itaú, a despeito dos trabalhadores do setor.

Pode ser que a possível participação de Lula enquanto principal articulador político do governo Dilma (“superministro”) aponte para tênues mudanças no rumo da política econômica, mudanças, como o uso de reservas, que estariam longe de significar uma “guinada à esquerda” de Dilma. Porém, o histórico de Lula, também respalda uma postura diferente da que sonham os entusiastas do PT, ou seja, Lula poderia articular apoios, alianças no Congresso para acelerar o ajuste neoliberal de Dilma já em curso, mas que hoje é “travado” pela pauta do impeachment, e assim trazer de volta a “confiança” dos banqueiros e capitalistas internacionais como fez junto com Palocci em 2003.

Para não haver dúvidas o próprio líder do governo, o senador petista Humberto Costa declarou ontem o que ele entende que Lula faria: "Lula quer aproximar o partido da base, mas sua linha é diferente da esquerda. Fará o fundamental mesmo que desagrade (não se se sabe se a referência é à reforma da Previdência, aos ajustes em geral). Ele quer ampliar o crédito para a produção e consumo".

Saída independente

Seja qual política econômica for a adotada com Lula à frente da Secretaria de Governo de Dilma o compromisso primordial do governo do PT é com o ajuste fiscal, com a garantia dos lucros dos ricos, empresários e capitalistas internacionais, como Dilma já mostrou com a entrega do Pré-Sal aos capitais estrangeiros nas últimas semanas. Com ou sem essas eventuais mudanças tênues na política econômica, o saldo e a saída dos governos para a crise (que trouxe a maior recessão do país nos últimos tempos) será sempre sobre os direitos, os salários e os empregos dos trabalhadores.

É necessário barrar o impeachment da direita reacionária e apontar para uma saída independente à crise econômica, à recessão e ao desemprego, uma saída que não pode se apoiar em Lula, Dilma e no PT, que alimentaram esta direita e implantaram ajustes. A juventude e os trabalhadores precisam estar à frente da construção de um grande movimento nacional contra os ajustes e a impunidade dos ricos e poderosos.

A saída de fundo à crise política e econômica passa pela luta por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que emerja com a força da mobilização popular, um espaço político para que se discuta questões centrais como o não pagamento da dívida pública e o fim dos privilégios do políticos, no marco da luta por um governo dos trabalhadores.




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