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TRIBUNA ABERTA

Uma carta à meu sobrinho: as perspectivas de uma criança negra no capitalismo.

terça-feira 13 de outubro de 2015| Edição do dia

Neste último final de semana eu vi um vídeo que me intrigou pela chamada: quando menti para o meu sobrinho pela primeira vez ou por que ele é negro. Ele conta a história de um tio, que ao levar o sobrinho, uma criança, para passear se deparou com o medo deste pela polícia. Não irei colocar aqui todo o conteúdo do vídeo, que segue abaixo para quem quiser ver (achei excelente, para já saberem a minha opinião), por causa dele que escrevo este texto.

Sou tio de 3 sobrinhos, padrinho do mais velho (então imaginem que sou "quase mais que tio", um coruja, mesmo não podendo), de 5 anos, e também apaixonado pela sobrinha de 3 e pelo mais novo, de 2 anos, que o ex da minha irmã visitou apenas 3 vezes. Não estou aqui para falar do drama familiar, mas de uma coisa concreta, que este vídeo me instigou a pensar: quanto tempo de vida meu sobrinho vai ter?

Essa pergunta parece meio mórbida e surreal, mas esse vídeo me tocou fundo no coração, pois conseguiu expor todos os temores e medos que eu, mesmo não sendo pai, sinto ao ver o quão rápido meu sobrinho cresce. Ele é inocente, tem problemas na fala (uma dicção que antes da fono era difícil de entender), muito alegre e extrovertido (mesmo tendo sido diagnosticado com depressão após a separação dos pais), enfim, uma criança linda.

Mas eu temo por ele e por esse mundo em que ele irá crescer, um mundo pautado na disputa entre duas classes antagônicas: a burguesia e o proletariado. Parece termos do passado, mas a opressão da burguesia enquanto classe dominante é bastante atual e presente, e cria várias divisões entre nós, trabalhadores, sendo que uma delas atinge a ele direitamente, que é o racismo (por enquanto, pois meu sobrinho pode descobrir-se homossexual, transexual, etc). O Capitalismo, que se apropriou da segregação e preconceito gerados pela escravidão, para subdividir e rebaixar as espectativas de todos os trabalhadores através da exploração do negro e posteriormente da sua localização no nível mais baixo da divisão social das classes, podendo assim diminuir o salário de todo o conjunto da classe, é o grande causador disso tudo.

Durante muito tempo acreditei (de maneira inconsciente, durante o processo de ser bombardeado cotidianamente como racismo institucional), se eu fosse educado, estudasse em boas instituições, tivesse um bom trabalho, me vestisse com "menos cara de negro", não curtisse "coisas de negro" e não lembrasse que eu era negro, acreditando no mito da democracia racial, que pelos antepassados da minha avó serem italianos, que eu não era ou seria tão prejudicado pelo racismo assim. Me enganei, e feio. Fiz uma boa faculdade, pós-graduaação e mestrado, estudei idiomas, me tornei funcionário público, viajei para fora, tudo para descobrir que diante uma abordagem policial, feita sempre com a arma apontada para a minha cabeça, você é apenas "mais um negrinho", provavelmente sem pai e mãe e que pode, a qualquer momento ser "eliminado" desse jogo que é a vida.

Quando compreendi tudo isso, que a exploração que gera os problemas sócias, criando ricos e vários tons de pobres, era estruturada sob o racismo, o machismo, a homofobia, e toda uma sorte de opressões, que enquanto debatemos como "curar esse mundo", o livrando dessas opressões sem combater o que ele tem de mais profundo, que é a exploração de classes a qual todos estamos submetidos, brancos e negros, mulheres e homens, gays e héteros, NUNCA seremos efetivamente libertos. Por isso eu prometi nunca deixar de lutar até derrubar esse sistema maldito, que não apenas coloca em risco mais diretamente ceifa a vida de milhares de jovens no Brasil, sendo estes em sua maioria negros que nem chegaram a ser efetivamente alfabetizados, como o menino Eduardo Fiúza, de 9 anos, morto com um tiro na cabeça por estar com um celular na mão que os policiais disseram terem confundido com uma arma. Não queto que o próximo seja meus sobrinhos, netos, filhos (caso eu tenha), e nem os filhos das pessoas que eu conheço e daquelas que infelizmente não irei conhecer.

Uma mensagem do fundo do meu coração para o meus sobrinhos, Lucas, Letícia e Leonardo, e para todos os meus outros sobrinhos e sobrinhas, de sangue ou não: eu espero que vocês possam crescer e viver sem medo. Quero poder olhar nos olhinhos do meu sobrinho e dizer: vai ficar tudo bem, você está seguro. Sem medo e sem saber que estou mentindo para ele. Que ele saiba que não estou disposto a mentir para ele.

É por isso que eu luto todos os dias da minha vida por um mundo diferente, um mundo sem o racismo, o machismo, a homofobia, mas, acima de tudo, um mundo sem o capitalismo. Essa é a guerra que eu escolhi lutar por ele.




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