Cultura

Um raro achado na Rússia: a carta de Trótski ao Exército Vermelho inédita em português

Traduzimos uma carta inédita de Trótski ao Exército Vermelho.

segunda-feira 5 de fevereiro| Edição do dia

(Tão raro quanto a carta, retrato de Trótski com o uniforme do Exército Vermelho)

Nos meses de outubro e novembro de 2017, Barbara Tavares e Raphael Mouro foram à Rússia para conhecer a terra de seus antepassados: as trabalhadoras e os trabalhadores que há 100 anos ousaram tomar o céu de assalto. Imaginem a aventura que significa para dois jovens militantes estar ali e prestar sua homenagem, à sua maneira, com vodka, tatuagem e Trótski, a esses antepassados russos ligados a eles pelos laços do internacionalismo. Através das inúmeras mídias disponíveis hoje, pude acompanhá-los e, de certo modo, também estive ali em vários momentos. Além de camaradas, foram também meus alunos e estavam minimamente preparados para enfrentar o cirílico e desbravar o metrô de Moscou e o Hermitage de São Petersburgo.

Além da viagem, tinham a missão de trazer material para o Esquerda Diário, e mostrar para os leitores, por meio de uma reflexão crítica do processo, o que significou e como estava sendo tratado aquele acontecimento. Um pouco dessa aventura pode ser vista aqui e aqui. Para Barbara (ou Varvara): “O projeto de conhecer e aprender o alfabeto e o idioma russo se mostrava a cada aula mais ambicioso e mais apaixonante, mas não imaginava que a sensação de chegar na Rússia e conseguir ler aqueles caracteres tão diferentes, e por vezes decifrar tudo o que estava escrito, seria tão emocionante, assim como me apresentar para as pessoas no idioma delas. Sem isso a viagem teria sido outra, e já no primeiro dia pudemos sentir a importância do conteúdo dessa carta, que só encontramos quase no fim da viagem, em Moscou. Entre todas as exposições possíveis, eram várias, sobre o que foi a maior Revolução que a humanidade já protagonizou, buscávamos uma que não apagasse o papel que Trotsky cumpriu ao lado de Lenin, e nesta, no museu ’Muzey Otechestvennoy Voyny 1812 Goda’, havia uma seção inteira dedicada ao Exército Vermelho. Impossível falar do que foi o Exército Vermelho sem falar do Trotsky.”

E nas palavras de Raphael: “Foi uma viagem planejada por anos. A ideia de estar presente na Rússia em pleno centenário era empolgante e a ansiedade aumentava a cada dia que se aproximava e a cada seminário, atividade ou livros que líamos e discutíamos sobre a história da Revolução, ainda antes da viagem. A experiência de chegar em São Petersburgo – antiga Petrogrado – e fazer o percurso dos pontos históricos como o Smolni, Palácio de Inverno e o Aurora, das reuniões e das batalhas fundamentais na tomada do poder, vinha carregado de emoção e reflexão de como era para os russos de hoje conviver com tudo aquilo e qual eram exatamente os sentimentos atuais com a história da Revolução. Sem muitas surpresas, a maioria apresentava uma visão histórica de rejeição ao passado da URSS, fruto, entre outros fatores importantes, do período, da opressão e burocratização stalinista, presente na memória dos velhos, e na história contada e reproduzida pelos jovens. Ainda assim, como trotskista, tudo fazia sentido já que traição e restauração ideológica burguesa se apresentaram como intrínsecos na queda das conquistas do primeiro estado operário da história. Com certa angústia – porque era impossível ser indiferente frente a um cenário de derrota de algo tão grandioso – nos apoiávamos na tarefa de transmitir as lições que tirávamos com a experiência, nos raros achados sobre o período revolucionário da URSS e também nas noites geladas, encontrando velhos e novos amigos ’centralizados democraticamente’ pela vodka russa”.

Entre as muitas fotos e os inúmeros relatos, tão dramáticos quanto divertidos, um chama especialíssima atenção: a carta que nosso camarada Trótski escreveu a seus camaradas do Exército Vermelho. Fiz muitas buscas do documento na internet e não consegui encontrar nenhum registro, seja em russo, seja em outras línguas, tentei em inglês, francês e espanhol. Pode ser que alguém encontre, vale conferir. Sempre há muita dificuldade em torno das obras de Trótski em russo, em virtude da perseguição que sofreu e que culminou em sua morte. Surpreende e felizmentemente, o MIT está fazendo um bom trabalho.

Trótski era dirigente do Exército Vermelho, popularmente conhecido como “o terror dos burgueses”, como já pude ver algumas vezes em citações e como é descrito, para ensinar a letra “T”, num dos quadros de alfabetização de adultos utilizado no ano de 1922. Talvez por isso o conteúdo tenha me causado tanta surpresa, além de toda a empolgação pelo achado dos meus camaradas. Trótski convoca seus camaradas a pegar em armas, e que armas: a alfabetização, os livros e as cartas. Um belo recado para nós, que assistimos à escalada do obscurantismo. Ao ler a carta, fui imediatamente convocada por aquelas poucas, porém poderosas, linhas, para a tarefa de traduzi-las para o português. Ei-la:

“Carta do camarada Tróstki aos alunos de alfabetização do Exército Vermelho*
Amigos do Exército Vermelho! Escrevo a vocês no dia 1º de Maio. Vocês estão lendo as minhas linhas. A Alfabetização nos une: nisso reside a grande força dela. Tudo o que milhares de seres humanos das gerações anteriores a nós viram, experimentaram, realizaram, está escrito nos livros. Está escrito tudo o que as pessoas aprenderam até agora. E uma vez que você se alfabetiza, você terá acesso a isso tudo. Você aprendeu a ler “Exército Vermelho”. Eu os parabenizo por esse grande sucesso: pois agora vocês têm nas mãos a chave que abre a porta da ciência. Mas não parem no meio do caminho! Aquele que não se alfabetiza direito, sempre esquece o que aprendeu. É preciso empenhar-se nos estudos, e depois também nas cartas. É preciso ler de modo fluente, livre, sem esforço e embaraço. Dedicar-se aos estudos em cada minuto de folga. Quantos contos, quantas poesias e canções maravilhosas, quantos livros de história e de ciências. O oceano do conhecimento humano inteiro, e quantos livros ainda serão criados, ainda mais maravilhosos do que todos os que existem hoje. Ora, as pessoas não ficam no mesmo lugar, vão adiante. Apenas começamos a curar nosso país, toda a população, conosco, está livre das trevas e move-se adiante. Olhem bem, amigos, não parem! Estudem, não percam tempo. Igualem-se, para avançar.”

* A tradução foi feita por Paula Almeida, diretamente da foto do original em russo tirada por Barbara e Raphael no museu “Muzey Otechestvennoy Voyny 1812 Goda” em novembro de 2017.




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