Cultura

100 ANOS ANTONIO CANDIDO

Um olhar sobre Antonio Candido

terça-feira 24 de julho| Edição do dia

Formação talvez seja uma palavra que englobe a figura de Antonio Candido de muitas maneiras. A formação da literatura brasileira, a formação do campo literário, a formação intelectual, a formação da crítica literária. E ele é parte fundamental da minha própria formação. Escrever sobre Candido não é tarefa fácil, nem enquanto pesquisadora nem enquanto escritora. Por isso é que, nesta pequena homenagem ao centenário de nascimento dele, não queria separar de forma estanque as esferas da minha vida, mas colocar elementos pessoais e profissionais andando conjuntamente para tentar demonstrar a importância de sua grande obra na minha pequena trajetória.

O mais interessante é que, olhando retrospectivamente, nos meus momentos de crise ou de impasse acadêmico, sempre aparecia um texto do Candido para ajudar a reavaliar a situação, olhar sob outra perspectiva e tentar dissolver imbróglios conceituais sem tantos esquematismos. Acredito que muito disso vem da perspectiva de Candido de romper o isolamento das áreas do conhecimento e prezar pelo diálogo entre as disciplinas, sem que uma se sobrepusesse sobre a outra, para que todas pudessem contribuir para uma maior e mais complexa compreensão da sociedade em que vivemos.

Um claro exemplo disso está em “De cortiço a cortiço”, texto cuja primeira versão é de 1974, em que Candido propõe uma análise totalizadora e que rompa com oposições entre literatura e contexto social. Tendo a obra literária como ponto de partida é possível compreender melhor os aspectos externos como fonte de vida da obra; mas a partir do contrário, a análise dos aspectos externos e históricos ajuda a desvelar a estrutura interna das obras literárias. Trata-se, portanto, de um método reversível que contempla elementos variados e que supera o isolamento, transitando do texto para a sociedade e da sociedade para o texto. A sensibilidade teórica e social de Candido aqui é tão aguda que ele chega a transformar um dito popular comum no século XIX em versos. O ditado está ligado aos valores naturalistas de “O cortiço”, bem como aos elementos raciais presentes na sociedade brasileira do período. Aos moldes dos poema-pílula de Oswald de Andrade, Candido arrisca:

MAIS-VALIA CRIOULA

Para
português negro e burro
três pês:
pão pra comer
pano pra vestir
pau pra trabalhar.

Apesar de ter ficado muitos anos imersa nos textos de crítica literária, o primeiro trabalho que li de Antonio Candido foi “Radicalismos”, baseado em uma palestra dada por ele em 1988. O texto trata do ímpeto radical de alguns intelectuais brasileiros na virada do século, período que corresponde do abolicionismo ao estado novo. Apesar das diferenças conceituais entre si, Joaquim Nabuco Manuel Bonfim e Sérgio Buarque de Holanda guardam consigo um elemento em comum: fariam um contrapeso ao pensamento conservador tão marcante no Brasil. A análise de Candido perpassa termos cruciais para o debate político até hoje como a questão da revolta, o que é ser radical e revolucionário, bem como relações de classe e visões de mundo. Um texto fundamental, tanto pela apresentação teórica e crítica dos autores, quanto pela contextualização, que supera limites cronológicos habituais e concebe a história como um amplo processo de mudanças e rearranjos sociais.
Com a minha primeira grande crise na academia, veio também a guinada: terminando a graduação em Ciências Sociais e imersa em existencialismos, marxismos e satreanismos, havia me perdido do que até então tinha sido – e ainda o é em diversas esferas – o meu motor de vida: a literatura. Transitando entre a filosofia e a sociologia foi justamente a coletânea de textos “Literatura e sociedade”, publicada pela primeira vez em 1965, que trouxe à tona as discussões que mais me interessavam. A literatura como formação do homem; o papel da literatura no pensamento social brasileiro; o desenvolvimento da engenhosa articulação entre aspectos internos e externos da literatura; a relação entre literatura e subdesenvolvimento. Os temas trabalhados por Candido me encantaram tanto que decidi que só poderia seguir adiante nessa vertente.
Antes de se completar a primeira década do ano 2000 seguir carreira universitária era uma interessante perspectiva de trabalho. Nem de longe parecia o lugar social de que falo hoje: uma enxurrada de novos doutores que, curiosamente, também recebem negativamente a alcunha de superqualificados. Nunca imaginaria que ser bem formado se tornaria uma pecha e motivo para não conseguir trabalho. Ironias do desenvolvimento cientifico brasileiro que se dobra, desdobra e tresdobra para formar bons profissionais em um país de formação acadêmica tardia se comparado aos demais países da américa espanhola e que não consegue resolver a equação entre formação acadêmica e mercado de trabalho. Mas lá, naquele momento, os incentivos, bolsas e possibilidade de pesquisa eram suficientes para encarar as mazelas e conchavos do meio universitário, ainda mais para mim, uma modesta garota de pés vermelhos do interior de São Paulo. Em plena crise do não-sei-se-fico-aqui-ou-mudo-de-cidade e da iminência de se voltar para a pequena e feudal cidade natal, uma das obras obrigatórias para um dos processos seletivos do mestrado foi “Parceiros do Rio Bonito”, tese de doutorado de Candido, publicada pela primeira vez em 1964. Em meio à tensão do processo avaliativo e do julgo da banca, esse tratado sociológico sobre os moradores e Bofete no interior paulista talvez tenha sido um dos textos sociológicos mais sensíveis que já li. O modo de vida no campo; os domínios oligárquicos ainda existentes; a organização social do modo de vida caipira em suas agruras; além do impacto da modernização e as formas de resistência do caipira, mostrando com acuidade os conflitos sociais presentes naquele momento.
Da graduação ao mestrado, do mestrado ao doutorado, do doutorado ao doutorado sanduíche. Minha formação seguia sempre a trilha de Candido: sem trabalhar diretamente com a sua obra, mas me apoiando conceitualmente nele. E a última grande crise veio no doutorado. Com o perdão do trocadilho, muito distante do localismo interiorano, eu estava imersa no cosmopolitismo de Nova York fazendo meu doutorado sanduíche. Levei para lá poucas roupas e poucos livros. Ia todos os dias para biblioteca da Universidade de Columbia junto com o monumental – em vários sentidos – “Formação da Literatura brasileira: momentos decisivos”, de 1959. A formulação de sistema literário com a junção de autor, obra e público; o modelo analítico dialético para compreender a literatura como processo através da passagem do Romantismo ao Arcadismo; e o que seria nossa maturidade literária: Machado de Assis.

Também não por acaso, o último texto que reli do Candido foi há poucas semanas atrás e me é muito caro. No texto “Na sala de aula: caderno de análise literária” Candido analisa diferentes poemas esbanjando perspicácia e um teor didático latente. Ao contrário de grande parte dos intelectuais que prezam pela pesquisa científica e se fartam, por vezes, de uma linguagem erudita e hermética, Candido tem uma preocupação evidente com o aprendizado efetivo. O diferencial de Candido é se utilizar de simplicidade para falar de coisas complexas e sutileza para tratar de temas profundos. A didática de Candido é toda forma e conteúdo.

A obra e a figura de Candido estão muito além de uspianismos, esquematismos, supervalorização do modernismo paulista e diminuição das peculiaridades regionais em prol de uma unidade nacional. Suas formulações sobre sistema literário, relação entre interno e externo, a dialética da malandragem e o nexo entre literatura e subdesenvolvimento são elementos fundamentais que foram norteadores para as gerações posteriores. Talvez a maior lição de Candido seja justamente a ausência de método como camisa de força, podendo ser substituído pelo método enquanto sensibilidade e senso crítico apurado. A fuga dos esquemas e das amarras metodológicas fizeram com que ele nunca perdesse o que sempre ressaltou: a escrita empenhada. Candido foi, acima de tudo, um humanista. Acreditava na educação laica, na igualdade e na transformação social que pudesse atingir o maior numero de pessoas. Os caminhos abertos por ele e as perguntas deixadas não devem ser amarras, mas possibilidades de ampliar os diálogos.

A redescoberta da sociologia pelo caminho literário traçado por Antonio Candido me rende muitos frutos até hoje: um livro, diversos artigos, amplitude teórica, uma disciplina no ensino médio chamada “Literatura e sociedade” e uma forma muito particular e bonita de ver como a literatura é construída e como ajuda a construir nossa sociedade. Por isso a questão da formação é central para a intelectualidade brasileira, para Candido e também para mim.

Os romances de formação são clássicos na literatura universal por mostrarem um percurso histórico, social, psicológico e emocional dos personagens ao longo de sua trajetória. Quando é preciso acalentar o peito diante das agruras da vida, me lembro do Miguilim e da formação do menino que cresceu no Mutum e teve que lidar com a dor, com a morte, com a brutalidade e com o amor. Parece que ele compensava a miopia com imaginação sensível. Por vezes vejo a escrita de Candido como sendo um olhar de Miguilim: com sensibilidade diante da dureza das estruturas consolidadas; com revolta diante da incapacidade do homem em ser apenas humano; o radicalismo diante das injustiças; a necessidade de estabelecer diálogos e fazer mais perguntas do que dar respostas. Além disso, me faz pensar no quanto as lentes de Antonio Candido ainda são importantes nos dias de hoje. “o verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”.
Agora eu sei.
Obrigada, Candido!




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