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Um espectro ronda a China: a avidez herética da juventude pelo marxismo

André Acier

Um espectro ronda a China: a avidez herética da juventude pelo marxismo

André Acier

Pouco se sabe em geral sobre o que se passa no tecido social interno da China. Menos ainda sobre um fenômeno de suma importância: a ligação de uma nova geração de estudantes com um ideário que evoca a concepção de mundo marxista.

A China ganha as páginas dos jornais e noticiários atualmente especialmente em função da guerra comercial (ou melhor dito, a disputa pela preeminência tecnológica e industrial) com os Estados Unidos, com seu poderio econômico emergente em rota de colisão com o imperialismo norte-americano sob o comando de Donald Trump. Mas pouco se sabe em geral sobre o que se passa no tecido social interno da China. Menos ainda sobre um fenômeno de suma importância: a ligação de uma nova geração de estudantes com um ideário que evoca a concepção de mundo marxista.

Jovens estudantes de algumas das principais universidades da China começaram a se reunir em nome do apoio às lutas operárias que eclodem no país, e sobre as quais, invariavelmente, se abate a severa repressão estatal comandada pelo Partido Comunista Chinês, cuja burocracia é liderada pelo todo-poderoso Xi Jinping. Na avaliação desses estudantes – que se agrupam em organizações como a “Sociedade Marxista da Universidade de Pequim” – o centro do problema está em que a China seria socialista apenas no nome, mas em realidade é um estado capitalista, dentro de cuja anomalia a desigualdade crescente, a corrupção e a poluição (também na China, como na Europa, a depredação do meio-ambiente atrai a atenção da juventude) são os inadmissíveis resultados práticos.

Apesar de algumas fantasmagorias transmitidas pela imprensa ocidental, as grandes obras do marxismo clássico, tanto de Marx e Engels, quanto de Lênin e nem falar de Trotsky (ambos últimos sendo os maiores dirigentes da Revolução Russa de 1917 e os mais importantes teóricos marxistas do século XX) são dificilmente encontráveis na China. Escritos ou excertos de certas obras, especialmente sobre economia política, estão disponibilizados após as “devidas” operações de censura pelos guardiões ideológicos do mandarinato de Pequim. É comum que estudantes digam que, apesar de frases memorizadas, não tiveram contato com ideias marxistas.

Dessa forma, o desejo por absorver as ideias do marxismo se associa com a noção da defesa dos trabalhadores frente à exploração das multinacionais e das empresas estatais chinesas. “Observar as camadas mais oprimidas em Pequim me fez sentir pela primeira vez a realidade da noção de classe social […] Depois disso, experimentei ser um trabalhador e senti na pele seu sofrimento na China. Após ter lido ’Trabalho Assalariado e Capital’, de Marx, além de outros de seus trabalhos sobre economia política, compreendi que o culpado não era um capitalista particular, mas o próprio sistema capitalista, e então comecei a seguir o caminho do marxismo”, disse Zhang Rui, pseudônimo de um estudante da Universidade de Pequim, ao Financial Times. Zhang não é o único. Jovens que se reúnem para auxiliar as lutas dos trabalhadores na China são os alvos cada vez mais recorrentes da repressão policial. Exemplo disso foi a prisão de mais de 50 jovens em agosto de 2018, fruto de uma manifestação estudantil contra a Jasic Technology, uma fábrica de soldagem na cidade de Shenzhen, na província sulista de Guangdong, que havia requisitado a prisão de três trabalhadores que buscavam inscrever um sindicato para o ramo.

A supressão de estudantes de esquerda se estende muito além das manifestações contra a Jasic. Reitores de distintas universidades tentaram desativar as auto-proclamadas “sociedades marxistas” e impedir que os trabalhadores se congregassem com os estudantes no interior dos campi. Qiu Shuiping foi nomeado como novo secretário da reitoria de Pequim, um funcionário que em seu currículo inclui ter sido membro dos serviços secretos chineses.

Este estado de espírito de uma camada importante da juventude adquire já conotações preocupantes no Politburo do PCCh, que se sentiu obrigado a disputar a narrativa dos “valores reais do marxismo”, associando-os à defesa do regime de partido único e do governo chinês. Em maio, Xi Jinping em pessoa fez um discurso comemorativo pelos 200 anos do nascimento de Marx, proclamando-o “o maior pensador da modernidade”, anunciando que o revolucionário alemão – que certamente levantaria as armas da crítica contra a burocracia chinesa – como aquele que “apontou a direção, com uma teoria científica, de uma sociedade ideal sem exploração nem opressão”. A superexploração do proletariado chinês, e num grau ainda maior do campesinato (base social de origem de milhões de trabalhadores da construção civil e das fábricas de exportação na década de 1990), realizada com o aval do Partido Comunista Chinês, começa a incitar uma nova geração a questionar as palavras vazias da cúpula de Xi.

Grandes movimentos políticos na China tiveram sua origem com manifestações estudantis: de fato, na doutrina do Partido Comunista o surgimento da China moderna está vinculado aos protestos de estudantes. A 4 de maio de 1919, após a assinatura do Tratado de Versalhes pelo governo de Xu Shichang, estudantes universitários de Pequim se reuniram à frente do Portão de Tiananmen para protestar contra a decisão, que significava a subordinação da China à ocupação de potências estrangeiras, e a entrega ao Japão a província de Shandong, que pertencia à Alemanha. As manifestações de alcance nacional, que deram origem ao Movimento Quatro de Maio, obrigaram o governo a não aderir ao Tratado e assinar um acordo em separado em 1921. Setenta anos depois, em 1989, jovens estudantes ocuparam novamente a icônica Praça Tiananmen contra os efeitos da crise econômica chinesa e a alta inflação, sendo brutalmente reprimidos pelo governo de Deng Xiaoping. Ambos os eventos são celebrados este ano, galvanizando uma forte politização do movimento estudantil.

Sem dúvida nutrindo grandes diferenças, tanto de alcance quanto de caráter político (que merecem discussão em outro artigo), é inescapável notar uma inesperada e curiosa semelhança entre o que ocorre na China, e o presencia os Estados Unidos, que vê amplos segmentos de jovens, especialmente na faixa etária entre 18 e 29 anos, que simpatizam com as ideias do socialismo. Segundo a Gallup, 51% dos jovens estadunidenses nessa faixa de idade tem uma visão positiva do socialismo, enquanto menos da metade, 45%, enxergam o capitalismo positivamente. 44% preferiria viver num país socialista a um país capitalista, o que levou alguns dos maiores empresários do mundo, reunidos no Milken Institute, a se perguntar se o socialismo superaria o capitalismo em nossa era.


Fotomontagem de Cristiana Couceiro

As consequências não resolvidas da Grande Recessão de 2008, a miséria e a precarização do trabalho reservada a dezenas de milhões de jovens pelo capitalismo decadente, reverdeceram o interesse pelas ideias do socialismo e do marxismo nas duas principais potências econômicas globais.

Questionando o “socialismo com características chinesas”...

Durante palestras na China em 1981, o economista tchecoslovaco Ota Šik desenvolveu um argumento que se encaixava com os interesses da nova liderança emergente no Partido Comunista Chinês, após a morte de Mao Tsé-Tung em 1976. “A economia socialista não pode existir sem um mecanismo de mercado. A planificação diretiva não pode substituir o mercado. Esse mercado a que me refiro é um mercado socialista. Acredito que associar automaticamente o mercado a relações capitalistas é um erro[1]. A proposta de Šik retomava a ideia de outro economista do Leste europeu (região com a qual os funcionários chineses buscaram estreitar relações a partir de 1977, com viagens de delegações para debates econômicos sobre os modelos socialistas), o polonês Włodzimierz Brus, célebre partidário do então chamado “socialismo de mercado”, um sistema que estaria baseado, segundo seus ideólogos, na ideia de que mecanismos de mercado eram compatíveis com o socialismo. Desde a década de 1960, ideólogos como Brus desenvolviam o conceito de uma “economia planificada com mecanismos de mercado integrados”, segundo o qual as empresas nos países em que a burguesia havia sido expropriada após a II Guerra Mundial deveriam ter mais autonomia frente ao estado, e guiar-se pelo “princípio da lucratividade”. Para estes autores, entretanto, a adoção de mecanismos de mercado capitalistas não deveria suplantar a planificação, mas melhorar seu funcionamento.

Este ideário foi a base do conceito de “socialismo com características chinesas” desenvolvido por Deng Xiaoping. Inúmeros debates foram abertos na cúpula do Partido Comunista Chinês acerca de como conduzir a economia chinesa devastada como resultado das intervenções militares e guerras em toda a primeira metade do século XX, e posteriormente pelas desastrosas políticas do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, conduzidas por Mao. Delegações chinesas buscaram conhecer como funcionavam as “economias mistas” de países como a Iugoslávia (Hua Guofeng se encontrou pessoalmente com Josep Tito em 1977) e a Hungria [2]. O processo de restauração capitalista na China não seguiu um ritmo linear nem homogêneo, encontrando no PCCh alas mais “radicais” e outras mais “cautelosas” (dirigidas pelo economista Chen Yun, membro do Comitê Central), que por vezes entravam em choques entre si; estas alas compartilhavam, no entanto, o objetivo de introduzir elementos capitalistas na economia chinesa, o que assegurou a preparação da reconversão da China ao capitalismo pela burocracia maoísta e seus sucessores, nomeadamente a fração de Deng, que triunfou e assumiu o poder a partir de 1979.

Na realização de nosso programa de modernização devemos proceder a partir da realidade chinesa. Tanto na revolução quanto na construção também devemos aprender com países estrangeiros e tirar lições das suas experiências, porém a aplicação mecânica das experiências estrangeiras e a cópia de modelos estrangeiros não vai nos levar a lugar nenhum. Tivemos muitas lições a este respeito. Devemos integrar a verdade universal do marxismo com as realidades concretas da China, pavimentar um caminho próprio e construir um socialismo com características chinesas – esta é a conclusão básica que chegamos depois de rever a nossa longa história”. (Selected Works of Deng Xiaoping Volume III. Beijing: Foreign Language Press, 1994, p.14.)

A doutrina da “Abertura e Reforma”, apresentada por Deng em 1978, era a aplicação prática do “socialismo com características chinesas”: abria o país aos investimentos capitalistas estrangeiros, habilitados a superexplorar a força de trabalho da operariado chinês, especialmente nas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), zonas francas que permitiam custos virtualmente inexistentes aos monopólios, baixíssimos salários e livre acesso aos recursos naturais do país. Se a Revolução Chinesa de 1949 deu origem, desde o início, a um Estado operário burocraticamente deformado, em que a direção maoísta bloqueava a dinâmica permanentista da revolução internacional e debilitava as próprias conquistas da revolução diante do imperialismo mundial, as políticas de Deng Xiaoping se aproveitaram da derrota do processo revolucionário entre 1968-1981 para pavimentar o caminho da restauração capitalista na década de 1990.

Desde a implementação da liberalização do mercado e da introdução de elementos capitalistas na economia, na década de 80, o nível de desigualdade de renda na China – medido pelo Coeficiente de Gini – aumentou rapidamente: de 0.30 em 1980 para 0.47 em 2017, em dados oficiais (comparado com a média da OCDE de 0.31, e dos EUA que é de 0.39). Segundo a agência oficial Xinhua, os 10% mais ricos da população recebem 23 vezes mais do que os 10% mais pobres. Se em 1983, os salários representavam 56,3% do PIB, em 2005 esse índice baixou para 36,7%.

Para os trabalhadores chineses, o destino foi mais amargo. Com a restauração do capitalismo, segundo o intelectual espanhol Rafael Poch-de-Feliu, “37 milhões de pobres urbanos que o Banco de Desenvolvimento Asiático contabilizava para toda a China em 2003 eram fruto da reconversão da indústria estatal socialista[3], ou seja, das demissões e do desemprego de massas surgido com o desenvolvimento dos mecanismos de mercado. Mas não foi apenas a classe trabalhadora ocupada nas empresas estatais (especialmente na região nordeste) que sofreu as consequencias atrozes da restauração propiciada pelo “socialismo com características chinesas”.

Enquanto a classe operária socialista chinesa languidescia e sofria este destino, surgia um exército de cem a duzentos milhões de emigrantes camponeses, muito mais parecido com uma ’classe operária’ tradicional no sentido de Marx, por carecer de privilégios e sofrer uma exploração sem paliativos. Durante a grande expansão econômica chinesa dos anos 90, esta classe não conheceu aumentos salariais, nem horários de trabalho, e sofreu grande quantidade de abusos e opressões em suas condições de trabalho. E nenhum lugar da China é melhor do que a província de Guangdong para observar o destino da classe operária chinesa. […] Em minha primeira viagem à província de Guangdong em 2002 visitei uma dúzia de empresas de Guzhen, a ’cidade da luz’, especialista em lâmpadas. Os trabalhadores vivem, comem e dormem na empresa. Os fornos não podem parar, e por isso se trabalha de dia e de noite. O salário é de seiscentos yuanes mensais (sessenta euros), mais comida e dormitório. Oficialmente se ’trabalha oito horas’, me disseram quando perguntei, mas suspeito que a resposta de um gerente da empresa se aproxima mais da realidade: ’trabalha-se o tempo que for necessário’ […] Em 2005, visitei outra cidade de Guangdong, Shantou. Hoje é uma cidade em que se fabrica 70% dos brinquedos do mundo. Em Shantou, a indústria de brinquedos, pagava-se em 2005 salários de 480 yuanes mensais (48 euros), uma razão de 16 yuanes (1,6 euros) por cada jornada de oito horas”.

Essa superexploração brutal se combina com calotes salariais frequentes por parte da patronal, protegida pelo estado chinês. O enorme volume de leis trabalhistas na China existe apenas no papel: as autoridades locais de cada cidade competem entre si pelos investimentos estrangeiros e, imersas em corrupção, estão muito interessadas em promover os interesses do capital. No final dos anos 1990, as empresas estatais empregavam apenas 12% dos trabalhadores, contra 70% em 1985, e 78% em 1979. Ao final da década de 2000, o setor privado já representava quase 70% do PIB chinês [3].

O “socialismo com características chinesas” não é nada mais que uma casca vazia, do qual já desabrochou a folhagem podre do velho sistema econômico capitalista. Esse sistema econômico de superexploração da mão-de-obra chinesa administrado pelo estado em benefício dos monopólios capitalistas, é o que entra, ainda confusamente e sem contornos claros, na mira desse segmento de jovens estudantes. “O aumento da desigualdade e outras questões sociais na China levaram a uma decepção em certos setores em relação ao programa de ‘reforma e abertura’, e há uma percepção de que o Parido Comunista abandonou suas origens socialistas”, diz a pesquisadora Simone van Nieuwenhuizen, do Instituto de Relações Austrália-China na Universidade de Tecnologia de Sidney.

A expressão desse descontentamento, como não poderia deixar de ser em seus inícios, surge de forma distorcida: assim como nos Estados Unidos o ideário do socialismo está hoje vinculado a personalidades que nada tem a ver com ele (como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio Cortéz), muitos jovens chineses resumem sua intenção política em exigir que o PCCh “retorne às origens” do que prometia o maoísmo, embora essa tradição maoísta tenha levado à degeneração e à derrota das conquistas da Revolução de 1949. Essa espécie de “maoísmo de esquerda” apresenta um desafio de monta frente à necessidade da recriação do marxismo revolucionário na China.

...mas com qual horizonte estratégico: um “maoísmo de esquerda” ou o marxismo revolucionário?

A ideologia burocrática do maoísmo (em grande medida adotada por Xi Jinping) não pode responder às necessidades da recriação e refundação do marxismo revolucionário, em nenhum lugar do mundo e muito especialmente na China.

O maoísmo clássico, uma corrente inimiga do marxismo e da revolução socialista, adquiriu seu prestígio pelo triunfo da Revolução de 1949 contra os “senhores da guerra” e os invasores imperialistas, mas rapidamente integrou a engrenagem do segundo pós-Guerra para assegurar um equilíbrio que permitisse compartilhar com o imperialismo mundial a tarefa de impedir a expansão internacional da revolução. A partir da ruptura de Mao com a URSS, passou a ser visto por um segmento da intelectualidade como uma alternativa estratégica para a revolução na Ásia, embora compartilhasse com o stalinismo a férrea ditadura sobre os trabalhadores e camponeses: lançando o campesinato como “novo sujeito”, mantendo a ortodoxia stalinista da aliança com a “burguesia progressista” (Mao manteve o quanto pôde sua aliança com Chiang Kai-shek, a despeito de todos os massacres perpetrados contra o proletariado chinês), e sustentando na China a mesma ideologia da “revolução por etapas”, construindo uma muralha entre a revolução burguesa e a revolução socialista que não chegaria nunca.

É aqui que o fenômeno alvissareiro do renovado interesse da juventude chinesa pelo marxismo exige o exercício das armas da crítica: uma “oposição maoísta” ao governo do Partido Comunista Chinês, que compartilha a mesma concepção burocrática de Mao, seria uma alternativa absolutamente impotente para as necessidades políticas atuais, que colocam em primeiro plano a batalha contra o nacionalismo burguês chinês e seus traços imperialistas sobre a classe trabalhadora de distintos continentes. A ideia de Isaac Deutscher (compartilhada por Perry Anderson) de que o maoísmo é de alguma maneira a expressão concreta que adota um marxismo da periferia [5] - e de que o próprio stalinismo, apesar de ter desempenhado um papel reacionário no interior da URSS, teria desempenhado no plano internacional um papel “objetivamente revolucionário” - não faz mais do que jogar areia nos olhos de uma nova geração que busca restabelecer laços com a tradição marxista.

No que é considerado por muitos como o “Século Asiático”, em que países como Índia, Vietnã e Indonésia, para além da China, adquirem modernas estruturas econômico-sociais e pronunciadas diferenciações entre as classes, nunca antes a teoria da revolução permanente de Trotsky foi tão atual. Aqui, nos referimos a uma realidade nova que “ocidentaliza” distintos aspectos das sociedades orientais ou, dito em outros termos, faz com que as particulares características das sociedades orientais convivam com estruturas econômico-sociais cada vez mais semelhantes às do “Ocidente”. A paisagem esmagadoramente urbana e o peso social da classe trabalhadora na Ásia nunca foram tão marcantes, a tal ponto que das 30 maiores cidades do mundo, 21 estão na Ásia, cujas economias serão maiores que as do restante do mundo em 2020, pela primeira vez desde o século XIX. Não apenas a China ruma para tornar-se a principal economia do mundo, como a Índia já possui um PIB duas vezes maior que o do Japão e da Alemanha. Mesmo sem serem países imperialistas, dados como esse revelam o peso social que a classe trabalhadora urbana adquiriu na Ásia, o que a torna capaz de desenvolver potencialmente um papel hegemônico sobre os setores explorados e oprimidos pelo capitalismo regional e mundial.

Sem dúvida, a recriação do marxismo revolucionário atual, o trotskismo, é uma perspectiva muito mais realista que a ideia de um “maoísmo de esquerda” orientado à construção de partidos “operário-camponeses” dirigidos pela burguesia nacional. O internacionalismo operário, e uma estratégia que batalhe pela construção de um partido revolucionário dos trabalhadores capaz de destruir o estado burguês chinês (e seu guardião maoísta), abrir caminho à expansão mundial da revolução e conquistar as bases de uma sociedade mundial de produtores livremente associados, o comunismo, é a melhor via para desembaraçar trabalhadores e jovens da fábula reacionária do “socialismo com características chinesas” da burocracia de Pequim.

A nova geração que busca ligar-se com o proletariado chinês e suas lutas, merece uma teoria e uma estratégia à altura dos desafios que o século XXI impõe à maior classe trabalhadora do mundo. Nesta evolução não linear, suscetível a saltos bruscos, da luta de classes – a nível nacional, mas também internacional, para um país com tamanha importância geopolítica – pode ressurgir o marxismo revolucionário na China, necessariamente oposto à ideologia burocrática do maoísmo e ao Estado capitalista chinês.

Mais importante, a juventude chinesa pode ser a ponte que restabeleça a relação entre o marxismo revolucionário e os trabalhadores, na batalha por organizações sindicais independentes e um partido político independente, nas duras condições do autoritarismo do PCCh.

Diante disso, parece emergir no horizonte chinês uma disjuntiva de importância considerável: uma nova geração que se interesse pelo marxismo tem a chance de, pela primeira vez desde o início do século XX, explicar a diferença crucial entre o maoísmo/stalinismo, de um lado, e o marxismo revolucionário, de outro [6]. Trata-se de “atravessar o rio sentindo as pedras”, num sentido oposto ao que propunha Deng.

Notas

[1] Julian Gewirtz. “Parceiros improváveis: reformistas chineses, economistas ocidentais e a formação da China global”, p. 92.

[2] Idem, p. 28

[3] Rafael Poch-de-Feliu, “La actualidad de China”, p. 98-100

[4] “La actualidad de China”, p. 93

[5] “Ao carecer de todo antecedente marxista nativo, o comunismo chinês descende diretamente do bolchevismo. Mao se apoia sobre os ombros de Lênin" em Isaac Deutscher, “Maoism, its origins and Outlook” (1964). Ver também Perry Anderson, “Trotsky’s interpretation of Stalinism”, New Left Review I, 139, maio-junho 1983.

[6] Ver a entrevista com Stone Song e Ji Hengge, trotskistas chineses, “Inheritance and Situation: Interview with New Generation of Revolutionary Marxists in China”, Left Voice.

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