Opinião

DEBATES NA ESQUERDA

Um empresário será candidato a governador pelo PSOL-RN: grau zero de independência de classe

Para onde vai o PSOL com essa medida de direita?

André Augusto

Natal | @AcierAndy

terça-feira 24 de abril| Edição do dia

A Conferência Eleitoral do PSOL do Rio Grande do Norte, realizada a 20 de abril, saiu com uma decisão insólita para um partido que se reivindica de esquerda: seu pré-candidato a governador do estado será um empresário. Carlos Alberto Medeiros, ex-membro do PT e que já foi vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Natal (CDL-Natal), é o indicado para o posto pelo PSOL-RN. Segundo informações (ver aqui), o principal fiador da candidatura de Carlos Alberto é o vereador Sandro Pimentel, da corrente do MES/PSOL.

Em matéria publicada pelo próprio Sandro Pimentel, diz-se que “Para a majoritária como pré-candidato ao Governo do Estado, foram apresentados dois nomes, Juary Chagas e o Prof. Carlos Alberto. Posto em votação, o nome do Prof. Carlos Alberto foi aprovado majoritariamente pelos presentes, tendo como vice a servidora Aparecida Dantas, ativista e militante sindical”.

Diante dos desafios impostos pela continuidade do golpe institucional e a prisão arbitrária de Lula pelo judiciário autoritário, já desenvolvemos uma série de críticas político-programáticas com o PSOL por não buscar apresentar uma alternativa programática de combate anticapitalista, de maneira independente do PT.

Desde fevereiro, o PSOL faz parte de uma frente com o PSB, PDT, PT, PCdoB, unidos através da assinatura de suas respectivas Fundações, com um manifesto programático que compõe um verdadeiro projeto de país com setores burgueses ditos “progressistas” contra os “rentistas”, que reivindica os governos Lula e Dilma e que tem como “fim” a restauração da ordem burguesa do Brasil pré-golpe institucional (ver crítica aprofundada aqui). Da mesma maneira, no dia 18 de abril, esta frente composta pelo PSOL com partidos burgueses lançou um manifesto, agora com adesão de PCB, PCO e as Frentes Povo sem Medo e Brasil Popular, cujo objetivo é também evitar qualquer medida prática de combate de massas por objetivos da luta de classes.

A candidatura de um burguês como Carlos Alberto pelo PSOL é um dos frutos concretos da lógica oportunista que preside a participação do partido em frentes como estas citadas acima, onde inexiste qualquer vestígio do princípio da independência de classe dos trabalhadores.

É escandaloso por si mesmo, e ainda mais em um estado em que milhares de professores estão sem salário, que o PSOL escolha um empresário milionário como candidato e não representantes dos setores em luta contra o governador Robinson Faria (PSD) e o até então prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves (PDT).

Quem é Carlos Alberto?

Já tendo sido vice-presidente do sindicato patronal do comércio, Carlos Alberto tem outras credenciais no mundo empresarial: tem participação acionária em empresas, inúmeros imóveis e terrenos, amontoando um patrimônio (declarado em 2012) de R$2.544.119,59. Não admira que esse patrimônio haja aumentado desde então, sendo o empresário lojista dono de 6 franquias de restaurantes na capital potiguar: em 2014, declarou patrimônio de R$ 3.165.008,83. Sob qualquer viés marxista sério, trata-se de um capitalista que lucra explorando trabalho alheio.

O empresário disputou duas eleições no Rio Grande do Norte pelo PT: como candidato a vice-prefeito em 2012 e à deputado federal em 2014, quando obteve 11.858 votos, numa coligação que envolvia, além do PCdoB, partidos de direita como PSD, PTdoB, PP, PEN (ver aqui).

Além disso, Carlos Alberto é um “intelectual orgânico” do reformismo petista, ainda que tenha trocado de agremiação política. Em setembro de 2016, o professor em Administração da UFRN disse em entrevista que “A gente tem que evoluir de paradigma e superar essa polarização. Temos de buscar justiça social, um capitalismo que não seja selvagem. Todos os países do mundo adotaram o sistema capitalista, se voltaram para isso, mas deve ser um capitalismo democrático e justo. Não pode ser um capitalismo de lobby, suborno e corrupção. Isso não é um modelo”.

E conclui “Temos de parar de encarar as coisas nessa dicotomia: ou você está de um lado, ou do outro. Temos de criar nosso próprio modelo. O modelo que o PT criou no Brasil está sendo imitado no mundo todo. Os grandes teóricos do capitalismo dizem que ele precisa mudar, que não pode ser selvagem. [...] O sucesso do governo de esquerda beneficia o empresário porque o micro passa a ser pequeno, o pequeno passa a ser médio, o médio passa a ser grande. Mas, para atingir esse objetivo de justiça social, como se faz? Com lucro, mas com imposto”.

Trata-se de uma candidatura encabeçada por um inimigo de classe, advogado de uma concepção reformista de administração humana de um capitalismo “sem corrupção”, que não tem nada a ver com a luta dos trabalhadores contra os capitalistas e os golpistas da direita. É uma vergonha que o MES esteja abonando abertamente um empresário para representar o PSOL nas eleições.

Ver também: MES/PSOL: Os passos em falso da esquerda lava jato

As razões dadas pelo MES, parte da Executiva Estadual do PSOL no RN, para sustentar a candidatura, são de igual indigência política. Em nota, a Executiva chega a afirmar que “Em seus negócios, nunca se portou enquanto pequeno burguês reacionário” (sic!), e que “Carlos não é representante de oligarquia latifundiária, não é industrial e não é um financista ou banqueiro”. Não sendo um industrial, um financista ou um banqueiro, o empresário está livre de qualquer reprimenda, como representante da “pequena produção nacional”, segundo a lógica do MES. Como se em nossa época o pequeno e o médio capital não estivessem subordinados por mil laços ao grande capital!

Além do mais, verificamos que para o MES, pouco importa que um patrão explore trabalho alheio, desde que “não tenha posições reacionárias”. É instrutivo conhecer a forma em que os trabalhadores lojistas são explorados de “maneira crítica e progressista”, segundo o empresário defensor de um “capitalismo não selvagem”. É ridícula a tentativa de contrabandear a ideia de um “empresário progressista” como compatível com qualquer visão de esquerda. Com a candidatura de alguém que postula o enriquecimento dos empresários, está vedado ao PSOL qualquer programa anticapitalista.

O PSOL deve romper com Carlos Alberto e anular sua candidatura

Para contrapor-se à candidatura de Carlos Alberto, o MAIS decidiu lançar a pré-candidatura de Juary Chagas, a modo de protesto, anunciando que não fará campanha para a figura finalmente vencedora para disputar o cargo de governador pelo PSOL. Embora seja correta a crítica a esta candidatura burguesa, seria suficiente não aderir à campanha de Carlos Alberto? Não apenas o MAIS, mas todo o PSOL deveria exigir a expulsão do empresário filiado ao partido e a anulação de sua escandalosa candidatura pelo partido. Por que não o fazem?

A atuação dos revolucionários nas eleições burguesas está direcionada à construção de uma “boa fração de comunistas”, como dizia Lênin, que do alto da tribuna saiba despertar e incentivar a luta de classes extraparlamentar contra a burguesia, demonstrar com maior facilidade às massas atrasadas a razão por que semelhantes parlamentos devem ser dissolvidos. É lamentável ter de lembrar questões tão básicas para um partido que se diz “socialista” e apresenta burgueses como representantes, seguindo os passos do que fez o PT, que abrigou anteriormente o empresário potiguar.

Nem falar da necessária unidade de ação contra a direita para fins de combate na luta de classes, que obviamente não pode ser feita nem com os partidos burgueses coligados ao PSOL no manifesto “Unidade para Reconstruir o Brasil”, nem com empresários individuais.

Para enfrentar os golpistas, os empresários e seus ataques com um só punho, o melhor terreno é o da ação concreta, da luta de classes, com um programa anticapitalista e de independência de classes. Candidaturas que se dizem “socialistas” devem estar em função do desenvolvimento destes objetivos da frente única operária para a ação de massas, em exigência às centrais sindicais como a CUT e a CTB que rompam sua passividade e convoquem um plano de luta concreto.

O PSOL deve não apenas expulsar Carlos Alberto e anular sua candidatura, como também romper imediatamente com esta frente oportunista, sob pena de dar passos cada vez mais largos em afundar na lama da velha política de conciliação de classes que o PT sempre advogou, que resulta da falsa ideia de que é possível administrar o capitalismo para o benefício dos trabalhadores.

Precisamos de uma alternativa revolucionária dos trabalhadores embasada nos locais de trabalho que combata e supere a conciliação de classes praticada pelo PT, e que agora o PSOL-RN quer reproduzir.




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