Política

‘CONSELHÃO’ DE EMPRESÁRIOS E BUROCRATAS

Um “Compromisso” onde os sindicatos são meros fantoches

Enquanto o capital financeiro internacional pressiona o governo, utilizando a crise como fator maior de chantagem, setores da burguesia nacional tentam fazer algo no mesmo sentido. Grandes empresários, tanto industriais quanto dos setores de serviços e comércio, mais dependentes do mercado interno, exigem “garantias” do governo. Foi com esse objetivo que a CNI, ANFAVEA, Associações Comerciais de SP, RJ e MG e outros entidades patronais de peso lançaram um “manifesto” com reivindicações para o governo, supostamente numa linha “pelo desenvolvimento”.

Marcelo Tupinambá

São Paulo

quarta-feira 3 de fevereiro de 2016| Edição do dia

O pior é que tal manifesto foi assinado por todas as principais centrais sindicais do país: CUT, CTB, Força Sindical, UGT e NCST, que faz tempo que adotaram como política o programa burguês de “redução da taxa de juros” e vêem não os trabalhadores como a base fundamental para defender os empregos e direitos, mas os capitalistas supostamente “desenvolvimentistas”.

O cenário foi todo montado para pressionar Dilma. Aproveitando uma situação em que o governo esteve sob máxima pressão, um dia depois de Cunha acolher o pedido de impeachment, lançaram seu manifesto em busca de trocar apoio político por algumas medidas favoráveis. Tinham como elemento a mais de barganha a ameaça de que isso seria imprescindível para não embarcarem na linha da FIESP, que havia se posicionadi favoravelmente ao impeachment – apesar de não ter sido foi acompanhada nisso nem mesmo pela sua parceira FIRJAN.

Por ora, o primeiro fruto dessa pressão foi o decreto de Dilma que tira a punição das empresas envolvidas na Lava-Jato (“amigas” do governo), porque os responsáveis seriam as “pessoas físicas”, além de renegociações de dívidas com o BNDES por parte de alguns setores. Essas medidas foram anunciadas já no dia 18/12, um dia apenas depois de Dilma reunir-se também com a chamada Frente Brasil Popular, que congrega a maioria das centrais sindicais e movimentos sociais governistas.

Os setores burgueses que estão no “Conselhão” não são portadores, nem poderiam ser, de qualquer nenhuma aliança progressista com os trabalhadores, nem se dispõem a qualquer tipo de enfrentamento sério com o capital financeiro especulativo. Os grandes empresários estão todos juntos com a intenção de atacar os trabalhadores com a reforma da previdência e também na pressão para impedir o governo de aumentar impostos ao capital.

Isso mostra a orientação das grandes centrais sindicais. Por um lado, articulam alianças para defender o governo contra o impeachment e acordos com a patronal com a pauta deles. A intenção do governo de responder à crise com mais ataques é tão forte que está rifando inclusive a recente conquista de ter conseguido que a Força Sindical, a UGT e a NCST se posicionassem contra o impeachment. Paulinho da Força voltou para a central para tentar controlar o movimento pró governo que estava ocorrendo, mas foi obrigado a anunciar que a central será “neutra” porque há muitas posições internas.

Previdência: uma reforma para o capital, que pode gerar novas crises para o governo

De fato, depois que Dilma anunciou a reforma da previdência, todas as centrais soltaram declarações contrárias. É certo que elas seguem negociando apenas nas alturas, sem nenhuma medida entre os trabalhadores, que seguem pagando a crise com demissões. Mas isso não quer dizer que esse tema não possa ser fonte de novas crises importantes do governo com uma de suas principais bases sociais.

Tanto é assim, que a questão já aparece como uma divisão entre o próprio gabinete ministerial. Enquanto Dilma utilizou sua aparição pública no Congresso Nacional, nesta terça-feira, para voltar a enfatizar a importância que seu governo dá à questão da reforma, seus ministros deram declarações dissonantes entre si.

Dilma disse que o governo está aberto para ouvir sugestões da proposta de reforma da Previdência, que deve ser enviada ainda no primeiro semestre. "Devemos lembrar que em um momento de crise surge a possibilidade de construir soluções duradouras. A reforma da Previdência não é medida em benefício do atual governo, seu impacto é uma questão do Estado brasileiro, de médio e longo prazos", discursou.

Já seus ministros Nelson Barbosa e Miguel Rossetto, deram declarações contraditórias.Rossetto, atualmente na pasta da Previdência, e que está muito mais para um mediador entre o governo e os movimentos sociais, do que um verdadeiro articulador das políticas do governo, tentou colocar “panos quentes” no tema, dizendo que “não há urgência para mudar as regras”.

No Ministério da Fazenda, no entanto, a ideia é que o governo apresente já no próximo encontro do “Conselhão” as linhas gerais de um novo modelo, que unificaria as regras para se aposentar no Brasil. Pela proposta, não haverá diferença entre as exigências nos regimes urbano, rural e público. Deixarão de existir regras distintas para homens e mulheres. O Brasil passaria a ter idade mínima para aposentadoria, de 65 anos, entre outras mudanças
Até mesmo setores governistas buscaram passar uma imagem de desconcerto com a nova ênfase de Dilma e Barbosa a favor da reforma.

Num momento em que a ameaça do processo de impeachment ainda não está totalmente descartada, é chamativo que Dilma levante uma bandeira tão impopular. Mas o mistério só existe para quem não quiser ver quem é que o governo quer de fato agradar com a proposta.




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