Mundo Operário

FLEXIBILIZAÇÃO DO TRABALHO

Uberização e exploração, a verdadeira cara do capitalismo “colaborativo”

“Capitalismo colaborativo”, falsos autônomos, precarização. O que se esconde por trás destas novas formas de negócios capitalistas?

quarta-feira 12 de julho| Edição do dia

Os apps colaborativos ou uberização da economia

Plataformas como Uber, Airbnb, Deliveroo e outras se baseiam em um princípio geral: a utilização de apps em dispositivos moveis que, como apresentam uma estratégia inteligente de marketing, permite “por em contato” as pessoas que oferecem coisas – bens de serviço – com outras pessoas. A economia de “acesso” iria substituir a economia de “propriedade”. As plataformas só operariam como “mediadoras” o instrumento neutro para a relação social entre pessoas, como “redes sociais” para o intercambio colaborativo. Pareceria que a definição de Marx sobre a fetichização da mercadoria, de onde as relações entre as pessoas se manifestam como relações entre as coisas, se esfumaçaria por arte de magia ou por abracadabra da tecnologia.

Levando ao extremo este princípio, os novo adoradores do capitalismo “colaborativo”, se imagina a chega – já o anunciaram várias vezes, mas agora sim – do fim do trabalho tal como conhecíamos até hoje. Alguns, como o economista assessor da União Europeia, Jeremy Rifkin, falam de uma “terceira revolução industrial”, que, se bem nos levara a desaparição completa do trabalho, já estaria dando lugar a “um sistema misto de economia de mercado e de economia colaborativa”.

Um informe da Comissão Europeia, European agenda para a economia colaborativa (2016), indica que este tipo de negócios tem duplicado as receitas na Europa, faturando um total de 28.000 milhões de euros.

A ideologia que acompanha esta “nova forma de economia” se veste de “colaborativa” como se permitisse uma relação livre entre serviços e necessidades, sem mediação do capital. O “sharewashing” [a ideia de “compartilhar”] é a nova prática de muitas empresas, uma continuação do “greenwashing” [empresas que usam um discurso “verde” de cuidado do meio ambiente] ou “pinkwashing” [empresas que utilizam referências gayfriendly para vender mais]. Destas forma, práticas comerciais como vender, comprar ou alugar, se transformam em “compartilhar”.

O relato pega mão da ideia da “colaboração” e o “truque” que emergiu com força como resposta paras as crises capitalistas, e se funde com práticas e sentidos comuns promovidos pelo neoliberalismo: a ideia de empreendedor, o trabalhador-empresário que se faz a si mesmo num mundo livre, cheio de opções para escolher. Capitalismo feroz com cara de hípster.

Mitos e verdades da “nova” economia

A realidade é que por trás dos negócios capitalistas “colaborativos” mais exitosos se encontra o capital financeiro amis concentrado – mediante grandes fundos de investimento – e a exploração capitalista mais crua, com a subsequente eliminação de direitos trabalhistas e maior precariedade.

No caso do Uber, uma empresa avaliada em 70.000 milhões de dólares, que fora seu CEO é até muito pouco, o hipermilhionário Travis Kalanick, conta com uma fortuna pessoal estimada em nada menos que 6.300 milhões de dólares e foi assessor de Donald Trump até fevereiro passado. Sua trajetória com CEO do Uber se vendeu como a grande história norte-americana de “empreendedor exitoso”, mas está cruzada por denúncias de assédio sexual dentro da empresa – práticas que os gestores escondem –, espionagem industrial e plágio da concorrência. O segredo de seu êxito se encontra na violação generalizada dos direitos trabalhistas dos choferes, e se desfazer de todo tipo de encargos laborais como seguridade social, férias, seguro médico, etc.

Em Seattle, no fim de 2015, os choferes de Uber alcançaram uma decisão histórica favorável a sindicalização, algo que foi respondido com um processo do Uber contra a cidade. Uber considera os choferes como “empresários autônomos” aos que facilitam relações com seus “clientes” através do App, sem relação laboral algum com a empresa. A ideia é perversa: os trabalhadores tem perdido todos seus direitos, porque... agora são empresários! Engenhosa forma para explorar melhor. Recentemente The Wall Street Journal denunciou que Uber obrigava seus Choferes em Seattle a escutar um podcast com conteúdo anti-sindical antes de começar a lhes atribuir viagens. Nele, o mesmo alertou dos “erros” que podiam danificar seu “negocio” e apelava a “proteger sua liberdade” contra as práticas sindicais. Ao dia de hoje, os choferes de Uber de Seattle estão tentando organizar seu sindicato, uma iniciativa que é seguida de muita atenção pelos choferes de outras cidades de Nova York e San Francisco.

Na Europa, o enfrentamento entre os taxistas espanhóis e francês e empresas como Uber e Cabyfi tem levado demandas até o Tribunal Superior de Justiça da União Europeia. Recentemente um advogado do Tribunal europeu se pronunciou afirmando que Uber é uma empresa de transporte, e por tanto deve atender as regulações gerais. Nas greve de Madrid e Barcelona, as associações de taxis denunciam a concorrência desleal e a falta de regulação para os choferes por parte e Uber e Cabify. Muitos taxistas assalariados participam dos protestos contra Uber, já que com a irrupção no mercado se impõe baixas das condições laborais.

Com estas greves e resistência se tem generalizado um sentimento contra Uber e seu modelo de capitalismo “desregulado”, ninguém acredita na história do capitalismo “colaborativo”. Mas estes protestos possuem uma grande contradição: são impulsionados também por proprietários e taxis que empregam assalariados com péssimas condições de trabalho (a jornada laboral média de 10 horas) e que se escondem na luta contra Uber para justificar sua própria exploração de mão de obra. Também há setores da extrema direita europeia, como Marine Le Pen, que se pronunciou demagogicamente contra a “uberização da economia”, defendendo um modelo de capitalismo “nacional” e “regulado” para os franceses.

A luta contra a uberização da economia não deveria esconder que os empresários “tradicionais” e “regulados” seguem exercendo uma intensa exploração e precarização sobre os trabalhadores.

A plataforma Airbnb para aluguel de habitações em casa particulares é outro exemplo exitoso destas “economia colaborativa”. Porém, longe de abrir caminho à um acesso de habitação igualitária, seu crescimento está acentuando a desigualdade social na geografia das cidades.

Em centros turísticos como Madrid e Barcelona, atualmente se está vivendo uma nova bolha dos preços das habitações e alugueis. Um muitos casos, proprietários rentistas compram apenas com o objetivo de alugar para turistas, colocando em aluguel vários andares de cada vez, enquanto rejeitam famílias trabalhadoras e estudantes que buscam aluguel para viver. O processo de gentrificação – com o encarecimento do custo de vida – se estende desde o centro da cidade a cada vez mais bairros, expulsando para longe os habitantes mais pobres.

As repercussões sociais do Airbnb e outras plataformas similares mostram que o capitalismo é incapaz de se desenvolver para uma “cooperação livre” entre pessoas por meio do desenvolvimento de instrumentos de comunicação e apps colaborativos. Pelo contrário, o capitalismo e sua lógica implacável de busca pela máxima ganancia engole qualquer possibilidade de cooperação e transformação em exploração, diferenças sociais e maiores penúrias sociais.

A nova bolha dos alugueis tem levado, como forma de resistência, a uma formação de novos sindicatos de inquilinos em importantes cidades espanholas. Sua luta, para poder encontrar uma potencialidade maior, devera necessariamente ligar-se a luta das famílias contra os despejos que vivem levando a frente plataformas como a PAH, a luta por expropriar as centenas de milhares casas vazias nas mãos dos bancos e por plano de habitações sociais, avançando na perspectiva de um programa anticapitalista e uma planificação social contra a especulação rentista e a gentrificação das cidades, uma dinâmica que é impossível de se alcançar as margens do capitalismo.

Deliveroo: pinwashing e precariedade sobre duas rodas

A empresa de entrega a domicílio Deliveroo participou com um carro alegórico própria no World Pride celebrado em Madrid no último 1° de julho. Uma empresa que se veste de rosa para encobrir a exploração.

A ideia que vende a companhia é que seus App permite que pessoas com “tempo livre” e uma bicicleta entreguem pedidos a outras pessoas que pedem comida de suas casas. Outras vez o conto do intercambio livre e sem mediações.

A realidade é de Deliveroo conta no Estado espanhol com uma frota de mais de 1.000 riders, como chamam seus trabalhadores. Os riders tem que atender pedidos por várias horas do dia, prontos para sair a corrida, cobrando entre 3 e 4 euros por envio, sem direitos trabalhistas, sem férias, sem baixas por enfermidade, e sem saber quanto será pago no fim do mês. Como não são trabalhadores reconhecidos pela empresa, senão autônomos, devem pagar contribuições por sua própria seguridade social, e em caso de enfermidade, continuam a pagar.

As plataformas de trabalhadores de Deliveroo que se tem formado recentemente em Barcelona, Madrid e outras cidades, estão denunciando que trabalhadores que tiveram baixas por enfermidade são diretamente “desconectados” do aplicativo. Outra metáfora dos tempos que correm, pretendem encobrir uma demissão chamando de “desligamento”.

Os trabalhadores de Deliveroo tem realizado greves e anunciam novas mediadas de luta, exigindo condições laborais: que se uma quantidade de envio por horas, a existência de uma montante mínimo de pagamento mensal e reconhecimento de idade, entre outras reivindicações. O fundamental, que Deliveroo os reconheça como trabalhadores e aceite negociar as condições laborais. Ações similares de protesto tem sido feitas pelos riders da empresa no Reino Unido.

O capitalismo atual mostra uma e outra vez sua enorme capacidade para “vestir-se de seda” e tratar de encobrir a exploração com tinta “progressista”. Mas de baixo dessa capa se encontra, como sempre, a apropriação privada do trabalho alheio como fonte de ganancias. A possiblidade de utilizar o desenvolvimento das redes sociais e novos apps para generalizar uma colaboração social entre pessoas, sem mediação do capital, é possível apenas umas vez que se supere os limites do capitalismo. Então sim, a cooperação entre produtores livres pode estabelecer-se mediante novos desenvolvimentos tecnológicos e aplicações colaborativas para planificar e organizar a vida em comum.

Talvez o mais importante atualmente, é que estas novas formas de exploração estão gerando também novas formas de resistência entre trabalhadores: plataformas de luta entre trabalhadores de Deliveroo em vários países, agremiação dos choferes de Uber em Seattle, greves de “falsos autônomos” técnicos de Movistar no Estado espanhol, experiências que se somam a outras lutas contra a precariedade, como das trabalhadoras que limpam os hotéis, Las Kellys. Unir estas lutas a das do conjunto da classe trabalhadora, tanto nos setores “uberizados” como em todos tradicionais – que fazem uso intensivo das externalizações, o trabalho parcial e precário –, multiplicara a potencialidade dessas lutas.

Tradução Douglas Silva




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