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EAD NA UFES

UFES: lutemos contra o ensino remoto e a precarização

Em meio a um momento histórico da crise econômica, política combinada a profunda crise sanitária do capitalismo, a única saída para a burguesia é seguir fazendo com que os trabalhadores paguem por ela. Junto a precarização do trabalho avança a precarização da educação, cada dia mais visível nas tentativas de imposição do excludente Ensino Remoto Emergencial que facilita um projeto de precarização ainda maior da educação atingindo sobretudo os estudantes mais precários. É frente a esse cenário que a UFES definiu retomar as aulas com o ensino remoto a partir de setembro.

quinta-feira 6 de agosto| Edição do dia

Estamos vivendo um período conturbado e histórico. O Brasil já se tornou epicentro da pandemia da covid-19 com a política negacionista e reacionária de Bolsonaro, Mourão e dos militares, assim como com as políticas demagógicas dos governadores que se dizem oposição ao presidente, mas rifam as vidas dos trabalhadores, que são quem mais sentem diariamente em suas peles o peso dessa crise econômica, sanitária e social, seja com a doença do novo coronavírus, seja com a fome pelo aumento do desemprego e precarização do trabalho. É nesse contexto que as Universidades, pólos de pesquisa, conhecimento e tecnologia, têm autoritariamente implementado o Ensino Remoto Emergencial (ERE).

Para início de conversa é importante ressaltar a demagogia que faz a reitoria sobre dialogar com a comunidade acadêmica, hipocrisia conveniente para chegar aos nossos e-mails e estampar as manchetes de jornal, mas sabemos que não precisar ir muito longe para dar de cara com a posição autoritária da Universidade. Todo o processo de implementação do Ensino Remoto Emergencial passa por fora não só da realidade da maioria dos estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), como também passa por fora da construção mínima de um espaço promovido para ouvir as posições da universidade de conjunto. Para além de questionários que desembocam em nenhuma finalidade efetiva, justamente pelo número de estudantes que nem acesso a internet possuem e os que seguem trabalhando, em meio aos riscos da pandemia, para sobreviver, a reitoria da UFES segue mais uma vez nos mostrando que não podemos confiar numa entidade que passa ataques aos estudantes e trabalhadores, sem pestanejar.

Não esqueceremos que em meio ao período de férias, sem nenhuma consulta à comunidade acadêmica, excluindo propositalmente da vista a autonomia universitária, justamente para minar qualquer possibilidade de mobilização, a reitoria já passou o aumento do Restaurante Universitário (RU) em aproximadamente 332%, que foi de R$1,50 para R$5,00, sem nenhuma melhoria nas condições de trabalho das funcionárias ou mesmo nas refeições; assim como instalou grades nas janelas do bandejão, no intuito de excluir qualquer possível acesso de quem não tenha o cartão e não tenha condições de pagar uma refeição. Essa é a mesma reitoria que até o dia de hoje não liberou, com salário integral e sem perda de direitos, os trabalhadores terceirizados da UFES, chegando inclusive a cortar contrato com as empresas terceirizadas, deixando trabalhadores na rua sem salário em meio a pandemia; pior ainda, demitiu os vigilantes terceirizados e os substituiu pela implementação de Policiais Militares aposentados por todo o campus, com a falsa justificativa de “melhorar a segurança” e identificar “perfis de supostos infratores”, numa postura escancaradamente racista de barrar a entrada de pessoas negras e pobres dos espaços da universidade, gerando o oposto a uma “proposta de segurança”, já que a presença da polícia militar impede o livre arbítrio dos estudantes, disseminando clima de medo, onde vivenciamos diversas cenas de desrespeito, como a repressão de qualquer protesto que comecemos contra as condições de injustiça e precarização na universidade.

Retomando apenas alguns exemplos é mais do que suficiente para reforçar que não temos ilusão de que essa reitoria está do nosso lado, a mesma reitoria que espera que, em menos de um mês, todos os cursos elaborem questionários para que os estudantes respondam se têm condições de realizar o Ensino Remoto, sem levar em conta também a situação e realidade dos professores e técnicos administrativos em meio à pandemia. Apesar da maquiagem que fazem sobre o ensino remoto ser um modelo temporário, acarretará numa maior margem aberta à implementação futura do Ensino à Distância (EaD), que lembremos, a defesa dos capitalistas com unhas e dentes para aprofundar o caráter de mercadoria que tem a educação no governo Bolsonaro, na realidade já vinham sendo implementados desde os governos do PT. Se os estudantes já viviam a dura realidade, lidando com dificuldades em questões de saúde mental, na dolorida permanência estudantil durante o ensino presencial, nesse cenário de pandemia o adoecimento se torna ainda mais severo, levando também em conta os estudantes que puderam fazer a quarentena e também tem sofrido em suas subjetividades com o distanciamento ou isolamento social, e é indispensável remarcar, sobretudo para as estudantes e trabalhadoras mulheres, o peso que recai em relação às tarefas domésticas combinadas muitas vezes ao fato de trabalharem de casa.

 

No estado do Espírito Santo já são 87.243 casos confirmados de coronavírus e 2.646 óbitos. Num país em que falta água potável para 31 milhões de pessoas, 30% dos domicílios não têm acesso à internet, e a ampla maioria da outra porcentagem que possui esse acesso é em condições muito insuficientes para atender as necessidades básicas que um ensino nesse modelo exigiria, é urgente que um debate sobre como garantir as condições de acesso e qual a função das universidades nesse momento deveria ser uma decisão democrática de toda comunidade universitária, estudantes, professores e funcionários efetivos e terceirizados. Dos estudantes que puderam responder ao questionário da UFES, 77% expressaram que o ensino remoto compromete os processos de aprendizagem totalmente ou parcialmente e 82% consideram que as disciplinas ministradas por meio online não permitem a aprendizagem como no ensino presencial.

Se por um lado vemos a imposição do excludente Ensino Remoto Emergencial, por outro está a passividade das entidades e correntes que compõem o movimento estudantil da UFES. O DCE, atualmente encabeçado pela Juventude do PT, Levante Popular da Juventude, na gestão Alvorada, se limita a meras postagens em suas redes afirmando sua posição contrária ao ensino remoto, mas sem aprofundar o papel que a universidade pode cumprir, sem fazer nenhum chamado aos estudantes para uma mínima assembleia geral durante todo esse tempo, nem colocando qualquer saída para os estudantes se unirem a batalhar contra a implementação do Ensino Remoto, respondendo à altura o autoritarismo da reitoria. É uma política de mera redução de danos! Mas qual proposta efetiva tem o DCE com todo o peso que poderia dar nessa construção para intensificar a mobilização estudantil no enfrentamento? O DCE se retirou do GT Ufes COVID-19, ainda que com todas as barreiras burocráticas do espaço, mas a questão é que saíram sem nenhuma comunicação prévia aos estudantes dessa decisão, o que gerou ainda mais um total clima de desmobilização nos estudantes, como se nada pudesse ser feito além de aceitar, e "esperar passar o ataque para pensarmos como tornar a situação menos difícil", como já ouvimos nas reuniões chamadas pelo Centro Acadêmico de Serviço Social, por exemplo, como se pudéssemos tornar o absurdo que é o ensino remoto, "mais agradável".

O DCE da UFES já provou que suas apostas estão em esperar até o último momento para convocar uma reunião do CEB (Conselho de Entidade de Base), reunião nada divulgada, convocada abertamente na maioria das vezes um dia antes, que em meio à pandemia se restringiu a se fechar ainda mais quando somente poucos representantes podem participar. Sem nem ao menos podermos participar, sem nenhuma assembléia com a nossa participação que anteceda a reunião para colocarmos nossas posições a partir de nossas demandas, ao final recebemos um informe, onde não nos sentimos representados. Outro nítido exemplo de passividade são a maioria das últimas gestões de Centros Acadêmicos que se escondem atrás de estatutos, esperando alguma nova resolução em congressos uma vez por ano, burocratizando completamente toda possibilidade de construção das lutas dos estudantes, a partir das nossas demandas, sem levar até o final o papel que as entidades estudantis podem contribuir na mobilização e construção das lutas.

Essas mesmas correntes e entidades do movimento estudantil da UFES já vem há anos demonstrando que na maioria das vezes decidem pela passividade frente aos ataques, no máximo saem com notas de repúdio em suas redes, ao invés do esforço pela mobilização dos estudantes. As correntes que estão na direção do DCE, juventude do PT e UJC, assim como na direção da UNE e outras tantas entidades estudantis de extrema importância e relevância no país, têm apostado em frentes amplas e negociações com as burocracias universitárias, mesmo aquelas que adotam políticas liberais que rifam a educação para o projeto privatista. Por outro lado, fazemos um chamado às organizações políticas que se colocam nacionalmente como oposição à política petista, como é o PSOL, PCB e PSTU, que igualmente estão em entidades da UFES a serem mais do que uma “oposição crítica” ao ERE, mas que desde as entidades estudantis que estão, impulsionem espaços democráticos em que toda a comunidade universitária participe, precisamos de um polo antiburocrático que questione o projeto neoliberal e de extrema direita do governo que quer precarizar ao máximo a educação pública.

É papel das entidades estudantis organizar os estudantes e, junto com os trabalhadores discutir o que podem e devem cumprir, com debates profundos sobre qual papel e como a universidade poderia estar cumprindo no combate à pandemia, colocando toda a sua pesquisa científica à serviço de estar na linha de frente nesse momento de crise sanitária profunda. Frente às milhares de mortes, como teremos condições de nos debruçarmos à preocupação de fechar um semestre, com a contagem de horas, com notas e frequência? É necessário uma ampla mobilização e discussão, com toda a comunidade universitária para potencializar a produção de testes, máscaras, álcool, para as pesquisas em torno de uma vacina ou medicamento, para os estudos em engenharia, arquitetura, gestão de saúde, sociologia, dentre tantas outras áreas cujos profissionais são convocados pelo momento histórico a cumprir um importante papel social, bem como na conexão entre trabalhadores e estudantes contra a precarização do trabalho e a exploração que os atinge hoje e que nos espera amanhã é fundamental, já que são os trabalhadores que movem o mundo e somos, nós estudantes, futuros trabalhadores em um sistema que tende a precarizar cada vez mais nossas vidas para garantir a sede de lucro dos grandes empresários, inclusive os que estão por trás desses aplicativos. É urgente que essa unidade entre estudantes e trabalhadores esteja colocada na ordem do dia para a comunidade discente e certamente nos fortalecerá frente aos ataques à educação que reserva o governo Bolsonaro.

Nós da Faísca estamos em Centros Acadêmicos em diversas universidades e regiões pelo país. Em cada um desses lugares, estamos defendendo e construindo espaços democráticos de discussão e autoorganização dos estudantes, apostando sempre na aliança com os trabalhadores. Mesmo o ensino remoto sendo implementado, nos posicionamos frontalmente contrários não só à medida, mas a maneira como foi implementada pelas reitorias, sempre de cima pra baixo, autoritária e antidemocraticamente. Durante todo esse processo de incerteza frente a falta de informações disponibilizadas pela reitoria, é latente a falta de articulação do DCE com a comunidade universitária que apenas há dois dias atrás convocou uma plenária para todos os campus, para essa sexta (07), soltando um documento que, ainda que tenham propostas e posicionamentos sobre o ERE que já está à porta de ser implementado, na realidade, deveria ter sido construído desde o início espaços de debate e construção desses e outros documentos que respondesse a altura do ataque e que colocassem todas as demandas estudantis para gerar um movimento que pudesse de fato garantir que os estudantes não serão prejudicados. É necessário que o DCE convoque e mobilize assembleias gerais na UFES, bem como os Centros Acadêmicos dos cursos, para que os estudantes possam também deliberar seus próprios posicionamentos e decidir sobre seu futuro. Além dos espaços democráticos das assembleias estudantis, é preciso também de espaços entre os três setores, em que estudantes, professores e funcionários possam discutir a atual situação, tomando em nossas mãos os rumos da Universidade. Não podemos confiar nas reitorias, direções e demais órgãos da burocracia universitária, é preciso que os estudantes se reúnam em comissões independentes para discutirmos como fazer com que nenhum estudante seja prejudicado e possam pensar iniciativas, campanhas, levantamento de dados etc.

Confiamos na força dos estudantes aliados aos trabalhadores, e essa força precisa ser colocada em cena não apenas para resolver as nossas demandas imediatas, mas para questionar o que for preciso da universidade e revolucionar esse espaço para batalhar por outra sociedade, livre das mazelas que vivemos hoje. Devemos tomar em nossas mãos as definições de como se dará o ensino nesta situação de crise, pensando também como ficarão as universidades pós pandemia e qual o papel que devem cumprir na sociedade. BASTA! NOSSA VIDA VALE MAIS QUE OS LUCROS DELES!




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