Internacional

GRÉCIA

Tsipras, Stiglitz-Krugman e uma saída radical para a Grécia

Iuri Tonelo

São Paulo

quarta-feira 1º de julho de 2015| Edição do dia

A Grécia parece estar num beco sem saída. Tsipras, o principal ator do drama hoje em curso no país, depois de utilizar demasiado e incansavelmente de sua estratégia de negociações com a Troika, terminou por propor um referendo que supostamente daria voz à população grega. O que está em jogo no referendo?

Segundo a proposta, a população deve decidir se aceita ou não austeridade ainda maior indicada pela Troika que significa um enorme retrocesso e “tortura” da população grega, para usar os termos de Stiglitz, Nobel de economia. Ou seja, a proposta de decisão “democrática” da população é aceitar o total estrangulamento da condições de vida ou o “não” a proposta da troika. Mas qual o significado desse “não”?

Se olhamos economistas e comentadores internacionais que fazem parte do stablishment internacional (neokeynesianos) vemos importantes críticas à troika e contra a austeridade. Joseph Stiglitz em entrevista a BBC argumentava que a “desastrosa situação em que o país se encontra desde então é de responsabilidade da Troika”. Ainda pensando as alternativas, Stiglitiz chega a comparar a situação da Grécia com a Argentina e defende “que é possível tirar uma importante lição do êxito argentino. Depois do calote, a Argentina começou a crescer a uma taxa de 8% ao ano, a segunda mais alta do mundo, depois da China”.

Como pensamento “crítico”, mas interior à lógica do capital, Stiglitz se espelha em pensar a moratória numa difícil resolução para os trabalhadores como ocorreu na Argentina, trazendo um enorme ônus para a população e que se deu em condições internacionais muito distintas da que vivenciamos hoje, numa “grande recessão”. Mas não deixa de ser notável que sua ênfase está na crítica à troika e uma resolução por fora de um acordo direto de submissão à Alemanha.

Paul Krugman, um dos mais importantes economistas neokeynesianos atuais, de certa forma foi além. Em texto no jornal El Pais (30-06), “Grécia, al borde”, o economista norteamericano defende diretamente que os gregos devem votar no “não” e estarem preparados para uma saída da Zona do Euro.

No artigo citado, aponta que “a adesão ao ultimato da troika levaria ao abandono definitivo de qualquer pretensão de independência da Grécia”. Ou seja, como economista norteamericano (mais inclinado a seu país nos conflitos de rapina em competição com a Alemanha) também defende contra a austeridade implacável de Merkel.

Pois bem, se a economia burguesa neokeynesiana faz essa defesa, o que propõe a “esquerda radical” do Syriza? Antes da resposta, já nos parece interessante apontar o que o próprio Krugman analisa sobre a resposta radical do Syriza: “os sucessivos governos gregos tem aderido às exigências de austeridade, e inclusive o Syriza, a coalização de esquerda no poder, estava disposta a aceitar a uma austeridade que já havia sido imposta. O único que pedia era evitar uma dose [ainda] maior de austeridade”.

Ou seja, mesmo o pensamento do status quo econômico internacional já considera que o Syriza não faz mais que demais governos no que tange a austeridade, apenas “luta” para não ser pior. E estão certos nisso.

O beco sem saída não é da Grécia, mas da política do Syriza. Começaram um governo em uma coalizão com a direita grega (Gregos Independentes) e semearam a ilusão de uma negociação com a troika para uma austeridade mais leve, segundo as “linhas vermelhas” do Syriza. Mas a Grécia está numa espécie de “guerra” com a Alemanha, e não se pode dar um passo significativo numa luta apenas com manobras e acordos.

Tsipras já se engasgou bebendo a poção mágica de suas manobras: os limites são a chave de qualquer solução que apresenta. A esquerda do Syriza faz críticas, propõe não aceitar e mesmo chegam a pensar na saída, o grexit. A ironia é que se mantém no governo (legitimam criticamente) e não apresentam um plano programático anticapitalista que sirva como resposta efetiva. Em último instância, na prática seguem os limites do pensamento keynesiano, com um pouco mais de “mobilização”, como conselheiros de Tsipras.

Os olhos de toda a esquerda estão voltados para essa experiência e desgraçadamente ainda diante da totalmente limitada condução do Syriza da política na Grécia setores importantes da esquerda internacional, que no Brasil tem expressão em correntes do PSOL, que igualam a solidariedade ao povo grego com a defesa incondicional do Syriza, refletindo um importante ceticismo com uma resposta distinta dos trabalhadores na Grécia.

Karl Marx, fundador do socialismo científico, dizia que “ser radical é agarrar as coisas pela raiz”. Não se pode pensar em uma solução radical na Grécia por fora de combater o imperialismo com uma resposta positiva dos trabalhadores, começando por dar um basta no pagamento da dívida (espoliação desenfreada dos gregos), o cancelamento de todas as privatizações, a anulação dos impostos à população com imposição de impostos ao capital e aos ricos.

É preciso se preparar para dar um fim à austeridade e frente às ameaças da troika, organizar os trabalhadores para, frente a fuga de capitais, nacionalizar os bancos com a administração democrática dos trabalhadores, estando a frente também nos locais de trabalho, ocupando e controlando as fábricas e, assim, preparando o conjunto da população para a verdadeira guerra: a luta por um governo operário a para fazer frente à troika imperialista e o capitalismo.

Abandonar essa perspectiva e endossar a política de Tsipras ou da esquerda do Syriza não é apenas se negar a qualquer solução “radical”, mas um ceticismo que não apresenta uma solução muito distinta de Stiglitz e Krugman e outros “críticos da troika” da economia burguesa.




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