Internacional

PRIMÁRIAS EUA

Trump e Sanders disputam o voto operário

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

terça-feira 15 de março de 2016| Edição do dia

As vitórias de Trump e Sanders nas primárias de Michigan, o primeiro estado importante do velho coração industrial norte-americano a votar para a nomeação do canditado presidencial, expressam pela direita e pela esquerda a frustarção e o descontentamento de amplos setores da classe operária tradicional que se sentem abandonados pela elite política democrata e republicana.

O "momento populista" das primárias norteamericanas chegou a setores da classe operária. A grande pergunta é se Michigan é uma exceção ou será uma antecipação dos resultados das primárias que vêm por aí nos Estados do chamado "Rust Belt", o velho cinturão industrial, como Ohio, Illinois e Wisconsin.

O impacto não é menor. Michigan foi o coração do movimento operário combativo Norte-americano. As greves e ocupações das metalúrgicas de Flint, em particular da General Motors, de 1936/37, foram parte do processo que levou à fundação dos sindicatos industriais. Entretanto, nas últimas décadas, o velho cordão industrial entrou em decadência, frente ao impacto dos fechamentos de plantas e os cortes salariais, situação que se agravou com a recessão de 2008. O governo de Obama em acordo com o sindicato automotor (UAW) lançou um resgaste milionário para salvar as metalúrgicas, que beneficiou as corporações, porém impôs sacrifícios para seus trabalhadores. Entre outras coisas, o sindicato aceitou que os trabalhadores novos ingressassem com a metade do salário. De lá a frustração e o ressentimento contra o "establishment”.

Embora desde posições políticas antagônicas, o êxito de Sanders e Trump alimentou-se do mesmo descontentamento. Não casualmente ambos concentraram seu discurso na economia e, em particular, na denúncia aos políticos tanto democratas como republicanos que assinaram os tratados de livre comércio, como o NAFTA e o tratado Trans Pacífico.

Este discurso contra a "globalização" e contra a elite política entrou em sintonia com as ansiedades e preocupações de um amplo setor da classe operária tradicional. Por isso, embora nenhuma consulta viu com antecipação a Vitória de Sanders sobre Hillary Clinton, embora o triunfo de Trump seja um resultado não tão inesperado.

Durante cinco semanas, entre Dezembro de 2015 e Janeiro de 2016, Working America, uma organização ligada a ALF-CIO, entrevistou 1689 prováveis votantes de famílias com salários anuais menores que 75.000 dollares em bairros operários de Cleveland (Ohio) e Pittsburgh (Pensilvânia), dos Estados do Rust Belt. A eleição não é casual. Os votantes operários brancos representam quase a metade do eleitorado de Ohio.

Embora a pesquisa não tenha o valor profético de uma votação (não respeita os critérios representativos de uma mostra populacional) é uma radiografia do que se passa pela cabeça de um setor da classe operária norte-americana que se sente a grande perdedora das últimas três décadas. Os resultados destes diálogos, mais que uma descoberta, são uma confirmação de uma suspeita estendida: 53% ainda não havia decidido seu voto, porém entre os que fizeram, o candidato preferido é Donald Trump (38%) tanto para democratas quanto para republicanos e independentes. Isto não quer dizer que o conjunto da classe operária industrial branca é a base social do discurso reacionário de Trump. Como indicado nas conclusões do estudo, os apoios para o magnata novaiorquino vem de dois grupos distintos: um de votantes ideologicamente conservadores ( que tradicionalmente votam no partido republicano) e que apoiam suas políticas nativistas, racistas e antiimigrantes; e outro que não tem nenhuma motivação ideológica, mas que estão fartos e que vêem o voto em Trump como um instrumento negativo, um protesto contra o status quo.

Esses trabalhadores, como coloca o estudo citado, "temem por sua situação e sua perspectiva econômica, estão enjoados dos políticos que não respondem a suas preocupações e são céticos sobre o papel do governo". Perderam ou estão ameaçados seus empregos pelas políticas de relocalização das grandes multinacionais e vêem que a relativa recuperação da economia nunca os alcança.

A aposta de Trump é seduzir os votos "antiestablishment" de Sanders que provavelmente não retenha Hillary Clinton.

Enquanto que Ted Cruz e Marco Rubio insistem na redução de impostos em benefício dos ricos e repetem o mantra do "governo chico", Trump detectou esse profundo mal-estar e decidiu sair em disputa por essa parcela do eleitorado com um programa populista nacionalista de direita: denuncia o "livre comércio", propõe introduzir tarifas para bens da China e México, inclusive revisar acordos com Japão e Alemanha; promete fazer com que os CEO da Apple e outras multinacionais abandonem sua frente de mão-de-obra barata na China e "tragam os empregos de novo aos EUA"; fala contra o resgate a Wall Street e contra o financiamento dos partidos por parte das grandes corporações (como um milionário financia sozinho sua campanha); afirma que vai manter um sistema de saúde e assistência estatal, porém apenas para os norte-americanos que o mereçam. Embora, não seja um fascista em sentido restrito, sua demagogia é muito perigosa. Encoraja a competência entre os operários que vêem nos imigrantes e nos trabalhadores de outros países, não como irmãos de classe e sim, como rivais. E alimenta a ideia de que o caminho para recuperar o "sonho americano" passa por restaurar o poder Imperial dos EUA em sua versão isolacionista.

Se a polarização fosse única a situação seria desesperadora. Contudo, o voto em Sanders em grandes distritos operários de Michigan mostra que se pode disputar pela esquerda. Não é menor que setores significativos de trabalhadores sejam receptivos a seu discurso "socialista", mas que pelo dicionário de Sanders, "socialismo" não queira dizer de maneira alguma a liquidação do capitalismo.

Ainda está faltando um mundo para as convenções partidárias que nomearam seus candidatos. Trump parece cada vez mais perto de ser o candidato a presidente republicano. E dois contedores que abandonaram a carreira passaram para o seu lado: Chris Christie o governador de Nova Jersey e o cirurgião afroamericano Ben Carson.

No bando democrata, Hillary não consegue dar por terminada a carreira e provavelmente consiga a nomeação graças aos "super delegados", ou seja, ao establishment de seu partido e não ao voto popular.

Porém, já as primárias revelaram que o sistema bipartidário que lhe tem garantido a governabilidade da classe dominante por mais de dois séculos está em uma profunda crise e que depois de décadas de retrocesso e reação, essa crise começa a dar fenômenos progressivos também no movimento operário.




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