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Trump-Biden: poucas diferenças e um debate entediante antes das eleições

Tentando não repetir a imagem decadente do primeiro debate, Trump baixou o tom e Biden tentou desferir alguns golpes no quadro de um confronto direto enfadonho, com mais alegações de corrupção do que diferenças substantivas sobre temas importantes.

sexta-feira 23 de outubro| Edição do dia

Esta nota é uma tradução parcial de um artigo originalmente publicado no Left Voice, portal em inglês da rede internacional Esquerda Diário.

O debate desta quinta-feira, o último antes das eleições presidenciais de 3 de novembro, teve poucos momentos satisfatórios. Tanto que muitos nas redes sociais apontaram o desempenho da moderadora, Kristen Welker, da NBC, como o melhor da noite.

Depois do quadro decadente que os candidatos mostraram no primeiro debate, com troca de gritos e sem aprofundar nenhum assunto, na reunião de quinta-feira, os assessores de Trump recomendaram que ele mudasse o tom para um mais reflexivo. Isso, junto à falta de carisma de Biden, que ainda conseguiu dar alguns golpes, resultou em um debate enfadonho e sem grandes novidades 15 dias antes das eleições.

Em vez de um confronto final entre o "Cheeto-in-Chief" (como Trump é chamado, em referência ao salgadinho de cor laranja) e "Sleepy Joe" (como Trump chama Biden por causa de sua falta de ânimo), o que vimos no debate foi uma troca de políticas entre dois candidatos que representam o bipartidarismo imperialista, na tentativa de recuperar o equilíbrio em meio a uma crise social, política e econômica. Trump, cada vez mais em desacordo com os republicanos nas últimas semanas e em sua luta para manter o Senado em novembro, buscou evitar muito, mas não toda, de sua retórica populista. Biden procurou cuidadosamente posicionar-se o mais à direita que pôde para se distanciar dos setores mais progressistas do Partido Democrata, na esperança de manter sua liderança nas pesquisas nacionais e se engajar com eleitores mais moderados.

A duas semanas das eleições, este foi um debate sobre estabilidade e como voltar à "normalidade" diante da crise, no qual cada candidato tentou culpar o outro.

Mais uma vez, a estratégia de Biden foi transformar o debate em um referendo sobre a presidência de Trump. Mas, ao invés de ser forçado a manter-se na defensiva, Trump respondeu buscando contornar Biden e colocar a era Obama à prova. Em última instância, nenhum resistiu ao escrutínio ou provou ter algo a oferecer aos milhões de trabalhadores que sofrem com o imperialismo decadente.

A pandemia e o negócio da saúde

O debate começou pelo tema da pandemia, com a moderadora Kristen Welker perguntando sobre o plano de cada candidato para combater a próxima onda de coronavírus. Trump continuou minimizando a pandemia, dizendo que as pessoas nos EUA estão "aprendendo a conviver com ela", embora os casos de coronavírus tenham aumentado 32% em todo o país somente nas duas últimas semanas. Em vez disso, ele tentou culpar a China, mais uma vez afirmando que faria a China "pagar" pelo coronavírus e prometendo uma vacina em algumas semanas (apesar de todas as evidências científicas apontando o contrário).

Ao atingir o presidente em seu ponto mais fraco, Biden apontou o mau controle da pandemia por parte de Trump, desde a flagrante negação científica do presidente até sua supressão de informações sobre a gravidade da pandemia. Biden tentou se apresentar como a opção "responsável": como um presidente que poderia conter o nível de contágio e manter a prosperidade econômica. Recorrendo à orientação de profissionais médicos, sugeriu o fechamento de bares e academias que vêm aumentando o número de casos e o repasse de recursos às escolas para a instalação de sistemas de ventilação. Mas aqui está a falsa escolha apresentada por ambos os candidatos.

No final das contas, enquanto Biden fala da boca para fora sobre a gravidade da pandemia e seu efeito sobre os trabalhadores, na realidade sua solução é negociar "um pouco menos de mortes" para uma economia estável. Biden pode ter acertadamente acusado Trump de ser responsável por mais de 223 mil mortes nos Estados Unidos, mas quando diretamente questionado se apoiava o fechamento da economia se isso significasse salvar vidas, se esquivou da pergunta e disse que quer "acabar com o vírus, não com o país". Nem Biden nem Trump estão dispostos a deter a pandemia se isso significar prejudicar os lucros capitalistas.

O mesmo ficou claro na discussão sobre cuidados de saúde, que mais uma vez mostrou Joe Biden girando à direita quando pressionado por Trump. Com milhões de pessoas nadando em dívidas médicas e mais preocupadas sobre como pagarão pelo tratamento da Covid-19 do que como sobreviver ao vírus, ambos candidatos concordaram com o criminoso sistema de seguro saúde pago e rejeitaram até mesmo a possibilidade de atendimento médico universal.

Neste ponto, Trump alertou sobre os supostos planos de Biden de uma "medicina socializada" e afirmou que, uma vez no cargo, o candidato do Partido Democrata seria controlado pela agenda radical de progressistas como Ocasio Cortez e Bernie Sanders. Mas Biden foi rápido em esclarecer a questão, dizendo que Trump estava "confuso". "Sou Joe Biden", disse ele, distanciando-se de Sanders, que usou sua enorme influência para fazer campanha para Biden desde que desistiu da corrida. Longe de fazer concessões à esquerda para garantir votos, Biden deixou claro que está do lado das seguradoras e farmacêuticas.

Duas visões do imperialismo estadounidense

Ao contrário do primeiro debate presidencial, tanto Trump quanto Biden falaram muito sobre política externa e as medidas que tomariam para revitalizar o projeto imperialista dos Estados Unidos; cada um tentou aparecer como o candidato mais duro contra as ameaças estrangeiras à hegemonia dos EUA e o mais pró-ativo na imposição dos interesses imperialistas estadounidenses no exterior. Biden se colocou na ofensiva, acusando Trump de ser muito brando com os líderes estrangeiros.

Quando questionado sobre relatos de interferência russa e iraniana nas eleições de 2020, Trump disse que a intromissão da Rússia e do Irã era uma prova do seu desejo por destituí-lo do cargo, temendo mais restrições e sanções. Biden foi ainda mais longe, dizendo que tal interferência era nada menos que um ataque à "soberania estadounidense" pela qual esses países seriam forçados a pagar, convenientemente ignorando a longa história de intervenções imperialistas dos EUA e golpes e remoções de líderes estrangeiros, incluindo as realizadas sob o mandato de Obama, como o golpe de Estado em Honduras em 2012 e a missão militar no Haiti em 2010.

Em relação à China, tanto Trump quanto Biden prometeram ser "duros" em suas negociações com o país. Enquanto Trump alegou que estava fazendo a China pagar pela pandemia do coronavírus, Biden afirmou que faria a China cumprir as regras internacionais, impondo severas restrições. Apresentaram visões capitalistas opostas sobre garantir de colocar a China sob o controle dos Estados Unidos, mas no final das contas são apenas maneiras diferentes de impor o imperialismo estadounidense. De qualquer maneira, ambas as políticas, seja o America first ou a nostálgica tentativa de retornar ao multilateralismo tradicional, significam sanções, tropas e desastre para a classe trabalhadora mundial.

Quem construiu as jaulas?

No entanto, talvez em nenhum outro ponto do debate os dois candidatos tenham sido mais difíceis de distinguir do que no tema da imigração. Welker abriu sua pergunta com a desagradável notícia das 545 crianças detidas pela polícia imigratória dos Estados Unidos e cujos pais não foram encontrados porque já haviam sido deportados. A brutalidade desse ato é indescritível: crianças crescendo em gaiolas, separadas de seus pais por anos, crianças que talvez nunca mais encontrem suas famílias.

Sem surpresa, Trump fez rodeios e falsamente alegou que essas crianças cruzaram a fronteira sem suas famílias. Redobrou sua retórica anti-imigração, culpando a imigração pela pandemia e pela crise econômica. Ao longo de sua presidência, a retórica e as políticas de Trump fortaleceram os grupos de ódio, capacitaram a patrulha paramilitar de fronteira e atacaram abertamente as comunidades imigrantes. Mas sua aversão abertamente xenófoba pelos direitos humanos básicos dos imigrantes também escancarou a imigração racista e genocida nos Estados Unidos como um todo, tanto sob os governos democratas quanto republicanos. Quando Biden acusou Trump de jogar crianças em jaulas, Trump respondeu com o que pode ter sido o ataque mais astuto da noite: "Quem construiu as jaulas?".

Em um movimento raro, Biden fugiu da pergunta dizendo que discordava de todas as políticas de imigração do governo Obama. Mas isso não esconde a verdade: democratas e republicanos construíram essas jaulas juntos, assim como construíram juntos o muro da fronteira e costumam lançar bombas sobre as populações civis juntos.

"Sou a pessoa menos racista nesta sala" e outras ilusões

Após seus apelos flagrantes à extrema direita no último debate, a deferência de Trump à supremacia branca e seu histórico de desigualdade racial foram analisados ontem à noite. Embora os republicanos certamente pudessem respirar aliviados por Trump não estar abertamente do lado dos Proud Boys desta vez, Trump lançou muita retórica vazia e fatos distorcidos como evidência do histórico de sua administração nas questões raciais. Chegou a afirmar que fez "mais pela comunidade afro-americana do que qualquer presidente, com exceção de Abraham Lincoln".

Por mais que tentassem exporem-se mutuamente, os dois candidatos não conseguiram evitar expor suas próprias históricos de políticas completamente desastrosas sobre a situação dos negros. De sua parte, Biden tropeçou mais uma vez ao se deparar com seu papel na redação do Projeto de Lei do Crime de 1994, que é responsável pelo encarceramento e privação de direitos de milhões de não-brancos nos Estados Unidos.

Os minutos finais do debate centraram-se no tema da crise climática, destacando o quão pouco importante é este tema funadmental para os candidatos do capitalismo imperialista. Biden falou muito bem sobre a urgência da mudança climática, mas suas políticas, como as de Trump, não estão perto do suficiente para nos salvar de um desastre ecológico. Com um novo relatório afirmando que a produção capitalista poderia arruinar o planeta até 2050, não há tempo a perder com o "capitalismo verde" ou políticas climáticas graduais. Os Acordos de Paris não podem nos salvar agora. Mas nem Trump nem Biden fornecem soluções para as mudanças climáticas. Trump nada mais fez do que declarar seu "amor" pelo meio ambiente e apresentar novos planos para cortar proteções ambientais já insignificantes. Enquanto isso, Biden redobrou seu compromisso com o fracking e a acumulação de lucros capitalistas em setores-chave.

Sem a maior parte da grandiloquência e teatralidade do confronto anterior de Trump e Biden, o último debate deixou mais claro do que nunca que, no final das contas, nenhum deles são uma opção para a classe trabalhadora e os oprimidos. Nesta eleição de turbulência social, política e econômica, isso está mais claro do que nunca.

Embora possam usar táticas diferentes, ambos deixaram claro no palco do debate que pretendem recuperar a hegemonia imperialista dos Estados Unidos em cima das costas da classe trabalhadora e dos oprimidos em todo o mundo. Entre esses dois candidatos do capital, não têm nada a oferecer além de mais miséria e insegurança diante de uma segunda onda da pandemia do coronavírus e de uma recessão global que se aprofunda.




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