Teoria

HISTÓRIA

Trotski: ‘O suicídio de minha filha’

Em 5 de janeiro de 1933 se suicidou a primeira filha de Leon Trotski, Zina. Publicamos a carta onde, desde o seu exílio em Prinkipo (Turquia), responsabiliza o Partido Comunista da URSS. Já em 1928 havia perdido a sua segunda filha Nina também por política do stalinismo. Seus dois filhos (com Natália Sedova) homens tiveram o mesmo destino em 1937-1938

terça-feira 5 de janeiro de 2016| Edição do dia

A todos os membros do Comitê Central do Partido Comunista da URSS
Ao Presidium do Comitê Executivo Central da URSS
A todos os membros da Comissão de Controle Central do Partido Comunista da URSS

Considero necessário informar-lhes como e por que minha filha se suicidou.

Em finais de 1930 vocês aceitaram meu pedido de autorizar a minha filha Zinaida Volkova, doente de tuberculose, a vir por um tempo à Turquia, acompanhada de seu filho Vsevolod [Stevan], de cinco anos de idade, para submeter-se a um tratamento. Não suspeitei que por de trás desta atitude liberal de Stalin se ocultava uma intenção ulterior.

Minha filha chegou a este lugar em janeiro de 1931, sofrendo de pneumotórax em ambos os pulmões. Após dez meses de residência na Turquia, conseguimos obter – apesar da oposição permanente dos representantes soviéticos – uma permissão para que fosse se tratar na Alemanha. O menino ficou conosco na Turquia para não incomodar a paciente. Passado algum tempo, os médicos alemães se fizeram confiantes na cura do pneumotórax. A paciente começou a se recuperar e sonhava apenas com a volta à Rússia junto a seu filho, para reencontrar sua filha e seu marido, um bolchevique leninista exilado por Stalin.

Em 20 de fevereiro de 1932 os senhores publicaram um decreto em virtude do qual, não somente minha esposa, meu filho e eu, mas também minha filha Zinaida, perdíamos a cidadania soviética. No país estrangeiro ao qual os senhores lhe permitiram viajar com um passaporte soviético, minha filha se ocupou unicamente de seu tratamento. Não participou da vida política, não podia fazê-lo devido a seu estado de saúde. Evitou tanto quanto podia levantar “suspeitas” contra si. O fato de privar-lhe de sua cidadania foi um miserável e estúpido ato de vingança contra mim. Para ela, esse ato de vingança significava estar separada de sua filhinha, seu marido, seu trabalho e tudo que constituía sua vida normal. Sua saúde mental, já abalada pela morte de sua irmã menor e pela sua própria doença, sofreu um novo golpe, tanto mais atroz quanto foi totalmente inesperado e de nenhuma maneira provocado por ela. Os psiquiatras declararam de maneira unânime que somente o retorno a sua situação normal, com sua família e seu trabalho, poderia salvá-la. O decreto de 20 de fevereiro cerceou precisamente esta possibilidade de salvá-la. Todas as demais tentativas foram, como os senhores sabem, em vão.

Os médicos alemães insistiam em que se lhe fosse permitido, ao menos, reencontrar seu filho o quanto antes, havia uma possibilidade de devolver-lhe seu equilíbrio mental. Mas as dificuldades do trajeto de Istambul a Berlim se multiplicaram, já que o menino de seis anos também perdeu a cidadania soviética. Durante seis meses realizamos esforços constantes, porém inúteis, em diversos países europeus. Somente minha viagem inesperada a Copenhagen nos brindou a oportunidade de levar o menino à Europa. Com a maior dificuldade, este realizou a viagem a Berlim em seis semanas. Mas não havia estado com sua mãe sequer por uma semana, quando a polícia do general Schleicher[2], de comum acordo com os agentes stalinistas, resolveu expulsar minha filha de Berlim. Para onde? À Turquia? À ilha de Prinkipo? Mas o menino devia ir à escola. Minha filha tinha necessariamente que receber atenção médica permanente e condições de trabalho e uma vida familiar normais. Este novo golpe superou a capacidade de resistência da paciente. No dia 5 de janeiro se asfixiou com gás. Tinha trinta e um anos.

Em 1928, minha filha menor Nina [Nevelson], cujo marido foi encarcerado por Stalin há 5 anos e ainda se encontra incomunicável, teve que ser hospitalizada, pouco depois que eu fui exilado em Alma-Ata. Foi diagnosticada com tuberculose aguda. Ela me enviou uma carta puramente pessoal, sem sequer a menor menção a questões políticas; os senhores a detiveram durante sessenta e três dias, de modo que quando lhe chegou minha resposta, ela já havia morrido. Tinha vinte e seis anos.

Durante minha estadia em Copenhague, onde minha esposa iniciou um tratamento para se curar de uma doença grave, e onde eu me preparava para me submeter a uma cura, Stalin, por intermédio da agência [de notícias] TASS, denunciou falsamente à polícia europeia que em Copenhagen ia ser celebrada iminentemente uma “conferência trotskista”! Isso foi suficiente para o governo socialdemocrata dinamarquês para prestar a Stalin o favor de me expulsar com uma pressa febril, com a consequente interrupção do tratamento de que minha esposa necessitava. Mas neste, como em tantos outros casos, a unidade de Stalin com a polícia capitalista obedecia a objetivos políticos. Ainda assim a perseguição de minha filha não teve nem um traço sequer de sentido político. A perda da cidadania soviética e, com isso, da única esperança de voltar a um ambiente normal e se recuperar, juntamente à sua expulsão de Berlim (sem duvidas um serviço que a polícia alemã prestou a Stalin) não constituem mais que um ato de vingança miserável e estúpido. Minha filha conhecia perfeitamente sua situação. Sabia que não podia estar segura nas mãos da polícia europeia, que lhe perseguia a pedido de Stalin. Era consciente disso, e morreu em 5 de janeiro. Qualifica-se essa morte como “voluntária”. Não, não foi voluntária. Stalin a obrigou. Limitou-me a informar, sem tirar conclusões. Logo chegará o momento de fazê-lo. O partido regenerado o fará.

Leon Trotski




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