Gênero e sexualidade

TRIBUNA ABERTA

Transfobia no esporte: Quando o ideal da feminilidade é uma desculpa para o preconceito

segunda-feira 8 de janeiro| Edição do dia

Historicamente, o masculino sempre foi associado à força, energia, vigor, em contraposição ao feminino, relacionado à fragilidade, sensibilidade, delicadeza. Para além de uma mera descrição morfológica dos corpos, há implicações culturais que determinaram essas regras. Nesse sentido, talvez quando se discute a diferença da estrutura corporal feminina e masculina, o campo de discussão seja muito mais filosófico do que fisiológico. Assim, a feminilidade é este ideal perfeito de fragilidade que todas as mulheres deveriam seguir, e a masculinidade o ideal de virilidade exigido aos homens.

Numa perspectiva dos Estudos de Gênero, as idealizações universais platônicas ainda dominam nossa maneira de pensar. Os conceitos universais de masculinidade e feminilidade, ligados aos padrões idealizados apenas aprisionam, homens e mulheres, impedindo-os de viverem a liberdade de gênero, sem serem sancionados, punidos e/ou assassinados por isso. Prova disso são os crimes de LGBTfobia no Brasil, a cada 25 horas um LGBT é assassinado (dados do Grupo Gay da Bahia), e dentro dessa sigla, travestis e transexuais são as principais vítimas, porque elas são as que mais transgridem os padrões de gênero impostos.

Saindo do plano ideal e mergulhando na realidade concreta das pessoas - tão diferentes entre si - nos deparamos com vários exemplos de indivíduos que não atendem ou não se submetem a estas idealizações de masculinidade e feminilidade. Por mais que uma onda conservadora tente estabelecer uma “igualação do não-igual”, para usar uma expressão de Nietzsche. Acontece que são justamente estes corpos “não-iguais” que vão sofrer todo tipo de punição por parte do conservadorismo de tocaia: punição física, psíquica ou simbólica. Me refiro não apenas aos gays, lésbicas, travestis e transexuais, mas qualquer mulher masculinizada ou homem afeminado (independentemente da orientação sexual), todos estão sujeitos ao constante controle e normatização pelo simples fato de transitarem entre o masculino e feminino ou se recusarem a se enquadrar em um único gênero.

Há mulheres cujos atributos físicos demonstram que é possível, sim, possuir grande força física. A corredora indiana, Dutee Chand, é um exemplo disso. Ela foi diagnosticada com hiperandrogenismo, ou seja, seu corpo produz uma carga de testosterona acima da média. Apesar de ter sua feminilidade contestada, ela conseguiu recorrer junto à Corte de Arbitragem Esportiva que reconheceu que apenas os níveis de testosterona não são suficientes para determinar a exclusão de uma mulher em competições esportivas.

De fato, os altos níveis de testosterona de Chand não lhe deram nenhuma vantagem nas Olimpíadas do Rio em 2016, a atleta não passou da primeira rodada na competição dos 100 metros. A pergunta que fica é: e se ela tivesse chegado até a final ou se tivesse vencido, sua feminilidade continuaria no centro das atenções? Será que aqueles que idealizam um gênero perfeito a teriam deixado em paz ou não estariam todos à espreita, munidos de sua pseudociência, para puní-la toda vez que a atleta não atendesse aos ideais de feminilidade?

Ao longo da História, algumas mulheres que se impuseram, só foram ouvidas depois que negaram sua feminilidade, ou seja, precisaram fingir que eram homens para provarem sua capacidade.Como Joana D’Arc, na França, que acabou morta numa fogueira, ou Maria Quitéria, no Brasil, ícone da independência. Parece que o feminino sempre foi visto como inferioridade. Só o masculino que mandava, que criava as regras e concedia a si mesmo o direito de praticar esportes.

Sim, na Grécia Antiga, as mulheres estavam proibidas não apenas de praticar esportes, como de assistir. Neste período, vigorava a máxima aristotélica segundo a qual “a mulher é um ser inferior”. Para burlar o machismo vigente nos Jogos Olímpicos, Kallipateira teve que se vestir de homem para dar as instruções técnicas ao seu filho, o boxeador Pisirodos, que acabou ganhando o torneio, com os conselhos da mãe-coach. Ela foi uma exceção e passou a ser permitida nos estádios.

Pouca coisa mudou com as Olimpíadas da Era Moderna, o idealizador Pierre de Coubertin, era contra a participação das mulheres em competições. A grega Melpomene quis ser uma exceção e se inscreveu, na primeira disputa olímpica de atletismo em 1896, mesmo sendo vaiada pelo público e proibida de entrar no estádio, concluiu a prova. A liberação das mulheres só foi acontecer em meados do século XX, e ainda assim,com restrições para algumas modalidades.

A desconfiança sobre até que ponto a “feminilidade” não atrapalharia o desempenho das mulheres nos jogos foi um obstáculo que elas precisaram enfrentar. Para legitimar ainda mais o machismo um acontecimento lamentável acabou naufragando o sonho delas de praticarem esportes: numa prova de atletismo de 800 metros, em 1928, na cidade de Amsterdã, algumas mulheres não conseguiram concluir a prova, desmaiando no percurso devido ao cansaço físico. Foi um vexame. Uma das exceções foi a alemã Lina Radke que acabou vencendo a prova. Mas como o desempenho geral das mulheres foi negativo, isso custou caro, por décadas as provas de longa distância ficaram suspensas para elas.

O que os homens não entenderam, ao criarem estas regras machistas, é que, não foi a condição física feminina que levaram as mulheres a um resultado abaixo do esperado naquela corrida de Amsterdã, mas porque elas nunca foram incentivadas à competição. Como ainda não são na atualidade. Quantas meninas ainda recebem bonecas e fogãozinho para brincarem, enquanto os meninos ganham bola e carrinho de corrida, sendo estimulados à prática esportiva? Além de começarem muito tarde a competir oficialmente. A primeira maratona olímpica feminina só foi acontecer em 1984, quase cem anos depois da primeira edição dos Jogos da Era Moderna. Entrou para história a chegada da suíça Gabrielle Andersen, no estádio de Los Angeles, cambaleando, vencendo seus próprios limites, mas seu feito principal foi soterrar, de uma vez por todas, o mito do sexo frágil. Andersen chegou na 37º posição, das 44 que concluíram a prova.

Depois de muita luta, hoje já não há mais dúvidas “biológicas” sobre a capacidade atlética e desempenho físico das mulheres. Ainda assim, assombra o ideal de feminilidade associado à fragilidade. Agora, a perseguição mudou de figura, são as mulheres transexuais que estão tendo sua “feminilidade” questionada, atacada, contestada.

A mulher transsexual é uma pessoa que foi socialmente designada como homem pelo seu orgão genital, mas que se auto-determinou como mulher, e em muitos casos recorre a processos cirúrgicos entre eles a redesignação sexual ou tratamentos hormônios, mais comuns com anticoncepcionais e anti-testosterona, para reduzir os hormônios que aumentam características lidas como masculinas e aumentar justamente as que reforçam uma ideia de feminilidade

A atleta Tiffany Abreu, 33, vem fazendo história por ser a primeira transexual a disputar a Superliga feminina, principal campeonato de vôlei do país. Ela passou pela cirurgia de redesignação sexual além de controlar seus níveis hormonais com anticoncepcional. Atuando pela equipe Vôlei Bauru, ela tem enfrentado um grande adversário fora de quadra: a transfobia. Seja pelos gritos ofensivos da torcida adversária tentando desestabilizá-la, seja por declarações de personalidades do esporte que contestam sua participação. A ex-atleta, Ana Paula, chegou a escrever um artigo no Estado de S. Paulo alegando não se tratar de “preconceito, mas fisiologia”.

Teria Tiffany, realmente, alguma vantagem por ter nascido biologicamente homem? Dentre as supostas vantagens que se levantam estão força física (devido à testosterona)e pela sua estatura elevada. Por acaso mulheres não podem ser fortes e nem altas? Não há outras jogadoras que apresentam estas características (altura e força física) sem que sua feminilidade seja contestada? Até que ponto este ideal não esconde o real objetivo desse tipo de discurso: excluir mulheres que, na prática, simplesmente não seguem as expectativas esperadas para o sexo feminino?

Se a questão é nível de testosterona, o caso de Chand aponta que tal alegação não tem fundamento algum. Por possuir hiperandrogenismo, ela mostrou que a testosterona não foi uma vantagem propriamente dita. Quanto a alegação da altura, Tiffany não a mais alta da Superliga. Se comparar com as demais atletas, ela possui a mesma altura que Fernanda Tomé (da equipe de São Caetano) e Fabiana Claudino (do Praia Clube), todas com 1,94m. A jogadora mais alta é a Thaísa Menezes, de 1,96 m (que vai jogar pelo Barueri, depois de se recuperar de uma cirurgia). Agora todas estas mulheres altas terão sua feminilidade posto à prova?

Ainda sobre a força física, há outras atletas com um ataque potente em atividade no voleibol. Como a jogadora Tandara Caixeta (que joga no Osasco/Nestlé), seu ataque chega a impressionante marca de 100 km/h, registrado oficialmente durante uma outra competição que participou, o Grand Prix, no ano passado. Além dela, outras atletas muito fortes se destacam como a Fernanda Garay (que joga no Praia Clube) e Natália Pereira (atualmente jogando na Turquia).

O ideal de feminilidade é apenas desculpa para o preconceito, que tenta manter na sombra da invisibilidade as mulheres altas, as mulheres fortes, as mulheres com hiperandrogenismo, as mulheres transexuais, porque todas elas perturbam a ordem, contestam o padrão, quebram os estereótipos. Estas mulheres solapam os discursos biologicistas que tentam atribuir uma característica de fragilidade à natureza feminina. A discriminação diária que elas enfrentam mostram que a Biologia não é tão neutra quanto se parece, por traz dessa suposta natureza há uma cultura que tenta, a todo custo, domesticar os corpos, controlar o sexo feminino, mantê-las numa posição de submissão.

Esta mesma cultura machista e misógina, agora se mostra transfóbica, ao tentar banir a jogadora Tiffany das competições esportivas. A transfobia se reveste de falsos dados científicos que tentam impedir a participação da atleta da Superliga feminina. Um discurso biológico utilizado apenas quando lhes convém, porque estes mesmos ultraconservadores ignoram os especialistas ligados ao Comitê Olímpico Internacional (COI), que liberaram a participação de atletas trans desde que o nível de testosterona esteja abaixo dos 10 nanogramas (ng). O de Tiffany é de 0,2 ng.Além disso, ela conseguiu a autorização da comissão médica da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). Nada disso importa quando, na verdade, o que se pretende é usar a Biologia apenas como um instrumento para mascarar a transfobia e continuar negando direitos para a população transexual, como o direito à prática esportiva, uma garantia que consta desde 1978 na Carta Internacional da Educação Física e do Esporte da Unesco.

O ponto central da discussão não é a força física, altura ou nível hormonal de Tiffany, como já foi comprovado nos parágrafos acima, mas o fato de que a atleta não atende às expectativas de gênero exigido por esse fundamentalismo conservador. Ainda bem que houveram muitas mulheres dispostas a quebrarem as regras do machismo, como Kallipateira, Melpomene, Radke, e tantas outras mulheres fortes que derrubaram o mito da natureza feminina frágil. Hoje, é a vez de mulheres como Tiffany quebrarem as regras da transfobia para desespero daqueles que idealizam uma feminilidade perfeita e ilusória. Eles estão presos num idealismo platônico que mais se parece com uma caverna assombrada pelos fantasmas do desrespeito às diferenças. Enquanto estes reacionários não conseguirem se libertar do preconceito, não vão poder contemplar o sol da justiça que brilha para todas.




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