Mundo Operário

ENTREVISTA

Trabalhador terceirizado fala sobre a precariedade do trabalho na Região de Campinas

Leo Andrade

Campinas

quinta-feira 11 de junho de 2015| Edição do dia

foto: EFE

Com a luta contra o PL4330, a discussão sobre precarização do trabalho e o programa frente a terceirização se colocou na ordem do dia. O Esquerda Diário publica cotidianamente matérias sobre como isso se dá em diversas categorias, e como os sindicatos, centrais sindicais e partidos de esquerda tem respondido. Hoje fomos investigar um pouco sobre como é o trabalho temporário na Região Metropolitana de Campinas, um forte polo industrial que também conta com grandes centros de logística devido à presença do maior aeroporto de cargas do Brasil, Viracopos. Entrevistamos um trabalhador temporário para saber como essa questão impacta em sua vida.

Você está empregado atualmente? Como que é o seu emprego?
Recentemente eu entrei em um novo emprego, em que trabalho num galpão de logística de uma empresa multinacional, que armazena estoque e redistribui para outras regiões do Brasil. É um emprego em que fui contratado com um contrato temporário, a princípio de 15 dias, mas que pode se estender. Além disso eu sou terceirizado por uma agência de RH que presta serviço pra essa empresa.

Como esse fato de ser um emprego terceirizado e temporário afeta o seu dia-a-dia e dos seus companheiros de trabalho?
Primeiro a relação foi muito estranha. Eu fui empregado de uma forma que parece uma entrega de trabalhadores “delivery”. A empresa estava com um gargalo e precisava de trabalhadores pra fechar o final do mês, daí ela liga pra uma empresa terceirizadora e do dia pra noite você está contratado. No mesmo dia que eu fiz a entrevista, fiz toda a correria pra ser contratado, pra começar o trabalho no dia seguinte. Não tive nenhuma integração, não tive nenhum treinamento. Simplesmente cheguei lá e o cara falou assim: talvez dure alguns meses, a gente está com tal gargalo e vocês vão fazer tal coisa. Nem fui apresentado para os meus colegas de trabalho, fui aprendendo tudo enquanto fazia, o que é terrível, na verdade, porque além de você fazer o trabalho mal e ter várias dificuldades, você acaba aprendendo pouco, e se sente meio um estranho, como se estivesse tapando um buraco no meio da produção, onde todo mundo é meio seu chefe, todo mundo tem autoridade sobre você, e você realmente não se sente igual e parte dos outros trabalhadores. E quem te empregou não está lá pra dizer o que você tem que fazer, então qualquer coisa que falarem pra você fazer, você tem que fazer. Eu fui contratado pra fazer uma coisa completamente genérica, que pode ser absolutamente qualquer coisa que eles quiserem, e eu não tenho como reclamar porque não foram eles que me contrataram. Isso entre outras coisas. Por exemplo, tudo que tem a ver com direitos, como vale transporte, vale refeição, eu tenho que tratar com a empresa que me contratou, só que eu passo o dia inteiro trabalhando e não tenho como entrar em contato com a empresa terceirizada. E a pessoa que é de fato meu chefe não sabe de nada disso, e não quer se envolver, ele contratou uma empresa terceirizada justamente porque ele não quer ter dor de cabeça com isso, ele quer só uma solução temporária pro problema dele. E além disso eu não recebo uniforme, não recebo EPI (equipamento de proteção individual), e embora o meu trabalho não ofereça muitos riscos, ainda assim oferece alguns e eles não se importam nenhum pouco com isso. Eu nem tenho que assinar um ponto todo dia, eu assino, e se não tiver bom ele pode reclamar com a terceirizada, e a terceirizada me tira a qualquer momento, então ele não precisa ficar controlando meu horário, o dia que eu chegar atrasado ele simplesmente liga e eu estou fora.

E essa questão do contrato ser por 15 dias, como você vê isso?
Eu acho que isso é uma coisa que tem se tornado cada vez mais comum, por causa da terceirização do trabalho, dos contratos temporários, pela rotatividade do emprego. São muitos casos onde as pessoas trabalham 3 meses, ou então uma vaga é anunciada como uma vaga qualquer que pode se tornar efetiva, como se fosse uma vaga convencional, só que o interesse mesmo da empresa é apenas cobrir um buraco de 3 meses, depois já vão te mandar embora, então eles já planejam isso e você está lá achando que vai ser efetivado. Mas saber que você vai sim ou sim perder seu emprego é uma situação bem estranha. Primeiro porque você perde todo o interesse e toda a vontade em relação ao seu próprio trabalho. Se já é pouca normalmente... Você se sente completamente estranho ao seu local de trabalho, você tenta não criar vínculos, você tenta se manter frio em relação aquilo, e não criar expectativas porque você sabe que vai ser mandado embora a qualquer momento. E a outra coisa é a questão mais econômica, que é você saber que para os próximos 15 dias, ou o próximo mês eu consigo pagar as contas mas depois... daí eu não sei mais nada. Você está trabalhando ali mas já está pensando o mês que vem quais o passos que você vai dar, ou como você vai procurar emprego, o que eu vou ter que fazer pra continuar procurando emprego a partir de agora sendo que eu tenho que ficar o dia inteiro trabalhando e não posso ficar entregando currículo. E você também se sente muito frágil porque você sabe que qualquer coisa que você disser, qualquer coisa que você fizer que não parecer bom você está na rua com um estalar de dedos. Você se sente sob chantagem em todo o período de trabalho.

Como você sente a situação do emprego na região de Campinas?
Talvez a região de Campinas seja uma região que esteja refletindo bem a situação do Brasil, por causa da crise que está passando. Por ser uma cidade grande, uma metrópole, com um setor industrial muito forte, muitas multinacionais, muitas montadoras, e pequenas e médias fábricas que prestam serviço pra grandes empresas, talvez seja realmente um bom reflexo do que está acontecendo no pais como um todo... Todas as pessoas que você pergunta como está o trabalho respondem que está mal, que está em crise, que estão mandando pessoas embora, dando férias coletivas. E em vários lugares você vai entregar o currículo na porta e tem alguém sendo demitido, ou falam que vão pegar mas que está sem serviço, não estão contratando. Eu tenho muitos amigos que são ótimos trabalhadores, muito qualificados, com vários cursos e muita experiência, jovens, responsáveis, dedicados, e que não conseguem um emprego. Outra coisa que está cada vez mais clara é a diminuição do salário. Tenho vários amigos que são mais velhos e estão, por exemplo, no ramo da metalúrgica, faziam trabalhos muito valorizados, e falam que está absurdo o salário que pagam. Cerca de mil reais, mil e cem reais. Qualquer coisa hoje você é um auxiliar de produção, ou de serviços gerais. Sempre te contratam como auxiliar de alguma coisa, mesmo que você vá cumprir um trabalho que não é de auxiliar, é uma cartada pra te colocarem pra fazer tudo mas te pagarem como se você não fosse fazer nada. É evidente que o desemprego vem aumentando bastante, e de que tem mais demissões por vir, talvez nos próximos meses ou até pro ano que vem terão mais demissões se continuar com o ritmo que as empresas estão colocando. E estão aumentando também a rotatividade. Eles enxugam ao máximo o quadro de funcionários e num momento que tem mais serviço contratam temporários. Outra coisa também é essa nova lei que vai permitir a terceirização em todos os locais de trabalho [PL4330], que vai permitir aumentar ainda mais a rotatividade no emprego. Provavelmente eles estão ainda esperando e calculando como isso vai poder se encaixar em suas empresas, planejando isso, então claro que eles não vão querer contratar um monte de efetivos agora, se eles vão poder ter a possibilidade de terceirizar tudo, facilitando muito esse trâmite de agora contratar e daqui a pouco demitir, então mesmo as empresas que poderiam contratar, eu acredito que estejam esperando isso.
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Essa realidade, como o próprio trabalhador aponta, é bastante generalizada. E não apenas o PL4330 é um grande ataque, que pretende aprofundar a situação de emprego precário, mas ainda outros ajustes do governo, como as MPs 664 e 665, são ataques diretos a este setor que vivencia toda a dificuldade da rotatividade e terá ainda menos acesso a benefícios, como o seguro desemprego. Além disso, como se pode perceber em sua fala, direitos mínimos como Vale Transporte e Vale Refeição são negligenciados, e enquanto o patrão lava as mãos, o trabalhador terceirizado não tem sequer uma alternativa no mundo sindical, uma vez que não se organiza pelos mesmos sindicatos do que seus companheiros de trabalho, como se fizesse parte de outra categoria. Por isso é fundamental que os sindicatos e as centrais antigovernistas, como a CSP-Conlutas se coloquem ao lado desses trabalhadores, e defendam de maneira contundente sua efetivação, único modo de garantir os mesmos direitos e condições de trabalho, e combater a precarização pela raiz.




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