Mundo Operário

HISTÓRIA DA CLASSE OPERÁRIA

Temer e a greve da GM de 1985

Nossa retrospectiva sobre essa importante batalha da classe operária no atual contexto busca mostrar o conteúdo de classe implícito na fala do golpista Temer, ao reivindicar seu passado como secretário de Segurança Pública, alguém que realmente tem experiência em como articular a repressão aos trabalhadores.

Evandro Nogueira

São José dos Campos

terça-feira 5 de julho de 2016| Edição do dia

Em um de seus primeiros pronunciamentos como presidente interino, 11 dias depois da posse, o golpista Temer bateu na mesa e disse “Fui secretário de Segurança duas vezes em São Paulo e tratava com bandidos... Então, eu sei o que fazer no governo”. Como já falamos nesse texto, a segunda vez que Temer assumiu o cargo de secretário de Segurança foi em 1992, dias após o massacre do Carandiru, com a tarefa de conter o questionamento à PM assassina. Antes disso, contudo, em 1985, um ano após ser indicado para o cargo de Secretário de Segurança Pública em São Paulo, no governo de André Franco Montoro, Temer esteve entre as figuras diretamente responsáveis por um iminente massacre, evitado nos últimos momentos, durante a ocupação da planta da General Motors, em São José dos Campos – caso semelhante não foi evitado apenas três anos depois, durante a ocupação da CSN, em Volta Redonda (RJ), terminando com a morte de três operários pelas forças do Exército e da PM.

Em 11 de abril de 1985 os operários da GM entraram em greve, entre as principais reivindicações estavam a redução da jornada de trabalho, de 48h para 40h semanais, e o reajuste nos salários, fortemente afetados pela inflação, que chegou a acumular 240% naquele ano. A greve durou até 9 de maio, sendo que entre os dias 26 e 28 de abril o conflito atingiu o auge com a ocupação da fábrica e a iminente invasão e repressão policial – que por sua vez encontraria resistência por parte dos trabalhadores. Mesmo com toda a radicalidade dessa luta, ela não é um ponto fora da curva para aquele período, assim como a repressão ali instalada estava dentro do endurecimento repressivo utilizado pelo primeiro governo civil em décadas, para enfrentar a disposição de luta dos trabalhadores, enquanto escondia sua fragilidade como governo – trata-se da Nova República, com José Sarney à frente.

Alguma coisa sobre greves nos anos 1980

O enorme levante operário que colocou o poder da ditadura em xeque, principalmente a partir da greve de metalúrgicos do ABC em 1978, foi derrotado em 1980 após os militares negociarem com Lula e os “autênticos” a libertação desse líder sindical como forma de conter a auto-organização dos trabalhadores e o desenvolvimento da greve daquele ano, que já durava 41 dias, sendo 25 dias com conflitos nas ruas. Com a derrota dessa greve a burguesia conseguiu impor uma nova correlação de forças, demitindo milhares de operários e diminuindo drasticamente a ocorrência de greves durante os próximos anos. Esse refluxo, contudo, foi se revertendo relativamente a partir de 1983, quando o total de greves e de horas paradas começa a crescer e assim vai até 1988. Nesse período é que se insere a greve da GM, em 1985, entre duas significativas greves gerais, que unificaram nacionalmente milhões de trabalhadores em luta, a de 1983 e a de 1986.

É importante também considerar que nesse período dois elementos contribuíram para elevar aquelas estatísticas. Por um lado, começa a substituição gradativa das greves de categorias por greves de empresas, processo contraditório e que cobrará seu preço para o desenvolvimento das lutas da classe operária e, por outro lado, ocorre um importante aumento de greves dos setores públicos e de serviços, como professores e bancários, que tendem sempre a ser mais longas.

O ano de 1985

Em 1985 os metalúrgicos do ABC protagonizaram suas maiores greves desde a de 1980, eram mais de 120 mil operários parados, os jornais alardeavam prejuízos gigantescos, destacavam-se greves na Toyota, Karman Ghia e Scania, além de duas montadoras ocupadas, Volkswagen em São Bernardo do Campo e GM em São Caetano. O eixo da luta estava na redução da jornada sem redução de salário, além de aumento real e reajustes salariais trimestrais. O método utilizado pelos operários foi a conhecida Operação Vaca Brava, compreendida por uma sequência de vários movimentos de greve por empresa, ocupação, acampamentos, operação tartaruga etc., causando imprevisibilidade e dificuldades para a repressão patronal.

Naquele ano a produção da GM, considerando suas duas unidades, significava 26% do mercado nacional de carros. Aquela greve na GM de SJC foi um primeiro desafio importante para a Nova República, ao ponto do jornal O Estado de São Paulo de em 28 de abril de 1985 estampar na sua capa uma foto da PM cercando a GM em SJC, com a seguinte manchete, “A Justiça decide e o governo não age”, diretamente cobrando uma resolução militar para o conflito, enquanto abaixo outra frase complementava, “E Sarney começa a governar”. Após vencer Paulo Maluf na disputa fechada para primeiro presidente civil do país, durante a transição pactuada com a ditadura, Tancredo Neves não chegou a governar, internado, faleceu em 21 de abril. Seu vice, José Sarney, amplamente reconhecido como de fortes relações com os militares, assumiu interinamente em 15 de março.

A greve com ocupação na GM

Foram 28 dias de greve, de 11 de abril a 9 de maio. Inicialmente sem piquete e sem ocupação. Diversas metalúrgicas do Vale do Paraíba já estavam negociando a redução da jornada, como a Philips e a Embraer. O dirigente sindical Barbosa conta que a greve na GM aconteceu quase naturalmente, sem necessidade de piquetes ou maiores agitações. Sem negociação, os trabalhadores receberam apoio de amplos setores, como o caso do bispo D. Eusébio Sheid, conservador conhecido na cidade que soltou nota apoiando a greve.

Então, aos 15 dias de greve a patronal resolveu endurecer a repressão, publicou uma lista de 93 demitidos. Após essa jogada patronal, os trabalhadores responderam com a ocupação de portões fechados, ou seja, “ninguém entra e ninguém sai”. Essa medida implicava que setores mais bem remunerados de fura greves, que trabalhavam naquele momento, não poderiam se retirar da fábrica. Esse foi o fato utilizado pela patronal e seus comparsas em busca de deslegitimar a greve. As demissões foram no dia 25, no dia 26 o TRT julgou a ilegalidade da greve e no dia 27 o jornal O Estado de São Paulo publicou em sua capa “Cárcere privado na greve de São José”, enquanto abaixo, “Sarney exige trabalho”. Frente aquela medida de radicalização dos operários, que nada mais era que uma resposta à provocação da empresa, com a demissão dos 93, ergueu-se uma forte campanha tentando voltar a opinião pública contra a greve para legitimar a repressão que se armava.

Apesar da dura repressão que sofreu, essa greve entrou para a história do movimento operário brasileiro como fundamental para que a redução da jornada de trabalho fosse aprovada pela Constituinte, três anos mais tarde.

GM quer sangue

Foi a partir daquela campanha contra a greve que o governo colocou mais de 700 policiais altamente equipados, juntando tropas de choque de Taubaté, Lorena e São Paulo, além de SJC, naturalmente, na porta da fábrica, com a ordem de reintegração na mão do comandante militar. Uma multidão de familiares, vereadores, deputados, representantes da igreja etc. se aglomeraram ali. É desse momento a famosa frase do diretor de Relações Industriais da GM, Herbert Brener, “A polícia tem que entrar, não importa que eles morram, o que importa é a fábrica”.

Há relatos do Coronel Felício Arnaldo Buonamici, comandante de área da PM, que conversou com José Luís, dirigente sindical, e disse que ele estava numa “bananosa”, pois não controlava os grevistas. O depoimento de um dos “prisioneiros”, um engenheiro supervisor que escapou da ocupação da fábrica, confirma isso, ao dizer que “o mais estranho é que a maioria dos líderes dessa greve tem barba cerrada”, em contraposição aos “barbudos do sindicato”. Ainda segundo aquele comandante da PM, enquanto os policiais hesitavam à reintegração de posse, no mínimo por medo de arcar com as consequências que aquele conflito traria, “o austríaco Brenner e outro diretor da GM, o Pedro Kan, ficaram me arguindo do porque eu não estava invadindo, se tinha ordem para isso. Tudo na presença de meus oficiais. Ele dizia que se admirava de que no Brasil não se cumprissem ordens oficiais”.

E Temer com isso?

Sobre essa situação, a posição de Temer não deixa dúvidas, apesar da retórica, assume a repressão, “As circunstâncias daquele tempo, daquele momento, levavam a determinadas atitudes. Elas me levaram a sugerir uma espécie de coluna do meio no dilema de considerar greve questão de polícia ou questão social. A greve é uma questão legal. Vamos utilizar a lei. Mas o que a lei exige? Se há ocupação de fábrica, de prédio, exige-se uma ação perante o poder judiciário, chamada de ação de reintegração de posse. Ao conceder o pedido o juiz dirá: - Vá lá o oficial de justiça para desocupar. Se o oficial de justiça não consegue desocupar sozinho, o juiz determina ao poder executivo o auxílio de força policial. Tínhamos saído de um período de grande autoritarismo. No governo de São Paulo, tentava-se implantar a linha do diálogo. Mas os governantes sofriam intensas pressões. O movimento sindical havia ressurgido com maior força e estava tentando reorganizar-se. Nesse instante, é natural que haja desajustes”.

Ocorre que os trabalhadores estavam dispostos a reagir e os “desajustes” poderiam sair caro demais. Existem relatos de que alguns estavam armados, haviam carros com estopa no tanque de gasolina, regiões inteiras com thiner espalhado no chão. Sobre esse momento, Temer declarou, “A ordem veio em primeiro lugar do poder judiciário, que manda ao secretário da Segurança, através do comandante do Interior. Eu falei: a ordem judicial tem que ser cumprida. (...) Agora, nós apenas refluímos no instante em que recebemos a notícia de que a questão seria desastrosa”

Com apoio do Estado, a GM busca esmagar a organização operária

A disposição de resistência dos operários da GM forçou a repressão a recuar. Os trabalhadores negociaram a saída da PM da frente da fábrica para a saída dos fura greve que permaneciam lá dentro e para realizarem uma nova assembleia, na qual decidiram desocupar a fábrica, mas permanecer em greve. Apesar de toda sua disposição de luta, foi elemento determinante para a derrota o isolamento imposto pela volta ao trabalho no ABC e a falta de apoio dos “autênticos” após a radicalização dos métodos de luta.

Uma vez finalizada a greve, respaldada pelo Estado, a GM desencadeou um duro processo de repressão. O saldo foi mais de 400 demitidos, sendo 42 por justa causa e 33 processados criminalmente. Entre os demitidos estavam todos os diretores sindicais, membros de comissão de fábrica e representantes da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). Entre esses, 60% tinha entre 4 e 20 anos de empresa, se considerarmos de 2 a 20 anos de empresa a média sobe para 94% dos demitidos, o que não deixa dúvida sobre o caráter político das demissões. A GM enviou a lista dos demitidos para o Serviço Nacional de Informações (SNI), e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) repassaram para suas filiadas, intensificando a perseguição àqueles lutadores.

Trabalhadores relatam que durante o restante do ano, qualquer conversa entre três operários dentro da fábrica era reprimida e corriam risco de demissão. Em agosto daquele mesmo ano a GM retomou as negociações e aceitou reduzir a jornada de trabalho. Seus verdadeiros objetivos, eliminar os representantes mais destacados da classe operária, teria avançado o suficiente.

O significado de Temer no poder

Nossa retrospectiva sobre essa importante luta da classe operária no atual contexto busca mostrar o conteúdo de classe implícito naquela fala do golpista Temer, ao reivindicar seu passado como secretário de Segurança Pública, alguém que realmente tem experiência em como articular a repressão aos trabalhadores. O papel que Temer cumpriu naquele momento da greve da GM, abrindo caminho para a repressão patronal, é o mesmo que ele buscou seguir cumprindo em sua carreira política, ajudar o Estado burguês a melhor defender os interesses patronais. Esse foi seu papel para a derrota dos trabalhadores naquela batalha e é para isso que chegou ao governo do país.




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