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Temer e Meirelles buscam apoio da grande patronal paulista para abreviar crise política

Enfrentando um momento de desgaste político, com crises ministeriais e desinteligências entre o Legislativo e o Judiciário que levaram a Procuradoria a pedir a prisão de eminentes líderes do PMDB, Temer e a corte golpista precisavam de um respiro para conter a erosão política. Selecionaram o âmbito onde colhem mais apoios: a relação com os empresários.

André Acier

São Paulo | @AcierAndy

quinta-feira 9 de junho de 2016| Edição do dia

Uma conversa nos bastidores com Paulo Skaf, também do PMDB e presidente da Fiesp que fez campanha aberta pelo impeachment, e o cenário desta quarta estava pronto. Temer organizou um encontro a portas fechadas com 150 empresários no Planalto, onde esperava mostrar que, em meio às turbulências, tem o apoio do setor empresarial às medidas que está tomando no campo econômico.

Entre os presentes se encontravam o presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, e o presidente do Google Brasil, Fábio Coelho.

O objetivo da reunião era transparente: não apenas mostrar publicamente a prontidão com que os maiores empresários paulistas atendem ao chamado governamental, mas uma forma cerimoniosa de verificar quais as disposições desta patronal diante da crise política.

A forma despojada com que Temer tentou penetrar na consciência do público ao qual se dirige foi a estranha maneira que escolheu de ocultar o nervosismo das últimas semanas, ao se constatar que todo o ardor dos ajustes com que alcançou a presidência interina está presa aos acordos fisiológicos com o Congresso e terá de aguardar pelo menos até as eleições de outubro.

Para dar a marca da seriedade das relações com a patronal paulista, Temer reuniu a “cúpula” de seu gabinete: o ministro-chefe da Casa Civil Eliseu Padilha, o secretário do Programa de Parcerias de Investimentos Moreira Franco, Paulo Skaf, o ministro da Indústria e Comércio Marcos Pereira, e a verdadeira estrela da patronal e quem realmente interessava ouvir, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que reassegurou os ataques ditados no discurso de posse.

Aplaudindo de pé o homem forte do governo golpista, Henrique Meirelles

Apesar da presença do interino Temer (que improvisou um discurso para parecer despreocupado), foi visível que o entusiasmo da patronal recai sobre um homem: Meirelles. A mensagem de Meirelles foi aplaudida de pé pela nata dos industriais golpistas. Não à toa. Seu discurso foi montado para que o empresariado o enxergasse como um executivo central de seus interesses ajustadores.

Começou advertindo o público que não é hora de pensar respostas fáceis. “Vivemos a contração mais aguda desde que o PIB começou a ser contado. Não será surpresa se tivermos uma recessão até maior do que a gerada pela grande depressão dos anos 30, que hoje deu origem a um desemprego de 11 milhões de pessoas. Isso é equivalente à população de Cuba”.

Rapidamente mudou o tom. Para aquecer a plateia, Meirelles comparou o governo com uma empresa. “Vocês que são empresários, homens generosos, sabem que é impossível manter uma empresa que, como nosso governo, teve uma taxa média de crescimento de receitas de 17% desde 2008, e um crescimento das despesas de 50% no mesmo período. A empresa faliria”. Conclusão: temos de reduzir as despesas. "Se foi assim em 7 anos, agora o crescimento das despesas deve ser zero acima da inflação". Um furor de aplausos do auditório da Fiesp, já que se trata, segundo o próprio Economist, o maior ataque aos trabalhadores anunciado pelo governo.

O problema central é “reduzir gastos para as empresas, e aumentar recursos para o setor privado”. Problema de retração dos consumidores, que está se revertendo hoje.

Meirelles disse que tem recebido a visita de representantes de empresas nacionais e internacionais que falam em tirar da gaveta planos de investimentos. Autoridades e embaixadores norteamericanos, como Mari Carmen Aponte, visitaram o país para abrir um novo ciclo de negócios. "Os investidores já começam a botar a cara para fora da caverna", afirmou o ministro.

A razão desse renovado interesse internacional já havia sido antecipado por Moreira Franco. “As privatizações são prioridade”. Segundo Meirelles, a retomada das concessões ao setor privado internacional serviria “para criar emprego” e diminuir o custo país “facilitando mais transporte, mais energia, mais infraestrutura”.

Não é preciso ser um engenheiro aeroespacial para entender que privatização está longe de significar geração de emprego, de fato, representa o seu oposto, ao se subordinar qualquer atividade ao lucro da patronal. Como vimos durante a venda continuada de partes da Petrobras na década petista, aumentou-se a precarização do trabalho, o número de acidentes e as demissões, principalmente de terceirizados. A Vale é outro exemplo testemunhal de que, além de perda de postos de trabalho, a privatização opera e negligencia catástrofes ambientais.

Mesmo reafirmando a sede por privatizar e asfixiar o orçamento público, sinalizou sugestivamente, por fim, a necessidade da “boa governança das empresas estatais e serviços públicos”, um diálogo com a preocupação empresarial com o seguimento da Lava Jato.

Nisso foi auxiliado por Temer, que logo em seguida no seu modesto discurso retrabalhou a narrativa do “amor à Constituição” para se dizer fiel às investigações que assolam seu gabinete golpista, e a necessidade de “trabalhar de maneira íntegra”. Minimizou as fissuras entre o Executivo e o Legislativo e pediu a “pacificação da política e das classes sociais”, para aqueles desavisados secundaristas e trabalhadores que não entenderam a pedagogia do arrocho e do gás lacrimogêneo.

Mas o principal foi sua apologia à “democracia da eficiência”, atacando a ideologia em detrimento dos resultados aos capitalistas. "O primeiro direito social é o emprego e ele só virá se houver a atuação da iniciativa privada. Essa coisa de ideologia hoje está completamente fora de moda. O que as pessoas querem são resultados. Se forem negativos, as pessoas vaiam. Se forem positivos, aplaudem”, concluiu. A fria resposta do auditório o lembrou que os empresários querem os resultados, mas fundados numa sólida ideologia de direita.

Resultados estáveis na economia, mas insatisfatórios na política

Tanto Temer quanto Meirelles deixaram claro que encontram seu principal sustentáculo econômico na burguesia de São Paulo (Temer chegou a diferenciar que faziam esta reunião com os paulistanos, depois se reuniriam com os demais). Isso explica o peso que reveste para Temer inundar o governo golpista com o tucanato paulista, seja com Serra ou com Alckmin (além de Aloysio Nunes). O saldo da cerimônia foi o apoio entusiasta da patronal aos planos de ataques, mais duros do que vinha aplicando Dilma e o PT.

O problema ao governo Temer é: até quando poderá sustentar uma brecha tão grande entre o êxito inicial em anunciar duros ataques na economia e crises políticas incessantes? A medida de Janot, ao pedir prisão a Renan, Jucá e Sarney e criar um impasse institucional no Congresso foi capaz de reforçar a saída de um retorno de Dilma no Senado, ainda que não seja o cenário provável. Cada parlamentar, nas duas Casas, quer cobrar a letra adiantada ao votar o impeachment, o que dificulta a relação de controle do Executivo com o Congresso, essencial para que aprove medidas de ajuste.

Temer disse que as palmas que recebia da patronal “vinham do coração”. Parafraseando Karl Marx, este “coração de vampiro” dos capitalistas só é apaziguado paliativamente pelo sangue vivo do trabalho.

No teste da Lava Jato os golpistas não podem passar. É incerto se poderão esperar até outubro para atacar como a burguesia deseja já, antes de colocar adiante planos que envolvem um adiantamento das eleições caso a crise política se torne insustentável.




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