SEMANÁRIO

Sobre cercear, censurar e subverter: quem tem medo dos livros?

Paula Almeida

Imagem: detalhe do cartaz “A educação é para todos” (1972), de V. Karakachiev e L. Levchunova.

Sobre cercear, censurar e subverter: quem tem medo dos livros?

Paula Almeida

Assistimos, no último fim de semana, a uma ofensiva sobre a XIX Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro por parte do prefeito dessa cidade Marcelo Crivella. Diante de tal ação e no contexto de governos de extrema-direita, que vêm acompanhado de um pacote de medidas obscurantistas e de ataques à classe trabalhadora, cabe perguntar: quem tem medo dos livros? A partir desse fato e à luz de outras tentativas e atos censórios do último período, procuramos oferecer neste artigo uma visão mais abrangente sobre a história da censura ao livro e ao livre pensamento, o caráter subversivo que pode adquirir uma publicação, seu papel na educação comunista e para a efetivação de processos revolucionários, e trazemos, ainda, uma carta “perdida” de Leon Trótski aos alunos de alfabetização do Exército Vermelho.

A essa altura, já é de conhecimento comum que, primeiro, Crivella ordenou via Twitter que se recolhesse a HQ da Marvel Os vingadores – A cruzada das crianças; em seguida, autorizado pelo desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), Cláudio Tavares, estendeu a censura aos demais livros com temática LGBT disponíveis nos estandes das editoras na Bienal. Fiscais e a guarda municipal foram ao Riocentro, local do megaevento editorial, para intimidar editoras, leitores e autores. Foram recebidos pelo público com vaias não apenas os “censores” do prefeito, mas também o governador do estado Wilson Witzel, que apareceu para surfar na onda obscurantista. Por fim, o STF, que já deu inúmeras provas de seu autoritarismo, mas não perde a oportunidade de fazer demagogia de pautas democráticas quando lhe cai bem, suspendeu a ordem de Crivella autorizada por Tavares. O resultado foi uma manifestação que explodiu espontânea, em que centenas de pessoas – livros em riste – bradaram as palavras de ordem “Fora, Crivella” e “Não vai ter censura”. De fato, não teve.

A ofensiva ultradireitista foi frustrada, mas a tentativa do fim de semana passado, devido à sua simbologia, deve ser entendida não como um fato particular, mas como algo que se insere no contexto mais geral de ataques ao campo da cultura, empreendidos por grupos de extrema-direita com traços fascistizantes ainda antes mesmo da posse de figuras como Jair Bolsonaro, Wilson Witzel, Marcelo Crivella, entre outros legítimos representantes de formas de pensar e agir autoritárias, baseadas no ódio e na opressão de classe, no controle dos costumes e na perseguição ao livre pensamento. Agora, contando com a primazia do Estado, os ataques se dão por meios institucionais – o último, se não me trai o acelerado dos tempos, foi o cancelamento pela Caixa do contrato com o grupo Clowns. Trata-se, antes, do uso de instrumentos que servem de sustentáculos – e não de cortina de fumaça – a ataques ainda maiores e de fundo mais estrutural, como a Reforma Trabalhista, aprovada ainda no governo Temer e sob o beneplácito de PT e PCdoB via governadores do Nordeste ou na falta de organização da luta pelas suas centrais sindicais, e da ainda em curso Reforma da Previdência. [1] Essas ações de Dória, Crivella, Bolsonaro, entre outros, trata-se de uma dinâmica combinada que tem como objetivo de, ao lado de uma ofensiva ideológica, criar uma concepção de mundo que legitime e dê base de sustenção aos ataques econômicos.

É notável que o livro infantojuvenil, em especial, esteja no centro de episódios de censura. Antes de mais nada é preciso dizer que a HQ da Marvel é para adultos; no entanto, tanto por ignorância como para uso político, o argumento utilizado por Crivella baseia-se na proteção das crianças. A ordem do prefeito-bispo veio depois da reação de perfis reacionários na mesma rede social que lhe serviu de veículo, perfis esses que viram “pornografia” no beijo entre as duas personagens do mesmo sexo, o masculino. Ocorre que, ainda que o livro fosse infantojuvenil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não tipifica como conteúdo impróprio o beijo, seja este hétero ou homossexual.

Outro fator sobre o qual não se pode passar batido é a ignorância das justificativas dos protagonistas desses atos, que é patente: há não muito tempo, viralizou o vídeo de Damares Alves sobre o “manual prático de bruxaria” para crianças de 6 anos; em agosto de 2018, ou seja, ainda antes de ser presidente, mas já em campanha eleitoral, Bolsonaro gravou um vídeo sobre o livro Aparelho sexual e cia. exigindo sua retirada das bibliotecas públicas escolares. [2].

Não nos enganemos, porém, com o caráter caricato e algo folclórico dessas figuras. Enquanto Damares Alves esbraveja contra Bob Esponja, e Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro comem chocolatinhos, o ensino religioso vai ganhando lugar nas escolas públicas, algumas delas estão sofrendo militarização, ou seja, impõe-se a presença de policiais no ambiente escolar; outras tantas estão sendo militarizadas, o que quer dizer que nelas o ensino será militar; há universidade sob intervenção federal por rejeitar o projeto Future-se. Isso sem falar nos cortes das verbas destinadas ao ensino superior e à pesquisa, área em que os ataques, se somados, já enchem mais que os dedos das duas mãos.

Além do mais, não se trata de fato isolado: ainda em 2017, a direita reacionária organizou protestos contra a presença da filósofa estadunidense Judith Butler no Brasil, no início do corrente mês, uma exposição de charges com críticas ao presidente Jair Bolsonaro foi censurada no Rio Grande do Sul por, segundo ele, promover “a ideologia de gênero”. É por essa razão que, ao voltarmos nossa atenção para o mais recente episódio de perseguição aos LGBTs, devemos fazê-lo olhando tanto para o quadro mais amplo em que figura, ou seja, como uma combinação reacionária de homofobia e censura, quanto em sua particularidade, a saber: o cerceamento ao livro.

“O livro de natureza subversiva” e a natureza subversiva do livro

Se é verdade que uma revolução não pode ser feita sem que se arranque as massas das trevas da ignorância a que foram, por séculos, submetidas, também o é que, para se evitar uma revolução, é preciso manter as massas na mais profunda ignorância e na mais completa obscuridade, incapazes de tomar consciência de si, bem como seu destino nas próprias mãos. Reside aí o caráter subversivo do livro, este objeto que pode ser o portador de ideias consideradas perigosas, sobretudo a governos de viés autoritário, ditatorial ou de extração bonapartista.

Revoluções são resultados de conflitos inerentes ao capitalismo, o qual provoca contradições que se tornam insustentáveis. Assim, como disse Trótski: “as revoluções são impossíveis, até que se tornem inevitáveis”. As revoluções, revoltas, sublevações vão ocorrer independentemente do grau de letramento, ou de acesso aos livros das massas, mas, para levá-la até o fim (a abolição das classes, a internacionalização da revolução e, enfim, o comunismo), ou seja, para que as massas sejam sujeitas do seu destino, é necessário uma dinâmica permanente de transformações sócio-culturais e, desse ponto de vista, o acesso aos livros e ao conhecimento acumulado pela humanidade são essenciais.

Exemplos de cerceamento ao livro abundam na história. O mais famoso é o índice dos livros proibidos pela Igreja Católica, o Index Librorum Prohibitorum, abolido apenas no século XX, vigorou por mais de 400 anos, reuniu entre suas proibições de Maquiavel a Jean-Paul Sartre, passando por Galileu, Descartes, Voltaire, Victor Hugo, e mesmo depois de abolido, em 14 de junho de 1966, incluiu em 2003 O código da Vinci, de Dan Brown. O casamento entre censura e religião não é casual. Tanto é assim que sua era áurea o Index conheceu no período em que servia de complemento aos tribunais da inquisição. No Brasil, por exemplo, há registros de obras proibidas desde o período colonial, já que os tribunais instalados na metrópole contavam com alcance nas terras de aquém-mar. É digno de nota, todavia, que, com a Revolução Francesa, o poder do Index tenha minguado, em decorrência da diminuição do papel da Igreja no Estado, da derrocada dos regimes monarquistas na Europa e do ascenso das ideias iluministas, e igualmente o é que tenha, um tempo depois, no ano de 1917, sido incorporado ao Santo Ofício.

São diversos os mecanismos de que se valem as classes dominantes em regimes socialmente estratificados para a manutenção do status quo e, um deles, é a censura à livre circulação de ideias. Além disso, desde a revolução gráfica promovida por Gutemberg, o livro, devido à facilidade e à velocidade de sua reprodução, passou a ser o meio pelo qual as ideias podiam mais livremente circular, tornando-se o seu espaço privilegiado. Desse modo, não deve surpreender o fato de os regimes, sejam os autoritários ou os democráticos, sempre que julguem necessário e na medida em que o esclarecimento da população ameaça sua hegemonia, lançarem mão de expedientes como a proibição, o recolhimento e até a queima de livros. [3]

A América Latina, na qual se inclui o Brasil, foi marcada por uma sucessão de regimes autoritários. Por conta disso, há diversos exemplos ao longo da nossa história de momentos em que livros foram alvos de escrutínio, censura e proibição. No Brasil, o mais notável deles, devido a seu alcance e ao significado que adquire na atual conjuntura, refere-se à ditadura empresarial-civil-militar, que vigorou de 1964 a 1985. No que diz respeito à censura dos livros, os generais no poder elaboraram seu próprio index: em 1965, fizeram uma lista contendo 33 “livros de natureza subversiva”, em sua maioria com temática de esquerda [4] ou marxistas, como os dos próprios Marx e Engels e dos russos Lênin e Trótski (deste, consta um título em espanhol, La Internacional Comunista desde la muerte de Lenin).

A ofensiva dos militares [5] nesse campo se deu em duas frentes. De um lado, a perseguição a militantes e artistas, escritores, editores, acompanhada do fechamento de editoras e livrarias, muitas delas ligadas ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), prisão de pessoas do meio editorial, episódios de intimidação, apreensão de livros, invasão de residências e ambientes de ensino em busca dos livros proibidos ou ameaçadores, até livros sendo usados como prova de acusação e a censura prévia de livros [6]. De outro lado, empreendeu-se a modernização do mercado editorial, com investimento em maquinário, celulose e distribuição de livros em escolas pelo Estado, com incentivos a editoras alinhadas ao regime [7] e com vistas ao controle ideológico do conteúdo. Vale notar que a I Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi realizada em 1970, contou com editoras de 23 países e tinha como objetivo fomentar a venda de livros nacionais e importados, mas somente, é claro, aqueles autorizados pelo regime.

Numa coisa, entretanto, os militares tinham razão: o livro, na medida em que permite ao leitor, no ato silencioso da leitura, o livre exercício do pensamento, tem uma natureza potencialmente subversiva. Além disso, no decorrer da história humana, ao mesmo tempo que foi peça de exclusão, foi também o responsável por preservar a memória dos povos, por transmitir o conhecimento de uma a outra geração e, furando os filtros sociais, ser fonte de conhecimento de pessoas que, de outro modo, jamais teriam se apropriado de determinadas ideias. Foi, por isso mesmo, peça-chave no fomento do debate político e o condutor por excelência das ideias subversivas, revolucionárias. Ou não seria exemplo marcante disso as prensas clandestinas dedicadas a fazer circular as ideias revolucionárias no século XIX russo? Ou não seria exemplo disso o livro Pau de arara: la violence militaire au Brésil [Pau de arara: A violência militar no Brasil], que saiu na França em 1971? [8]

Onde há opressão, há reação e luta. Não é difícil citar de memória alguns exemplos recentes do Brasil contemporâneo em que as artes, a cultura, a educação, a expressão afetiva de grupos minoritários e o livre pensar estiveram sob fogo cerrado. Proibição de exposições de arte consideradas moralmente ofensivas, o projeto Escola sem Partido, as agressões e mortes de LGBTs em diversos locais do país, o extermínio da população negra nas periferias, sobretudo, nas favelas do Rio de Janeiro, intervenções e ofensivas em escolas, institutos federais e universidades. Do mesmo modo, podemos citar as reações a essas ofensivas: os atos dos movimentos LGBT, negro e de mulheres em defesa da liberdade de expressão e em repúdio a ações racistas, machistas e LGBTfóbicos, bem como ao racismo, ao machismo e a LGBTfobia institucionais, a resistência de professoras e professores que se organizam para barrar a influência do Escola sem Partido em seus locais de trabalho e junto aos adolescentes, a reação da juventude diante dos cortes na educação, com atos massivos que tomaram o país, a expulsão do interventor de Weintraub do CEFET-RJ pelos estudantes daquele centro educacional e, agora, na XIX Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, manifestações espontâneas contra a censura em que o livro foi protagonista. É fato a se mencionar que, na falta de cartazes, os manifestantes erguiam seus livros em sinal de protesto.

O livro bom é claro e necessário a você, a mim, ao camponês e ao operário

A frase acima é um verso do poeta e revolucionário russo Vladímir Maiakóvski, intitulado “Incompreensível para as massas”. Escrito em 1927, é comumente citado como uma reação do poeta à crescente burocratização do Estado soviético na esteira da ascensão de Stálin e, com ela, a censura feroz que começava a mostrar seus dentes para cravá-los, de vez, sobre os artistas que não comungavam da cartilha do regime, especialmente, os poetas, a partir de 1934, quando se dá o congresso da União dos Escritores que institui o realismo socialista como única forma de expressão artística admitida na URSS.

Há um senso comum, quando se fala sobre a censura ao livre pensamento e ao livro, que costuma dizer que tais ações são praticadas, igualmente, “tanto pela esquerda quanto pela direita”. Este foi o caso da análise de Ilan Breman sobre a censura aos livros de conteúdo LGBT na XIX Bienal do Rio de Janeiro, que foi ao ar no episódio de 10 de setembro do podcast Café da Manhã, da Folha de S.Paulo [9]. O autor de livros infantis e doutor em educação pela USP chegou a localizar Getúlio Vargas no espectro da esquerda, a comparar Fidel Castro e Mao Tsé-Tung a Médici no que tange à proibição de livros. Recorrendo à máxima de “os extremos se tocam”, comparou Lênin a Pinochet, argumentando que ambos, antes ávidos leitores, uma vez no poder, praticaram a censura aos livros. Breman citou, ainda, os movimentos sociais que, recentemente, ganharam o noticiário pelo questionamento do conteúdo de obras literárias.

Esse tipo de visão decorre, grosso modo, de algumas confusões (ou visões de mundo, se quisermos ser justos). A discussão aberta e franca sobre o conteúdo dos livros, pari passu às demandas do tempo – como é o caso das críticas de setores do movimento negro às afirmações racistas de Monteiro Lobato –, que visa a problematizar o conteúdo de uma dada produção artística no sentido não de sua censura, mas com a devida contextualização do momento histórico e apontando a visão de mundo que expressa, não constitui, propriamente, um ato de censura, mas de crítica – ensejado, ademais, pela própria natureza de uma boa obra.

Concorde-se ou não com tais formas, aponte-se, inclusive, seus limites e exageros, o fato é que, para que a censura ocorra, é necessário um Estado que, na figura do censor, promova, com base em critérios morais ou políticos, o julgamento da conveniência de liberação de um ou outro trabalho, que pode ser artístico, filosófico, político, informativo, etc., a exibição, publicação ou divulgação públicas. É necessário, ainda, que, uma vez desrespeitada a determinação da censura e a obra seja exibida, publicada ou divulgada de forma clandestina, promova-se a perseguição de seus autores e colaboradores. Disso decorre a leitura de Breman, entre outros, que, primeiro, igualam a política cultural dos primeiros anos da Revolução Russa àquela do período soviético pós-1927. É verdade que a censura promovida por Ióssif Stálin e a máquina de matar em moto-contínuo em que se transformou o regime soviético foi especialmente cruel com os artistas, para além do que foi promovido contra as vanguardas bolcheviques, os membros da Oposição de Esquerda, em geral, e contra Trótski, em particular. Pode-se até argumentar que já havia nos inícios traços de autoritarismo no regime, embora identificar ali seu germe possa ser um passo demasiado largo. Mas não é verdade que isso seja igualmente próprio de Lênin e Pinochet, ou seja, próprio da esquerda e do comunismo preconizado por Marx e Engels, como querem alguns. A censura ao livro, às ciências, ao livre pensamento que teve lugar na URSS esteve a serviço não de fazer avançar as ideias de esquerda, mas de contê-las, de fazê-las retroceder até que não fosse possível mais nenhum avanço. E foi em reação a isso que gritou a plenos pulmões Maiakóvski antes de meter-se o ponto-final de um balaço, foi sobre isso que alertou Boris Pasternak, em 1927, quando disse em um congresso de escritores que o que estava em curso, naquele momento, era o assassínio da própria literatura russa e foi contra isso que se colocou Trótski ainda quando vivia na Rússia e, mais tarde, em seu exílio.

Em ensaio por ocasião do suicídio de Maiakóvski, já expulso do partido e da URSS, denunciava a evidente relação com “as atividades sociais e literárias do poeta”, que os relatórios soviéticos oficiais apressavam-se em esconder, com sua linguagem protocolar, fria e avessa a qualquer lirismo. Ao lirismo que o grande poeta, em vão, tentou suprimir de si. Ao lirismo que incomodava o comando burocrático, que com ordens e decretos cerceava os artistas e tentava, em vão, destruir a arte e o livre pensamento, esses subversivos que, com a ajuda do livro, acabam dando seu jeito de sobreviver. Ainda no mesmo texto, o revolucionário russo alertava que as artes ficaram sob o comando “de pessoas que converteram a sua própria falta de cultura em medida das coisas” [10].

A semelhança com o que hoje vemos e vivemos não é, sem dúvida, obra do acaso. Em tempos sombrios, a liberdade artística e de pensamento são as primeiras a correr perigo. Contudo, para não cair em falsas simetrias, convém, sempre, separar o joio do trigo.

Uma carta “perdida” de Leon Trótski

No dia 1º de Maio de 1918, o revolucionário russo Leon Trótski escreveu uma carta aos alunos de alfabetização do Exército Vermelho, do qual era, então, o principal dirigente. Eram os anos do comunismo de guerra, e a revolução que dera o poder aos sovietes enfrentava, naquele ano, uma encarniçada guerra civil, iniciada em 1918 e que só teria fim em 1921, num país economicamente atrasado e penalizado pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial. Com seu fim em 1918, as potências que antes rivalizavam, agora se uniam em apoio à contrarrevolução empreendida pelo Movimento Branco [11]. Dessa maneira, cabia a Trotski, pela própria posição que ocupava, garantir a vitória dos Vermelhos sobre os Brancos na luta armada, mas, para que a revolução fosse, de fato, vitoriosa, era preciso ainda mais.

A “Carta do camarada Trótski aos alunos de alfabetização do Exército Vermelho” é um raro achado: ao que tudo indica, voltou à luz do dia apenas em 2017, no âmbito das atividades organizadas na Rússia por ocasião dos 100 anos da Revolução de Outubro [12]. Chama atenção o fato de o fundador e comandante do poderoso exército bolchevique fazer, em sua carta daquele Primeiro de Maio, o Dia Internacional do Trabalho, não um chamado às armas, mas às letras.

Diz ele:

Amigos do Exército Vermelho! Escrevo a vocês no dia 1º de Maio. Vocês estão lendo as minhas linhas. A alfabetização nos une: nisso reside sua grande força. Tudo o que milhares de seres humanos das gerações anteriores a nós viram, experimentaram, realizaram, está escrito nos livros. Está escrito tudo o que as pessoas aprenderam até agora. E uma vez alfabetizado, você terá acesso a tudo isso. Você aprendeu a ler “Exército Vermelho”. Eu os parabenizo por esse grande sucesso: pois agora vocês têm nas mãos a chave que abre a porta da ciência. Mas não parem no meio do caminho! Aquele que não se alfabetiza direito, sempre esquece o que aprendeu. É preciso empenhar-se nos estudos, e depois também nas cartas. É preciso ler de modo fluente, livre, sem esforço e embaraço. Dedicar-se aos estudos em cada minuto de folga. Quantos contos, quantas poesias e canções maravilhosas, quantos livros de história e de ciências. O oceano do conhecimento humano inteiro, e quantos livros ainda serão criados, ainda mais maravilhosos do que todos os que existem hoje. Ora, as pessoas não ficam no mesmo lugar, vão adiante. Apenas começamos a curar nosso país, toda a população, conosco, está livre das trevas e move-se adiante. Vejam bem, amigos, não parem! Estudem, não percam tempo. Igualem-se, para avançar. [13]

A carta, reproduzida acima na íntegra, é diminuta. Contudo, em seu único parágrafo, pode-se ler o essencial. Trótski sabia que àqueles operários que faziam, pela primeira vez na história, a sua própria revolução, era preciso não apenas saber manejar as armas, mas deviam, ainda, aprender a dominar as palavras, matéria-prima dos livros. Mais que isso, ele sabia que para assegurar a vitória na encarniçada Guerra Civil que se dava naquele preciso momento em que escrevia essas linhas a seus camaradas de armas, os revolucionários tinham diante de si uma dupla tarefa: superar o atraso secular perpetuado pelo tsarismo e formar as novas gerações para a construção de uma nova sociedade. Por fim, sabia que a formação comunista não pode se dar sem a assimilação daquele conhecimento acumulado pela humanidade e do qual o próprio comunismo é uma consequência. [14]

Lênin também tinha consciência disso, assim como os demais revolucionários bolcheviques que se ocupavam das questões relacionadas à educação comunista, como Antóli Lunatchárski e Nadiejda Krúpskaia. Não é à toa que a formação das crianças e dos adultos foi tema central de muitos congressos e reuniões dos sovietes (ou conselhos) da educação, e que um comissariado especial, o Narkompros [15], foi criado para tratar dos assuntos relativos à formação não só das crianças, mas dos adultos, dos milhares de operários e camponeses analfabetos que se organizavam para fazer a revolução. Tampouco é por acaso que, depois de Outubro, as gráficas foram estatizadas e um enorme esforço foi feito no sentido de produzir manuais e quadros de alfabetização, bem como de promover a alfabetização em massa de uma população que somava, antes de 1917, quase 90% de analfabetos. Não seria, evidentemente, por acidente, que a massa analfabeta e ignorante fosse capaz de se tornar sujeito na construção da nova sociedade. É claro que a concepção bolchevique se opunha diametralmente à aristocrática e à burguesa, elitistas e excludentes. No entanto, tinham consciência suficiente para saber que, para avançar, era-lhes preciso, antes, igualar-se, ou seja, apropriar-se daquela cultura que pretendiam superar e da qual haviam sido, por engenho e arte das classes dominantes, reiteradamente excluídos – embora, e como sempre acontece, a classe que tudo produz também da cultura é produtora.

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FOOTNOTES

[1Diga-se em nota que a necessidade de ser feita – ainda que se esta ou outra, ainda que com alterações e ainda que uma proposta particular – parece ser consenso, a despeito de sua desaprovação popular, entre os partidos da situação em conflito, da oposição permanente ora citada e mesmo por parte do PSOL, que apresenta projeto próprio elaborado pela economista Laura Carvalho.

[2Uma amostra desta cena lamentável pode ser obtida aqui: https://www.youtube.com/watch?v=85ioIkBLUKw

[3A novidade da nossa época é a internet, que ainda não efetivou sua vocação revolucionária, mas, justamente devido a seu potencial, é alvo de acirrada disputa, promotora de uma conexão nunca dantes experimentada e, por isso mesmo, difusora das famigeradas fake news, uma praga à qual nenhum fato parece estar imune.

[4Com a exceção do Meins Kampf, de Hitler, e curiosidades como livros de José Serra e FHC.

[5As informações a seguir foram retiradas do site Memórias da ditadura, disponível em: http://memoriasdaditadura.org.br/livros-sob-censura/, acesso em 12 set. 2019.

[6Depois da instituição do Ato Institucional n. 5 (AI-5), foi baixado o Decreto-lei nº 1.077 que previa, entre outras medidas, a censura prévia de livros. As temáticas visadas pelo regime eram as de cunho moral e político. Contudo, diversos fatores, como o baixo nível cultural do pouco pessoal disponível, fizeram com que esta não obtivesse o alcance esperado pelos autores da medida e a mais efetiva acabou sendo a censura a posteriori, por meio, sobretudo, de denúncias.

[7Durante a vigência do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), criticado por Paulo Freire por ser tecnicista e tradicional, apenas duas editoras ficaram a cargo do material didático impresso: José Olympio e Abril

[8Publicado pela Editora François Maspero, “foi organizado pelos jornalistas Bernardo Kucinski e Ítalo Tronca, a partir de uma ideia de outro jornalista, Luiz Eduardo Merlino, o livro era uma denúncia do uso da tortura pelo governo brasileiro para combater seus oponentes. Tragicamente, Merlino foi morto sob tortura pela repressão antes da obra estar impressa. Pau de Arara foi censurado no Brasil no mesmo ano de seu lançamento na França e só foi editado no país em 2013” (Cf. http://memoriasdaditadura.org.br/livros-sob-censura/#livros-uma-arma-subversiva). Para saber mais sobre o assassinato de Merlino, cf.: “Angela Mendes de Almeida fala sobre o assassinato de Luiz Eduardo Merlino”, entrevista de Bruno Gilga para o Ideias de Esquerda, 31 mar. 2019, disponível em: http://esquerdadiario.com.br/ideiasdeesquerda/?p=1132.

[10Leon Trótski, “Самоубийство В. Маяковского” [O suicídio de Maiakóvski]. In: Бюллетень Оппозиции (большевиков-ленинцев)/Biulletien Opposítsia (bolchevikov-leninitsiev) [Boletim da Oposição (bolcheviques-leninistas)], n. 11, maio de 1930. Disponível em: <http://web.mit.edu/fjk/www/FI/BO/BO...>

[11O Exército Branco era formado pelos batalhões dos generais Deníkin, Koltchak, Wrangel e Kornílov, que combatiam em diferentes frontes da guerra e contavam com o apoio das potências imperialistas estrangeiras que queriam ver derrotadas a primeira revolucão operária da história.

[13Esta tradução foi feita por Paula Almeida, diretamente da foto do original em russo tirada por Barbara Tavares e Raphael Mouro na Exposição “Энергия/Enérguia” [Energia] em cartaz no Museu Histórico, em novembro de 2017.

[14Para um desenvolvimento dos conceitos sobre a formação no socialismo, cf.: Mauro Sala, “A educação na construção do socialismo na Rússia. Ideias de Esquerda, n. 3, nov-dez 2017.

[15Acrônimo para Народный комиссариат просвещения [Comissariado do Povo para a Educação]. O Narkompros foi o departamento soviético responsável pela administração da educação pública e pela maior parte das matérias relativas à cultura.
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[Teoria]

Paula Almeida

tradutora; doutora em Literatura e Cultura Russas pela Universidade de São Paulo (USP) e editora nas Edições Iskra.
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