Política

ANÁLISE

Rui Costa e a Executiva Nacional do PT: o que revelam as recentes divergências públicas?

Após a entrevista que Rui Costa, governador do PT na Bahia, concedeu à revista Veja, se evidenciou um embate interno do PT que pode aprofundar as já manifestas divergências. A entrevista levantou não somente os ânimos da Executiva Nacional do PT, como também moveu divergências em toda militância nacionalmente. Afinal, Rui expressa uma tendência que não condiz com a tradição do PT? Quais interesses por trás dessa posição e o que revelam essas recentes divergências públicas?

segunda-feira 23 de setembro| Edição do dia

A entrevista revela algumas das divergências em torno da Venezuela, das manipuladas eleições de 2018 - nas quais Rui aponta que o “PT deveria ter apoiado Ciro” (posição que compartilha com o ex-governador Jaques Wagner) -, e centralmente expõe posições destoantes da ala do partido que atua sob a bandeira superestrutural do “Lula Livre”. As declarações do governador tiveram um impacto negativo na direção e na base do partido e motivaram uma carta de resposta em que a Comissão Executiva Nacional avança a criticar Rui Costa e reafirmar alguns eixos, como a centralidade do “Lula Livre” na atuação pela construção de uma ampla frente popular e a defesa do regime venezuelano de Nicolás Maduro, e ainda reafirma as políticas (consensuais em todo o partido) da inofensiva oposição parlamentarista em relação ao governo Bolsonaro, com as políticas de alianças com setores da direita em amplas frentes abstratas de “defesa da democracia” que anseiam o resgate do caquético regime de 88, em detrimento - na teoria - do avanço do autoritarismo da Lava Jato ou também de Bolsonaro.

Disso se sucede então a “réplica” de Rui Costa, a manifesta insatisfação de Jaques Wagner (que classifica a nota do PT como “totalmente descabida” e “muito ruim”) e o “voto de Minerva” de Lula, que dá a liberdade de atuação ao governador para o campo estadual. Ou seja, uma externalização das diferenças em altos decibéis no interior do PT que resulta em uma base de militantes que inflam o peito para dizer que “Rui não é o PT”. Mas será? Antes de responder a isso, entremos nos agentes das diferenças.

O que isso tudo sugere é a presença de predominantemente duas linhas de atuação dentro do partido, com interesses materiais diferentes que regem essas diferenças. Aparentemente, uma seria a composta pelos governadores, que são minoria e expressam uma posição mais abertamente à direita, como ficou claro no posicionamento favorável à reforma da previdência de Maia e Bolsonaro. E outra ala ligada às bancadas federais, os deputados, que detêm a maquinaria partidária e existem enquanto principal “oposição de esquerda” ao governo Bolsonaro. Lula, pelo peso tradicional que sua figura carrega em amplos setores de massas e pelas redes de conciliação que estabeleceu com capitalistas de todo o mundo, não atua favoravelmente a nenhuma das duas alas em particular; ele atua como um “bonaparte” que arbitra entre as duas, incentiva e manobra a coexistência de ambas para que não se desequilibrem, afinal, Lula se beneficia dessa divisão ao passo que é o que lhe permite conquistar a força decisiva no partido, mesmo estando preso.

Ou seja, Lula faz uma política dupla: enquanto dá a cara popular ao partido que busca representar os trabalhadores e o povo pobre, é também quem fomenta a “realpolitik” que acalma o coração dos grandes capitalistas ao demonstrar-lhes que não há o que temer, afinal, segue mantendo o controle deste partido que aposta todas as fichas na conciliação de classes com a tradicional e nova direita, espera os passos do jogo eleitoral para buscar o seu “lugar ao sol” em 2022 a partir da legitimação dos aparatos judiciais burgueses, e ainda teme mais a expansão e descontrole da luta de classes do que teme o fortalecimento da extrema-direita. Essa é a política não só de Lula, mas é a verdadeira essência do PT, e Rui Costa é nada menos do que mais uma representação governamental dessa política.

Divergências na tática, unidade no programa e na estratégia

Mesmo diante dessa divisão que esteve nos holofotes na última semana, ambas as alas convergem programática e estrategicamente, e atuam em unidade com a postura implícita e nunca declarada de que o golpe “já passou”, aceitando cada novo ataque vindo da direita e da extrema-direita, legitimando a eleição manipulada, confiando no Judiciário, abaixando a cabeça diante de cada corte de direitos e de cada ataque. A política de paralisia que a CUT promove nos sindicatos e movimento operário e a política de contenção da luta dos estudantes que a UNE promove nas universidades se combina com àquela política parlamentarista dos governadores do Nordeste que assinaram um manifesto a favor da reforma da previdência e, no caso de Rui Costa, é justamente o governador que reprimiu jovens e cortou salário de professores grevistas que lutavam contra cortes na educação. Ainda que com diferenças expressas, estão todos atuando concretamente diante da mesma estratégia de aceitação, de conciliação de classes, com Lula sendo a figura central disso.

Mas isso não é nenhuma novidade. Os governadores do PT implementam o que quer Lula, o que foram os seus governos e também os de Dilma, com as alianças de todo tipo, inclusive com as bancadas do boi, da bala e da bíblia, com o empresariado e o latifúndio, enquanto dialoga com a população pobre.

A principal novidade nisso tudo é que, no dado momento pré-congressual do partido e, no marco das disputas no Congresso para 2020, a ala mais à direita, dos governadores, pode estar se preparando para ter peso na Executiva Nacional e, dessa forma, conquistar o controle do aparato do partido, aproveitando o momento de enfraquecimento desta devido à prisão de Lula: o controle deste aparato partidário será decisivo porque contém as finanças das campanhas eleitorais para as prefeituras. Ou seja, não se trata de um jogo particular de Rui Costa. Se trata de uma tentativa de uma ala ir aos poucos conquistando maior peso e influência com um jogo próprio e, quem sabe, conquistar maior peso dentro do partido (o que se daria possivelmente se os governadores ganhassem o Congresso e assumissem a Executiva Nacional), deslocando alas parlamentares e alterando parcialmente o discurso e alocação de recursos do partido, mas não seu programa de conciliação. Se essa hipótese se confirma, aumentariam as tensões e abriria possibilidades de choques mais profundos em que o equilíbrio e a unidade do partido possivelmente estariam ameaçados. Essa é a novidade que poderia abrir espaço para outras tendências ou quem sabe até mesmo rupturas com o PT. O maior limitante a essas tendências é centrífugas é o peso de Lula para ambas as alas, e seus choques ainda ocorrerem como consequência de diferentes incentivos que ele dá uma ala contra a outra, para momento seguinte inverter o jogo.

Além disso, é preciso observar que esse jogo possui uma dinâmica própria que pode sair dos ditames de Lula. Inclusive não há que se excluir as possibilidades de Rui Costa ter um jogo próprio de alçar sua figura em detrimento de Lula ou quem sabe ainda do PT. Mas, até o momento, este não parece ser o objetivo de Rui Costa, que ainda faz questão de se mostrar aliado ao peso do ex-presidente e que já afirmou não ter nenhum problema com a figura de Gleisi Hoffmann.

É preciso seguir analisando essas fissuras, observando quais os caminhos que o congresso do partido traçará e quais medidas essas alas seguirão implementando na possível busca por aumentar seu peso de influência. Também é preciso seguir analisando ao mesmo tempo quais respostas o PT tentará dar aos possíveis movimentos de massas que podem vir a surgir contra o governo Bolsonaro e quais respostas tentarão dar aos milhões de brasileiros filiados que, ainda que por enquanto de maneira passiva, se indignam com Bolsonaro e também sentem na pele cada vez mais os efeitos do desemprego, dos cortes e da retirada de direitos.

É preciso um programa e uma estratégia que supere o PT

Isso tudo aponta que o PT é incapaz de tirar lições de toda sua trajetória e de sua falência estratégica. As políticas de expansão inéditas do latifúndio, de protagonismo ao agronegócio e criação de uma nova burguesia interiorana, de fortalecimento das igrejas evangélicas, de possibilidades inéditas de lucro aos banqueiros e empresários com o pagamento da dívida pública, de aumento das milícias e da repressão mostraram que a conciliação de classes não somente foi “incapaz” de construir um “Brasil melhor”, mas foi muito pior que isso: foi justamente o que permitiu o fortalecimento exponencial de uma burguesia extremamente reacionária, com interesses próprios, que pôde se apoiar numa privilegiada burocracia togada e nas altas classes médias para fomentar uma situação política que permitiu um golpe institucional que retirou o PT da presidência, elegeu Bolsonaro e deseja agora um novo regime que reduza não somente o lugar do PT, mas do conjunto das organizações políticas e sindicais da classe trabalhadora. Um regime que garanta melhores condições de subserviência ao imperialismo e maiores ataques às massas.

E mesmo há anos apontando cada aspecto venenoso dessa estratégia petista, criticando cada nova aliança com a direita, cada nova política de capitulação e também cada traição que suas direções nos movimentos de massas cometeram com os trabalhadores e os jovens que quiseram lutar, nós do MRT, que impulsionamos o portal Esquerda Diário, anunciamos em alto e bom som que somos contra a prisão do Lula, que a consideramos arbitrária e parte de um golpe institucional orquestrado pela Lava Jato e seus métodos tirânicos, pelo Poder Judiciário e com a tutela da alta cúpula das Forças Armadas. Um golpe resultado de interesses imperialistas que quiseram recolocar os maiores traços de subserviência ao país e sua burguesia, diminuindo sua estreita base de manobra, impondo que os trabalhadores e a juventude paguem pelos altos custos da crise, em uma velocidade ainda maior do que o que o PT era capaz de fazer. Essa posição de princípio nos permite identificar que o fortalecimento de diferentes setores reacionários, mesmo com suas fragmentações diante da crise orgânica nacional e internacional, tem o objetivo de manter suas taxas de lucro e segurar uma tendência recessiva ou até mesmo de crise capitalista que tende a se aprofundar no próximo ano.

Analisar essas tendências e tentar prever cenários conflitivos em um partido de tamanha proporção tem centralidade para aqueles que enxergam a falência estratégica deste partido com enorme base operária, assim como tirar as lições deste processo que nos levou de derrota em derrota e avançar para construir uma força material em cada local de trabalho e estudo para barrar Bolsonaro, o golpismo e todos os ataques.

Essa força material, uma frente única operária, que confie somente nas forças dos trabalhadores e da juventude, deve rejeitar os representantes da velha política e quaisquer alianças com setores burgueses para levar adiante um programa que se baseie na luta de classes. Somente com esse programa de independência de classes é que podemos superar os limites do parlamentarismo e questionar as bases do capitalismo. Estas são as batalhas que os militantes do MRT têm levado nas estruturas junto aos trabalhadores e estudantes, construindo uma força anticapitalista e revolucionária também a partir do Esquerda Diário, que chega mensalmente a milhões de leitores em todo o país.




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