A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.16

Risco de uma nova Grande Depressão? As bases do neoliberalismo no início dos 1970

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 28 de maio| Edição do dia

[Gráfico acima: explosão da dívida pública dos EUA após crise dos 1970]
Nos anos 1973-75, instalou-se forte recessão econômica nos países da OCDE [Europa]. Estávamos diante do primeiro retrocesso do seu PNB desde a II Guerra.

O boom capitalista do pós-II Guerra foi predominantemente centrado nos países mais ricos: 3/5 da produção industrial e 2/3 do comércio mundial ocorriam no bloco capitalista mais avançado (e 1/3 da produção industrial estava nos Estados Unidos). A Alemanha era a que mais crescia na Europa, chegando a taxas de 7,6 % nas décadas de 50 e 60 (milagre alemão). A economia mundial capitalista em crescimento pôde apoiar-se em formas de intervenção estatal (e crédito) e regulamentação para atenuar suas tendências estagnacionistas/catastróficas por um tempo.

“No entanto isso não impediu que o capitalismo desembocasse na crise no final dos anos 60 e no início dos anos 70, caracterizada por uma forte queda nas taxas de lucros e um estancamento econômico com forte inflação” (MERCATANTE, 2008: 199).

A grande crise de volta
Nos anos seguintes, o crescimento anual médio daqueles países passará para a média de 2% quando nos anos do boom do pós-guerra era de 6%. Estava encerrado o crescimento “estável e sustentado” dos países centrais do capitalismo.
Mesmo tendo o Estado daqueles países continuado a aplicar o keynesianismo de antes, e tentado manter o ciclo de crescimento de forma duradoura, a economia mundial não voltou aos trilhos.

Entre os líderes de direita e em grande parte da esquerda o impacto político foi generalizado também por uma outra razão: a prosperidade daqueles anos do pós-Guerra tinha gerado todo tipo de ilusão a respeito de um capitalismo regulado, organizado ou até de um “capitalismo de Estado” (economia mista) que, em seu novo patamar “evolutivo” teria capacidade de assegurar pleno emprego, bem-estar social crescente e até o crescimento econômico incessante.

Justamente, o golpe de misericórdia contra essas e outras teorias da economia mundial veio com a recessão generalizada que se abateu sobre a economia internacional em 1974-75. A fase a seguir será marcada pela destruição de direitos sociais.

As determinações de uma economia baseada na apropriação privada dos lucros, no processo anárquico de acumulação do capital, com suas leis tendenciais, se impôs sobre aquelas ilusões e teorias. As quais, diante dos novos fatos da economia mundial, revelaram sua incapacidade de oferecer uma visão dinâmica e consequente da totalidade econômica mundial.

“A crise, que deu por encerrado o boom pós-guerra, acelerou novamente a concorrência entre as grandes nações capitalistas. Os Estados Unidos não podiam reclamar um papel de primazia econômica indiscutível: a Alemanha e Japão pesavam nos seus calcanhares. Novamente se colocou em evidência a contradição entre a internacionalização das forças produtivas e os Estados nacionais. Ainda que os Estados Unidos conservem um papel de primazia na economia mundial, as consequências de sua ação em defesa dos seus interesses tornam-se cada vez mais convulsivas para o resto dos países” (MERCATANTE, 2008: 199).

Mesmo com todas as medidas para baixar custos de produção e todas as contra-reformas econômicas, com toda a política reacionária, anti-trabalhista, desenvolveu-se um período de mais de trinta anos, cuja marca - embora tenha havido momentos de crescimento conjuntural e de bolhas importantes – veio sendo de estagnação ou baixo crescimento.

Ou seja, este passou a ser o novo padrão de “equilíbrio dinâmico”: em meio a conjunturas de recuperação, de crises financeiras e não-financeiras, a curva de taxa de crescimento global mostrou-se declinante.

Aquela crise do início dos anos 70 não era apenas uma crise conjuntural ou cíclica como as outras, as do pós-Guerra e que foram chamadas de “recessões” (1948-49; 1952-53; 1957-58; 1960-61; 1966-67; 1970-71), mas sim tratava-se de uma crise que explicitou limitações estruturais profundas do capitalismo na etapa histórica do pós-Guerra.

O chamado neoliberalismo da fase seguinte, não caiu do céu.
Foi a partir dos sintomas de crise acumulados desde a década de 1960 que os Estados Unidos começaram a desmantelar “a ordem econômica internacional” no sentido de “desregulamentá-la”, o que revela que o suposto “neoliberalismo” da década de 1980 afunda suas raízes no “regulacionismo” da década de 1960 ou, o que dá na mesma, que ambos são filhos gêmeos não-idênticos da mesma crise do capital (BLOCK, 1989: 26).

Em 1960 havia 124 sucursais bancárias norte-americanas no exterior, mas em 1975 já existiam 900! Preparava-se a crise dos 70: o crescimento econômico acentuava a desigualdade dentro do sistema, entre os países imperialistas e destes em relação aos países atrasados.

O Japão é um exemplo: em 1950 sua produção de aço bruto era apenas 5,8 % da produção dos Estados Unidos, mas em 1980 já havia superado a dos Estados Unidos. E em 1988 aquele país superou a produção norte-americana de automóveis. Pouco depois, o Japão se afirmava como o maior credor do mundo.

Desequilíbrios como este levaram às tensões internacionais que conduziram à II Guerra, mas neste caso, dos anos 1960, 1970, os Estados Unidos tinham as condições de tratar de reverter o processo a seu favor (como fizeram rompendo Bretton Woods e, em um momento seguinte, forçando o Japão a assumir parte da crise da economia norte-americana).

[A partir daquela crise, explode a dívida pública dos EUA]

Por outro lado, o processo que se seguiu, ao irromper aquela grave crise do início dos anos 1970 foi, em primeiro momento (mais ou menos de 1968 ao fim dos 70), de intensificação da luta de classes nos países ricos e na periferia. De lá para cá, com o refluxo das lutas e revoluções desde 1981, afirmou-se um período de tensões internacionais, guerras e conflitos sem que a economia mundial tivesse conseguido mais que estabilizações e recuperações que em seguida se desfizeram, só que agora – décadas de 80-90 – nos marcos da ofensiva neoliberal.

Um processo político essencial de todo esse período foi o da derrota norte-americana no Vietnã, em meio à deflagração daquela grave crise econômica no seio da qual os Estados Unidos viam-se frente a frente com a crescente força econômica do Japão e da Alemanha e também do seu próprio enfraquecimento industrial.

“O começo do declínio da hegemonia absoluta do imperialismo norte-americano começou a ser vislumbrado durante os anos 60 e apresentou um sintoma muito importante através do fim dos acordos de Bretton Woods que mantinham a paridade do dólar-ouro, em 1971. O fim dessa paridade expressava o fortalecimento relativo do Japão e da Alemanha cujas economias haviam superado a produtividade norte-americana. Por sua vez o declínio da dominação dos Estados Unidos foi aprofundado e acelerado através dos processos revolucionários iniciados no ano 1968, tornando-se evidente com a categórica derrota americana no Vietnã no ano de 1973.

Com essa situação como divisor de águas, ‘os Estados Unidos se lançaram deliberadamente à derrubada do dólar com o fim de melhorar a competitividade dos seus produtos manufaturados em relação aos da Alemanha Ocidental e Japão’; esse fenômeno veio acompanhado do fato de que nenhuma outra divisa de um país imperialista era (como não é inclusive até hoje) suficientemente forte como para ocupar o lugar do dólar” (BACH, 1998: 1).

Em suma, os Estados Unidos de Nixon impuseram uma “reforma monetária” à força impondo valorização do iene e do marco alemão e desvalorização do dólar norte-americano, mantendo o dólar como moeda-referência, só que agora sem lastro-ouro.

E este era um problema essencial: o dólar só poderia continuar lastreado no ouro se a capacidade industrial e a produtividade econômica dos Estados Unidos continuassem inabaladas ou crescendo frente aos rivais. Caso contrário um paradoxo iria se instalar: uma economia enfraquecendo-se, perdendo produtividade e capacidade de acumular poupança (comprando mais do que vendendo, vendo seu déficit comercial crescer e com o risco de perder suas reservas de ouro) mas ao mesmo tempo pretendendo continuar como detentora da moeda mundial.

Os rivais (desarmados desde a II Guerra e no ambiente mundial de pós-guerra, acompanhado da eclosão de revoluções inclusive na Europa) se submeteram a esta nova-velha ordem monetária que permitia aos Estados Unidos descarregar sua crise sobre o resto do mundo (para comprar mais, bastava emitir dólar, agora sem lastro; sendo importante considerar que um dólar mais desvalorizado podia comprar mais no mercado internacional). As economias rivais saiam perdendo, mas acontece que, para continuarem exportando precisavam do maior mercado do mundo, o norte-americano.

Enquanto isso, a longa crise da economia mundial não arrefecia; a economia mundial continuou funcionando dentro dos limites da grave crise instalada nos anos 1970, alcançou certo crescimento da taxa de acumulação do capital, da taxa média de lucro, mas sem conseguir, em nenhum momento, superar os marcos daquela crise.

Ao contrário, por todo esse longo período, as políticas econômicas operaram no sentido de buscar controlar, neutralizar e adiar o impacto ou o desenvolvimento pleno daquela crise. O parasitismo financeiro e a desproporção nos gastos militares, ambos os processos tornados crônicos, são processos que compõem essas políticas (ou contra-tendências à crise).

[Gráfico acima: reflete a desproporção dos gastos militares dos EUA, que segue]

Cabe então, uma primeira observação histórica: esta grave e prolongada crise veio demonstrar que aquele ciclo excepcional de prosperidade dos chamados “anos de ouro”, não tinha sido fruto da intervenção do Estado na economia civil – intervenção que evidentemente aconteceu e foi maciça – e sim do aproveitamento, pelo grande capital, de condições excepcionais historicamente dadas.

Dentro destes marcos, o keynesianismo teve seu papel. Fora daquele contexto, novas medidas keynesianas só fizeram agravar os problemas da economia mundial capitalista.
No argumento de Bach,

“os mecanismos keynesianos que tão bons resultados tinham dado aos principais capitais imperialistas nas condições excepcionais do pós-Guerra, na década de 70, atuaram aprofundando a crise e provocando o novo fenômeno da ‘estagflação’, isto é, a combinação de estancamento econômico com inflação” (1998).

Na fase de crescimento capitalista, entre as décadas de 1950 e 1960, foram implantadas medidas de proteção social (welfare state) em vários países europeus (ex-Alemanha Ocidental, França, Itália, Bélgica etc) e concessões à burocracia sindical e operária. A partir da crise dos 1970 tais mecanismos começaram a ser desmantelados.

“Derrotados os processos de revoluções sociais e greves (que duraram mais ou menos de 1968 a 1976) os Estados Unidos comandaram a chamada contra-ofensiva neoliberal que impôs um aumento generalizado da exploração do trabalho, das pri¬vatizações e também um incremento do papel hegemônico do dólar” (BACH, 1998: 2).

O Estado rentista norte-americano se impôs, os Estados Unidos aumentaram fortemente a taxa de juros dos seus papéis públicos pelo final dos anos 70 e, desta forma, passaram, por um lado, a captar a poupança (as divisas de exportações, por exemplo) do mundo, o que significava crescente endividamento, e por outro, a tornarem-se – através cada vez mais do crédito – a maior boca consumista do planeta. e seguiram sendo o maior gastador militar do planeta.

Comparando-se o montante da dívida total dos Estados Unidos, em relação ao PIB, o quadro é ainda mais esclarecedor, mostra o Estado norte-americano praticamente no prego.

Mandel argumenta muito bem:

“o enorme aumento da dívida pública acompanhou na maioria dos países as medidas de reativação dos anos 1975 e 1977. Foi o preço pago para evitar cada vez mais uma crise catastrófica da amplitude daquela de 1929-1932 e tratar de transformá-la em recessão mais limitada em profundidade e amplitude, ainda que fosse a mais grave desde a II Guerra Mundial” (BACH, 1998: 5).

Tentava-se, a todo custo, impedir uma nova depressão econômica, uma eclosão total da crise. Dali em diante, várias foram as políticas de Estado para tentar travar o livre desenvolvimento das leis tendenciais da economia capitalista, ou seja, impedir que a crise fosse até o final. Com isso – e através das décadas neoliberais – não se conseguiu mais que adiar a crise mais profunda, agravando suas contradições parasitárias. Ela voltou a eclodir em 2008/09, depois de varias bolhas de crise que estouraram no caminho.

Tentar evitar a depressão só piora as condições de sua instalação, no argumento de Marx aqui atualizado por Bach:

“Como conclusão, podemos dizer então que as vias através das quais se evitou que a recessão de 74/75 desembocasse em uma depressão no estilo daquela da década de 30, puseram em cena, ao contrário do período pós-guerra, as leis mais ‘clássicas’ de desenvolvimento capitalista na época imperialista. (...) os mecanismos (estatais) ‘exógenos’ que atuaram impedindo a ação plena da lei do valor e evitaram uma catástrofe, foram aprofundando de forma acumulativa aos elementos de decomposição do capital essencialmente nos países centrais” (1998: 6).

Gastos públicos maciços (demanda estatal de armas ou obras e oferta pública de crédito para a economia privada) têm como efeito aumentar a inflação. O resultado que marcou a década dos 70, conhecido como estagflação, foi exatamente aumento de inflação sem crescimento econômico.

Estava dada a largada para as décadas chamadas neoliberais, para a deflagração da febre das finanças, a “era do capital fictício”, o longo período onde o grande investimento produtivo sai à busca da rentabilidade perdida.

Ou seja, voltou a eclodir a crise de dificuldade de produção e realização de mais-valia, só que agora em ambiente inflacionário. O que veio a seguir, décadas afora, foram processos de especulação financeira.

Com o discurso de combate à inflação, que de fato ameaçava a economia chamada real, elevaram-se juros, facilitou-se a movimentação financeira, a economia mundial operava, em certa medida, como um grande mercado desregulamentado, aberto aos capitais sobretudo norte-americanos (os Estados Unidos tornaram-se, na prática, um Estado rentista que capitaneou o sistema financeiro dominante no mundo). Verdadeiro atestado da impotência do Estado capitalista de oferecer uma saída à crise ao tentar impedir a sua completa eclosão (e a depressão), ou incapacidade histórica de intervir no ciclo econômico com êxito como sistema.

[Crédito de imagens aos sites: forbes, commons.wikimedia.org e spletnik]

BLOCK, Fred, 1989. Los orígenes del desordem econômico internacional. México: FCE.
BACH, Paula, 1998. La crisis de acumulación del capital. Estratégia Internacional-Revista de Teoria y Política Marxista Revolucionária n. 10, Buenos Aires, noviembre-deciembre.
MERCATANTE, E, NODA, M, 2008. Gradualismo y catastrofismo. In: Lucha de clases – Revista Marxista de Teoria y Política n.8, junho 2008, pp 211-226.

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas]. Continua na nota n. 17].




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