Teoria

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: O ANO DE 1917, A TOMADA DO PODER.

Revolução Russa: a tomada do poder em Outubro

Nesta nota seguimos a narrativa do ano decisivo da Revolução Russa, nos vários momentos do ano de 1917 na Rússia

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 2 de junho| Edição do dia

Na Rússia de 1917, no final de agosto, diante da ingovernabilidade, do impas¬se do governo liberal de Kerenski e frente ao crescente poder dos sovietes (ainda que controlados pelos socialistas de conciliação de classe), e à crescente influência bolchevique sobre o proletariado, a burguesia tenta um golpe contra-revolucionário através de um dos seus generais, Kornilov.

Este fazia parte de um complô golpista que envolvia o próprio Kerenski, mas, por conta e risco, fez seu próprio cálculo, pensando mais “audaciosamente” como classe, e resolveu adiantar-se e monopolizar o poder. [Não fossem os bolcheviques e provavelmente o processo revolucionário seria abortado ali, por um golpe de Estado sangrento].

Os bolcheviques – mesmo perseguidos pelo governo – organizaram uma rede de defesa, através dos sovietes e do partido. Esta rede revelou-se crucial para esvaziar e derrotar o velho general golpista. E acelerou o processo de afirmação da influência do partido de Lenin e Trotski junto às massas.
Aproxima-se o momento crítico, já que a partir dali, a influência dos bolcheviques, das suas moções, da sua consigna por todo poder aos sovietes, crescia nas fábricas e bairros.
Houve uma tentativa, antes de Outubro, de coalizão entre uma ala dos bolcheviques e socialistas-revolucionários; os bolcheviques propuseram que os socialistas-revolucionários fossem ao governo sem a burguesia liberal e garantissem as liberdades dos sovietes. Proposta não aceita.

Desta forma, era mais do que evidente para Lenin que não havia outro caminho, estava aberta a via para a tomada do poder pelos bolcheviques.

Cresciam as revoltas no campo ainda que, ao longo dos meses, os sovietes de camponeses mantiveram-se à distância e só se uniram plenamente aos operários e soldados na Revolução de Outubro. No entanto, a curva de ocupações de terras era ascendente. E o ativismo de massas em cada cidade da Rússia era impressionante.
A esse respeito, aqui vale um parêntesis para uma longa citação, reveladora do estado de espirito e do ativismo das massas revolucionárias na Rússia naquele momento:

“O mais surpreendente de 1917 é precisamente a participação ativa das massas em cada uma de suas etapas. Esse fenômeno, de fato, é a essência de uma revolução. Em períodos normais a maioria das pessoas está disposta a aceitar que as decisões mais importantes que afetam suas vidas sejam tomadas por outras pessoas, `os que sabem` – políticos, funcionários, juízes, especialistas – mas nos momentos críticos, as pessoas normais e comuns começam a questionar tudo.

Já não se conformam em deixar que sejam outros os que decidem por eles. Querem pensar e agir por si mesmos. Isto é precisamente uma revolução. E podem se observar elementos deste pro-cesso em cada greve. Os trabalhadores começam a participar ativamente, falar, julgar, criticar, em uma palavra, decidir seu próprio destino. Para o burocrata e o policial [e para alguns historiadores cujos processos mentais funcionam na mesma faixa de onda], isto é uma loucura estranha, ameaçadora.

De fato, se trata precisamente do contrário. Em situações desse tipo os homens e mulheres deixam agir como autômatos e começam a se comportar como autênticos seres humanos com sua mente e sua vontade. Sua estatura se eleva diante dos seus próprios olhos. Rapidamente se tornam conscientes de sua própria condição e dos seus próprios interesses, e buscam conscientemente um partido e um programa que reflita suas aspirações e rechaçam os outros. Uma revolução sempre se caracteriza por um trepidante auge e declínio de partidos, indivíduos e programas, no qual a ala mais radical tende a ganhar. (...)

Em todos os escritos e discursos de Lenin daquele período vemos uma fé ardente na capacidade das massas de mudar a sociedade. Longe de adotar métodos conspirativos, se baseou em apelos à iniciativa revolucionária dos trabalhadores, camponeses pobres e soldados. Nas Teses de Abril, Lenin declara: `não queremos que as massas simplesmente aceitem nossa palavra. Não somos charlatões. Queremos que as massas superem seus erros através da experiência´. Mais tarde ele também argumentou: ´a insurreição não pode se basear em conspiração e nem em um partido, e sim na classe avançada. (...) A insurreição tem que se basear em um auge revolucionário do povo” [GRANT, 1997, 53].
O autor continua em seu relato, citando John Reed que nos lembra a mesma imagem:

´Os soldados lutavam com os seus oficiais e aprendiam se auto-governar através dos seu comitês. Nas fábricas, os comitês de empresas e outras organizações adquiriam experiência e força e compre¬ensão em sua missão histórica na luta contra a velha ordem. Toda a Rússia aprendia a ler e efetivamente lia livros de política, economia e histórica. Lia porque as pessoas queriam saber ... Em cada cidade, na maioria das cidades próximas os núcleos de cada partido político tiravam seus periódicos e às vezes vários periódicos. Milhares de organizações imprimiam milhares de folhetos políticos, inundando com eles as trincheiras e as aldeias, as fábricas e as ruas da cidade. A sede de instrução tanto tempo freada deu passagem, ao mesmo tempo que a revolução, a forças espontâneas. Nos primeiros seis meses da revolução apenas a partir do Instituto Smolny eram enviados a todos os confins do país toneladas, caminhões e trens de publicações. A Rússia devorava material impresso com a mesma insaciabilidade com que a areia seca absorve a água”.
Grant conclui:

“É impossível entender o que aconteceu em 1917 sem entender o papel fundamental das massas. A mesma coisa é verdade em relação à Revolução Francesa de 1789-1794, um fato que os historiadores frequentemente não conseguem compreender (há exceções como o anarquista Kropotkin e, no nosso tempo, George Rude). Mas aqui, pela primeira vez na história, se nós excluirmos o breve episódio glorioso da Co¬muna de Paris, a classe operária conseguiu tomar o poder e, pelo menos, começar a transformação socialista da sociedade.

Precisamente por isso os inimigos do socialismo se veem obrigados a mentir sobre a Revolução de Outubro e caluniá-la. Não podem perdoar Lenin e aos bolcheviques terem conse¬guido um dia a primeira revolução socialista triunfante e te¬rem demonstrado que isso é possível e, dessa maneira, ter aberto o caminho às gerações futuras. Um precedente deste tipo é perigoso. Portanto, é necessário ´demonstrar´ (com a ajuda do bando habitual de acadêmicos ´objetivos´) que tudo isso foi um assunto muito feio e que não se pode repetir isso” (1997: 53; 56).
Retomemos o fio da narrativa, quando, em agosto, derrotado Kornilov, libertados os presos políti-cos, Trotski inclusive, os bolcheviques intensificam a propaganda chamando ao Congresso dos Sovietes.

Na contramão, os partidos socialistas de direita convocam a Conferência Democrática (ideia lançada durante a ofensiva de Kornilov); nela, as organizações de massa mais democráticas e de base seriam contrabalançadas e neutralizadas formalmente por instituições e organizações da burguesia, dos conciliadores e do Estado.
A Conferência Democrática realizou-se em 14 de setembro com os bolcheviques em minoria. Criou-se, ali, um órgão perma¬nente, o Pré-Parlamento ou Conselho da República para funcio¬nar até a Assembleia Constituinte.
Não era essa, no entanto, a política de Lenin e Trotski.

Lenin (clandestino na Finlândia) e Trotski defendiam, no partido, o boicote ao Pré-Parlamento. O Comitê Central se dividiu e, nessa condição, apelou à Conferência do partido em 20 de setembro: ali, por 77 votos contra 50 foi rechaçada a proposta de Lenin e Trotski, de boicote.

Para Trotski aqui não se tratava apenas de uma questão tática, mas de propor-se ou não como finalidade, a conquista do poder, já que armavam-se condições inéditas – avaliava ele – para a conquista do poder.
Aqui vale registrar que aquela foi apenas mais uma das vezes em que Lenin ficou em minoria, como também Trotski, dentro do partido.
O que, diga-se de passagem, contraria toda a mitologia de partido “monoliticamente” controlado por Lenin. Ou carente de democracia interna.

A situação política evoluiu, no entanto, a seu favor. No início de outubro, os alemães partem para a ofensiva militar, contra a Rússia, Kerenski ameaça abandonar Petrogrado, o espírito combativo das massas se acentua. Em 5 de outubro a fração bolchevique vota, com apenas um voto contrário, o boicote ao Pré-Parlamento. Conclamam por “todo poder aos sovietes”. Apelam ao Congresso dos Sovietes.

Concentravam-se as condições e a conjuntura política para o embate.
No seio da classe operária, o apelo bolchevique é irresistível.
Estamos em uma nova etapa rumo ao poder de Estado. Foram meses de debate dentro do próprio partido bolchevi¬que, entre a concepção inicial, que tendia a adaptar a missão do partido revolucionário a certo papel de ala esquerda da democracia burguesa e os setores – Lenin e Trotski à cabeça – contrários, defensores da estratégia soviética, da república dos conselhos ou da ditadura da classe trabalhadora, ditadura soviética.

Aquelas divergências de abril, no seio do partido, trouxeram as de setembro e, mais adiante, as de outubro, Pelas mãos de uma ala minoritária. No entanto, o partido se armara, política e estrategicamente para o passo seguinte, decisivo.
Em 17 de outubro começou a III Conferência de Comitês de Fábrica de toda a Rússia, com 167 delegados, dos quais 127 eram bolcheviques e 24 socialistas-revolucionários de esquerda, aliados dos bolcheviques.

Nos comitês de fábrica de Moscou e Petrogrado, por exemplo, os bolcheviques eram maioria. Neste momento, os bolcheviques chegaram a cogitar de que no caso dos socialistas aliados do governo conseguissem obstruir e desviar politicamente aos sovietes, seria necessário se pensar na via de uma revolução e um poder que se iniciassem com base nos comitês de fábrica.

No entanto, os bolcheviques logo se tornariam maioria nos sovietes.
O motivo formal para a derrubada de Kerenski foi sua ordem, em 24 de outubro, para lançar a polícia contra o soviete e os bolcheviques. O golpe militar fracassara, agora o socialista Kerenski tratava de golpear diretamente as organizações de massas.

Sem legitimidade formal, sem legitimidade social (por não aplicar para nada o programa bolchevique de pão, paz e terra), o governo dos liberais e socialistas de direita vai ser derrotado a partir da iniciativa bolchevique.
A insurreição comandada pelos bolcheviques e o Comitê Militar do soviete de Petrogrado, contou com o apoio da maioria das guarnições (300 mil) e foi vitoriosa em 25 de outubro, em Petrogrado.

Horas depois, a insurreição foi aprovada pelo II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, que assumiu o poder de Estado.
Formalmente parecia um golpe de Estado de uma “minoria que conspirou” contra a legalidade. Mas seu conteúdo estava bem claro: uma revolução social com a transferência de poder de uma classe a outra, como se pode ver sob qualquer ótica histórica séria.

Trotski relata vivamente aquele momento histórico:
(...) “À noite realizou-se uma sessão provisória do Segundo Congresso dos Sovietes de toda a Rússia. Alguém se pronunciou contra os rebelados, os “expropriadores” e incitadores de rebelião, e tratou de assustar o Congresso apresentando como inevitável o fracasso do movimento revolucionário, que, segundo ele, seria esmagado em alguns dias pelas tropas do front.
Mas suas palavras não convenceram ninguém e ele ficou deslocado numa assembleia na qual a imensa maioria dos delegados acompanhava com intensa alegria a marcha vitoriosa da revolução de Petrogrado.

Nesse momento o Palácio de Inverno já estava cercado, porém ainda não havia sido tomado. De tempos em tempos disparos feitos das janelas partiam em direção aos que o cercavam e que, lentamente e com prudência, iam fechando o cerco em torno do Palácio. (...)

A sessão [dos sovietes] foi interrompida. Era impossível continuar a discussão teórica relativa à elaboração do governo quando, no tumulto do combate e dos tiros de fuzil em volta do Palácio de Inverno, decidia-se concretamente o futuro desse governo.

Entretanto, a tomada do Palácio se es¬tendia no tempo e esse fato se refletia no setor indeciso do Congresso. Os oradores da ala direita previam uma catástrofe próxima. Todos esperavam com ansiedade as notícias do que estava acontecendo na praça do Palácio de Inverno. Depois de algum tempo chegou Antonov Ovseienko, que dirigia as operações. Fez-se um silêncio absoluto na sala: o Palácio de Inverno havia sido tomado, Kerenski estava foragido e os outros ministros estavam presos na Fortaleza Pedro e Paulo.

Assim terminou o primeiro capítulo da Revolução de Outubro! Os socialistas revolucionários da direita e os men¬cheviques, num total de sessenta pessoas, isto é, aproximadamente uma décima parte do Congresso, abandonaram a sala em sinal de protesto. Não podendo fazer mais nada, jogaram a responsabilidade de tudo que pudesse acontecer sobre os bolcheviques e os socialistas revolucionários de esquerda” (TROTSKI: 84 e 85).

As memoráveis palavras de Trotski, líder do estado-maior da insurreição, falam mais alto:

Estava-se ali, diante do “mais democrático de todos os par¬lamentos da história mundial que se reuniu durante as horas da insurreição. A aparência física dos delegados àquele Congresso era elucidativa, os “galões dos oficiais, os óculos e as gravatas dos intelectuais do primeiro Congresso, desapareceram quase completamente. Uma cor cinza prevalecia ininterruptamente, nas roupas e nos rostos. Todos tinham esgotado suas roupas durante a guerra e muitos dos operários das cidades usavam as túnicas dos soldados. Os delegados das trincheiras não tinham um ar apresentável: há muito sem fazer a barba, em velhas túnicas rasgadas, com pesadas papakhi [tipo de chapéu russo, de inverno, GD] em seus cabelos despenteados, quase sempre com o forro se projetando através de um buraco, com rostos rudes, feridos pelo inverno, mãos pesadas e rachadas, dedos amarelados pelo tabaco, botões caindo, cintos frouxos, e longas botas rugosas e bolorentas. A nação plebeia enviara, pela primeira vez, uma representação honesta, sem maquiagem, feita a sua imagem e semelhança” (Relato de Trotski no 3ª volume da sua História da Revolução Russa, no capítulo O congresso da dita-dura soviética, 2007, p.1047).

Naquele momento, a assembleia de delegados operários e soldados assumiu o poder político da Rússia.

Naquele parlamento operário e camponês, em outubro, havia em torno de mil delegados representando a imensa e multinacional Rússia. Os mencheviques, que abandonaram o Congresso, contavam com apenas 80 delegados e os socialistas-revolucionários, que depois se dividiriam em ala esquerda – aliada dos bolcheviques – e direita, contavam, ao todo, com 159 delegados. Os bolcheviques eram esmagadora maioria.
Ali, em 25 de outubro, foi eleita a nova direção dos sovietes.

Nesta correlação de forças, o velho comando dos sovietes de toda a Rússia (Comitê Executivo), que vinha sendo controlado por partidos socialistas que, nos meses anteriores, praticavam a colaboração de classe com a burguesia liberal, foi destituído e o bolchevique Kamenev eleito presidente do Congresso; pouco de¬pois Lenin seria eleito presidente do Conselho dos Comissários do Povo (ministros).

A história da Revolução Russa pode ser contada a partir destes fatos por uma razão: são reveladores da natureza de clas¬se do novo poder. Reveladores do papel central dos sovietes e do partido no sentido de concentrarem o proletariado na tomada das rédeas do Estado, na conformação do novo poder, operário e democrático.
No dia 25 de outubro (sempre de acordo com o velho calendário) é tomado, portan¬to, o poder na Rússia pelos bolcheviques, que no momento decisivo, organizaram a insurreição armada. O partido tinha uma estratégia – soviética – e, a partir dela, em permanente avaliação e contato com a relação de forças no seio do proletariado, nas massas, e estreitamente vinculado às decisões e movimentos políticos do soviete mais decisivo, coordenando as ações de massas, soube agir no momento certo.

Em breve retrospectiva: em 10 de outubro, o Comitê Central do partido aprovara, por 10 votos a 2 a passagem à organização da insurreição. Em 12 de outubro, o Comitê Executivo (C. E.) do soviete de Petrogrado adota, por quase unanimidade, a organização do Comitê Militar Revolucionário e, dia seguinte cria uma seção da Guarda Vermelha. Quatro dias depois, o secretariado do soviete adia o Congresso de 20 para 25 de outubro.

Será naquele momento que a insurreição irá triunfar. Tomado o Palácio de Inverno e constituído o governo operário pelo congresso dos sovietes, foi lançado o apelo aos camponeses de toda a Rússia para que ocupassem as terras.

Em seguida estabeleceu-se uma república dos trabalhadores, abertamente democrática, com os sovietes no poder, eleitos por local de trabalho, com o Congresso de sovietes de toda a Rússia no topo, tendo como sua delegação o Conselho Executivo dos sovietes e o Conselho de Comissários do Povo.
Portanto, em Outubro os bolcheviques, agora na condição de partido de massa (mais de 250 mil militantes), conseguiram a maioria nos sovietes (façanha que a burguesia liberal jamais conseguiu diretamente) deslocando fragorosamente sua direção que conciliara com a burguesia liberal e seu governo em todos os meses anteriores.

A Rússia em seguida à tomada do poder
John Reed [2007], contemporâneo e testemunha viva da Revolução Russa, explica como funcionava o novo poder:

“Pelo menos duas vezes por ano são eleitos delegados do país inteiro para o Congresso de Sovietes de toda a Rússia. Teoricamente, esses delegados são escolhidos em eleição po¬pular direta: nas províncias, 1 para cada 125 mil eleitores; nas cidades, 1 para cada 25 mil; na prática, entretanto, costumam ser escolhidos pelos sovietes provinciais e urbanos. A qualquer momento podem ser convocadas sessões extraordinárias do Congresso por iniciativa do Comitê Central Executivo de toda a Rússia ou por exigência de sovietes que representem um terço da população votante do país. Esse órgão, constituído por cerca de 2 mil delegados, reúne-se na capital na forma de um grande soviete e decide a essência da política nacional. Ele elege um Comitê Central Executivo, semelhante ao Comitê Central do Soviete de Petrogrado, que convoca os delegados dos comitês centrais de todas as organizações democráticas.

Esse Comitê Central Executivo ampliado dos sovietes russos é o parlamento da república russa. Reúne cerca de 350 pessoas. Entre os Congressos de toda a Rússia, é a autoridade suprema; não pode agir além das linhas traçadas pelo congres¬so anterior e presta contas estritas de todos os seus atos ao congresso seguinte. Por exemplo, o Comitê Central Executivo pode ordenar, e ordenou, que o tratado de paz com a Alemanha fosse assinado, mas não pode tornar esse tratado válido na Rússia. Somente o Congresso de toda a Rússia tem poder para ratificar o tratado.
O Comitê Central Executivo elege, dentre seus inte¬grantes, onze comissários que, no lugar dos ministros, serão presidentes dos comitês encarregados dos diversos ramos do governo. Esses comissários podem ser destituídos a qualquer momento. Prestam contas estritamente ao Comitê Central Exe¬cutivo. Os comissários elegem um presidente”.

Uma vez instalado o poder bolchevique, a burguesia mundial necessitava construir uma permanente ofensiva ideológica para “explicar” sua derrota diante dos trabalhadores sublevados e organizados.
Passou a fabricar mitos que até hoje são repetidos pelos detratores da Revolução Russa; um deles é o de que tudo não passou de uma conspiração bem sucedida de uma minoria de radicais.

É a surrada teoria da conspiração, que prevalece nos livros escolares do capitalismo.
Contra essa mitologia, nos valemos desta longa porem muito ilustrativa citação de Grant:

“Dizem que os bolcheviques arrebataram o poder do governo provisório surgido da revolução de fevereiro, governo que, supostamente, representava a vontade democrática do povo. Se a ´conspiração´ de Lenin não tivesse prosperado, continua esta mesma história, a Rússia teria entrado no caminho da democracia parlamentar Ocidental e, dessa forma, teria vivido feliz para o resto dos seus dias. Esse conto de fadas foi repetido tantas vezes que muita gente o aceitou acriticamente. E da mesma forma que todos os contos de fadas, o seu objetivo é o de adormecer os sentidos. O problema é que só criança muito pequena acredita em conto de fadas.

A primeira coisa que vem à nossa cabeça: se o governo provisório realmente representava a esmagadora maioria e os bolcheviques eram apenas um grupo insignificante de conspiradores, como conseguiram derrubar aquele governo? Depois de tudo, o governo provisório tinha, pelo menos no papel, toda a força do aparelho de Estado (o exército, a polícia e os cossacos), enquanto que os bolcheviques eram um pequeno partido que no início da revolução de fevereiro só contava com 8 mil membros em toda Rússia. Como foi possível que essa minúscula minoria vencesse a um Estado tão poderoso? Se aceitamos o argumento que foi um golpe de Estado então temos que admitir que Lenin e Trotski dispunham de poderes mágicos. Isso é precisamente o que acontece nos contos de fada! Por desgraça isso não ocorre nem na vida real nem na história.

Na realidade, a teoria conspirativa da história nada explica. Simplesmente dá por suposto aquilo que tem que demonstrar. Um método de raciocínio tão superficial, que imagina que cada greve é provocada por “agitadores” e não pelo descontentamento acumulado em uma fábrica, é típica da mentalidade policial. Mas quando supostos acadêmicos a defendem seriamente como explicação para grandes acontecimentos históricos, só se pode coçar a cabeça intrigado ou então imaginar que existe algum motivo a mais. O motivo do policial que trata de atribuir uma greve às atividades de agitadores invisíveis é um motivo bem claro. Ora, aquele modo de raciocinar sobre a Revolução Russa não chega a ser realmente diferente. A ideia central deste pensamento é a de que a classe operária não é capaz de entender seus próprios interesses (os quais, naturalmente, são idênticos aos dos empresários). Portanto, se a classe se põe em movimento para tomar o seu destino em suas próprias mãos, a única explicação possível, para aquele modo de raciocinar, será a de que foram manipulados por demagogos sem escrúpulos” (1997: 50).

Portanto, a tomada do poder, naquelas condições, não teve – vale reafirmar – o conteúdo que querem enxergar, interessadamente, de golpe de mão. O que existe – e, de resto, em praticamente toda revolução – é o ponto crítico ou um momento determinado, de assalto ao poder de Estado. Em Outubro, o poder foi tomado em representação dos órgãos de massa – os sovietes – cujo controle os partidos apoiadores da burguesia liberal haviam perdido.
Não se deixou passar a ocasião.

É o que explica o próprio Lenin.
Em 27 de setembro, Lenin escreve: “tendo obtido maio¬ria nos sovietes de deputados operários das duas capitais, os bolcheviques podem e devem tomar o poder”. Ou seja, uma vez maduras as condições era necessário a iniciativa para a tomada do poder.

O conteúdo e o contexto político dessa iniciativa foram argumentados naquela época por Lenin, dirigindo-se ao Comitê Central do partido: “para ser inteiramente vitoriosa, a insurreição deve apoiar-se não sobre uma conspiração, não sobre um partido, mas sobre a classe avançada. É esse o primeiro ponto. A insurreição deve apoiar-se na pressão revolucionária do povo: é o segundo ponto.
A insurreição deve estalar no apogeu da revolução ascendente, isto é, no momento em que a atividade da vanguarda do povo for a maior possível, em que as hesitações dos inimigos e dos amigos fracos, equívocos e indecisos da revolução são as mais fortes. É o terceiro ponto”.

Até hoje se crítica esta posição revolucionária: ou seja, a iniciativa partidária, da classe trabalhadora, de tomar o poder quando se reúnam as condições.
Tal iniciativa seria antidemocrática, seria golpe político. Oculta-se, neste “argumento”, que uma revolução vitoriosa é a transferência de poder político de uma classe para outra, o que significa que método, significado e conteúdo de tal empreitada – a tomada do poder – nada tem a ver com derrubada do governo a partir de conspiradores secretos, que agissem às costas das massas.

Gilson Dantas
Brasília 31/5/17 [crédito da imagem: “Todo poder aos sovietes”: www.philoforchange.files]
Bibliografia citada – TED GRANT, 1997. Rusia – de la revolución a la contrarrevolucuón, Madrid: Fund. Federico Engels. JOHN REED, 2007. Os sovietes em ação. In Leon Trotski, A revolução de Outubro, São Paulo, 2007, Boitempo/Iskra.

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