Juventude

PELA EDUCAÇÃO

Retrospectiva 2016: As ocupações estudantis que sacudiram o Brasil

Ainda em 2015 os secundaristas de São Paulo ocuparam centenas de escolas, impondo naquele momento uma derrota ao governo Alckimin. Esse movimento inspirou estudantes de todo o país, que ocuparam mais de mil instituições de ensino em 2016 e estiveram na linha de frente na luta contra os ataques do governo golpista e dos governos estaduais.

quinta-feira 29 de dezembro de 2016| Edição do dia

Em 2016, as ocupações estudantis escancaram a situação de calamidade da educação pública no país. Inspirados pelos secundaristas de São Paulo, que ocuparam centenas de escolas e derrotaram a reorganização escolar proposta por Alckmin, os estudantes fizeram o maior movimento de ocupações da história do país. Enfrentando a repressão do Estado, a burocratização de entidades como a UNE e UBES, a criminalização da mídia burguesa, e ainda frequentes ataques da direita, os estudantes ocuparam as instituições de ensino para dar uma grande aula de luta e resistência.

A primavera secundarista

Goiás, novamente São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul. Foram centenas de ocupações no primeiro semestre do ano. As reivindicações levantadas pelos estudantes refletiam os planos de precarização, privatização e sucateamento da educação pública, além da corrupção dos governos.

Em Goiás, estudantes e professores ocupam escolas e a Secretaria de Educação contra a gestão privatizada das escolas proposta por Marconi Perillo (PSDB). Em São Paulo, as ETECs se levantaram contra o escândalo do roubo da merenda no governo de Alckmin (PSDB). No Rio, estudantes e professores lutavam contra os cortes do Pezão (PMDB). No Ceará, o abandono da educação por parte do governo de Camilo Santana (PT) foi o que incitou a revolta estudantil. No Rio Grande do Sul, educadores e estudantes lutaram juntos contra o governo Sartori, e ocuparam mais de 150 escolas em defesa da educação pública.

Em comum entre todos estes estados foi a repressão dos governos, da direita e a criminalização promovida pela mídia, que incentivava a violência contra os estudantes. Em Goiás uma apoiadora chegou a caracterizar "estado de exceção" frente às violentas desocupações. Na violenta desocupação da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (SEDUCE) 31 manifestantes foram presos. Em São Paulo, as imagens da repressão no Centro Paula Souza chocaram ativistas de todo o pais. No Rio de Janeiro o governo cortou a água e luz das escolas. No Rio Grande do Sul, além da perseguição da direita, 43 estudantes e apoiadores que ocuparam a Secretaria da Fazenda foram presos.

Além da repressão, os estudantes também tiveram que enfrentar as direções burocráticas do movimento, UNE e UBES, que além de não colocar toda sua força à serviço da luta dos estudantes, se mostraram como entraves para a unificação nacional do movimento. Exemplo disso ocorreu em Porto Alegre, após a ocupação da Assembleia Legislativa, quando UJS, Juntos!, PPL e outras "direções" do movimento fecharam um acordão de desocupação por fora dos estudantes. Essa ação desencadeou a formação do Comitê das Escolas Independentes, que manteve as ocupações de algumas escolas e depois ocupou a Secretaria da Fazenda, sendo brutalmente reprimido pela polícia.

A luta secundarista inspira as universidades estaduais de São Paulo

Em maio, foi a vez das estaduais paulistas saírem em greve contra a precarização do governo do PSDB, ao mesmo tempo que a direita reacionária ia avançando com seu golpe institucional. Centenas de jovens e trabalhadores se levantaram contra o desmonte das universidades estatuais, o avanço na precarização do trabalho, mas sobretudo contra o racismo institucional, lutando pela implementação das cotas raciais. Uma greve que mostrou um grande potencial e disposição da juventude que lutava contra o golpe e a precarização da educação. A forte repressão política e o isolamento imposto pelo governo do estado, que se apoiou no golpe que caminhava pra se consolidar e na derrota que impôs aos estudantes secundaristas, fez com que o movimento fosse se desgastando e perdendo sua força. O que agravou o fato do movimento não ter conseguido articular a unificação necessária para essa grande batalha em defesa da educação pública. Na USP, a reitoria arbitrariamente deixou centenas de famílias sem salários, ao cortar o ponto dos trabalhadores grevistas, antecipando a medida absurda posteriormente aprovada pelo judiciário golpista. A intransigência do reitor que se negou a sentar para negociar com estudantes e trabalhadores, permanece até hoje por meio tentativa de reintegração de posse da sede do Sindicato de Trabalhadores da USP, e de alguns centros acadêmicos no campus. Na Unicamp os estudantes conseguiram impor três audiências públicas par debater as cotas raciais.

Universidades, escolas e Institutos federais contra a PEC do fim do mundo

Em outubro, no Paraná, os secundaristas deram início a mais uma onda de ocupações. Como um rastilho de pólvora, os estudantes se levantavam contra a PEC 55/241, ou "PEC do fim do mundo", questionando o mais duro ataque do governo golpista até o momento. Foram mais de 800 escolas ocupadas no estado. Apesar do MBL e dos "desocupas" que insistente e violentamente tentaram desocupar as escolas, os estudantes resistiram e, inclusive, reocuparam algumas escolas depois que o governo desocupou. Foi de lá a marcante fala da secundarista Ana Paula na Assembleia Legislativa do estado contra os deputados que destilavam ódio às ocupações.

Inspirados pelos secundaristas do Paraná, que enfrentavam o governo golpista, estudantes do país inteiro fizeram o maior movimento de ocupações da história do país. De norte a sul, mais de mil universidades, Institutos Federais e escolas se rebelavam contra a PEC 241/55, contra a Reforma do Ensino Médio e contra o Escola Sem Partido.

Em São Paulo os secundaristas que tentaram ocupar suas escolas foram novamente reprimidos com violência pela polícia de Alckmin. Sem mandado, a polícia invadia as escolas, em um esforço do governo paulista para que o movimento não se generalizasse novamente no estado. No DF, a justiça chegou a autorizar a utilização de métodos de tortura contra os estudantes.

A cada dia novas instituições se somavam ao movimento. Em muitos lugares, como na UFMG e na UFRGS a luta era unificada: docentes e técnico-administrativos em greve, estudantes ocupados. No país todo estudantes e trabalhadores das universidades e Institutos Federais diziam não à PEC.

No dia da votação da PEC 55 no Senado, milhares de pessoas foram à Brasília manifestar seu repúdio ao congelamento de investimentos em saúde, educação e serviços básicos pelos próximos 20 anos. O governo golpista respondeu com uma brutal repressão, deixando dezenas de feridos. No segundo dia de votação da PEC no Senado não foi diferente:muita violência policial e dezenas de presos políticos.

Os jovens lutadores não puderam contar com o mais importante aliado em suas batalhas: a classe trabalhadora, principal prejudicada com a PEC 55. Isso se deve principalmente à política das maiores centrais sindicais do país, a CUT e a CTB, dirigidas pelo PT e pelo PCdoB, que conforme orientou Lula, não quiseram "incendiar o país" contra a PEC. Mesmo nos "dias de luta" que convocaram, pouco ou nada foi construído nas bases das categorias onde dirigem sindicatos. Não foram feitas grandes greves e nem nos atos de rua os trabalhadores marcaram presença em peso.

Os limites do movimento

Para além das burocracias sindicais, que contribuíram para que a luta dos estudantes não se atingisse e influenciasse a classe trabalhadora, o movimento teve seus limites. Também por responsabilidades das burocracias estudantis como UNE, UBES, dirigidas pelo mesmo PCdoB, entre as ocupações não ocorreu uma verdadeira articulação nacional.

As milhares de ocupações que se espalharam pelo país não tinham um canal de diálogo, não tinham um organismo de atuação em comum. Nenhum ato de rua pôde ser convocado pelas ocupações, em todo o país, ao mesmo tempo. O movimento não conseguiu chegar aos trabalhadores e disputar com o discurso da mídia e com a paralisia das centrais sindicais. Um movimento que começou muito forte mas que acabou enfraquecendo, e sendo derrotado pelo governo.

Desde a Faísca em todas as universidades e escolas onde estivemos, defendemos a formação de comandos regionais das ocupações, compostos por delegados eleitos nas bases e revogáveis a qualquer instante. Fundamental para construir um comando nacional das ocupações, que com os mesmos métodos de democracia de base pudesse expressar o movimento unificadamente, com muito mais força. Pudesse deliberar regionalmente trancaços de rua, panfletagens, ações de diálogo com a classe trabalhadora, que pudesse desafiar o bloqueio da burocracia sindical, a exemplo do que fizeram os estudantes franceses em maio de 68.

Retomar o maior movimento de ocupações vivido pelo país é parte de entender o que esse movimento pode ensinar. É necessário que as novas gerações de ativistas que estiveram na linha de frente contra os governos estaduais e contra Temer tirem as lições das lutas de 2016, pois em 2017 o Estado também vai vir quente, e os estudantes podem ter mais experiência para ferver novamente o país.




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