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Relato de uma persa (Resenha de Persépolis)

A HQ Persépolis é uma história de um povo distante e descolado do mundo ocidental declarado seu inimigo.

quarta-feira 7 de junho| Edição do dia

As mais diversas formas literárias se desdobraram das mais diversas formas de vida. A HQ Persépolis é uma história de um povo distante e descolado do mundo ocidental declarado seu inimigo. A característica da obra de autora-participante, auto-biográfico e testemunho de guerra, violência e opressão, seguindo no mesmo estilo de Maus ("rato", em alemão) de Vladek Spiegelman e Joe Sacco “Notas Sobre a Palestina”. Diferentemente de Joe e Spiegelman temos uma autora que viveu a opressão em si, mas aproximasse de Maus pelos elementos de testemunho e de Joe Sacco sobre os relatos de guerra.

Nestes três autores desenvolveram na história das HQ’s a tradição recorrente na literatura, que é a literatura de testemunho que surge, principalmente, no pós segunda guerra com Primo Levi, na Alemanha, relatando o sofrimento nos campos de concentração. Na América Latina essa literatura se desenvolverá, principalmente, no período, e pela necessidade, das denúncias das violências estatais pelas ditaduras na latinoamérica. O que aproxima das obras latinas é a condição terceiro-mundistas e a denúncia do imperialismo.

Uma obra de qualidade ímpar que utiliza todas as potencialidades comunicativas do formato de histórias em quadrinho e uma história sensível. Com histórias complexas e de simples entendimento. Um texto que lança olhares ao oriente e suas tradições pelos seus filhos e ainda uma arte gráfica que se inspira na tradição persa.

Primeiro conflito: Um olhar sob a pérsia e aos

Marjane Satrapi é uma filha de família de tradição de esquerda, de classe média no Irã e ensinada por valores de igualdade de gênero, da luta anti-imperialista e da emancipação da classe trabalhadora. Essas particularidades em sua vida marcaram sua obra.

A obra coloca conflito de ser persa e estar no mundo islâmico. Com a queda do império Sassânida, a última dinastia Persa, e a assimilação da religiosidade islâmica pelos persas se deu de maneira peculiar e tendo a mescla cultural e a afirmação das tradições persas como marca, no Irã. Mesmos com as conquistas árabes as tradições religiosas do zoroastrismo e islâmica criam pontos de contato, o idioma parsi se manteve diferente das outras regiões árabes. Tanto que mesmo sendo hoje uma República Islâmica, de fundamento Xiita, ainda se reivindica o persa, mas as leituras religiosas são feitas em Árabe.

A autora-participante faz afirmação de um povo com suas histórias e particularidades vai buscar em seu texto e arte gráfica a defesa da história da Pérsia.

Segundo conflito: Um olhar da mulher sobre a religiosidade

O tom questionador da narrativa se dá fundamentalmente por ser uma mulher que escreve, a primeira ordem de conflito da narradora com a religiosidade será determinada pela ausência das figuras de mulheres profetas e seu desejo infantil de ser um. A segunda ordem de conflito com a religião será o resultado da revolução islâmica e todas as medidas repressivas, sobretudo sobre a mulher. O relato sobre as mudanças na vida e suas novas obrigatoriedade deixa evidente como a constituição de um novo regime se mantém na medida que gera uma nova moral, e seu peso sobre a mulher.

Terceiro conflito: Uma oriental no ocidente, uma oriental ocidentalizada no oriente

A narrativa sempre é muito sensível e cada episódio é figurativo de um caso de opressão. Da visão de exotismo do ocidental sobre o oriente, que nas terras da liberdade ocorria a sua impossibilidade de assimilação. De um ocidente que se aproveita das fragilidades de uma jovem e não aceita suas tradições. De um ocidente que mesmo mais livre sexualmente, se utiliza de outras formas de opressão sobre a mulher.

O retorno ao oriente a autora-personagem depara-se com uma República Islâmica e da mudança na moral das pessoas, uma cidade grafada com imagens das vítimas de guerra.

Uma nova moral sexual, o significado da adoção dos hábitos ocidentais pelas muçulmanas, ora como resistência ora como assimilação.

Arte gráfica

A obra Persépolis é uma literatura de combate ao machismo, ao capitalismo, ao imperialismo, e ao tradicionalismo. Na história do Irã Marjane Satrapi será a primeira mulher a publicar uma história em quadrinhos. Na história das HQ’s uma narrativa que explica um povo e o defende, diferente das HQ’s das Americanas, da Marvel e da DC, marcada por personagens estereotipados, de corpos fetichizados e propagandísticos do imperialismo. De narrativa simples, coerente, de personagens de traços típicos dentro do gênero de HQ faz frente ao estilo das histórias em quadrinhos norte americanas.

Uma excelente recomendação de leitura.




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