Internacional

ELEIÇÕES BRITANICAS

Reino Unido: instabilidade no governo e limites do neorreformismo britânico

Nessa sexta-feria (9) aconteceram as eleições antecipadas no Reino Unido, convocadas pela primeira-ministra Theresa May, que assumiu o cargo depois da renúncia do ex-primeiro ministro David Cameron (ambos do Partido Conservador, ou “tories”, como são conhecidos popularmente) quando sofreu a derrota do referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia, processo que ficou conhecido como “Brexit”.

Artur Lins

Estudante de História/UFRJ

domingo 11 de junho| Edição do dia

Numa estratégia para fortalecer seu mandato frente as negociações do Brexit, Theresa May convocou novas eleições para ampliar a maioria conservadora no parlamento e ter mais base para aplicar, segundo as palavras da primeira-ministra, um “Brexit duro” e favorável aos interesses da burguesia britânica.

No entanto, os resultados eleitorais não saíram como o desejado por May e por sua ala dentro do Partido Conservador. Os tories perderam a maioria absoluta, diminuindo suas cadeiras no parlamento e tendo que formar uma coalizão com outro partido, os Unionistas Democráticos da Irlanda do Norte, também conservadores e que em comum com os tories defenderam a saída do Reino Unido da UE.

A campanha de Theresa May foi marcada por um discurso que ela representava o futuro de um governo forte e estável para levar em frente as negociações da saída do país da UE. Entretanto, a atmosfera das eleições não giravam mais em torno das negociações, e sim por outros temas que dividem a opinião pública britânica.

Cortes nos orçamentos públicos com a continuação de uma política neoliberal de medidas de austeridade; precarização dos serviços de saúde, educação e transportes; atentados terroristas nas últimas semanas que tomaram a atenção da população; instabilidade nos empregos e falta de perspectiva de futuro para a juventude; crise dos refugiados; crise financeira, dentre tantos outros problemas que afetam o Reino Unido.

Tudo isso abalou os objetivos dos conservadores, no que se expressou numa derrota nas urnas mesmo com a maioria dos votos. Também esses temas liquidaram a existência do nacionalista UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), que mesmo com um significativo crescimento nas últimas eleições de 2015 e sendo o principal artífice do referendo que levou a saída do Reino Unido da UE, não conseguiu nessas eleições nenhuma cadeira no parlamento, tendo no total menos de 2% dos votos, deixando de ser uma alternativa de governo viável na política britânica. Até mesmo os Liberais Democratas, que vinham com um discurso de rever a saída do Reino Unido da UE, tiveram um resultado baixo, conseguindo poucas cadeiras no parlamento.

Para os conservadores, a vitória de Theresa May não conseguiu trazer estabilidade nenhuma, nem para o reino e muito menos para o partido. Vozes críticas a May já começam a falar mais alto internamente, criticando sua tática de convocar eleições antecipadas para fortalecer seu mandato e com isso ter acabado perdendo a maioria governamental. E na manhã desse sábado (10), dois conselheiros de May, Nick Timothy e Fiona Hill, demitiram-se de seus cargos, alegando que o governo da primeira-ministra está “sozinho e sem aliados”.

Realmente o tiro saiu pela culatra, e Theresa May irá enfrentar um Reino Unido polarizado, em crise econômica, social e política, longe de uma estabilidade e de um governo forte.

No entanto, o grande vencedor dessas eleições foi o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, que se alçou como uma alternativa viável de governo e que por causa de seu discurso mais a esquerda e anti-austeridade fez com que seu partido aumentasse significativamente o número de cadeiras no parlamento, se tornando assim a segunda maior força política do Reino Unido.

Quem é Jeremy Corbyn e o que ele representou nessas eleições

“Vamos construir uma Bretanha que funcione para todos, e não para poucos”, esse foi o slogan político da campanha dos trabalhistas, encabeçado por Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista desde 2015. Seu discurso centrou nos problemas sociais e econômicos do país, expressando em sua candidatura um sinal de esperança e mudança para uma juventude sem perspectiva e para trabalhadores desencantados com a situação econômica do país e pela política de austeridade levada a cabo por décadas.

Sua campanha foi marcada por um forte apoio de jovens e de sindicatos, e por outro lado por ataques constantes dos conservadores e das principais mídias burguesas britânicas que o taxavam de ser conveniente com terroristas e por querer aplicar um programa socialista. No entanto, mesmo com esses ataques, o eleitorado e o apoio público dos trabalhistas aumentaram muito. Mas, afinal das contas, quem é esse “socialista” de 68 anos que se tornou a principal oposição ao governo conservador no Reino Unido?

Jeremy Corbyn está no meio político desde os anos 80, mas foi nesses últimos anos que ele apareceu com mais força no cenário político. Conseguiu a liderança do partido em 2015 às custas de um enfrentamento com uma oposição ferrenha ao seu programa, querendo reeditar nos trabalhistas uma versão britânica de partidos neorreformistas como o Podemos do Estado espanhol, e do Syriza, da Grécia.

Chegou até mesmo a ser acusado de colocar infiltrados dentro do partido para que pudesse vencer as elições internas para o cargo de presidente. A oposição conservadora de centro e centro-esquerda dentro do partido o acusava de liquidar os trabalhistas, pois seu programa e discurso afastariam um eleitorado “de centro”, temendo uma radicalização de esquerda dentro de suas fileiras.

Com o triunfo interno, Corbyn agora joga para fora o seu programa, expresso no Manifesto do Partido Trabalhista¹, muito influenciado por um certo neokeynesianismo e de inspiração social-democrata.

Nessa campanha eleitoral, Corbyn defendeu a nacionalização parcial de alguns setores estratégicos da economia, como o controle das linhas ferroviárias, de transporte e de empresas distribuidoras de energia e água; aumento do investimento público em saúde e educação; taxação progressiva sobre as grandes fortunas; segurança e estabilidade nos empregos; proteção e diminuição de impostos para pequenas e médias empresas; controle dos preços imobiliários, etc.

Sobre o Brexit, Corbyn diz que aceita o resultado do referendo e buscava melhores negociações com a UE, colocando os interesses dos britânicos na frente, procurando canalizar apoio dos trabalhadores que votaram pela saída do Reino Unido, e que foram deixados de lado pela desindustrialização provacada pela globalização capitalista, e que inclusive votaram nele, motivo da liquidação política do nacionalista UKIP. E ao mesmo tempo, Corbyn reforçava na sua campanha que a culpa do fracasso econômico não derivava dos imigrantes, buscando canalizar votos desses setores sem aparecer um defensor nacionalista e xenófobo do resultado do referendo.

No plano internacional, Corbyn é crítico a intervenções militares imperialistas, principalmente no Oriente Médio e no conflito sírio. Também é opositor a administração Trump, alegando que o presidente norte-americano é culpado por fortalecer a crise geopolítica internacional, ao mesmo tempo que é opositor a agressividade imperialista da Rússia de Putin.

Os limites do programa neorreformista de Corbyn para saída da crise

Apesar de todo o discurso de esquerda do líder trabalhista e do que ele representa como uma mudança para a crise política, social e econômica que vive o Reino Unido, Corbyn, na realidade, defende um programa que não se sustenta nos atuais tempos turbulentos que vive o mundo.

A economia mundial está em retrocesso, e com todos os governos burgueses defendendo medidas de austeridade e ajustes, em conjunto com reformas nos direitos trabalhistas (como foi na Alemanha, França e Brasil, por exemplo) para aumentar os lucros dos capitalistas em detrimento da precarização da vida dos trabalhadores e da juventude.

As burguesias nacionais querem nos impor flexibilidade nos contratos trabalhistas, maiores privatizações de setores estratégicos e de serviços da economia, e mais repressão contra os imigrantes e a classe trabalhadora, sob a bandeira da luta contra o terrorismo.

As reedições dos neorreformismos espanhol e grego que Corbyn quer para o Partido Trabalhista (um partido tradicional do sistema político britânico, criado em 1908) tem o objetivo de renovar a imagem dos trabalhistas, que ficou bastante debilitada depois dos ataques neoliberais que eles mesmos fizeram quando eram governo e que levou a derrota humilhante para o conservador David Cameron nas eleições de 2015. E por outro lado, tem o objetivo de aplicar uma forma de “capitalismo humano e social”, que favorecerá a todos, tanto para a burguesia quanto para os trabalhadores, juventude e imigrantes.

E isso não passa de utopia. O Syriza foi um exemplo disso. Quando esse partido neorreformista grego chegou ao poder com um discurso anti-austeridade, foi obrigado pelo imperialismo, através dos grandes bancos internacionais, a aceitar um humilhante programa de privatizações e ataques aos direitos dos trabalhadores para poder conseguir um empréstimo da UE.

O Podemos no Estado espanhol, não chegou a ser governo nesse país, mas quando se alçou como uma alternativa de governo viável, foi cada vez mais moderando seu discurso, buscando o apoio de setores da burguesia para conseguir vencer as eleições, sem contar as alianças que fizeram com o PSOE, partido que se coloca como socialista mas que também aplicou ajustes e austeridade quando governou o país.

O que foi comum em todos esses processos, tanto do grego quanto do espanhol, foi o fato de que esses partidos buscaram negociar dentro das instituições do Estado burguês e corrompido de seus países para dar uma saída a crise, em vez de apoiar a força independente da classe trabalhadora (o que inclusive já tinha dado exemplos de combatividade nesses dois países contra as medidas de austeridade) para derrubar em chave revolucionária os ajustes e seus governos cúmplices e lacaios dos grandes bancos imperialistas.
É óbvio que as condições econômicas do Reino Unido são diferentes da Espanha e da Grécia, mas a estratégia dos trabalhistas é bastante similar ao dos neorreformistas espanhol e grego.

Um exemplo disso está expresso no Manifesto dos trabalhistas nessa campanha eleitoral. Sobre as nacionalizações de apenas alguns setores da economia (Corbyn não defende todos), os trabalhistas propõem negociações “por cima” para uma transição onde o Estado controle a maioria das ações dessas empresas. Ou seja, os trabalhistas já avisam de antemão que pretendem negociar futuras indenizações aos capitalistas que controlam arbitrariamente setores da economia tão importantes e cruciais a população.

Corbyn também não critica a luta contra o terrorismo, pois defende a contratação de mais policiais para fazer a “segurança”, quando a fonte desses ataques é o fim das intervenções militares, e mesmo ele sendo contra as agressões imperialistas em seu discurso, no seu programa está proposto o aumento no orçamento da defesa, a não crítica a OTAN, e o que significa alimentar ainda mais a indústria de guerra. O caráter capitalista do Reino Unido é imperialista, esse país é uma das maiores economias do mundo e sua burguesia não pode se dar ao luxo de deixar de intervir militarmente em conflitos internacionais que ameaçam seu domínio econômico ou geopolítico.

Ou seja, Corbyn defende um programa que enfrenta muitos obstáculos pela frente, quando justamente os meios que ele busca para aplicar isso dá de cara com forças políticas burguesas que são ferrenhas opositoras a um programa, que mesmo limitado, faz com que ela perca um pouco de seus lucros, e quando ao mesmo tempo defende uma aprofundação dos ataques aos direitos da classe trabalhadora para conseguir lucrar mais em períodos de retrocesso econômico e de incertezas políticas.

Não é tempo para buscarmos construir um país que favoreça a todos, a crise capitalista iniciada em 2008 na Europa é uma prova cabal disso. Vivemos em épocas de declínio do projeto burguês neoliberal e dos reformismos social-liberais. Apenas a força e mobilização independentes da classe trabalhadora, aliado aos setores oprimidos da sociedade, podem dar uma resposta à crise e e impor a defesa de seus interesses, que estão longe do que deseja a burguesia em tempos de crise.




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