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Redemoinho: um filme seco, cruel, real

Em cartaz desde o dia 9 de fevereiro, o filme Redemoinho, estreia no cinema do diretor televisivo José Luiz Villamarim - diretor de produções como Avenida Brasil, O Canto da Sereia e O Rebu – é um registro das pequenas cidades brasileiras; os mistérios que todos os habitantes conhecem, mas que mesmo assim são segredos.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

sexta-feira 17 de fevereiro| Edição do dia

A estreia do diretor televisivo José Luiz Villamarim nas telas de cinema, com a adaptação do livro "O Mundo Inimigo – Inferno Provisório Vol. II" de Luiz Ruffato, guardava essa questão como se sairia o diretor global – de hits como a novela Avenida Brasil, a série O Canto da Sereia e O Rebu, entre outros - num outro tipo de linguagem artística. Pois é justamente pela estética e pelas técnicas de direção que o filme se sobressai- os cortes secos, a câmera parada, belos enquadramentos.

O mundo, as grandes e pequenas cidades, o outro, tudo é agressivo ao ser humano. Redemoinho é sobre isso, mas não só.

Há algo típico das pequenas cidades brasileiras; os mistérios que todos os habitantes conhecem, mas que mesmo assim são segredos; uma agonia e ansiedade em querer fugir, buscar outra vida na cidade grande; o medo de que sua vida siga o ciclo imposto por um sistema capitalista: ter filhos, trabalhar até morrer, ver seus filhos começarem a trabalhar até que morram, e assim por diante, como que se estivessem presos na canção "Pedro pedreiro", de Chico Buarque.

A linha de trem, o rio e a ponte também são uma característica própria e estrutural das cidades interioranas.

O filme que se passa na cidade de Catagueses se inicia com o som da chuva sobre a ponte - local em que todo o mistério ocorreu -, como se fosse o som da calmaria antes da tormenta, em seguida o corte seco para o som alto do trem passando invadindo as casas construídas ao redor da linha férrea, outro corte seco e o som alto da tecelagem onde trabalha Luzimar, interpretado por Irandhir Santos, com problema de audição.

Trabalhar, bater o cartão, voltar para casa de bicicleta a tempo da ceia de natal; toda a trama se passa nesse espaço de tempo.

O reencontro de Luzimar com Gildo, amigo de infância interpretado por Júlio de Andrade, que foi tentar a sorte em São Paulo, a cidade grande, desenterra segredos e dores do passado e de agora muito bem guardados.

O homem que trabalha até sua morte na esperança de algo melhor, o homem que foi buscar vida melhor na cidade grande, a mãe que quase não fala e é tratada como empregada, a mulher que tentou o suicídio quando era jovem, a ex-prostituta que tem que calar os abusos que sofre, o louco que bate na mãe pelo dinheiro para a cachaça, a mãe que apanha do filho louco e que ainda assim reza por ele; são todos personagens reais retratados sem efeitos melodramáticos, sem empatia - os cortes da câmera e o distanciamento dela contribuem de maneira brilhante para isso - como se o outro fosse apenas o outro em uma sociedade que nos embrutece individualmente. Não há redenção para nenhum dos personagens em Redemoinho, assim como não há redenção no capitalismo.

Pensando no estereótipo mais óbvio do cinema brasileiro, que se consagrou ao retratar a realidade das favelas e sua violência explícita, desde de Cidade de Deus a Tropa de Elite; podemos contrastar como mais recentemente o cinema nacional vem se notabilizando por enfocar outras realidades e espaços desse mesmo Brasil, mas que também se caracterizam pela violência, uma violência mais sutil que parece estar sempre à espreita, entretanto, que também remetem as mesmas contradições e desigualdades do nosso país. Seja a violência que ronda o aparente pacato subúrbio de O som ao redor, seja a luta contra a especulação imobiliária na metropolitana Recife de Aquarius, ou ainda a violência do conservadorismo das cidades interioranas como agora em Redemoinho.




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