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RACISMO INSTITUCIONAL

Recorde nos assassinatos policiais no Rio é fruto da política racista e de extermínio estimulada por Wilson Witzel

Nesta terça (14), foi divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) que no trimestre do início do ano o nível de letalidade das operações policiais bateu seu maior recorde em 21 anos no Rio de Janeiro, desde que a série estatística foi criada. Segundo os dados oficiais, 434 mortes foram cometidas pela Polícia Civil e Militar, o que representa uma média de quase cinco (4,82) mortos por dia.

quinta-feira 16 de maio| Edição do dia

Segundo especialistas que estudam a questão da violência urbana, como o pesquisador da UERJ Ignacio Cano, a escalada dos assassinatos policiais está associada à intervenção federal na segurança do estado, chefiada pelos militares, e que cresceu no governo Wilson Witzel (PSC), reforçada pela sua política racista de segurança pública, baseada no confronto militar contra qualquer tipo de pessoa considerada suspeita pela Polícia, sendo os jovens negros a sua preferência. Ainda segundo o pesquisador, o resultado não é surpreendente, pois essa política do governo do Rio é a da oficialização do extermínio: “O contrário seria uma grande surpresa”.

Nas duas últimas semanas do mês de maio, só para ficarmos em um mês, temos vários exemplos concretos da realidade que os dados oficiais nos informam, mesmo de uma forma ainda parcial. Numa operação no Morro do Borel, quatro pessoas foram assassinadas, na Rocinha, apenas uma segundo os dados do governo, enquanto no Complexo da Maré foram oito mortes. Moradores da Maré relataram que no auge da ofensiva policial nos primeiros dias desse mês, muitos disparos foram feitos a partir do helicóptero que sobrevoava o complexo. Também circularam nas redes sociais imagens e vídeo de estudantes uniformizados correndo pelas ruas da favela, na tentativa de se proteger dos tiros alvejados pela Polícia, o que resultou numa campanha promovida pelo projeto social Uerê na Maré, denunciando a violência policial, baseada na colocação de cartazes perto de escolas da região com a seguinte frase: “Escola. Não Atire”.

Para além da agenda pública de extermínio da população negra e de favela, dois dias antes da operação na Maré, Wilson Witzel, de uma forma chocante, expôs na prática sua política de confronto, apresentando imagens da sua participação em um helicóptero numa operação policial em Angra dos Reis, na região sul do estado. A ação policial resultou em tiros lançados a uma tenda religiosa, por sorte não havia ninguém orando no momento. Ao lado de policiais armados da Coordenadoria de Operações Especiais (Core) da Polícia Civil, a mesma unidade que agiu na Maré, o governador bradou que “acabou a bagunça”.

Em resposta a essa atrocidade, a deputada estadual Renata Souza (PSOL), denunciou na ONU e na OEA, nessa última semana, o governador por sua política de segurança, citando abertamente a sua presença na operação no helicóptero em Angra. Em reação, parlamentares do PSC, partido de Witzel, protocolaram na Assembleia Legislativa um pedido de cassação do mandato da deputada, alegando que ela “quebrou o decoro parlamentar” ao fazer “uma manifestação pessoal disfarçada de institucional” contra o governador. Uma grande prova da tentativa desses parlamentares em intimidarem e perseguirem qualquer voz dissidente e que denuncie o plano racista e genocida da política do governo para a segurança pública.

Por mais que o governo responda aos questionamentos dos grupos de direitos humanos, alegando que as ações policiais são “treinadas” e “técnicas” para reprimir somente o tráfico de drogas e o porte de armas por traficantes, os dados oficiais, mesmo que incompletos e vindos do mesmo Estado que comete e reforça os assassinatos, mostram que a capacidade técnica e efetiva da polícia está em matar inocentes, principalmente aqueles enquadrados historicamente no perfil dos perseguidos por esses mesmos aparatos repressivos: jovens negros, de favela e trabalhadores.

Atrás do discurso da guerra às drogas, e agora ao “narcoterrorismo”, Wilson Witzel, o clã Bolsonaro e a ala militar estimulam e reforçam institucionalmente a barbárie tão característica do estado do Rio de Janeiro, combinada com a potencialização da exploração econômica desejada pelos patrões, levando a cabo um programa agressivo de ajustes no orçamento dos serviços públicos e de privatizações no estado fluminense, promovendo nacionalmente também a reforma da previdência, que até o momento se configura em um dos ataques mais importantes dos capitalistas aos direitos históricos dos trabalhadores.

Em apenas cinco meses de governo, esse governador com requintes de psicopatia, desde que assumiu o poder já mostrava seu nível extremo de racismo, anunciando, por exemplo, que nas torres da polícia seriam colocados snipers para aterrorizar as populações de favela, e nesse caso, a de Manguinhos, em que Rômulo Oliveira da Silva, morador da região, morreu vítima de uma bala muito bem direcionada por esses snipers em direção ao seu peito, o que também foi elogiado e defendido por Witzel. O governador também chegou a elogiar operação policial que deixou vários mortos pelo caminho, como foi a do Fallet em fevereiro, resultando em 15 mortes confirmadas oficialmente, e que segundo os relatos de muitos moradores os policiais realizaram um verdadeiro “tribunal de rua”, executando sumariamente os suspeitos detidos e caçados na operação. Quando perguntado sobre essa chocante missão policial, Wilson Witzel disse que “foi uma ação legítima da Polícia Militar”, chegando a elogiar os policiais envolvidos no massacre em plena manhã no Bom Dia RJ da rede Globo, ao lado do comandante da ação.

Em relação a outro recente acontecimento bárbaro, como o assassinato do músico Evaldo dos Santos Rosa, quando seu carro foi “confundido” pelos militares como o mesmo utilizado por traficantes, tendo sido disparados 200 tiros contra a família do músico, o governador declarou que os militares que mataram Evaldo tinham agido de forma inapropriada porque não sabiam agir nessas circunstâncias como os “experientes policiais militares”, alegando que ainda faltava muito para os jovens do Exército chegar ao nível de desempenho repressivo da Polícia.

Por sua vez, a ala militar do governo Bolsonaro, quando não o próprio presidente, também reforça essa política de segurança, como faz o general e vice-presidente Hamilton Mourão, ao comentar sobre a morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, alegando que os militares que cometeram o assassinato estavam “sob forte pressão e sob forte emoção”, como também em potencializar a violência policial e o extermínio da população negra e de favela, em nome da sacrossanta guerra contra as drogas e ao “narcoterrorismo”, banalizando e naturalizando a barbárie racista em que vivemos atualmente com declarações e discursos degradantes.

Repudiar veementemente as arbitrariedades policiais e os ataques de Witzel não se separa das demais lutas democráticas e contra os desmontes dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores, levados a cabo a nível nacional pelo governo Bolsonaro. Sabemos que, historicamente, quem ganhou com esses tipos de discurso e com operações policiais desse porte para reprimir o tráfico de drogas foi a milícia. Não à toa, tem sido ela quem vem ganhando cada vez mais espaço no controle dos territórios, depois do fracasso das UPPs e do gerenciamento genocida das populações negras e de favela pelo Estado.

Nesse sentido, nós do Esquerda Diário defendemos a necessidade mais que urgente de não deixar esses crimes passarem impunes, desde Marielle Franco, de Evaldo dos Santos e dos tantos negros e moradores de favela que padeceram nas ações criminosas, genocidas e racistas do Estado brasileiro. Nesse objetivo, a perspectiva de luta está no fim das leis e das estruturas que permitem a generalização banal da impunidade, como os autos de resistência, da Justiça Militar e a exclusão de ilicitude para a polícia, como o pacote do ministro da Justiça Sérgio Moro pretende implantar, e que tem todo o apoio desse governador racista do Rio. Por outro lado, na apuração justa desses casos bárbaros, não se pode confiar no próprio Estado que mata, tendo que ser realizados por júris populares e com a atuação de organizações e especialistas independentes, para assim se garantir justiça para as vítimas da política de extermínio promovida por Witzel, Bolsonaro e militares.




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