Negr@s

TURBANTE

Racismo, turbante e os verdadeiros inimigos do povo negro

No último dia 12 de fevereiro, a jovem de 19 anos Thaune Cordeiro relatou na internet que havia sido abordada por mulheres negras contrárias ao seu uso de um turbante. No desabafo que acabou por viralizar, a jovem, que está passando por tratamento de câncer, disse que “vai ter todas usando turbante sim”. Tem havido reações diferentes mas no centro se encontra o questionamento sobre se é ou não legítimo que uma pessoa branca use turbante.

Jenifer Tristan

ABC Paulista

Vanessa Oliveira

Professora do ABC

quarta-feira 15 de fevereiro de 2017| Edição do dia

À utilização de elementos da cultura negra pela população não-negra costumou-se chamar de apropriação cultural. Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que vivemos em uma sociedade profundamente racista. A forma pela qual a economia se organiza no mundo, a capitalista, não pode sobreviver sem profunda opressão ao povo negro. É a população negra que tem os piores empregos, salários mais baixos, menor possibilidade de acesso à educação superior; são os negros que não tem acesso à saúde, moradia e educação digna. E se o capitalismo depende da opressão ao povo negro, essa opressão se faz sentir com toda força nas mulheres negras.

Reconhecer a existência do racismo em um país como o Brasil tem também um sentido especial, pois aqui o senso comum ainda está muito permeado pelo mito da democracia racial, que de diversas maneiras defende que não existe racismo no Brasil. Assim, se por um lado o próprio Estado e o senso comum hoje reconhecem parte da cultura negra o fazem mantendo o racismo ao se apropriarem daquela apresentando-a como “cultura popular”. Isso acaba por esconder que durante décadas as práticas culturais negras, como o samba a capoeira e a prática de religiões de matriz africana foram brutalmente perseguidas pelo Estado, pela Igreja e pela classe dominante e somente existem hoje em virtude da resistência negra. Enquanto locais de culto de religiões de matriz africana são atacadas com o aval da polícia (quando não diretamente pela própria), a legislação brasileira garante isenção de impostos à Igrejas.

Os principais inimigos da população negra são a burguesia e seus agentes, em relação à repressão, no campo da cultura e tantos outros. Os escravocratas que arrancaram os negrxs de seus países de origem tentaram arrancar a todo custo nossa cultura, seja impondo o cristianismo para não ser escravizado seja criminalizando ainda hoje os negrxs por expressarem sua cultura. Mas os negros sempre resistiram na história da escravidão e hoje resistem forte e bravamente. É por conta dessa resistência e pelo peso social que a população negra tem que as grandes empresas, sejam comerciais ou do ramo do entretenimento, buscam se apropriar de aspectos da cultura negra da maneira que lhes convém.

Frente à realidade racista que oprime e dilacera em vários aspectos a cultura negra é compreensível que setores do movimento negro queiram reivindicar e defender os aspectos de sua cultura, associando-os a uma prática restrita à população negra Porém, há setores do moimento negro que fazem essa defesa de maneira distorcida e acabam perdendo o norte de quem são de fato os inimigos dos negros e daqueles que buscam uma sociedade mais digna e sem racismo. Nossos inimigos não são os indivíduos que usam turbantes, nossos inimigos são em primeiro lugar o próprio capitalismo, a ideologia dominante que se expressa de diversas maneiras e o Estado racista que nos esmaga todos os dias. São as empresas que buscam lucrar com a cultura negra, são os meios de comunicação nas mãos dos capitalistas que reproduzem todo tipo de racismo, são as revistas de moda que tratam aspectos da cultura negra como mercadoria e para tanto sequer se valem de mulheres negras. Esses inimigos dos negros são os responsáveis pelo silêncio que rodeia o que diz respeito à vida do povo negro. Silêncio em relação ao assassinato sistemática da juventude negra pela polícia militar, silêncio em relação às milhares de mulheres negras mortas por abortos clandestinos. Silêncio também ao não permitirem que as vozes negras se façam ouvir nos teatros, nos filmes, nos hospitais, nas universidades. Quantas vidas negras, quanto talento, quanta energia ainda serão sufocadas e apagadas pelo capitalismo?

Esse mesmo silêncio se rompe quando uma jovem branca se vê acuada por usar turbante. É possível dizer que não há racismo quando uma declaração desse tipo ganha mais atenção concentrada que o drama da juventude negra?

Partindo do que colocamos acima é necessário dizer uma vez mais: inimigo não está no indivíduo e, tampouco nesse caso em numa jovem que passa por tratamento de saúde contra o câncer. Ao passo que combatemos ofensivamente o racismo e a demagogia da elite racista e escravocrata que nos arrancou nossa cultura, lutamos por uma sociedade livre da exploração e da opressão e defendemos a total liberdade aos corpos e manifestações culturais. Thauane Cordeiro deve ter o direito de se vestir da maneira que quiser, pois o fato de usar um turbante não lhe coloca na mesma condição do Estado burguês ou apaga a cultura negra.

Nos apropriamos da história e dos ensinamentos dos revolucionários que justamente porque reconhecem que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, partem de ver que o principal obstáculo que temos para defender a cultura negra e para que a humanidade possa se desenvolver plenamente não são indivíduos como Thauane, mas a manutenção de um modo de produção que nos aprisiona e nos oprime, que destrói a cultura e a arte de povos inteiros. Destruir esse sistema miserável é fundamental para defender e preservar todo o legado da cultura africana. Ao mesmo tempo, este combate não pode nos levar a ignorar todos os avanços produzidos pela humanidade, avanços expressos nas mais distintas formas de manifestação artística, e na cultura desenvolvida pelos povos ao longo da história, que precisam ser defendidas, conhecidas e apropriados, no melhor sentido possível da palavra, pelo conjunto da humanidade!




Tópicos relacionados

Racismo   /    Negr@s

Comentários

Comentar