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CICLO MARXISMO NORDESTE

Questão negra e marxismo: ciclo de atividades do Esquerda Diário lota auditórios no Nordeste

O ciclo de atividades “Questão negra e marxismo” no Nordeste, impulsionado pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) e o Esquerda Diário, deixou lotados os auditórios da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, e da Universidade Federal de Campina Grande na Paraíba.

André Augusto

Natal | @AcierAndy

sexta-feira 25 de agosto| Edição do dia

O ciclo de atividades “Questão negra e marxismo” no Nordeste, impulsionado pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) e o Esquerda Diário, deixou lotados os auditórios da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, e da Universidade Federal de Campina Grande na Paraíba.

A partir da palestra de Marcello Pablito, trabalhador do Restaurante Universitário da USP e membro da Secretaria de Negras e Negros do Sintusp, distintas intervenções mostraram o interesse e o entusiasmo que gerou a abordagem que liga o combate ao racismo à estratégia do marxismo revolucionário para destruir o capitalismo.

Em Natal, na UFRN, mais de 60 pessoas lotaram o auditório do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes para debater as raízes da ideologia racista e a importância do marxismo revolucionário como arma de emancipação dos negros. Foi com muito orgulho que no centenário da maior revolução que a classe trabalhadora já realizou em sua história recuperamos e tornamos vivas as ideias de grandes dirigentes revolucionários como Leon Trotsky, assassinado barbaramente pelo stalinismo há 77 anos, apontando aos negros e negras que se revoltam contra a opressão racista uma perspectiva de combate revolucionário.

Nesta atividade apresentamos algumas das lições deixadas por dirigentes negros que foram parte das fileiras da IV Internacional como CLR James, que escreveu o texto que dá nome ao livro “A Revolução e o Negro” (a maioria, textos inédito em português), que publicamos pelas edições Iskra, além de contribuições de George Breitman, do próprio Trotsky e também contribuições próprias de nossa corrente que busca manter os fios de combate revolucionário apontados por estes dirigentes trotskystas.


Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Marcello Pablito expôs como CLR James revelou ao mundo a primeira revolução negra vitoriosa da história, onde os próprios negros puseram fim à dominação colonial da França, derrotaram o exército britânico e posteriormente o napoleônico, com isso acabando com a escravidão, conquistando com os métodos revolucionários aquilo que a burguesia mesmo em sua fase revolucionária de luta contra a nobreza jamais poderia conceder aos negros. Contra a vontade daqueles que combatem mais o marxismo do que a própria ideologia burguesa, foi extremamente enriquecedor entender que esta genial contribuição de James - que se valia da teoria da revolução permanente no combate ao stalinismo - à luta do povo negro tem a ver justamente com o fato de que como marxista revolucionário enxergava o mundo com as lentes da luta de classes, lugar onde os negros sempre tiveram lugar na primeira fileira.

Esta fala é parte de um combate contra aqueles que querem a qualquer custo garantir a separação entre o marxismo, a classe trabalhadora e os negros, deixando-os reféns das semi-estratégias de ‘empoderamento individual’ ou no reconhecimento de sua identidade apenas na esfera do consumo e, assim, buscando apagar a heroica luta do povo negro e tirar do seu horizonte a palavra revolução”, afirmou Pablito. Ao negar o marxismo como uma ferramenta revolucionária de combate ao racismo, estas concepções, que sempre terminam por diminuir a ambição da luta dos negros, transmitem a ideia de que os negros devem reiniciar sua caminhada sempre do zero, tornando assim ainda mais tortuoso o seu caminho para conquistar a liberdade e o fim da exploração e da opressão.

Na cidade paraibana de Campina Grande, o auditório da UFCG também se viu lotado com mais de 70 pessoas para debater a história do povo negro no marco da luta de classes mundial, com especial atenção para a revolução negra vitoriosa do Haiti, e a vinculação indissolúvel da luta contra o racismo com a necessidade de um programa anticapitalista.

Na Universidade Federal de Campina Grande

O marxismo foi extremamente atacado nos últimos anos, a ponto de que em alguns espaços o máximo que se tolerou foi um marxismo analítico, onde a luta de classes era uma ausente, arrancando assim a alma dessa grande arma do proletariado mundial na luta pela sua libertação e tornando o algo inofensivo para decorar as citações e notas de rodapé. Em relação à questão negra não foram poucas as tentativas de manchar a história do marxismo como algo que não diz respeito à luta do povo negro. Parte desta operação para desqualificar o marxismo, levada a cabo por autores como o cubano Carlos Moore, só foi possível recorrendo a grotescas falsificações históricas e tentando confundir o pensamento marxista com o stalinismo, deturpando e corrompendo a força da teoria, da ciência e da estratégia contida no marxismo revolucionário,” afirmou Pablito.

Partindo de uma análise histórica do desenvolvimento do capitalismo, Pablito demonstrou como o racismo se desenvolveu no seio deste modo de produção e como o capitalismo se apropriou e se utilizou do racismo de variadas formas. Se nos séculos anteriores o racismo esteve a serviço de justificar uma das piores aberrações da história da humanidade com a escravização de milhões de seres humanos, atualmente é uma ideologia que permanece completamente viva em nossa sociedade. Sobre esse aspecto declarou que:

Na sociedade capitalista, uma sociedade assentada na propriedade privada dos meios de produção como as terras, as fábricas, todas as riquezas acumuladas pela burguesia provém da apropriação privada e criminosa do trabalho produzido pelas mãos do conjunto da classe trabalhadora. Esta relação de exploração permite ao capitalista dividir a classe trabalhadora e pagar salários mais baixos, direitos inferiores aos trabalhadores negros, relegando-os aos trabalhos mais precários, ou seja, utilizar o racismo como um instrumento fundamental para ampliar a exploração ao permitir uma maior extração de mais-valia dos trabalhadores negros. No caso das trabalhadoras negras esta operação é ainda mais terrível, pois à exploração capitalista se soma o peso da opressão machista e racista que no fim lhes relega a pior localização social. Este mecanismo é extremamente perverso e não atinge apenas os trabalhadores negros, pois rebaixando as suas condições de vida e de salários os capitalistas conseguem rebaixar os salários e condições de vida do conjunto da classe trabalhadora.”

Ao mencionar como o marxismo tratou o combate ao racismo ao longo da história se resgataram as resoluções do IV Congresso da Internacional Comunista de 1922, antes de que o stalinismo tivesse corrompido o seu caráter revolucionário, onde os marxistas defenderam com toda força o direito elementar de que os negros fossem aceitos nos sindicatos e a igualdade salarial entre negros e brancos.

“É um orgulho fazer parte de uma corrente internacional que ao longo de toda a sua história se enfrentou contra o imperialismo, de um lado, e contra o stalinismo, de outro, para que os negros, em aliança com seus irmãos de classe brancos, pudessem ser os sujeitos políticos de sua própria emancipação revolucionária através da destruição do capitalismo,” disse Pablito

Essa iniciativa corresponde à importância que tem a questão negra no Brasil (o maior país negro fora da África) e em particular na região nordestina onde a questão negra tem um importante peso social e político. Numa situação internacional marcada por expressões do racismo e da xenofobia como se mostrou na recente marcha em defesa da supremacia branca na Virginia, nos Estados Unidos e nas milhares de mortes de imigrantes africanos que tentam fugir da fome e das guerras através do Mediterrâneo, tornando mais evidente do que nunca que o capitalismo não tem mais a oferecer aos negros do que o aumento da miséria e da opressão.

No Brasil, em um contexto de avanço das contrarreformas reacionárias do governo golpista de Temer (como a PEC do teto dos gastos públicos, a reforma trabalhista, uma série de privatizações que dão sinal verde a demissões em massa, a ameaça da reforma da previdência e a reforma política) são os negros os que mais sentem os efeitos destas medidas neoliberais. A direita que hoje dirige essas contrarreformas reacionárias teve seu caminho facilitado e pavimentado pelos governos do PT, que aplicou ajustes contra os trabalhadores, incrementou a precarização do trabalho e foi conivente com o massacre da juventude negra pelas forças repressivas do Estado, além de ocupar com tropas brasileiras o heróico país haitiano.

São os negros que compõem 64% dos desempregados de todo o país, ocupando os postos de trabalho mais precários com menores salários e menos direitos, são a maior parte da população carcerária e os alvos prioritários das chacinas policiais, mostrando como o racismo é mais vivo do que nunca e serve ao capitalismo. O Nordeste é a região do país com a maior taxa de desemprego: Pernambuco lidera a lista de estados, com 18,8% de desemprego, seguido por Alagoas (17%). De todos os trabalhadores que perderam seu emprego desde 2014, 70% se encontram no Nordeste e em estados como o Rio Grande do Norte os índices de assassinatos dos negros pela policia chega a 82% das mortes escancarando o caráter reacionário e racista dessa instituição.

Mas não se trata apenas de discutir o conjunto das misérias e sofrimentos a que os capitalistas submetem os trabalhadores, em especial a massa de trabalhadores negros que é parte substancial dela. O objetivo do ciclo de atividades – e a razão do entusiasmo que gerou – foi recuperar a tradição da luta revolucionária dos negros na história (que como disse CLR James, “é rica, inspiradora e desconhecida”) e mostrar quão grande pode ser a ambição do povo negro quando se levanta para questionar o conjunto do sistema econômico capitalista, que há séculos desenvolve a ideologia racista da qual se serviu para justificar a aberração da escravidão negra.

Depois de cada atividade, os presentes tiraram fotos em solidariedade aos metroviários de São Paulo, que estão sendo perseguidos pelo governo Alckmin por lutarem contra a privatização do metrô, e exigiram sua readmissão; e também exigiram a liberdade a Rafael Braga.


Solidariedade aos metroviários de SP, e exigência de liberdade a Rafael Braga

Para os dias de hoje esses ensinamentos são fundamentais, para entender que um combate consequente contra o racismo, significa batalhar para que as organizações da classe operária e seus sindicatos assumam as demandas dos negros como parte integrante e fundamental de seu programa de reivindicações, superar a separação que ocorreu historicamente entre as demandas econômicas e as demandas políticas e priorizar a defesa dos setores mais oprimidos dentro da própria classe operária, defendendo a unidade das fileiras operarias através, por exemplo, da defesa da igualdade de direitos e salários entre trabalhadores negros e brancos, homens e mulheres, efetivos e terceirizados, imigrantes e nativos. Este combate é parte de uma estratégia para que os trabalhadores assumam em suas mãos a defesa de todos os setores oprimidos da sociedade, pois são a única classe capaz de usar sua localização estratégica, centros nervosos da produção e circulação de mercadorias, para arrancar das mãos da burguesia o poder.

(Em breve, o vídeo da intervenção completa estará disponível no Esquerda Diário)




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