Cultura

LITERATURA E REVOLUÇÃO

Quando Trotski rondou o debate estético de 68: 50 anos de Literatura e Revolução no Brasil

Quando o espectro de Trotski rondou o debate estético de 68: os 50 anos da publicação de Literatura e Revolução no Brasil(e sua atualidade neste conturbado ano de 2018). PARTE 1 .

Afonso Machado

Campinas

sábado 24 de março| Edição do dia

As fardas até tentaram abafar o som das ruas. Os cassetetes golpeavam no vazio no momento em que a ditadura militar tentava intimidar a energia política contestadora: por cada centímetro dos corpos em luta as palavras revolução e liberdade ecoavam e faziam a cultura transpirar, transbordar. Era o Brasil de 1968... Aqueles que experimentavam um orgasmo histórico seriam logo reprimidos pra valer a partir do fatídico dia 13 de dezembro, em que foi decretado o Ato Institucional Número 05. Levando em conta que o debate estético acompanhava o sentimento revolucionário na política, a arte brasileira procurava em 68 caminhos para responder a uma situação repressiva iniciada com o Golpe de 64. Neste contexto de agitação, a editora Zahar publicava pela primeira vez no Brasil o clássico Literatura e Revolução(1923), de Leon Trotski.

De acordo com documentos envolvendo cartas, tudo indica a primeira tradução de Literatura e Revolução para o português teria sido feita pelo poeta surrealista e militante trotskista Benjamin Péret. Em sua estadia no Brasil em 1929-31, Péret foi vitima de repressão política: além de preso e deportado por suas atividades políticas, o escritor francês viu a polícia apreender e destruir vários dos seus escritos, dentre os quais encontrava-se a tradução do livro de Trotski. Se no final dos anos 20/início de 30 o livro quase veio a público num Brasil marcado pelo abalo econômico iniciado com a Crise de 1929, pelo colapso da política do café com leite e pelo escândalo provocado pela ala antropofágica do modernismo brasileiro, em 1968 a obra adentra por um cenário histórico não menos turbulento: o livro cai de paraquedas agora no Brasil dos novos antropófagos do tropicalismo, dos operários em greve, dos estudantes e militantes que desafiavam o autoritarismo do governo militar.

É claro que não podemos olhar para a publicação de Literatura e Revolução em 1968 como um corriqueiro evento editorial: a brilhante crítica literária de Trotski que discorria sobre a produção artística soviética dos anos 20, oferecia uma análise marxista das questões culturais que era relativamente estranha e escandalosa demais para alguns marxistas brasileiros do período. Os problemas abordados por Trotski na obra( tais como a impossibilidade histórica da cultura proletária, a necessidade de valorizar experiências estéticas inovadoras/transgressoras mesmo que sejam filosoficamente estranhas ao comunismo, a análise materialista da arte e a importância da liberdade de expressão dentro da Revolução), não eram tão distantes das urgentes questões culturais/políticas do Brasil do final dos anos 60: a participação dos artistas na luta contra a ditadura, a concepção marxista da arte, o problema da comunicação artística revolucionária entre artistas de classe média e o proletariado, e como o marxismo poderia interpretar a tempestade colorida do tropicalismo, que colocava violentamente sobre a paisagem artística a contracultura e uma tonalidade pop. Mas será que este livro, bastante conhecido entre estudiosos e militantes trotskistas, é culturalmente oportuno somente na barulhenta conjuntura política de 1968? É importante refletir como a publicação de um livro escrito na União Soviética dos anos 20 e publicado no Brasil de 68, ainda ecoa em 2018. Isto se explica por diversas razões.

Respeitando as particularidades de cada contexto, as diferenças no desenvolvimento das realidades históricas separadas pelo tempo(e que conferem especificidades aos três mencionados períodos), o fato é que polarizações ideológicas e o clima de terror são realidades(ainda que distintas em seus contextos sociais, em seus níveis históricos) tanto em 1968 quanto em 2018. Em 68, quando a juventude se rebelava contra o cabresto capitalista/patriarcal, as forças de repressão mataram Edson Luís, procuraram calar trabalhadores, estudantes, artistas e intelectuais. Já no Brasil dos nossos dias, ainda que se viva dentro de uma democracia burguesa, existe um novo rio violento que separa os partidários do proletariado e das minorias( sexuais e étnicas) dos setores conservadores que querem frear/impedir os avanços sociais. É um país indignado com o assassinato da militante Marielle Franco, um crime de repercussão internacional. É um país em que professores são espancados, em que operários trabalham até os ossos ficarem moídos. Em épocas de polarização ideológica, em que a arte precisa se apresentar publicamente enquanto esforço libertário, necessitamos de referências teóricas; e o livro de Trotski está aí pra isso.

Pensar a obra Literatura e Revolução passa muito longe de um mero exercício intelectual relacionado à crítica literária: diante da necessidade atual do movimento dos trabalhadores ganhar força política, é preciso expor corretamente as complexas relações entre arte e revolução, afim de fortalecer um amplo e independente movimento cultural cuja missão é despertar a personalidade humana nas massas. A maneira como a arte se relaciona com o socialismo ainda é o nó górdio na vida cultural da esquerda. Fundamental nesta obra de Trotski é a compreensão histórica dos problemas culturais colocados para a classe trabalhadora, e o quanto a liberdade intrínseca à produção artística e a assimilação das heranças estéticas de outros períodos históricos, são vitais para o desenvolvimento das formas de arte revolucionária do presente. O encontro do livro de Trotski com a geração de 68 e com os militantes de hoje em dia, envolve oportunidades históricas para se refletir sobre os problemas da arte/literatura sem cair nas clássicas deformações ideológicas de matriz stalinista.

O livro ensina a pensar que a arte socialista não irá surgir com decretos ou números de mágica. Na referida obra o autor se viu diante do desafio histórico de pensar a arte a partir de um Estado operário consolidado: (...) “ O proletariado será capaz de preparar a formação de uma cultura e uma literatura novas, isto é, socialistas, não por métodos de laboratório, à base da pobreza , necessidade, da ignorância de hoje , mas a partir de meios sociais, econômicos e culturais consideráveis(...). Trotski expõe mais adiante a contradição histórica fundamental que cai como uma bigorna sobre artistas e intelectuais marxistas brasileiros, seja em 1968, seja em 2018: (...) “ Ela... [a contradição em questão] consiste na separação criada pela sociedade burguesa entre trabalho intelectual, incluindo a arte, e o trabalho físico(...) A Revolução , por seu turno, é a obra de homens que fazem o trabalho físico. E um dos seus objetivos últimos é superar a separação desses dois tipos de atividade “(...). Naturalmente para militantes brasileiros que se ocupam de problemas culturais, este fato remete a uma velha questão : a complexa relação entre artistas de esquerda(não raramente intelectuais marxistas advindos da classe média, ou próximos a ela) e trabalhadores(não raramente pouco ou quase nada familiarizados com a crítica marxista).

A geração de militantes brasileiros de 1968 não viu povo chegar ao poder. O Golpe de 64 já tinha feito um estrago. Ainda que imersa sobre mil erros políticos, frutos dos inúmeros equívocos do Partido Comunista na leitura da realidade brasileira e internacional, a arte revolucionária dos tempos do governo Jango aproximava relativamente artistas e intelectuais(provenientes da classe média) de operários, camponeses, sodados e marinheiros. Em 1964 a ponte tinha sido dinamitada: a burguesia brasileira aliada com o imperialismo norte americano, bateu na mesa e cobrou repressão política. Veio a ditadura militar. O clima internacional de rebeldia que avançava em 1968 também elevou a temperatura no Brasil. Artistas e intelectuais buscavam resoluções estéticas e políticas. Eles se encontraram, por exemplo, em agosto daquele ano, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, para discutir arte revolucionária. O que o livro de Trotski teria a dizer exatamente naquele contexto histórico? Na segunda parte deste artigo, iremos refletir sobre a questão a partir do prefácio O Marxismo E A Questão Cultural, escrito por Luiz Alberto Moniz Bandeira, para a edição de 1968 do livro de Trotski. Veremos também como algumas passagens de Literatura e Revolução contribuem decisivamente para uma análise marxista da arte.




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