Opinião

TRIBUNA ABERTA

Professores contratados do RS são atacados nas redes sociais

O Comitê Estadual das Educadoras Contratadas do Rio Grande Sul enviu ao Esquerda Diário declaração sobre o seu posicionamento contra os ataques ocorridos nas redes sociais. O Diário publica a declaração como Tribuna Aberta.

quinta-feira 7 de janeiro| Edição do dia

Imagem: reprodução

OS COMENTÁRIOS DE ÓDIO CONTRA AS CONTRATADAS E OS CONTRATADOS NAS REDES SOCIAIS

Após a aprovação da renovação dos contratos por 3 anos na Assembleia Legislativa, em sessão ocorrida no dia 17 de dezembro, uma série de demonstrações de ódio, típica dos "haters", foi vista nas redes sociais — em especial nas do CPERS. "Haters" é uma palavra do inglês que significa "os que odeiam" ou "odiadores". É bastante utilizada na internet para classificar algumas pessoas que praticam uma espécie “cyber bullying”, destilando comentários negativos e na maioria das vezes ofensivos.
A maior parte dos comentários que selecionamos foi promovida por nomeados sem consciência de classe, onde se pode perceber um típico sentimento aristocrático e meritocrático de "superioridade ferida", parecido com o que a classe média bolsonarista expressa em relação ao povo mais pobre. Tais sentimentos não podem desenvolver uma visão mais humana, sindicalmente harmoniosa, embasada na consciência de classe. Ao contrário: termina por aprofundar a divisão entre [email protected] e [email protected], o que beneficia o governo e os seus projetos. As direções centrais do CPERS não apenas não combateram tais sentimentos meritocráticos, como os aprofundaram através da conivência ou mesmo do apoio direto.

Quão lamentáveis são estes comentários, feitos por "colegas" que não participaram de poucos ou nenhum debate sindical com os colegas [email protected] e sequer possuem empatia para com aqueles que, geralmente, trabalham ombro a ombro no chão das escolas, por anos e décadas, sem os mesmos direitos? Como não perder a esperança na humanidade ao ver "colegas" reforçando os vícios da sociedade atual, que está alicerçada na competição desenfreada por emprego, ignorando que ela não pode se desenvolver sem a ajuda mútua, o debate crítico e solidário e, principalmente, empatia?

A divisão entre “nós” e “os outros” pesa imensamente no comportamento moral. O fato é que as raízes dos comportamentos estão profundamente ligadas às nossas emoções. Poder soltar as nossas piores sensações em nome de elevadas motivações éticas (como por exemplo: os "bons", os "corretos", os "aprovados"; contra os "aproveitadores", "os que entram pela porta dos fundos", etc.) gera uma visível satisfação. Os seres humanos sabem fazer o bem e sabem até ser solidários, mas é tão mais fácil navegar no ódio e julgar-se superior por meras convenções chochas, como dizia Lima Barreto! Em geral, a profunda convicção de uma pessoa de que domina os outros da altura de sua elevada postura ética ou "mais correta", "mais juridicamente legal", leva a comportamentos estreitamente moralistas e intolerantes. E frequentemente vemos atos violentos justificados com fins altamente morais e "éticos". Não se esqueçam que não há barbárie que não se proteja com argumentos de elevada nobreza.

As teorias de "superioridade" são sempre lastimáveis. Tudo o que elas dizem é o seguinte: eu sou melhor do que você; não vou refletir com você porque você é inferior a mim; em minha opinião você é rasteiro e eu sou poderoso. Não há justiça num mundo assim, e as boas intenções andam escassas, e quer se trate de esforços intelectuais ou emocionais, toda a energia vai para a proteção das condições básicas de posições tão indignas. Nunca poderemos compreender o outro verdadeiramente se todas as nossas ações e comportamento são egoístas, sem vestígios de solidariedade. Assim, o que vemos são "colegas" tendo em vista seus direitos pessoais e achando que a sua posição egoísta pode estar relacionada com @s [email protected]

Foi por tudo isso que resolvemos expor tais "colegas" demonstrando que as suas argumentações não passam disso: de ódio mal compreendido em sua postura aristocrática e meritocrática, com argumentos contraditórios e pautados em emoções primárias. Por que falamos em sentimento aristocrático e meritocrático de superioridade? Porque muitos colegas pensam que porque foram aprovados num concurso (e nomeados) são superiores e que qualquer outro caminho para dar direitos aos precarizados na complexa conjuntura que vivemos é errado e um "desacato" a esta superioridade. Tudo isso está muito bem atestado nos "prints" que seguem nesta postagem.

"Colega hater" Nº1:
Uma "colega" escreveu: "por favor estudem quando houver concurso" para justificar que a precarização dos contratos "emergenciais" se deve à falta de estudos para ser "[email protected]" em concurso. Em primeiro lugar, tal "colega" "ignora" que [email protected] [email protected] estudaram e passaram nos concursos, mas não foram [email protected], sendo [email protected] para contratos (e não foram [email protected] mesmo entrando na "justiça"). Portanto, quem não respeita a lei e a Constituição são os governos, e não quem propõe a efetivação; o que tem a ver "estudar" com este problema social, econômico e político? A "colega" em questão está pouco se lixando se tem [email protected] que trabalha 5, 15, 25 anos com os mesmos deveres, mas sem os mesmos direitos, porque não passaram pelo ritual de acertar "as cruzinhas". Em compensação ela usou muito bem o "quando houver concurso", porque sabe que os governos não os realizam; outra vez, ilegalmente, justamente para perpetuar essa relação de exploração vergonhosamente ignorada por ela. Até lá devemos esperar calados e obedientes a "boa vontade" de um governo. O crime, para esta "colega", seria exigirmos direito e reconhecimento profissional; não os governos que agem de acordo com o que manda o mercado.

Por tudo isso não achamos que "basta estudar para quando houver concursos", como quer esta "colega"; o que não nos torna contrários, é evidente, ao estudo. Devemos estudar sempre, o tempo todo; e não apenas para os concursos (que são cada vez mais inexistentes e com um número ínfimo de vagas quando comparado aos contratos — quase 50% da categoria. Ainda que os governos fizessem concursos públicos anuais com 1.000 vagas, levaríamos quase 40 anos para acabar com os contratos. Ao contrário disso foram abertas mais de 5.000 vagas para contratação "emergencial" somente em 2020... Inclusive recomendamos à "colega" que estude urgentemente a história do movimento operário para tentar desenvolver algum tipo de consciência de classe; e, principalmente, a nossa tese ao X Congresso do CPERS (2019), para que possa olhar a realidade de uma forma um pouco mais solidária, classista e menos meritocrática.

"Colegas haters" Nº2 e Nº3:
A seguir temos outro "colega" que não conhece a posição do nosso Comitê e sequer a do CPERS, mas não se furta a emitir uma opinião infundada, afirmando que "seguir este modelo precarizado" seria errado e que a "luta é por concurso público". Ele é complementado na ignorância por outra colega que afirma que o CPERS e o Comitê supostamente lutariam "mais pelos contratos do que pelo concurso justo com uma banca limpa da Fundatec", rechaçando completamente qualquer possibilidade [email protected] atuais [email protected] terem vantagem na pontuação pelos seus anos de trabalho a mais.

Aqui, nossa "colega" parece mais interessada em fazer propaganda para a Fundatec, ignorando muitos casos de irregularidades nos concursos públicos, do que entender empaticamente a situação dos seus "colegas". A começar por um dos concursos feitos pelo governo Tarso, que alterou a letra correta de uma questão sem anulá-la, tal como ocorre no vestibular da UFRGS, por exemplo; e mudou a estrutura de acertar 60% do total da prova para ser [email protected] Não casualmente, a mídia burguesa como a RBS, a campeã da meritocracia, ressaltou a "falta de estudo" dos que não passaram ignorando todos os "novos critérios".

Estes "colegas", além de não saberem qual é a posição do CPERS (e neste caso deveria se informar e estudar antes de emitir tais opiniões), também não sabem qual é a posição do Comitê. Se as leu, não as entendeu (ou não quis entendê-las). Nós somos favoráveis ao concurso público, mas respeitando o direito ao trabalho (que é sagrado) e exigindo os direitos adquiridos na prática [email protected] atuais [email protected] Contudo, já afirmamos em inúmeros textos e discursos que não se trata de tornar a efetivação a forma preferencial de ingresso no magistério público.
Pelo contrário. Defendemos a efetivação e a extensão do Plano de Carreira apenas aos [email protected] que já estão trabalhando no Estado e que já cumprem os mesmos deveres, mas que não possuem os mesmos direitos. Trata-se, justamente, de ter uma política para desestimular as contratações “emergenciais” futuras (que se tornaram permanentes) e, principalmente, de combater a destruição neoliberal dos serviços públicos. Para @s [email protected] [email protected] o ingresso deverá se dar por concurso público, sem nenhuma concessão aos contratos “emergenciais”. Esta é a única forma coerente de defender os concursos públicos e as atuais educadoras contratadas, evitando que o governo utilize os concursos como forma de dividir nossa categoria jogando umas contra as outras (tal como aconteceu com as "nomeações" durante o governo Tarso).

Isso é combater, de fato, a precarização dos atuais contratos "emergenciais" de trabalho na educação pública. A política de apenas exigir concurso público — a política preferencial e única do CPERS, diga-se de passagem — não impediu a proliferação da precarização do trabalho, inclusive com a abertura de novos contratos "emergenciais" para 2021. Tanto o CPERS quanto esses "colegas haters" não fizeram absolutamente nada. Olham passivos e veem a sangria desatada aumentar e gritam, esporadicamente, por concurso público, deixando uma grande parcela da categoria a ver navios.

"Colega hater" Nº4:
A outra "colega" sustenta que "muitos contratos são políticos", compreendendo que ainda estamos na República Velha (1889-1930) ou na ditadura militar (1964-1985). Todos os contratos "emergenciais" atuais são selecionados por um confuso sistema da SEDUC (que valida inclusive colocação em concursos públicos não para nomear, mas para contratar "emergencialmente") embasados pelos interesses de mercado, que mandam nos governos. Não existe seleção política tal como fazia o coronelismo e os militares. Talvez exista este tipo de seleção política no interior, onde ainda impera algum tipo de coronelismo em muitos rincões, mas estão longe de ser a maioria, o que não invalida em nada a política de efetivação (até porque esta não é a proposta para as futuras admissões). Desafiamos a "colega" a nos mostrar onde estão as contratações políticas (sobretudo em Porto Alegre e nas cidades grandes do interior).

Aproveitamos a ocasião para convocá-la a luta contra a remoção de [email protected] das escolas por critérios políticos de direções autoritárias (que fazem horários e remoções seguindo critérios políticos e de "amiguismo"). Temos no nosso Comitê, por exemplo, [email protected] representantes sindicais que foram [email protected] autoritariamente de suas escolas justamente por serem vulneráveis. O que a nossa "colega" diz sobre isso? Será que ela se importaria?

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A falta de consciência de classe em [email protected] [email protected] reforça a falta de consciência de classe em [email protected] [email protected], que afirmam, generalizando erroneamente, que "os nomeados só pensam neles" e que "nunca mais farão greve" por se sentirem, naturalmente, como uma bucha de canhão. O Comitê não compactua com esse pensamento, mas entende o desespero da colega contratada.

Reforçamos que a DC do CPERS é co-responsável por estas visões, alimentando-as de distintas maneiras, bem como grande parte das "oposições" que agem da mesma forma (algumas inclusive com a mesma política sindical). Tais forças majoritárias no nosso CPERS deveriam responder os "haters" adequadamente, propondo, inclusive, cursos de formação nesse sentido. Mas não! Se aproveitam eleitoralmente desse sentimento atrasado direta ou indiretamente. Temem religiosamente o legalismo burguês. Tudo isso triplica os esforços do nosso Comitê, que luta praticamente sozinho, com o apoio fundamental de muitos ativistas e nomeados com consciência de classe.

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Tal como o pensamento odioso do bolsonarismo, que é dicotômico, esses "colegas" não querem pensamento complexo. Buscam o lugar-comum da fria aplicação de uma lei que só é usada contra a classe trabalhadora e nunca lembrada a seu favor. Como confirmação de tudo o que foi exposto nesse texto, vocês verão uma nova onda de "haters", abertos ou dissimulados, postando comentários logo abaixo para reafirmar tudo o que foi criticado até aqui... Por isso exigimos: mais consciência de classe e menos aristocracia meritocrática! Pela união de [email protected] e [email protected]! Reconhecimento de classe antes do reconhecimento jurídico burguês! Abaixo o ódio virtual e presencial! A luta pela efetivação é de [email protected] nós e vai precisar juntar parlamento, luta jurídica e política. Concurso público sim, mas com efetivação [email protected] atuais [email protected]:

#Somos43%
#[email protected]!
#PorDireitosEPelaEfetivacao!

Comitê Estadual das Educadoras Contratadas




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