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Presságios inquietantes: o que as revoluções coloridas indicam sobre o Intercept

Simone Ishibashi

Presságios inquietantes: o que as revoluções coloridas indicam sobre o Intercept

Simone Ishibashi

O Brasil foi alvo de um golpe em 2016. O objetivo era primeiramente, e fundamentalmente, acelerar os ataques aos trabalhadores. Ademais, se buscava privatizar e descapitalizar as poucas empresas que haviam conseguido competir em alguns ramos do mercado internacional, como a Petrobras e as empreiteiras, meninas dos olhos da Operação Lava Jato de Sergio Moro. A classe capitalista nativa comandada pelo imperialismo aproveitou-se de uma visível crise orgânica no sentido gramsciano, isto é uma crise generalizada da economia, política e de grandes efeitos sociais, que abriu uma brecha entre representados e representantes provenientes dos partidos políticos tradicionais, para dar um golpe através do impeachment apoiando-se em um crescente autoritarismo judiciário. Como se sabe, o plano não saiu exatamente como previsto. Junto com o PT decaiu também o PSDB, a quem os arquitetos do golpe depositavam a esperança vã de eleger. Os capitalistas, então, se reconciliam com o seu filho ilegítimo, Bolsonaro, e elegem-no dando aval para que a ultradireita saia de todas as criptas imagináveis, tomem as redes e imponham seu abjeto candidato como vencedor das eleições.

No entanto, desde há pouco, o país se vê em meio aos vazamentos realizados pelo Intercept nos quais conversas constrangedoras pelo servilismo de Dallagnol, e pela determinação golpista de Moro, provam o que já sabíamos: foi um golpe, dado pelos emissários de um Judiciário naquele momento unidos como um só, dispostos a atropelar os mais básicos e parcos direitos dos trabalhadores como o de votarem em quem quiserem.

Através do Esquerda Diário já havíamos questionado a que servia o método de conta gotas da publicação dos vazamentos por parte do Intercept, que aliás se davam justamente em meio a dias cruciais da batalha da reforma da previdência. Agora, uma segunda leva de vazamentos em parceria entre o Intercept e um dos meios responsáveis por promover Moro, a Veja, inunda os noticiários enquanto vem à tona novas dificuldades do governo Bolsonaro em liberar a verba para emendas parlamentares, moeda corrente para pagar o serviço dos políticos em troca da aprovação da reforma da previdência. Dessa vez, o vazamento que constitui-se de nada menos que 649.551 trocas de mensagens de Moro, Dallagnol, além de delegados e procuradores, e confirmam novamente que o “herói da republica de Curitiba” mentiu, ocultou informações, orientou argumentos, distorceu em nome de seus objetivos mais importantes: prender Lula, instrumentalizar aquela parcela das classes médias que conquistara para promover o golpe, e impedir que um novo governo petista vencesse o pleito.

Mas agora detalhes ainda mais sórdidos são publicados. Um exemplo é a evidência de que Moro mentiu a Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF que havia lhe questionado sobre o envolvimento de políticos com foro privilegiado (o que obrigaria que o processo fosse tocado pelo STF) no pagamento de propinas a Daniel Barra, presidente da AG Energia, do grupo Andrade Gutierrez. Uma delegada da Polícia Federal trocou mensagens com Dallagnol sobre uma planilha que relacionava políticos que teriam pago propina no caso Daniel Barra, mas não havia protocolado o processo no sistema eletrônico da Justiça por orientação do próprio Moro, que assim garantia que o processo seguisse sob a sua alçada em Curitiba. Ou Moro mentiu a Zavascki e fingiu não saber da planilha, ou soube posteriormente e orientou a delegada a não ter pressa em protocolá-la. Teori Zavascki que havia repreendido publicamente Moro pelo vazamento do diálogo entre Lula e Dilma em 2016, faleceu em um estranho acidente de avião em janeiro de 2017, cuja investigação foi arquivada em janeiro de 2019, poucos dias após a posse de Bolsonaro e a nomeação de Moro como ministro.

É certo que a primeira vista um sentimento de júbilo se apossou de vários setores frente à publicitação dos diálogos que atestam a veracidade do que viemos dizendo, desde pelo menos o ano de 2015 sobre a Lava Jato, Moro e seus comparsas. Que foi um golpe, que a Lava Jato é uma farsa armada por aqueles que pouco se importam em usar da mentira para conquistar seus objetivos. Que a Lava Jato não tinha como objetivo encerrar a corrupção no país, porque era ela mesma uma operação abertamente corrupta e corruptora, a serviço de garantir que os trabalhadores paguem pela crise que os capitalistas criaram. No entanto, faz-se necessário também nos determos no exame dos interesses e poderes que atuam por detrás dos vazamentos do Intercept.

“Levar a democracia” e revoluções coloridas: uma estratégia imperialista

O Intercept se apresenta como um site jornalístico independente, comprometido com a democracia mundo afora. Seu maior financiador é Pierre Omidyar, um bilionário iraniano radicado nos Estados Unidos desde muito jovem, que também é dono da empresa Ebay, um grande site de compras na internet, dentre outras empresas. Omidyar é um típico representante dos grandes monopólios do Vale do Silício que emergiram durante a explosão da internet, constituindo-se como um dos mais importantes ganhadores da era da globalização. A atuação de Omidyar em temas políticos não se restringe ao Intercept. É sabido que Pierre Omidyar proveu vultosa parte do financiamento da oposição ucraniana pró-Estados Unidos nas eleições de 2004, em meio ao processo que se transformou na talvez mais conhecida, e catastrófica, revolução colorida, a chamada Revolução Laranja na Ucrânia.

As revoluções coloridas se tornaram conhecidas como “os golpes do século XXI”, e na atualidade alguns autores dedicados ao seu exame as incluem como parte das guerras híbridas. Apesar de parte do discurso oficial estadunidense negá-la, é amplamente conhecido que importantes doações foram feitas através do USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) para as oposições pró Estados Unidos não apenas na Ucrânia, que somaram-se a doações de bilionários como Pierre Omidyar a movimentos “pró-democracia” no entorno da Rússia.

Essas ações da USAID contrariam na prática a forma como a guerra híbrida foi apresentada oficialmente pelo documento Estratégia Nacional de Defesa norte-americana de 2005, que afirmava que a posição dos EUA sobre esse novo fenômeno seria essencialmente defensiva. O documento afirma que os interesses estadunidenses estariam ameaçados por forças que guerreiam de maneira não tradicional. Dentre esses figuram os denominados Estados falidos, organizações,e agentes irregulares que se utilizariam de métodos não convencionais como espionagem, instrumentalização de atores internos, divulgação de informação falsa em massa, para guerrear ou gerar caos. O discurso do governo estadunidense naquele momento, pouco depois da revolução colorida na Ucrânia, é de que os EUA seriam alvos da guerra híbrida, mas não protagonistas. Em meio ao primeiro governo de Barack Obama o relatório da Oficina de Governabilidade de 2010 chega a questionar a viabilidade do termo, afirmando que se vinha usando o conceito “híbrido” para definir vários conflitos, sem que uma definição formal” fosse estabelecida (GAO, 2010, p.12)

Porém, há os que apontam Zbginew Brzezinski, notório estrategista intervencionista do Partido Democrata, como um dos que articularam os fundamentos da guerra híbrida, e por esta via daquilo que posteriormente seria a base das revoluções coloridas em favor dos interesses imperialistas. De acordo com Brzezinski a dominação imperialista estadunidense estaria assegurada a depender da posição conquistada nos Bálcãs eurasiáticos, nas regiões da Ásia Central, Oriente Médio, parte do Golfo Pérsico, e Sudeste Europeu, pois assim se poderia promover a fragmentação e consequente desestabilização das grandes potências que constituem os maiores desafios para os Estados Unidos, como a China, a Rússia e o Irã. E isso poderia ser obtido de maneira indireta, sem arcar com os custos enormes que uma guerra de grandes proporções como seria um conflito direto entre EUA e Rússia, ou ainda contra a China trariam, mediante a aplicação de uma estratégia embasada em fomentar o caos na periferia eurasiática da Rússia, obrigando-a a lidar com as contradições em seu entorno. Em outras palavras pode-se afirmar que o núcleo fundamental dessa estratégia visava desestabilizar as potências opositoras mediante a criação de condições para que emergisse um impasse geopolítico, que paralisaria, ou pelo menos limitaria, qualitativamente suas iniciativas globais. (KORYBKO, 2018).

A estratégia das revoluções coloridas explora as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas internas dos países que poderiam ser considerados hostis para os objetivos estadunidenses. Para promover a desestabilização o mecanismo seria o financiamento e instrumentalização de oposições internas. Gene Sharp desenvolveu uma espécie de manual para a realização de revoluções coloridas:

“Gene Sharp foca na mentalidade geral do movimento das revoluções coloridas e de seus apoiadores, bem como dá conselhos sobre como incentivar indivíduos em cima do muro a se rebelar contra o governo. A ideia principal consiste em montar uma rede de ativistas e apoiadores passivos que permitirá ao movimento ser bem-sucedido uma vez que comece a empenhar-se oficialmente na tentativa do golpe. Reunidos esses indivíduos, Sharp então recomenda 198 métodos de resistência não violenta que eles podem colocar em prática. (KORYKOBO. 2018, p.93)”

Assim, a revolução colorida ocorrida na Ucrânia entre os anos de 2004 e 2005 constituiu-se como um importante retrocesso para a Rússia, e abriu uma etapa de grande crise, violência e ascensão de uma ultradireita, cujas tensões seguem abertas até a atualidade. A Revolução Rosa ocorrida na Geórgia teria sido a primeira em 2003, e após a queda de Eduard Shevardnadze levou o governo aliado aos Estados Unidos de Mikhail Saakashvili ao poder, seguido pela Revolução Laranja na Ucrânia em 2004, que instituiu Viktor Yushchenko, e por fim pela Revolução das Tulipas no Quirguistão em 2005. Todas elas foram impulsionadas por movimentos civis, como o Kmara georgiano, Pora ucraniano, e o Kekell no Quirguistão, cujo apoio de ONGs norte-americanas como o National Endowment for Democracy ou a Freedom House, dentre outras ligadas aos partidos democrata e republicano, conexões expostas pelo vazamento de dados do Wikileaks. (BLUM, 2017).

A Revolução Laranja ucraniana abriu o caminho para a execução de parte desses métodos legados por Gene Sharp, com as eleições transformadas em uma disputa entre a Rússia de um lado, e os Estados Unidos e as demais potências da União Europeia de outro. Entre os anos de 2004 e 2005 em meio as eleições presidenciais ucranianas uma série de denúncias de fraudes e corrupção contra Viktor Yanukovych, candidato abertamente apoiado por Vladmir Putin, levaram a que enormes manifestações ocorressem questionamento sua vitória eleitoral. O seu oponente na época, Viktor Yushchenko, abertamente pró-ocidental que havia emergido com o apoio aberto dos Estados Unidos e da União Europeia, rechaçou o resultado eleitoral e chamou as mobilizações. Uma decisão da Suprema Corte da Ucrânia chama a realização de novas eleições, que deu vitória no começo de 2005 a Viktor Yushchenko.

A situação ucraniana, que segue em crise até hoje, era produto de um enfrentamento entre dois blocos de interesses regressivos e próprios. De um lado estava a elite dominante que saqueava o país após o fim da URSS, do qual Yanukovych era a expressão mais acabada, sendo patrocinado pelos oligarcas russos aos quais defendia seguir mantendo a Ucrânia como zona de influência. E de outro Yushchenko que era um representante dos interesses neoliberais, e porta-voz das reformas que isso envolvia, para que a Ucrânia fosse aliada, e explorada, pelos Estados Unidos e União Europeia. Toda a crise aberta não levou a Ucrânia à prosperidade democrática como a demagogia falaciosa das ONGS e financiadores imperialistas queriam fazer crer que ocorreria. Pelo contrário, o governo de Yushchenko teve sua base de sustentação desintegrada através de várias acusações de corrupção, enquanto a pobreza e a crise social do país seguiam sendo descarregada nas costas dos trabalhadores e do povo. Yushchenko convoca depois o próprio Yanukovych como primeiro-ministro em 2006, que posteriormente volta à presidência, aprofundando a crise do país que desde então passa a estar imersa em um ciclo de enfrentamentos, com a ação de uma ultradireita violenta que se ampliou enormemente desde 2013.

Dessa maneira, se nota como a enorme ação na Ucrânia dos organismos governamentais, como o Departamento do Estado Americano, e não-governamentais, como as ONGs Freedom House, Open Society Institute do bilionário George Soros, que ao lado de Pierre Omidyar foi um dos grandes financiadores da oposição pró-ocidente naquele país, visava garantir interesses absolutamente alheios aos dos trabalhadores e do povo.

O que isso tem a ver com o caso brasileiro?

No Brasil a ação de Pierre Omidyar via Intercept deve levar a dois questionamentos. O primeiro é sobre as suas motivações de fundo. E o segundo é qual a saída para a situação aberta, cujos vazamentos do Intercept confirmam o que já vinha sendo dito com por vários setores que desde tempos denunciam o golpe e ação do autoritarismo judiciário. Sobre o primeiro ponto cabe lembrar que Bolsonaro é um dos aliados regionais mais importantes de Trump. E Omidyar é representantes dos monopólios que mais perdem com a orientação nacionalista agressiva de Trump. Portanto, um dos objetivos com os vazamentos pode ser debilitar Moro para atingir Bolsonaro, e com isso atacar Trump. Mas se Trump e Bolsonaro perfazem a aliança mais odiosa do nosso tempo presente, nem por isso todos os inimigos dos nossos inimigos se transformam automaticamente em amigos. É preciso ter consciência de que agem por interesse próprio, e o resultado de suas iniciativas, vide a Revolução Laranja ucraniana, não é favorável aos reais inimigos de Moro, Bolsonaro e Trump: os trabalhadores e o povo.

Torna-se factível a hipótese de que a ação dessas organizações, como as ONGs voltadas ao treinamento de “ativistas pró-democracia”, ou responsáveis por vazamentos como o Intercept, visam de maneiras distintas de aumentar a subordinação do Brasil a interesses de monopólios estrangeiros, como o de Omidyar, elevando inclusive a subordinação brasileiraaos EUA, ainda que sob uma roupagem democrata distinta do projeto de Trump, tal como ocorreu com a revolução colorida na Ucrânia.

Sobre a segunda questão, ainda mais crucial, é preciso fazer notar que a crise dos de cima não pode resolver a situação de maneira progressista sem que os de baixo se organizem, e com seus próprios métodos de classe deem uma saída. Não há intrigas palacianas, vazamentos que mostram que a Justiça burguesa só age por si e para si, que sem luta de classes possa derrotar o governo atual. Debilitar o governo atual e a aprofundar a crise orgânica sim, mas não revolvê-la.

Para isso só unificando as enormes fileiras da classe trabalhadora, dotando-as de uma perspectiva que possibilite que ela faça com que a crise capitalista atual seja paga por quem as criou, isto é os capitalistas, o que hoje se concretiza na superação das traições das burocracias sindicais que negociam versões e propostas para a reforma da previdência, para impor um verdadeiro combate de classe este ataque. O que por sua vez abra caminho para que se debata como instaurar no país um novo regime político feito por e para os trabalhadores, no qual os juízes e políticos sejam eleitos e revogáveis, mas não por conspirações e operações patrocinadas pelos próprios capitalistas, mas pelos trabalhadores e o povo, a exemplo do legado deixado pela Comuna de Paris, que hoje mais que nunca deve ser retomado, e atualizado para responder aos desafios colocados em meio à crise aberta.

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[Teoria]

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro
Editora da revista Ideias de Esquerda e Doutoranda em Economia Política Internacional pela UFRJ.
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